Um projecto de lei muito perigoso
Acerca da guarda armada em navios
O fenómeno da pirataria e do assalto à mão armada no alto
mar, que actualmente assume grande dimensão fazendo vítimas
milhares de marinheiros, é um fenómeno histórico que tem
elementos qualitativos próprios em cada período histórico.
A procura das causas reais que o favorecem e dos factores que o alimentam e
reproduzem numa base mais sólida demonstra que o problema é
complexo e que não está restrito aos "pobres diabos"
que atacavam os navios a fim de saquear meios de subsistência.
As coisas mudaram desde que na Baía de Bengala, por exemplo, ou noutras
regiões, os navios se encontravam frequentemente com ladrões
armados em pirogas.
Actualmente, a extrema pobreza de centenas de milhões de pessoas que o
capitalismo provoca em África, na Ásia e na América Latina
está a ser explorada por poderosas redes criminosas internacionais que
utilizam a pirataria como uma actividade rentável que abrange
várias regiões geográficas, alterando por vezes o seu
centro, utilizam rotas comerciais de tráfego intenso, estão
ligadas ao comércio de armas e drogas, e a redes criminosas de
prostituição.
A pirataria no mar desenvolve-se na base capitalista
sócio-económica que gera todas as formas de criminalidade embora
o fenómeno floresça em condições específicas
com a activação de determinados factores.
O reforço da pirataria no Corno de Africa tem o seu percurso
próprio. Está ligado à guerra civil na Somália que
foi intensificada depois da intervenção americano-etíope
em 2006 e prossegue até hoje em nome do combate ao terrorismo.
O fenómeno floresceu em condições marcadas pela
destruição de milhares de pescadores, que foram as vítimas
da exploração dos recursos do mar pelos grandes interesses, e da
destruição do ambiente marinho pelo lançamento de produtos
químicos e de outros lixos perigosos que, juntamente com a seca, matou
centenas de pessoas e crianças por fome e doenças.
Nestas condições e na dolorosa ausência de um movimento
revolucionário, formou-se o terreno para o recrutamento da
população pobre local.
A actividade da rede criminosa pirata
O enriquecimento da actividade da rede criminosa pirata é um elemento
qualitativo porque normalmente não se limitam a roubar homens do mar, a
pilhar alimentos e outras coisas dos navios mas capturam os navios e as
tripulações, para vender a carga dos navios e para obter resgates
no valor de milhões de dólares.
Segundo os dados das organizações internacionais, o dinheiro
recolhido é distribuído por diversas partes. Os
"investidores" recebem 50%, os piratas 30%, os que asseguram a
transferência dos piratas até aos alvos assim como garantem a
guarda segura dos reféns 10%, enquanto 10% se destinam aos membros da
tribo (diário
Eleftherotipia,
16/07/2011). O valor total dos resgates pagos a piratas somalis nos
últimos três anos está avaliado em 280-300 milhões
de dólares, enquanto que a participação dos armadores
gregos no pagamento de resgates atinge 10-13% (www.Dealnews.gr, 10/05/2011).
Estas alterações estão ligadas a uma significativa
modernização da infra-estrutura e do equipamento usado por estas
redes criminosas.
Instalações, radares, sistemas satélite para detectar a
posição geográfica do navio, telemóveis, barcos
servindo como base e embarcações de alta velocidade para a
dispersão de homens armados, equipamento militar moderno.
Claro que um número significativo de ataques em 2010, mas que tem uma
tendência decrescente, ainda foi efectuado com pequenas
embarcações e facas. Isto mostra que ainda existe uma pequena
parte que ainda não foi incorporada nas redes criminosas organizadas.
Segundo os dados da IMO (Organização Marítima
Internacional) para 2010, a organização intergovernamental
internacional da ONU, parece que a maioria dos incidentes ocorreu na
África Oriental (Somália, Quénia, Tanzânia,
Moçambique) com uma tendência para uma maior
concentração de incidentes na Somália e no Golfo de Adem
que aumentou em 2011.
Normalmente, os incidentes aumentaram no Oceano Indico (77 assaltos em 2010 em
comparação com 27 em 2009) e no Mar Arábico, entre a
Índia e Omã-Iémen do Sul, à entrada do Golfo
Pérsico onde em 2010 se registaram 16 incidentes em
comparação com 2 em 2009.
