"O meu governo não foi derrubado pelo povo"
por Jean-Bertrand Aristide
[*]
entrevistado por Peter Hallward
Em meados dos anos 80, Jean-Bertrand Aristide era um jovem padre paroquiano que
trabalhava em um bairro pobre e conflituoso de Porto Príncipe. Corajoso
defensor dos direitos e dignidade dos pobres, logo se tornou o mais amplamente
respeitado porta-voz de um crescente movimento popular contra a série de
regimes militares que controlaram o Haiti depois do colapso da ditadura
pró-americana dos Duvalier, em 1986.
Em 1990, venceu a primeira eleição presidencial
democrática, com 67% dos votos. Sentido como uma perigosa ameaça
pela elite minoritária dominante do Haiti, foi derrubado por um golpe
militar em setembro de 1991. Conflitos com essa mesma elite e suas
legiões, apoiada por seus poderosos aliados nos EUA e França, tem
marcado toda a trajetória política de Aristide: depois de
conquistar uma esmagadora vitória nas eleições de 2000,
seus inimigos lançaram uma campanha de propaganda massiva para
caracterizá-lo como violento e corrupto.
A resistência estrangeira e da elite local por fim culminaria em um
segundo golpe contra ele, na noite de 28 de fevereiro de 2004. Amigo e
politicamente aliado de Thabo Mbeki, da ANC, Aristide foi para um relutante
exílio na África do Sul, onde permanece até os dias de
hoje. Apelos para o retorno imediato e incondicional de Aristide continuam a
polarizar a política haitiana. Muitos analistas, assim como alguns
importantes membros do governo atual reconhecem que, se a
constituição permitisse a Aristide candidatar-se novamente a uma
reeleição, ele venceria facilmente.
Recluso, o ex-presidente do Haiti veio à tona recentemente com o
terremoto que abalou o seu país. Na oportunidade se disse pronto a
voltar para o país e ajudar a sua reconstrução. Analistas
acreditam que uma eventual volta do ex-presidente poderia provocar uma
reviravolta na conturbada política local. Mesmo vivendo em um quase
anonimato, Aristide conseguiu conservar uma forte base de simpatizantes na
capital e em diversas áreas rurais do Haiti o que poderia ser
interpretado como uma ameaça ou mesmo uma afronta a seu velho aliado e
atual presidente, René Préval.
Um pouco da história e do pensamento de Jean-Bertrand Aristide pode ser
conhecida através da longa entrevista que o ex-presidente concedeu a
Peter Hallward professor de filosofia na Universidade de Middlesex
(Inglaterra). A entrevista em francês foi realizada em Pretória
(África do Sul) no dia 20 de julho de 2006. O texto completo da
entrevista foi publicado em apêndice do livro de Hallward
Damming de Flood: Haiti, Aristide and the Politics of Containment
(Paperback, 2008).
Eis a entrevista.
O Haiti é um país profundamente dividido e você tem sido
sempre um personagem profundamente conflituoso. Para a maioria dos numerosos
observadores simpatizantes dos anos 90 era fácil entender essa
divisão mais ou menos em função de critérios de
classe: você foi demonizado pelos ricos e idolatrado pelos pobres.
Então, as coisas começaram a ficar mais complicadas. Certos ou
errados, ao final da década, muitos dos que originalmente o apoiavam
passaram a ficar mais céticos e seu segundo governo (2001 - 2004), do
início ao fim, foi implacavelmente perseguido por
acusações de violência e corrupção. Apesar
de, em todas as medidas possíveis, você permanecer folgadamente
como o político mais confiável e popular entre o eleitorado
haitiano, parece que você tem perdido muito do apoio que gozava entre
partes da classe política, dos trabalhadores, ativistas, intelectuais e
outras, tanto no país como no exterior. Muitas de minhas questões
referem-se a essas acusações, especialmente a de que, com o
passar do tempo, você fez concessões ou abandonou muitos de seus
ideais originais. Para começar, gostaria de retornarmos brevemente a um
território familiar e perguntar sobre o processo que o conduziu ao poder
em 1990. O final dos anos 80 foi um período muito reacionário na
política mundial, especialmente na América Latina. Como
você explica a considerável força e resistência do
movimento popular contra a ditadura no Haiti, movimento que passou a ser
conhecido como "Lavalas" palavra que em creóle
significa "inundação", ou "avalanche", assim
como "multidão", ou "todos juntos"? Como você
explica que, apesar das circunstâncias, e certamente contra os interesses
dos EUA, dos militares e de todo o poder que dominava o Haiti, você
conseguiu vencer as eleições de 1990?
Grande parte do trabalho já tinha sido feito por pessoas antes de mim.
Refiro-me a pessoas como Padre Antonio Adrien e seus companheiros, e Padre Jean
Marie Vincent, que foi assassinado em 1994. Eles haviam desenvolvido uma
visão teológica progressista que refletia as esperanças e
expectativas do povo haitiano. Já em 1979, eu estava trabalhando no
contexto da Teologia da Libertação. Há uma frase em
particular que ficou marcada em minha mente e que pode ajudar a resumir meu
entendimento da situação naquela época. Você deve
lembrar-se de que a Conferencia de Puebla aconteceu no México, em 1979,
e naquele tempo muitos teólogos da libertação estavam
trabalhando sob severas restrições, ameaçados e impedidos
de participar. O slogan ao qual estou me referindo dizia algo como "si el
pueblo no va a Puebla, Puebla se quedara sin pueblo" se o povo
não vai a Puebla, Puebla ficará sem povo.
Em outras palavras, o povo é para mim o próprio centro de nossa
luta. Não se trata de lutar pelo povo, em nome do povo, à
distância do povo; é o povo, ele mesmo, que está lutando.
Trata-se de lutar com o povo e no meio do povo. Isso leva a um segundo
princípio teológico, que Sobrinho, Boff e outros entenderam muito
bem. A teologia da libertação somente pode ser uma etapa de um
processo mais abrangente. Esta etapa, na qual nós temos que
começar falando em nome dos pobres e oprimidos, tem fim assim que eles
comecem a falar com sua própria voz e com suas próprias palavras.
O povo começa a assumir seu próprio lugar na cena pública.
A teologia da libertação dá lugar, então, à
libertação da teologia. O processo completo leva-nos longe do
paternalismo, de toda noção de um "saber" que poderia
vir a conduzir o povo e resolver seus problemas. Os padres que eram inspirados
pela teologia da libertação naquele tempo entendiam que nosso
papel era acompanhar o povo, e não tomar o lugar dele.
No Haiti, a emergência do povo como força pública
organizada, como consciência coletiva já tinha começado nos
anos oitenta, e, por volta de 1986, essa força era forte o suficiente
para afastar a ditadura Duvalier do poder. Foi um movimento da base popular, e
não um projeto piramidal, dirigido por um único líder ou
uma só organização. Também não foi apenas um
movimento político. Ele tomou forma, sobretudo através da
construção de numerosas pequenas comunidades eclesiais de base,
ou "ti legliz", por todo o país. Foram essas comunidades que
desempenharam um papel histórico decisivo. Quando fui eleito presidente,
não se tratava somente de um cargo estritamente político, da
eleição de um político, de um partido político
convencional. Não! Tratava-se da expressão de um grande movimento
popular, da mobilização do povo como um todo. Pela primeira vez o
Palácio Nacional tornou-se um lugar não só de
políticos profissionais, mas para o povo, ele mesmo. O simples fato de
permitir-se a pessoas comuns entrarem no palácio, o simples fato de
serem bem vindas pessoas das camadas mais pobres da sociedade haitiana no
coração central do poder tradicional isto já foi um
gesto profundamente transformador.
Você hesitou por algum tempo antes de aceitar colocar-se como candidato
naquelas eleições de 1990. Você estava perfeitamente
consciente de como, considerando-se as relações das forças
existentes, a participação nas eleições poderia
enfraquecer ou dividir o movimento. Olhando para trás agora, você
ainda pensa que foi a coisa certa a fazer? Haveria alguma alternativa
viável àquela de seguir a via parlamentar?
Eu sou inclinado a pensar a história como um processo de
cristalização de diferentes tipos de variáveis. Algumas
delas são conhecidas, outras não. As variáveis que
nós conhecíamos e entendíamos naquele tempo eram bastante
claras. Nós tínhamos uma idéia do que éramos
capazes e também sabíamos que aqueles que buscavam manter o
status quo tinham inúmeros meios à disposição. Eles
tinham toda sorte de estratégias e mecanismos militares,
econômicos, políticos... para desorganizar qualquer
movimento que desafiasse sua continuidade no poder. Mas nós não
podíamos saber exatamente como eles se serviriam destes meios. Eles
mesmos não poderiam saber. Estavam acompanhando atentamente a forma como
o povo lutava para inventar modos de organizar a si mesmo, modos de promover
efetivamente este desafio. Isso é o que eu penso acerca de
variáveis desconhecidas: o movimento popular estava em processo de ser
inventado e desenvolvido, sob pressão, no campo de batalha, e não
havia meios de saber de antemão que contra-ataque eles iriam provocar.
Agora, dado o equilíbrio desses dois tipos de variáveis, eu
não podia voltar atrás. Não recuei em nada. Em 1990, fui
convocado por outros no movimento a aceitar a cruz que tinha caído sobre
mim. Foi nesses termos que o Padre Adrien descreveu isso e foi assim que eu
entendi: eu deveria aceitar o fardo daquela cruz. "Você está
no caminho do Calvário", ele disse, e eu sabia que ele estava
certo. Quando recusei isso, no início, Monsenhor Willy Romélus,
em quem eu depositava muita confiança, como conselheiro, insistiu que eu
não tinha escolha. "Sua vida não pertence mais a
você", ele disse, "Você a ofereceu em sacrifício
ao povo. E agora que uma missão concreta se apresenta a você,
agora que você se encontra frente a essa convocação
especial, de seguir Jesus e carregar sua cruz, reflita cuidadosamente antes de
voltar atrás. Isto era o que eu sabia, e sabia muito bem,
então. Foi uma espécie de caminho do Calvário. E assim que
decidi, aceitei este caminho tal como ele seria, sem ilusões, sem
enganar-me a mim mesmo. Nós sabíamos perfeitamente bem que
não seríamos capazes de mudar tudo, que não
seríamos capazes de corrigir cada injustiça, que iríamos
trabalhar sob severas restrições, e assim por diante.
Suponha que eu dissesse não, que não aceitasse ser candidato,
como as pessoas iriam reagir? Entendo agora o eco de certas vozes que
perguntavam: "Vamos ver agora se você tem a coragem de tomar essa
decisão. Vamos ver agora se você não passa de um covarde
para aceitar essa tarefa. Você, que tem proferido os mais belos
sermões, o que vai fazer agora? Vai abandonar- nos, ou vai assumir essa
responsabilidade de modo que juntos possamos seguir em frente?" E eu
pensei sobre isso. Qual a melhor maneira de colocar em prática a
mensagem do evangelho? O que eu deveria fazer? Eu lembro como respondi a essa
questão, quando, alguns dias antes da eleição de 1990, fui
a uma manifestação pelas vítimas do massacre da Viela de
Vaillant, no qual vinte pessoas foram mortas pelos Macoutes, no dia das
eleições canceladas de 1987. Um estudante perguntou-me:
"Padre, o senhor pensa que poderá mudar sozinho essa
situação tão corrupta e injusta?" E eu, em resposta,
disse-lhe: "Para chover, é necessária uma, ou muitas gotas
de chuva? Para uma inundação, basta um fiozinho de água,
ou a torrente de um rio? E eu agradeci a ele por dar-me a chance de
apresentar nossa missão coletiva na forma dessa metáfora:
não será sozinhos, como gotas de chuva, que você e eu
conseguiremos mudar essa situação, mas juntos, como uma
inundação ou uma torrente, "lavalassement", que iremos
transformá-la, saná-la, sem ilusão de que isso será
fácil ou rápido.
Então, haveria alternativas? Acho que não. No entanto, estou
seguro de que havia uma oportunidade histórica, e de que nós
demos uma resposta histórica, uma resposta que transformou a
situação, um passo na direção certa. Naturalmente,
fazendo isso, provocamos uma reação. Nossos oponentes responderam
com um golpe de estado. Primeiro, a tentativa de golpe de estado de Roger
Lafontant, em janeiro de 1991, e, como ele falhou, o golpe de 30 de setembro de
1991. Nossos oponentes tinham sempre meios desproporcionalmente poderosos de
reprimir o movimento popular. Nenhuma simples ação ou
decisão poderia mudar isso. O que importa é que nós
tínhamos dado um passo adiante, um passo na direção certa,
seguido de outros passos. O processo que começou naquele época
ainda é forte, apesar de tudo, ainda é forte, e eu estou
convencido de que ele virá somente a se fortalecer, e que, no fim, ele
irá prevalecer.
O golpe de setembro de 1991 aconteceu apesar do fato de as políticas
concretas que você aplicou, quando estava no poder, terem sido muito
moderadas, muito prudentes. Teria sido um golpe inevitável,
então? Apesar do que você fez ou não fez, bastaria que a
simples presença de alguém como você no Palácio
Presidencial fosse inaceitável para a elite haitiana? E, neste caso, o
que mais poderia ser possível fazer para prever e resistir aos violentos
contra-ataques?
Bom, essa é uma boa questão. Eu entendo a situação
do seguinte modo: o que aconteceu em setembro de 1991 aconteceu também
em fevereiro de 2004 e poderia facilmente ocorrer novamente no futuro, sempre
que a oligarquia que controla os meios de repressão venha a
empregá-los para manter uma versão oca de democracia. Essa
é sua obsessão: manter uma situação que poderia ser
chamada de democrática, mas que, de fato, consiste em uma democracia
importada e superficial, controlada de cima para baixo. Eles têm sido
capazes de manter essa situação por um longo tempo. O Haiti
é independente há 200 anos, mas nós agora vivemos num
país onde um por cento da população controla mais que a
metade da riqueza. Para a elite, trata-se de estarmos nós contra eles,
de procurar um modo de preservar as desigualdades massivas que afetam cada
faceta da sociedade haitiana. Nós estamos submetidos a uma
espécie de apartheid. Mesmo depois de 1804, a elite tem feito o
possível para manter as massas à margem, no outro lado dos muros
que protegem seus privilégios. É a isso que nós somos
contra. É a isso que qualquer democracia genuína é contra.
A elite fará tudo que puder para certificar-se de que controla um
presidente fantoche, que controla um parlamento fantoche. Ela fará o que
for preciso para proteger o sistema de exploração do qual seu
poder depende. A sua questão deve ser colocada em relação
a esse contexto histórico, em relação a essa profunda e
considerável permanência.
De fato, mas nesse caso, o que fazer para confrontar o poder dessa elite? Qual
a melhor maneira de enfrentar essa violência se, afinal, ela é
preparada para usar violência a fim de conter qualquer verdadeira
ameaça a sua hegemonia? Apesar da força do movimento popular que
o conduziu ao poder, ele não teve força suficiente para conseguir
mantê-lo lá, em face à violência que isso
desencadeou. As pessoas às vezes comparam-no a Toussaint L`Ouverture,
que conduziu seu povo à liberdade e obteve vitórias
extraordinárias, conquistadas sob condições
extraordinariamente difíceis. Mas Toussaint é também
freqüentemente criticado por não ter ido muito longe, por
não ter conseguido romper com a França, por não ter
conseguido fazer o bastante para manter o apoio do povo. Foi Dessalines quem
conduziu a batalha final pela independência e quem pagou o preço
daquela batalha. O que você tem a responder aos que dizem (como Patrick
Elie, por exemplo, ou Bem Dupuy) que você foi muito moderado, que
você agiu como Toussaint numa situação que, de fato, exigia
um Dessalines? O que você tem a dizer aos que afirmam que você
depositou muita confiança aos EUA e a seus aliados domésticos?
Bom... [risos]. "Muita confiança nos EUA", isso me faz rir...
Em minha humilde opinião, Toussant L`Overture, como homem, tinha suas
limitações. Mas ele deu o melhor de si e, na verdade, não
fracassou. A dignidade que ele defendeu, os princípios que ele defendeu,
continuam a inspirar-nos até hoje. Ele foi capturado, fisicamente foi
preso e morto, sim, mas Toussaint ainda está vivo. Seu exemplo e seu
espírito nos guia sempre. Hoje, a luta do povo haitiano é uma
extensão de sua campanha pela dignidade e liberdade. Nesses dois
últimos anos, de 2004 a 2006, o povo continua a lutar por sua dignidade
e recusa-se a ajoelhar-se, recusa-se a se render. Em 6 de julho de 2005,
Cité Soleil foi atacada e bombardeada, mas esse ataque, assim como
muitos outros similares, não desencoraja o povo em insistir para que
suas vozes sejam ouvidas. Eles denunciam a injustiça.