Também houve um aumento significativo dos incidentes no Mar do Sul da
China onde foram noticiados 134 assaltos em 2010 em comparação
com 77 em 2009. Tem havido um decréscimo no Estreito de Malaca entre a
Malásia e a Indonésia onde, para além da
alteração nos alvos dos piratas, a guarda coordenada de
embarcações militares da Malásia, Indonésia,
Singapura e Tailândia também tem tido um certo impacto.
Na América do Sul e nas Caraíbas os incidentes aumentaram de 36
para 40 de 2009 para 2010, e na África Ocidental mantiveram-se em cerca
de 46-47.
Durante o período 2009-2010 houve 15 assaltos a navios de bandeira grega
em que dois foram ocupados por piratas sem causarem perdas de vidas humanas.
As estatísticas mostram que a maioria dos assaltos ocorreu em
águas internacionais a barcos que se encontravam em movimento embora
também tenha havido um número significativo de assaltos a barcos
ancorados em águas nacionais e também dentro da região de
portos. Isto confirma a acusações relativas ao envolvimento de
entidades estatais enquanto, por outro lado, mostra a possibilidade de reduzir
o fenómeno, caso existisse uma protecção e
activação dos meios nacionais.
Concentração de forças imperialistas
Forças navais dos estados imperialistas fortes e dos estados com uma
posição subordinada na pirâmide imperialista têm
estado a concentrar-se no Corno de África nos últimos anos no
enquadramento das metas geoestratégicas gerais, utilizando a pirataria
para a consolidação das suas posições na
região e para a promoção dos seus planos para o controlo
dos locais com uma importância estratégica especial, como o Golfo
de Adem, o Mar Arábico e o Golfo Pérsico.
As recentes evoluções no Golfo Pérsico, a agressividade
dos Estados Unidos, da NATO e da UE contra o Irão e a
preparação de uma nova guerra imperialista encontram na
região uma máquina naval pronta para a guerra que está a
ser reforçada sob o pretexto da pirataria.
As forças navais que operam na região incluem:
As
Forças Marítimas Combinadas (FMC),
as forças navais combinadas no enquadramento das quais estão
mobilizados 35 vasos de guerra de 24 países com uma força regular
especial na região do Golfo de Adem.
A
EUANAVFOR SOMALIA,
uma força naval que foi formada pela União Europeia. A
Grécia participa nela com um ou dois navios de guerra. Esta força
organiza operações sob o nome de código
"ATLANTA" de acordo com uma decisão relevante da ONU em nome
da protecção a navios que transportam ajuda humanitária
à Somália, para a prevenção da pirataria no Golfo
de Adem. A EUNAVFOR alargou competências e desempenha o papel de
coordenadora no quadro do Centro de Segurança Marítima (Corno de
África) MSCHOA.
A intervenção da UE não se restringe à força
naval mas alarga-se às actividades político-económicas
gerais no quadro da política de promoção das metas
imperialistas no Corno de África e no continente africano em geral onde
há uma actividade crescente dos poderosos estados imperialistas. A
decisão do Conselho dos Assuntos Externos da UE em Dezembro de 2011 de
nomear o famoso Alex Rondos, que foi conselheiro de George Papandreou durante
os anos 90, como representante da UE na região é um facto
característico.
A nomeação de Rondos está relacionada com a
formação de mecanismos e com a promoção de planos
que dizem respeito, por exemplo, a actividades para a construção
de estruturas políticas, à melhoria do desenvolvimento
económico e da cooperação económica na
região, dando prioridade à exploração de amplas
terras aráveis e de recursos naturais em benefício de
monopólios europeus.
O
STANDING NATO MARITIME GROUP,
uma força que é formada por navios americanos e por navios de
outros estados membros da NATO.
NAVIOS DE GUERRA
da China, da Índia, do Japão e da Rússia que navegam em
regiões que incluem o canal internacional para o trânsito de
navios que viajam para oeste ou para leste, no Golfo de Adem.