Eles votaram para a presidência em fevereiro, e isso também foi
uma demonstração de sua dignidade; eles não aceitam mais a
indicação de outro presidente de cima para baixo. Esta simples
insistência na dignidade é, ela mesma, um mecanismo de
mudanças históricas. O povo quer ser o sujeito de sua
história, não seu objeto. Assim como Toussaint foi o sujeito de
sua história, assim também o povo haitiano tomou e estendeu sua
luta, como sujeito de sua história. Mais uma vez, isso não
significa que a vitória é inevitável ou fácil. Isso
não significa que nós podemos resolver cada problema, ou ainda,
que, depois de tratarmos de um problema, aqueles poderosos interesses
particulares não irão levar a que se tente todo o possível
para desfazer os avanços.
No entanto, alguma coisa irreversível aconteceu. Alguma coisa que fez
seu caminho através da consciência coletiva. Esse é
precisamente o significado real da famosa afirmação de Toussaint,
assim que ele foi capturado pelos franceses, que eles tinham cortado o tronco
da árvore da liberdade, mas suas raízes permaneciam profundas.
Nossa luta pela liberdade encontrará muitos obstáculos, mas ela
não perderá suas raízes. Ela está firmemente
enraizada na mente do povo. O povo é pobre, certamente, mas nossas
mentes são livres. Nós continuamos a existir como povo, com base
nessa tomada de consciência inicial, dessa consciência fundamental
do que nós somos. Não é por acaso que quando vieram a
escolher um líder, esse povo, essas pessoas que foram mantidas
tão pobres e tão marginalizadas pelos poderosos, tenham
escolhido, não um político, e sim, um padre. Os políticos
deixaram-nos sucumbir. O povo estava procurando por alguém com
princípios, alguém que falasse a verdade. De certo modo, isso
seria mais importante que sucesso material ou uma pronta vitória sobre
nossos adversários. Esse é o legado de Toussaint.
Quanto a Dessalines, a luta que ele conduziu foi a luta armada, foi uma luta
militar, e necessária, pois ele tinha que romper as correntes da
escravidão de uma vez por todas. Ele conseguiu. Mas será que
ainda precisamos levar essa mesma luta, da mesma forma? Penso que não.
Dessalines estava errado em lutar daquele modo? Não. Mas nossa luta
é diferente. É Toussaint e não Dessalines quem pode ainda
acompanhar o movimento popular nos dias de hoje. Sua inspiração
conduziu à vitória nas eleições de fevereiro de
2006, que permitiu ao povo manobrar seus adversários para escolher seu
próprio líder, contra a vontade do poder constituído.
Para mim isso abre para um ponto mais geral. Nós depositamos muita
confiança nos norte-americanos? Fomos muito dependentes de forças
externas? Não. Nós simplesmente tentamos permanecer
lúcidos e evitar a demagogia fácil. Seria mera demagogia por
parte de um presidente haitiano pretender ser mais forte que os americanos, ou
de engajar-se numa guerra interminável de palavras, ou opor-se a eles
por puro prazer. A única maneira racional de seguir é refletir
bem sobre o equilíbrio relativo entre os interesses, compreender o que
os americanos querem, lembrarmos do que queremos e avançarmos o
possível sobre os pontos de convergência existentes. Vejamos um
exemplo concreto: em 1994, Clinton precisava de uma vitória na
política externa, e o retorno da democracia no Haiti apresentou-se a ele
como uma oportunidade. Nós precisávamos de um instrumento para
vencer a resistência do exército haitiano assassino, e Clinton
ofereceu-nos esse instrumento. Isso é o que quero dizer por atuar pelo
espírito de Toussaint L'Ouverture. Nós nunca tivemos nenhuma
ilusão de que os americanos partilhavam de nossos objetivos
fundamentais, sabíamos que eles não queriam caminhar na mesma
direção, mas sem os americanos nós não
poderíamos ter restaurado a democracia.
Não havia nenhuma outra opção, nenhuma alternativa a
não ser recorrer às tropas americanas?
Não. O povo haitiano não está armado. É claro que
há alguns criminosos e malandros, alguns traficantes de drogas, algumas
gangues que têm armas, mas o povo não tem armas. Você
está enganando a si mesmo se pensa que o povo pode partir para uma luta
armada. Nós temos que olhar a situação nos olhos: o povo
está desarmado e nunca terá tanto armamento como seus inimigos.
É inútil meter-se numa luta na área dos seus inimigos ou
jogar o jogo deles. Você perderia.
Você não teria pago um preço muito alto pelo apoio
americano? Eles o forçaram a fazer todo tipo de acordo, a aceitar muitas
das coisas que você sempre se opôs: um rígido plano de
ajustamento estrutural, políticas econômicas neoliberais, a
privatização das empresas públicas, etc. O povo haitiano
sofreu muito sob essas restrições. Deve ter sido muito
difícil engolir estas coisas durante as negociações de
1993.
Certamente, mas você tem que fazer a distinção entre a
luta, por um lado, como princípio, a luta para persistir na
opção preferencial pelos pobres, que para mim foi inspirada na
teologia e é uma questão de justiça e verdade e, por
outro, sua luta política, que se conduz por regras diferentes. Conforme
sua versão de política você pode mentir e trapacear se isso
permitir que consiga seus objetivos estratégicos. A
acusação de que havia armas de destruição em massa
no Iraque, por exemplo, foi uma flagrante mentira. Mas a partir do momento em
que foi um útil caminho para atingir seus objetivos, Colin Powell e
companhia tomaram esse rumo.
Quanto ao Haiti, voltando a 1993, os americanos aceitaram com prazer um plano
econômico negociado. Quando eles insistiram, através do FMI e de
outras instituições financeiras internacionais, na
privatização das estatais, eu estava preparado para concordar, a
princípio, se necessário mas recusei-me a simplesmente
vendê-las, incondicionalmente, a investidores privados. A
corrupção no setor estatal era inegável, mas havia muitas
diferentes formas de abordar essa corrupção. Ao invés de
privatização sem limites, eu estava pronto para concordar com uma
democratização dessas empresas. O que isso significa? Significa
uma ênfase na transparência. Significa que alguns dos lucros de uma
fábrica ou uma empresa deveriam ser partilhados entre as pessoas que
trabalham para ela. Significa que alguns desses benefícios deveriam ser
investidos em coisas como, escolas locais, clínicas de saúde, de
modo que os filhos dos trabalhadores possam receber algum benefício
proveniente de seu trabalho. Significa criar condições em
nível micro que são coerentes com os princípios que
queremos guiar o desenvolvimento em nível macro. Os americanos disseram
"tudo bem, sem problemas".
Nós assinamos aqueles tratados, e estou em paz com minha decisão
até hoje. Eu disse a verdade, ao passo que eles o assinaram em um
espírito diferente. Eles o assinaram porque com isso poderiam facilitar
meu retorno ao Haiti e assim arranjar a vitória na política
externa, mas, assim que eu voltei ao governo, eles já haviam deixado
planejada a renegociação dos termos da
privatização. E foi exatamente isso que aconteceu. Eles
começaram a insistir na privatização sem limites e,
novamente, eu disse não. Quiseram então desfazer nosso acordo, e
então, lançaram uma campanha de desinformação para
fazer parecer que eu não cumpri com a palavra. Isso não é
verdade. Os acordos que nós criamos estão lá. As pessoas
podem julgar por elas mesmas. Infelizmente nós não
tínhamos os meios para vencer a guerra de relações
públicas. Eles ganharam a batalha das comunicações,
espalhando mentiras e distorcendo a verdade, mas eu ainda sinto que nós
ganhamos a batalha real, pois a verdade está conosco.
E quanto à sua batalha com o exército do Haiti, o mesmo que o
derrubou em 1991? Os americanos refizeram esse exército de acordo com
suas próprias prioridades de 1915 e desde então ele tem atuado
como uma força para a proteção daquelas prioridades.
Você foi capaz de desmobilizá-lo a poucos meses de seu retorno, em
1994, mas o modo como isso foi feito permanece controvertido, e você
não foi capaz de desmobilizar e desarmar completamente os
próprios soldados. Parte deles voltou a persegui-lo vingativamente,
durante seu segundo mandato.
Novamente, não tenho nenhum arrependimento em relação a
isso. Foi absolutamente necessário dissolver o exército.
Nós tínhamos um exército de aproximadamente 7.000
soldados, e isso absorvia 40% do orçamento nacional. Desde 1915 ele
tinha servido como exército de ocupação interna. Ele nunca
enfrentou um inimigo externo. Por que necessitaríamos de um
exército como esse, ao invés de uma força policial
adequadamente treinada? Nós fizemos o que deveria ser feito. De fato,
nós organizamos um programa social para a reintegração de
militares desmobilizados, já que eles também são membros
da comunidade nacional. Eles também tinham o direito de trabalhar e o
estado tinha a responsabilidade de respeitar esse direito. Ainda mais que,
você sabe, se eles não encontrassem trabalho, seriam mais
facilmente tentados a recorrer à violência ou ao crime, como foram
os Tontons Macoutes antes deles. Nós fizemos o melhor que pudemos.
O problema não vinha do nosso programa de integração e
desmobilização, veio com o descontentamento daqueles que estavam
determinados a preservar o status quo. Eles estavam cheios de dinheiro e armas
e trabalhavam mão a mão com a máquina militar mais
poderosa do planeta. Era fácil para os americanos cooptar quaisquer
antigos soldados, treiná-los e equipá-los na República
Dominicana e usá-los para desestabilizar o país. Foi exatamente
isso o que fizeram, mas, eu insisto, não foi um erro desmobilizar o
exército. A situação não foi assim, como se
nós pudéssemos ter evitado o segundo golpe, o golpe de 2004 se
tivéssemos mantido o exército. Ao contrário, se o
exército tivesse permanecido intocável, então René
Préval nunca teria terminado seu primeiro mandato (1996- 2001), e eu
certamente não teria sido capaz de resistir por três anos, de 2001
a 2004.
Agindo desse modo, trouxemos luz sobre o verdadeiro conflito que estava em jogo
aqui. Como você sabe, a história do Haiti é pontuada de uma
longa série de golpes de estado. Mas, ao contrário dos golpes
precedentes, o golpe de 2004 não foi uma ação do
"exército" haitiano agindo sob as ordens de nossa pequena
oligarquia, em acordo com os interesses estrangeiros, como aconteceu muitas
vezes, tal como no golpe de 1991. Não. Desta vez esses poderosos
interesses tiveram que fazer o trabalho, eles mesmos, com suas próprias
tropas e em seu próprio nome.
Uma vez que Chambleim e seu pequeno bando de rebeldes foram barrados na
periferia de Porto Príncipe e não conseguiam avançar mais,
os "marines" americanos entraram em ação e expulsando-o
do país.
Exatamente. A verdade concreta da situação, a real
contradição que orienta essa situação, finalmente
vem à tona e aparece inteiramente à opinião pública.
Voltemos a meados da década de 90. Por um momento, a
criação do Partido Fanmi Lavalas em 1996 serviu a
função similar, ajudando a revelar as linhas "de fato"
do conflito interno que tinha já fraturado a pouco estruturada
coalizão das forças que o levaram ao poder em 1990? Por que
existiam essas grandes divisões entre você e alguns de seus
antigos aliados, pessoas como Chavannes Jean-Batiste e Gérard
Pierre-Charles? Quase todo o primeiro mandato de Préval, de 1996 a 2000
foi assolado por ataques e oposição de Pierre-Charles e o OPL.
Você passou, então, a construir um partido unificado,
disciplinado, que pudesse propor e encaminhar um programa político
coerente?
Não, não foi assim que as coisas aconteceram. Em primeiro lugar,
por experiência e por inclinação, eu era um professor,
não um político. Eu não tinha experiência em
partidos políticos, e estava contente de deixar a outros a tarefa de
desenvolver uma organização partidária, de treinar quadros
do partido, e assim por diante. De volta a 1991, eu estava contente em deixar
tudo isso a políticos de carreira, a pessoas como Gérard
Pierre-Charles, e, junto com outras pessoas ele passou a trabalhar nesse
sentido assim que a democracia foi restabelecida. Ele nos ajudou a fundar a
"Organização Política Lavalas" OPL, e eu
estimulei que algumas pessoas se juntassem a ela.
Esse partido venceu as eleições de 1995 e, no final de meu
mandato, em fevereiro de 1996, ele tinha a maioria no Parlamento. Mas
então, ao invés de continuar a ouvir o povo, depois das
eleições, a OPL começou a dar menos atenção
a ele. Começou a cair nos padrões e práticas tradicionais
dos políticos do Haiti. Ele começou a ficar mais fechado em si
mesmo, mais distante do povo, mais inclinado a fazer promessas vazias, e assim
por diante. Eu já estava fora do poder e permaneci à
distância. Mas um grupo de padres envolvidos com o movimento Lavalas
sentia-se frustrado e queria restaurar uma ligação mais
significativa com o povo. Eles queriam permanecer em comunhão com o
povo. A partir desse momento (1996), o grupo de pessoas que se sentiam dessa
maneira, que estavam insatisfeitas com o OPL, formava um grupo conhecido como
"a nebulosa" eles tinham uma posição incerta e
confusa. Com o tempo, mais e mais pessoas tornavam-se descontentes com a
situação.
Nós nos engajamos em longas discussões sobre o que
deveríamos fazer, e Fanmi Lavalas nasceu dessas discussões. Ele
surgiu do próprio povo. E mesmo quando veio a constituir-se como uma
organização política, ele nunca se concebeu a si mesmo
como um partido político tradicional. Se você for ver a
constituição da organização vai notar que a palavra
"partido" nunca é mencionada. Ele descreve a si mesmo como
organização, não como partido. Por quê? Porque no
Haiti nós não temos nenhuma experiência política
positiva de partidos políticos. Partidos têm sempre sido
instrumentos de manipulação e traição. Por outro
lado, nós temos uma longa e positiva experiência de
organização, de organizações populares as
"ti legliz", por exemplo.
Então, não, não fui eu que "fundei" Fanmi
Lavalas como um partido político. Eu apenas dei minha
contribuição à formação dessa
organização, que oferecia uma plataforma aos que estavam
frustrados com o partido OPL, que estavam ainda ativos no movimento mas se
sentiam excluídos dele (O OPL rapidamente renomeou a si mesmo como
"Organização Neoliberal do Povo em Luta"). Agora, para
se efetivar, Fanmi Lavalas necessitava canalizar a experiência de pessoas
que conheciam um pouco de política, pessoas que poderiam atuar como
líderes políticos sem perder o compromisso com a verdade. Este
é o problema mais difícil, claro. Fanmi Lavalas não tem a
rígida disciplina e coordenação de um partido
político. Alguns de seus membros não têm a
experiência necessária para preservar ambos: o compromisso com a
verdade e uma efetiva participação política. Para
nós, política está profundamente relacionada à
ética, esse é o ponto crucial da questão. Fanmi Lavalas
não é uma organização exclusivamente
política. Por isso políticos não conseguem apropriar-se e
utilizar Fanmi Lavalas como trampolim para o poder. Isso nunca será
fácil. Os membros do Fanmi Lavalas exigem a fidelidade de seus
líderes.
Essa é uma lição que Marc Bazin, Louis-Gerald Gilles e
outros tiveram que aprender durante a campanha eleitoral de 2006.
Exatamente.
Até que ponto Fanmi Lavalas tornou-se uma vítima de seu
próprio sucesso? Como a ANC aqui na África do Sul, estava claro
desde o início que Fanmi Lavalas seria mais ou menos imbatível
nas eleições. Mas isso pode ter vantagens e desvantagens. Como
você propõe lidar com os muitos oportunistas que imediatamente
procuram se imiscuir na sua organização, gente como Dany Toussant
e seus associados?
Eu deixei o poder em 1996. Em 1997, Fanmi Lavalas havia emergido como uma
organização funcional, com um claro estatuto. Isso foi já
um grande passo à frente em relação a 1990. Em 1990, o
movimento político era demasiado espontâneo; em 1997, as coisas
já eram mais coordenadas. Além da constituição, no
primeiro congresso do Fanmi Lavalas nós votamos e aprovamos o programa
escrito em nosso Livre Blanc: "Investir no Humano", que,
eu sei, você já conhece. Esse programa não surgiu do nada.
Por aproximadamente dois anos nós promovemos encontros com engenheiros,
com agrônomos, com médicos, professores, e assim por diante.