Neste momento, temos que sublinhar o significado do recente artigo de
Rizospastis
que realça não só que a armada grega está
incorporada nos planos da NATO e nos planos imperialistas em geral, mas
também que os armadores em cooperação com o
Ministério da Defesa estão à procura de navios e
tripulações para transporte de equipamento militar para
operações militares da NATO a grande escala na região do
Golfo Pérsico.
Forças armadas em navios
A questão torna-se mais complicada se tivermos em
consideração que estas evoluções estão
ligadas à decisão do governo no que se refere às guardas
armadas em navios gregos.
Surgiu actualmente uma nova actividade comercial que fornece navios com guardas
armados e desarmados.
Segundo os dados das companhias que prestam este tipo de serviço, parece
que há recentemente cerca de 125 companhias activas à escala
global, a que se chama companhias de "segurança
marítima".
Na Grécia há cerca de 5 companhias activas neste sector que
têm um número significativo de homens na reserva ou reformados das
Equipas de Demolição Submarina (EDS), comandos e homens
indiferenciados das forças especiais do exército.
Estas companhias, para além de alugarem armas, asseguram o fornecimento
de equipamento, a instalação de arame farpado e de linhas
eléctricas, o treino de tripulações com um pagamento total
que vai de 30 000 a 80 000 dólares.
Estas companhias já criaram as suas bases em Mombaça
(Quénia), em Dar el Salam (Tanzânia) e noutros portos africanos.
Apesar da promoção deliberada da solução de guardas
armados ou desarmados, ainda só 10% da frota global escolheu esta
solução e este elemento demonstra a hesitação de
sectores do capital armador devido ao grande perigo para os próprios
navios.
Simultaneamente, apesar dos exageros que têm sido propagados no que se
refere ao número de estados que optaram pela solução dos
guardas armados, dados de diversas fontes indicam que esta
solução tem sido escolhida sobretudo pelos governos da
Índia e da Libéria.
Esta perigosa proposta de lei tem que ser retirada
Tendo em atenção os diversos aspectos da
implementação da proposta de lei relativa à
presença de guardas armados em navios, que o governo está em vias
de apresentar ao Parlamento,
exigimos categoricamente a sua retirada imediata e o cancelamento desses planos
pelas seguintes razões:
1. A existência de guardas armados e de equipamento militar nos navios
cria uma situação muito perigosa que terá
consequências trágicas em termos de vidas humanas no mar e
reforçará a agressividade das redes criminosas piratas e
consequentemente os perigos para o navio e para a tripulação.
Além disso, sabe-se muito bem que estas redes criminosas têm
à sua disposição recursos económicos e adaptam a
sua actividade, possuindo equipamento técnico moderno, capaz de
ultrapassar a resistência do navio envolvendo a tripulação
em perigos muito maiores do que os actuais.
Na verdade, a existência de guardas armados cria mesmo
condições de guerra que podem levar a grandes danos, até
mesmo à destruição de navios, a mortes e a ferimentos
graves a um ponto que não se pode comparar com as consequências e
as perdas de vidas humanas actuais.
Ninguém duvida que a troca de tiros num navio que transporta
petróleo, ou qualquer dos seus derivados, gás e produtos
químicos, pode provocar um incêndio, uma explosão ou pode
mesmo fazer explodir um navio, causando um "cemitério
maciço" com pessoas mortas e feridas.
Apesar das diferenças, o mesmo é verdade, mais ou menos, para
outras categorias de navios tendo em consideração que os piratas
possuem ou podem arranjar armas modernas, incluindo AK-47 automáticas ou
semiautomáticas (Kalashnikov), lançadores de granadas RPG-7,
lançadores de mísseis SPG-9 e metralhadoras de grande calibre
capazes de fazerem buracos no metal do navio e provocar grande
destruição.
Esta versão que tem a ver com a possibilidade de tiroteio sem que os
piratas entrem a bordo torna-se ainda mais perigosa no caso duma batalha no
interior do navio, tendo em consideração a crueza da batalha, a
agressividade dos piratas e a evolução que terá com o
envolvimento dos marinheiros.
Também podemos argumentar, com base na evidência, que os navios
que tiverem guardas armados, constituirão um alvo especial para as redes
criminosas piratas com uma preparação semelhante.