Nós ouvimos e discutimos os méritos de diferentes propostas. Foi
um processo coletivo. O Livre Blanc não é um programa
baseado em minhas prioridades pessoais ou ideologia. É o resultado de um
longo processo de consulta com profissionais em todos esses domínios, e
foi compilado como um verdadeiro documento colaborativo. Como o próprio
Banco Mundial veio a reconhecer, ele foi um programa genuíno, um plano
coerente para a transformação do país. Ele não foi
um pacote de promessas vazias.
Agora, no meio dessas discussões, no meio dessa
organização emergente, é verdade que você irá
encontrar oportunistas, você irá encontrar futuros criminosos e
futuros traficantes de drogas. Mas não era fácil
identificá-los. Não era fácil descobri-los em tempo e
afastá-los em tempo, antes que fosse muito tarde. Muitas dessas pessoas,
antes de ganhar um assento no parlamento, comportavam-se perfeitamente bem.
Mas, você sabe, para algumas pessoas o poder pode ser como o
álcool: depois de um copo, dois copos, uma garrafa inteira... Você
já não está lidando com a mesma pessoa. Ele deixa algumas
pessoas inconscientes. Essas coisas são difíceis de prever. No
entanto, eu penso que, se não houvesse intervenção das
potências estrangeiras, nós seríamos capazes de fazer um
avanço concreto. Nós tínhamos estabelecido métodos
viáveis para a discussão colaborativa e para preservar
ligações diretas com o povo. Eu penso que teríamos feito
um avanço real, dando passos pequenos, lentos, mas seguros.
Mesmo com o embargo sobre a ajuda, nós conseguimos realizar algumas
coisas. Nós fomos capazes de investir em educação, por
exemplo. Como você sabe, em 1990 havia somente 34 escolas
secundárias no Haiti; já em 2001 havia 138. O pouco que
tínhamos para investir, investimos no rumo que indicava o programa
"Investir no Humano". Nós construímos uma nova
universidade em Tabarre, uma nova faculdade de medicina. Apesar de dispor de
recursos precários, o programa de alfabetização foi
lançado em 2001 e estava indo bem. Os peritos cubanos que ajudaram a
manejar o programa tinham convicção de que por volta de dezembro
de 2004 teríamos reduzido à taxa de analfabetismo adulto para
apenas 15%, uma pequena fração do que foi uma década
antes. Os governos anteriores nunca tentaram seriamente investir em
educação, e está claro que nosso programa veio a se
constituir como uma ameaça ao status quo.
A elite não queria nem ouvir falar de educação popular,
por óbvias razões. Novamente, voltamos à questão:
nós podemos partir de uma posição de liberdade
genuína e independência, e trabalhar para criar um país que
respeita a dignidade de todo o seu povo, ou então devemos aceitar uma
posição de dependência servil, um país onde a
dignidade do povo comum não conta para nada. Isso é o que
está em jogo aqui.
Munidos desse programa, Fanmi Lavalas teve oficialmente uma vitória
arrasadora nas eleições legislativas de maio de 2000, recebendo
75% dos votos. Ninguém questionou a transparência e legitimidade
da vitória. Mas seus inimigos nos EUA e no país logo canalizaram
a atenção para o fato de o método usado para calcular o
número de votos necessários para se ganhar uma vaga no senado no
primeiro turno (isto é, sem que seja necessário um segundo turno
entre os dois candidatos mais populares) era um assunto controverso, para
não dizer ilegítimo. Eles pularam sobre esse tecnicismo para
justificar uma suspensão da ajuda e dos investimentos internacionais.
Logo depois do início de seu segundo mandato (em fevereiro de 2001), os
vencedores das eleições para esses assentos, foram persuadidos a
abandonar suas cadeiras e ficar esperando por um segundo turno. Mas isso foi
já um ano depois: não teria sido melhor resolver o assunto mais
rapidamente, evitando dar aos americanos um pretexto para minar sua
administração antes mesmo que ela começasse?
Espero que não se importe se eu chamar a atenção para as
palavras que usou: você disse que nós demos um pretexto aos
americanos. Na verdade os americanos criaram seu pretexto, e, se não
tivesse sido esse, teria sido alguma outra coisa. Seu objetivo, o tempo todo,
era garantir que não haveria comemoração significativa do
bicentenário da independência no próximo janeiro de 2004.
Os EUA demoraram 58 anos para reconhecer a independência do Haiti,
já que, obviamente, os EUA eram um país escravocrata naquele
tempo, e, de fato, a política americana nunca mudou realmente. Suas
prioridades não mudaram e, hoje em dia, a política americana
é mais ou menos consistente com o modo que ela sempre tem sido. O golpe
de setembro de 1991 foi dado por pessoas no Haiti com o apoio da
administração dos EUA, e em fevereiro de 2004 ele aconteceu outra
vez, graças a muitas dessas mesmas pessoas.
Não, os EUA criaram seu pequeno pretexto. Eles estavam tendo muito
trabalho em persuadir os outros líderes no CARICOM a voltarem-se contra
nós (muitos dos quais, de fato, eles nunca conseguiram persuadir), e
eles precisavam de um pretexto que fosse claro e fácil de entender.
"Truques eleitorais", isso foi a cartada perfeita para se jogar. Mas
eu me lembro muito bem do que aconteceu quando eles vieram observar as
eleições. Eles vieram e disseram "muito bem, sem
problemas". Tudo parecia que estava indo bem, o processo foi qualificado
como pacífico e justo. E então, assim que o resultado apareceu,
visando minar nossa vitória, eles começaram a questionar sobre o
modo de contagem dos votos. Mas eu não tinha nada a ver com aquilo. Eu
não era mais um membro do governo e não tinha nenhuma
influência sobre o CEP Conselho Eleitoral Provisório.
Somente ele tinha autoridade de decidir nesses casos. O CEP é um
organismo soberano e independente. O CEP declarou o resultado das
eleições. Eu não tinha nada a fazer sobre isso. Em
seguida, uma vez que eu fui reeleito, e que os americanos queriam que eu
afastasse os senadores, o que eu deveria fazer?
A constituição não dá ao presidente o poder de
afastar senadores eleitos de acordo com o protocolo decidido pelo CEP.
Você poderia imaginar uma situação como essa acontecendo
nos próprios EUA? O que aconteceria se um governo estrangeiro insistisse
para que o presidente depusesse um senador eleito? Isso é um absurdo. A
situação toda é simplesmente racista. De fato, eles
impõem condições a nós que eles nunca pensariam em
impor a um país "legalmente" independente, sobre um
país branco. Devemos chamar as coisas pelos seus nomes: o problema
é uma questão de governança democrática, de
validade de um resultado eleitoral específico? Ou é, na verdade,
de outras coisas?
No final das contas, o que os americanos queriam era usar o legislativo, o
senado, contra o executivo. Eles esperavam que eu fosse estúpido o
suficiente para insistir na deposição daqueles senadores eleitos.
Eu recusei isso. Em 2001, como um gesto de boa vontade, esses senadores
finalmente escolheram renunciar, partindo do princípio de que poderiam
disputar novas eleições assim que a oposição
estivesse pronta para participar delas. Mas os americanos falharam em colocar o
senado e o parlamento contra a presidência, e logo ficou evidente que a
oposição não tinha interesse algum em novas
eleições. Uma vez que essa tática falhou, os EUA
recrutaram ou compraram alguns testa-de-ferro, incluindo Dany Toussaint e
companhia, e os utilizaram, um pouco tardiamente, contra a presidência.
Mais uma vez, o objetivo geral era demolir a celebração de nosso
bicentenário, a celebração de nossa independência,
com todas suas implicações. Quando chegou a hora, eles mandaram
emissários à África, especialmente à África
francófona, dizendo a seus líderes que não participassem
das celebrações. Chirac exerceu enorme pressão a seus
colegas africanos. Os americanos fizeram o mesmo. Thabo Mbeki ficou
praticamente sozinho em sua determinação em resistir a essa
pressão e, através dele, a Organização de Unidade
Africana foi representada. Eu sou muito grato a ele por isso. A mesma
pressão foi exercida sobre os caribenhos: o primeiro ministro das
Bahamas, Pery Christie, decidiu vir, mas isso foi tudo, ele foi o único.
Foi muito decepcionante.
Na imprensa, entretanto, você veio a ser representado não como um
inquestionável vencedor de eleições legítimas, mas
como um autocrata cada vez mais tirânico.
Exatamente. Uma grande parte dos 200 milhões de dólares enviados
para o Haiti, destinados à ajuda e desenvolvimento, que foi suspensa
quando nós ganhamos as eleições em 2000, foi simplesmente
dirigida à propaganda e campanha de desestabilização
movida contra nosso governo e contra o Fanmi Lavalas. A campanha de
desinformação foi verdadeiramente massiva. Enormes quantias de
dinheiro foram gastas para fazer passar a mensagem, por rádio,
através dos jornais, através dos vários pequenos partidos
políticos que deveriam servir de veículos para a
oposição... Foi extraordinário.
Quando olho para trás, para esse período extremamente
desencorajador de nossa história, comparo-o com o que tem acontecido
recentemente em outros países. Eles estão passando pelos mesmos
tipos de problemas quando tentaram dizer que havia armas de
destruição em massa no Iraque. Eu ainda posso ver Colin Powell
sentando lá, na frente das Nações Unidas, com seu pequena
sacola de truques, demonstrando ao mundo inteiro que Saddam Hussein tinha armas
de destruição em massa: "Olhem para essa prova
irrefutável!" Isso foi patético. Em qualquer caso a
lógica é a mesma: eles montam uma mentira útil, e
então, vendem-na. É a lógica de gente que se crê
todo-poderoso. Se eles decidem que 1 + 1 = 4, então será 4.
De My Lai, aos Irão-Contras, ao Iraque, ao Haiti. Colin Powell fez uma
carreira inteira de acordo com essa linha de idéias... Mas, voltando a
maio de 2000: logo que o resultado foi declarado, o dirigente do CEP,
Léon Manus, deixou o país dizendo que você e Préval
tinham feito pressão sobre ele para calcular os votos de um modo
particular. Por que ele veio a assumir a linha americana?
Bom, não quero julgar Léon Manus, não sei exatamente o que
aconteceu. Mas penso que ele agiu da mesma forma que alguns líderes do
Grupo dos 184. Eles têm obrigações a um patrão, um
"boss". O "boss" é americano, um americano branco; e
eles são negros. Não subestime o complexo de inferioridade que
ainda tão frequentemente condiciona essas relações.
Você é negro, mas talvez você se sinta mais branco que os
brancos se estiver disposto a cair de joelhos em frente aos brancos, ao
invés de ficar sobre seus pés. Então você pode
sentir-se quase tão branco quanto eles. É como uma herança
psicológica da escravatura: mentir para o homem branco não
é mentir, já que os homens brancos não mentem. [risos].
Como os homens brancos poderiam mentir? Eles são os civilizados. Se eu
mentir para os brancos eu não estou realmente mentindo. Estou apenas
repetindo a mentira que eles queriam que eu repetisse. Não se
esqueça que sua viagem para fora do país começou em um
veículo com placa diplomática e que ele chegou a São
Domingo em um helicóptero americano. Quem tem acesso a esse tipo de
transporte?
Neste caso e em outros deste tipo, o que está acontecendo, de fato,
é bastante claro. São as pessoas com poder que dão as
cartas, e eles usam esse ou aquele "petit nègre de service",
esse ou aquele moleque de recados para traduzir as mentiras que
eles chamam verdade. Com o povo recrutado no Grupo dos 184 foi praticamente a
mesma coisa: eles foram pagos para dizer o que seus patrões queriam que
eles dissessem. Eles ajudaram a destruir o país, para deixar seus
patrões satisfeitos.
Por que essas pessoas manifestam uma hostilidade tão violenta contra
você e seu governo? Há alguma coisa de histeria sobre as
posições adotadas pela, assim chamada, "Convergência
Democrática", e mais tarde pelo Grupo dos 184 e por pessoas como
Evans Paul, Gérard Pierre- Charles e outros. Eles recusam qualquer tipo
de compromisso, eles insistem sobre todo tipo de condições
irracionais antes mesmo de considerar em tomar parte num segundo turno de
eleições. Os próprios americanos pareciam exasperados com
a atitude deles, mas não fizeram nenhum esforço concreto para
chamá-los à ordem.
Eles não fizeram nenhum esforço para convocá-los à
ordem porque isso fazia parte do plano. É um pouco como o que
está acontecendo agora [em julho de 2006] com Yvon Neptune: os
americanos têm derramado lágrimas de crocodilo sobre o pobre
Neptune encarcerado, como se eles não tivessem sido cúmplices nem
responsáveis pela sua prisão. Como se eles não tivessem o
poder de mudar a situação de uma hora para outra! Eles têm
o poder de desestabilizar e derrubar um governo democraticamente eleito, mas
eles não têm poder para libertar três ou quatro prisioneiros
que eles mesmos colocaram na prisão[risos]! Naturalmente, eles têm
que respeitar a lei, os procedimentos rigorosos, a integridade das
instituições haitianas! Isso é tudo um blefe. É um
absurdo.
Por que o Grupo dos 184 e nossos adversários da "sociedade
civil" eram tão hostis? Novamente, isso é, em parte, uma
questão de patologia social. Quando um grupo de cidadãos
está pronto para agir de uma forma tão irracional e servil,
quando eles estão de tal modo propensos a difundir a mensagem preparada
por seus senhores estrangeiros sem ao menos se darem conta de que agindo assim
estão prejudicando a eles mesmos bom, se você quer saber o
que penso, isto é sintoma de uma verdadeira patologia. Isto tem
relação com um ódio visceral que se torna uma verdadeira
obsessão: um ódio contra o povo. Não foi nunca realmente
contra mim. Não tem nada a ver comigo como indivíduo.
Eles detestam e desprezam o povo. Eles recusam-se absolutamente a reconhecer
que somos todos iguais, que todos os homens são iguais. Assim, se
explica em parte por isso: eles querem assegurar-se de que são
diferentes, não são como o povo, não como eles. É
essencial que eles se considerem superiores aos outros. Acho que isso é
uma parte do problema, e não se trata simplesmente de um problema
político. Há alguma coisa de masoquista nesse comportamento e o
que inúmeros sádicos estrangeiros mais desejam, acima de tudo,
é que suas ordens sejam obedecidas!
Eu estou convencido de que isso tem relação com a herança
da escravidão, uma herança do desprezo pelo povo, pelas pessoas
simples, pelos negros
[petits nègres]...
É a psicologia do apartheid: melhor cair de joelhos aos homens brancos
do que ficar ombro a ombro com os negros. Não subestime a profundidade
desse desprezo. Não se esqueça que, voltando a 1991, uma das
primeiras coisas que fizemos foi abolir, nas certidões de nascimento, a
classificação de "camponês" [paysans] a pessoas
nascidas fora de Porto Príncipe. Esse gênero de
classificação, e toda espécie de coisas da mesma ordem,
servia para manter-se um sistema de rígida exclusão. Servia para
manter o povo à distancia, de tratá-los como "moun
andeyò" [em créole] - pessoas de fora, clandestinas. Isso
é o que quero dizer com mentalidade do apartheid, e isso corre muito
fundo. Isso não muda da noite para o dia.
E quanto à sua própria disposição de trabalhar
juntamente com pessoas comprometidas com o passado, por exemplo, a
inclusão de antigos duvallieristas em seu segundo governo? Foi uma
decisão fácil de tomar? Foi necessária?
Não, não foi fácil, mas eu a vi como um mal
necessário. Trazer Marc Bazin, por exemplo. Ele foi ministro das
finanças de Jean-Claude Duvalier. Eu só me voltei para Bazin
porque meus oponentes da Convergência Democrática, da OPL, e
outros, recusaram-se a participar do governo.
Você estava sob pressão para formar um governo de consenso, de
unidade nacional, e convocou pessoas da Convergência primeiro?
Sim, e não consegui nada. O objetivo deles era bloquear todo o processo,
e disseram "não" imediatamente. Veja, claro que nós
tínhamos uma massiva maioria no parlamento, e eu não estava
preparado para dissolver um parlamento formalmente eleito. Para quê? Mas
eu estava ciente do perigo de simplesmente excluir a oposição.
Queria formar um governo democrático. Decidi fazê-lo o mais
inclusivo que pude, dadas as circunstâncias. Já que a
Convergência não queria participar, convidei pessoas de setores
que tinham pouca ou nenhuma representação no parlamento a ter voz
na administração, a ocupar algum ministério visando manter
um equilíbrio entre os setores legislativo e o executivo do governo.
Isso deve ter sido muito controverso. Bazin não somente trabalhou com
Duvalier como também foi seu adversário em 1990.
Sim, foi controverso, mas eu não tomei essa decisão sozinho.