2. A existência de guardas armados cria condições que
alteram o carácter da profissão de marinheiro, visto que
alistar-se num barco desses é como alistar-se numa "zona de
guerra", uma coisa que envolve graves perigos para a segurança
física e para as vidas dos marinheiros.
Este facto torna-se óbvio num artigo do projecto de lei que estipula a
possibilidade de regresso a casa de tripulação que não
queira trabalhar nessas condições. Claro que esta
disposição não resolve o problema porque os marinheiros
terão que escolher entre os perigos e o desemprego, independentemente do
que possam querer.
Normalmente, esta situação tem um impacto negativo nos direitos
laborais dos marinheiros, acarreta o perigo da arbitrariedade, de
provocações, do uso desse mecanismo para exercer pressão
anti-trabalhadores.
Simultaneamente, o papel do capitão está a mudar visto que, de
acordo com outro artigo do mesmo projecto de lei, os capitães
serão obrigados a desempenhar um papel militar porque, de acordo com o
projecto-lei, os guardas armados "operam sob a chefia do
capitão". O capitão terá que cuidar da
familiarização dos guardas, de fiscalizar as suas actividades e
será sujeito a sanções em caso de qualquer revés.
3. As disposições que se referem à emissão de
decisões ministeriais conjuntas sobre questões do tipo e da
quantidade de armamentos, o uso de armas, etc, também são
especialmente preocupantes, o que torna a questão dos guardas armados
nos navios ainda mais perigosa no seu desenvolvimento. Tendo em
consideração que qualquer pessoa pode ser envolvida nesta
questão, incluindo secções de exércitos
mercenários, visto que constituem o pessoal de companhias que possuem
qualificações legais e formais e certificação de
qualidade reconhecida (!), conforme refere provocativamente o projecto de lei.
Um sintoma do capitalismo apodrecido
As posições acima não podem ser contestadas nem rejeitadas
razoavelmente sob o pretexto dos perigos da pirataria.
A recente 89ª Sessão da Comissão de Segurança
Marítima (CSM) da OMI (11-20/Maio/2011) manteve-se (até agora)
fiel às antigas recomendações para tratar dos ataques
piratas e dos roubos à mão armada e não aprovou propostas
para a emissão de recomendações relacionadas com a
existência de guardas armados nos navios, visto que havia muita
preocupação com as consequências negativas à custa
de vidas humanas no mar.
Numa circular relacionada com esta questão, que constituiu um
compromisso, refere-se que a questão dos guardas armados é
assunto da responsabilidade do estado da bandeira do navio.
Mas as directivas do Ministério da Protecção de
Cidadãos da delegação grega que tomou parte nesta
sessão da OMI são interessantes, porque revelam que no projecto
de lei que o governo está a apresentar para consulta estão a ser
propostas posições que foram rejeitadas apenas meses antes pelo
mesmo ministério.
Entre outras coisas, as directivas mencionam: "Uma posição
fixa do nosso país até hoje é a não presença
de equipas armadas e não armadas de guardas num navio com o objectivo de
o proteger de actos de pirataria ou de roubo à mão armada, como
de resto é recomendado pela Organização Marítima
Internacional (OMI).
Fazemos notar que as auto-proclamadas "melhores práticas" da
CSM relativas ao fenómeno da Pirataria fornecem uma série de
medidas que estão ligadas à prontidão da
tripulação e ao uso de diversas medidas preventivas, entre elas a
velocidade do navio, o uso de meios de combate a incêndios, a
comunicação imediata com terra, o uso de canais especialmente
protegidos no mar, etc.
Estas medidas têm a sua importância e podem, até certo
ponto, impedir um ataque conjuntamente com a protecção de
águas territoriais, ancoradouros, portos assim como da área
à sua volta por forças navais e aéreas dos estados da
região.
Em qualquer caso o fenómeno da pirataria contemporânea, tal como
outros cancros capitalistas, demonstra que o sistema explorador, que se
encontra na sua fase imperialista final, está apodrecido e exala fedor,
colocando portanto diante dos povos a tarefa do seu derrube.
[*]
Membro da Comissão Política do CC do KKE
O original encontra-se em
Rizospastis,
órgão do CC do KKE, de 15/Janeiro/2012, a versão em
inglês encontra-se em
http://inter.kke.gr/News/news2012/2012-01-21-peiratia
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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