Nós tivemos longas discussões, promovemos encontros, procurando
um entendimento. Alguns eram a favor, outros, contra. No final, havia uma
maioria de acordo com o fato de que nós não poderíamos
trabalhar sozinhos, que nós precisávamos demonstrar nossa vontade
e capacidade de trabalhar com pessoa que claramente não eram
pró-Lavalas. Eles não eram pró-Lavalas, mas nós
já tínhamos publicado um bem definido programa político e
se eles estavam dispostos a cooperar em um assunto ou outro, então,
estávamos dispostos a trabalhar com eles.
Isso é irônico: você é frequentemente acusado de ser
um presidente "monárquico", quando não, tirânico,
de ser intolerante em relação à dissidência, de
estar determinado a impor sua vontade... Mas o que você diz daqueles que
argumentam ao contrário, que o problema real foi justamente o oposto,
que você foi muito tolerante com a dissidência? Você permitiu
aos antigos soldados convocarem aberta e repetidamente à
reconstituição do exército. Você permitiu aos
auto-proclamados líderes da "sociedade civil" fazerem todo o
possível para dissolver seu governo. Você permitiu a
estações de rádio sustentarem uma campanha feroz de
desinformação. Você permitiu toda sorte de
manifestações que pediam sua deposição por meios
legais ou abomináveis, e muitas dessas demonstrações foram
diretamente financiadas e organizadas por seus inimigos nos EUA. Ao final, a
situação saiu do controle e as pessoas que buscavam tirar
proveito do caos não estavam certamente motivadas para o respeito do
direito à liberdade de expressão!
Bem, isso é uma exigência da democracia. Ou você permite a
livre expressão de opiniões diversas ou não. Se as pessoas
não são livres para demonstrar e dar voz às suas
reivindicações, não há democracia. Eu sabia que
nossa posição era forte no parlamento e que a grande maioria do
povo estava do nosso lado. Uma pequena minoria opunha-se a nós, uma
pequena mas poderosa minoria. Suas conexões com o estrangeiro, seus
interesses comerciais e outros, tornavam-nos poderosos. Entretanto, eles tinham
o direito de protestar, de articular suas reivindicações, como
qualquer um. Isso é normal.
Quanto às acusações de que eu estava me tornando ditador,
autoritário, e assim por diante, não dei ouvidos a isso. Eu sabia
que eles estavam mentindo, e eu sabia que eles sabiam que estavam mentindo.
Isso era, obviamente, uma estratégia previsível: ajudar a criar
uma imagem que eles poderiam vender mundo afora. Em casa, no entanto, todos
sabiam que isso era ridículo e, no final, como eu disse antes, foram os
senhores estrangeiros, eles mesmos, que vieram ao Haiti para terminar o
serviço. Meu governo seguramente não foi derrubado pelo povo que
fazia manifestações nas ruas.
Talvez a acusação mais grave e frequente feita contra você
pelos manifestantes e repetida por seus críticos mundo afora, é
que você recorreu à violência para permanecer no poder.
À medida que a pressão sobre seu governo aumentou, você
teria começado a se apoiar em gangues armadas das favelas, chamados de
"chimères", e que você os teria usado para intimidar e,
em alguns casos, assassinar seus oponentes.
Aqui, novamente, as pessoas que fazem essas acusações
estão mentindo e eu penso que elas sabem que estão mentindo.
Assim que você começa a olhar racionalmente sobre o que realmente
aconteceu, essas acusações estão longe de sustentar-se.
Muitas coisas devem ser levadas em conta. Para começar, a polícia
trabalhava sob um boicote por vários anos. Nós não
conseguíamos nem comprar coletes à prova de bala ou bombas de
gás lacrimogênico. A polícia estava muito mal equipada e
era frequentemente incapaz de controlar uma manifestação ou uma
confrontação. Alguns de nossos oponentes, alguns dos
manifestantes, que buscavam provocar confrontos violentos, sabiam disso muito
bem.
O povo também estava ciente disso. Era de conhecimento público
que enquanto no Haiti estava esgotando a munição e os suprimentos
da polícia, pesado armamento estava sendo repassado para nossos
oponentes em contrabando através da República Dominicana. O povo
sabia disso, compreendia e se inquietava. Eles começaram a ficar
nervosos, com razão. As provocações aumentaram e
aconteceram atos isolados de violência. Essa violência era
justificada? Não, eu a condenei. Eu a condenei veementemente. Mas com os
meios limitados de que dispúnhamos, como poderíamos prevenir cada
foco de violência? Havia muito de provocação, muito de
cólera, e não havia meio algum de fazermos com que cada
cidadão recusasse a violência. O presidente de um país como
o Haiti não pode ser responsabilizado pelos atos de cada cidadão.
Mas nunca houve qualquer ato deliberado de encorajamento à
violência, nunca houve uso deliberado de violência.
Aqueles que fazem e repetem essas acusações estão mentindo
e eles sabem disso. No que diz respeito aos "chimères", isso
é claramente uma outra expressão de nossa mentalidade de
apartheid, a própria palavra diz tudo: "chimères"
são pessoas pobres, que vivem em estado de profunda insegurança e
desemprego crônico. Eles são as vítimas da injustiça
estrutural, da violência social sistemática, e estão entre
as pessoas que votaram nesse governo, que apreciavam o que o governo estava
fazendo ou tinha feito, apesar do embargo. Não surpreende que essas
pessoas iriam se confrontar com os que sempre se beneficiaram dessa mesma
violência social, assim que eles começaram ativamente a sabotar
seu governo. Mais uma vez, isso não justifica atos de violência
ocasionais, mas de quem é responsabilidade real? Quem são as
verdadeiras vítimas da violência aqui? Quantos membros da elite,
quantos membros dos numerosos partidos da oposição foram mortos
pelos "chimères"? Quantos? Quem são eles?
Enquanto isso, todos sabem que alguns dos poderosos interesses econômicos
foram muito felizes em financiar gangues de criminosos, todos sabem que eles
colocaram armamento pesado nas mãos de marginais, em Cité Soleil
e em todo lugar, na intenção de provocar desordem, criar
rejeição e jogar a culpa sobre Fanmi Lavalas. Estas mesmas
pessoas também pagavam a jornalistas para apresentarem a
situação de um determinado ponto de vista. Entre outras coisas,
prometiam-lhes visto recentemente, alguns deles que estão agora
vivendo na França, admitiram o que foram levados a dizer para poder
receber o visto. Assim, você tem pessoas que estavam financiando a
desinformação, por um lado, e a desestabilização,
por outro, estimulando pequenos grupos de bandidos a semear pânico nas
ruas, para criar a impressão de que o governo perdeu o controle da
situação.
Como se isso não fosse suficiente, ao invés de permitir que a
munição para a polícia chegasse ao Haiti, ao invés
de enviar armas e equipamentos para fortalecer o governo haitiano, os
americanos enviavam a seus representantes na República Dominicana. Basta
você somente ver quem são essas pessoas gente como Jodel
Chamblain, que é um criminoso reconhecidamente condenado pela
justiça que escapou da prisão para ser bem acolhido pelos EUA,
que em seguida armou e financiou esses "combatentes pela liberdade"
que esperavam na fronteira com República Dominicana. Isso foi o que
realmente aconteceu. Nós não armamos os
"chimères", os EUA armaram Chamblain e Philippe. A hipocrisia
é extraordinária. Em seguida, quando o período 2004-2006
chegou, todo esse indignado vozerio contra a violência morreu. Como se
nada tivesse acontecido. Pessoas estavam sendo enfiadas em containeres e
jogadas ao mar. Isso não quer dizer nada. Os inumeráveis ataques
a Cité Soleil, eles não significam nada. E eu poderia continuar
por muito tempo. Milhares têm morrido. Mas eles não contam, porque
não são mais que "chimères", acima de tudo.
E quanto a pessoas de sua equipe como Dany Toussaint, seu antigo chefe de
segurança, que foi acusado de toda espécie de violência e
intimidação?
Ele estava trabalhando para os outros. Isso está claro. Desde o
início. E nós fomos enganados. Eu lamento muito isso. Mas
não era difícil para os americanos ou seus representantes
infiltrar-se no governo, infiltrar-se na polícia. Nós não
estávamos em condições de fornecer à polícia
os equipamentos que eles precisavam. Nós podíamos apenas
pagar-lhes um salário adequado. Era fácil para nossos oponentes
"resolver" o problema, corromper alguns policiais, infiltrar-se em
nossa organização. Isto era incrivelmente difícil de
controlar. Nós estávamos verdadeiramente cercados. Eu estava
rodeado de pessoas que, de um jeito ou de outro, eram pagas por potências
estrangeiras que trabalhavam ativamente para derrubar o governo. Um amigo disse
então, diante da situação: "Agora entendo porque
você acredita em Deus, pois de outro modo não posso entender como
você pode ainda estar vivo, em meio a isso tudo."
Eu suponho que mesmo seus inimigos sabiam que não havia nada a ganhar se
você se tornasse um mártir.
Sim, eles sabiam que uma mistura de desinformação e
difamação seria mais efetivo, mais devastador. Eu estou,
seguramente, acostumado a isso [risos].
Como posso saber mais sobre o papel de Dany Toussaint em tudo isso? Ele
não estava disposto a falar comigo quando estive em Porto
Príncipe há dois meses atrás. É intrigante que
pessoas que estavam clamando por sua prisão enquanto você estava
ainda no poder ficaram subitamente muito contentes em deixar Dany Toussanint em
paz, assim que ele tomou posição abertamente contra você
(em dezembro de 2003) e assim que eles mesmos assumiram o poder. Mas você
pode provar que ele trabalhava para ou com eles desde o início?
Não será fácil provar, admito. Mas, se você procurar
bem para descobrir as evidências, acredito que as encontrará. Com
o tempo, coisas que estavam então escondidas e obscuras tendem a vir
à luz. No Haiti há muitos rumores e contra-rumores, mas
finalmente a verdade deverá aparecer. Há um provérbio
créole que diz "twou manti pa fon": mentiras não
vão muito longe, cedo ou tarde a verdade aparecerá. Há
muitas coisas que estavam acontecendo naquela época que só
recentemente estão começando a vir à luz.
Você quer dizer coisas como as admissões públicas finais
feitas nos últimos anos pelos líderes rebeldes Remissainthe Ravix
e Guy Philippe, sobre a amplidão e a longa duração de sua
colaboração com a Convergência Democrática, com os
americanos?
Exatamente.
Nessa mesma linha, o que você diz a grupos de militantes de esquerda como
Batay Ouvriye, que afirmam ter seu governo falhado em ajudar os pobres, que
você não fez nada pelos trabalhadores? Apesar de eles não
parecerem ter nada em comum com a Convergência, fizeram e fazem o mesmo
tipo de acusações contra Fanmi Lavalas.
Eu acredito que há várias explicações
possíveis, apesar de não ter certeza. Primeiro é preciso
ver de onde vêm seus recursos. O discurso faz mais sentido assim que se
saiba quem está pagando a conta. Os americanos não escolhem por
acaso os grupos políticos que vão financiar.
[*]
Muito menos sindicalistas quase trotskistas...
Certamente não. E, de novo, acho que em grande parte a razão
remonta ao que eu disse antes, que em algum lugar, de certa maneira, existe uma
pequena e secreta satisfação, talvez uma satisfação
inconsciente, em dizer coisas que poderosas pessoas brancas querem que sejam
ditas. Mesmo aqui, penso que acontece um pouco como no caso anterior:
"Sim, somos operários, somos camponeses, lutamos em nome dos
trabalhadores, mas em algum lugar há uma pequena parte de nós que
gostaria de escapar à nossa classe mental, o estado de espírito
de nossa classe, para saltar a outra classe mental". Eu sinto que é
alguma coisa como isso que se passa. No Haiti o desprezo pelo povo tem
raízes profundas. Em minha experiência, a resistência
à nossa reivindicação por igualdade, por estarmos junto
com o povo, remonta a muito longe, certamente. Mesmo quando se trata de coisas
triviais...
Como, convidar para sua piscina crianças dos bairros pobres?
É verdade. Você não pode imaginar as reações
que aquilo provocou. Foi um grande escândalo: as piscinas são
supostamente reservadas aos ricos. Em fevereiro último [2006]**, quando
vi as fotografias das pessoas nadando na piscina do Hotel Montana, eu ri
[risos]. Eu pensei "Isso é formidável!". Eu pensei
"Ah, agora posso morrer em paz!" Foi muito bom de se ver, porque
naquela época, quando as crianças vieram nadar em nossa piscina
de Tabarre, muita gente disse: "Olhem, ele está abrindo as portas
de sua casa aos miseráveis, ele está pondo idéias em suas
cabeças. Primeiro eles vão pedir para nadar em sua piscina; logo
vão querer um lugar em nossas casas." E eu disse "Não,
é justamente o oposto". Eu não tinha nenhum interesse por
aquela piscina. Eu quase nunca a usei. O que me interessava era a mensagem. As
crianças dos bairros mais pobres não teriam normalmente nenhuma
chance de ver uma piscina, quanto mais de nadar em uma. Muitas invejam os
ricos. Mas depois de ter nadado numa piscina, depois que elas se dão
conta de que é apenas uma piscina, elas concluem que isso não
importa muito, o ressentimento se evapora.
Aquele dia, em fevereiro, uma enorme multidão de milhares de pessoas
veio das favelas para comparecer ao CEP (que tinha por base o Hotel Montana).
Eles apresentaram suas reivindicações [que seu voto fosse
respeitado]. Depois, centenas deles foram nadar na piscina do hotel e
saíram, sem mexer em nada, nenhum estrago, nenhum furto, estavam
só marcando presença.
Exatamente. É uma maravilha de se ver aquelas fotos.
Vamos voltar agora ao que aconteceu em fevereiro de 2004. Sei que você
tem sido perguntado frequentemente sobre isso, mas há versões
muito diferentes sobre o que aconteceu nos dias precedentes à sua
expulsão do país. Os americanos insistem que, tarde da noite,
você procurou-os para pedir ajuda, que você subitamente entrou em
pânico, que eles estavam surpresos com o acelerado colapso de seu
governo. Isso não parece muito consistente com outros fatos. Os rebeldes
bem armados de Guy Philippe foram capazes de desarmar algumas delegacias de
polícia e pareciam controlar quase toda as regiões norte e oeste
do país. Mas que apoio que eles realmente tinham? E havia seguramente
pouca chance de eles tomarem a capital em face das muitas milhares de pessoas
que estavam prontas para defendê-la?
Não esqueça que já tinha havido várias tentativas
recentes de golpe, um julho de 2001, com um ataque à academia de
polícia, antiga academia militar, e, novamente, poucos dias antes, em
dezembro de 2001, com uma incursão no próprio palácio
presidencial. Eles não tiveram sucesso e nas duas ocasiões os
rebeldes foram forçados a deixar a cidade. Eles só tiveram
sucesso em fugir. Não foi só a polícia que os enfrentou,
foi uma coligação entre polícia e povo. Assim, os rebeldes
sabiam que o povo se levantaria contra eles, sabiam que não seria
fácil. Eles sabiam que poderiam conseguir abrir caminho na cidade, mas
que não seria fácil permanecer lá.
Foi um pouco como a coisa ficou no Iraque: os americanos tinham os armamentos
para abrir caminho facilmente, mas permanecer lá provou ser mais que um
desafio. Os rebeldes sabiam que não podiam tomar Porto Príncipe,
e foi por isso que eles hesitaram um momento, nos arredores da cidade, a uns 40
quilômetros de distância. Então, do nosso ponto de vista,
não havia nada que devêssemos temer. O balanço de
forças estava a nosso favor, isto estava claro. Há
ocasiões em que pessoas em grande número são mais
poderosas que pesadas metralhadoras e armas automáticas.
E Porto Príncipe, uma cidade onde há numerosos interesses
nacionais e internacionais, é diferente de zonas mais isoladas como
Saint-Marc ou Gonaives. O povo estava preparado e eu não me preocupava.
Os rebeldes sabiam que não podiam tomar a cidade e por isso seus
mentores decidiram, ao invés de fazer um incursão, atacar as
províncias, visando criar a ilusão de que boa parte do
país estava sob seu controle, de que havia uma grande
insurreição a caminho. Mas esse não era o caso. Não
havia uma grande insurreição: havia um pequeno grupo de soldados,
pesadamente armados, que foram capazes de tomar algumas delegacias de
polícia, matar alguns policiais, e criar certo tumulto. Os policiais
estavam com a munição se esgotando, e não eram
páreo para os M16 dos rebeldes. Mas a cidade, isto era outra
história.
Enquanto isso, como você sabe, em 29 de fevereiro deveria chegar a Porto
Príncipe uma carga de munição para a polícia, que
nós tínhamos comprado da África do Sul, tudo perfeitamente
legal. Esse fato foi decisivo. O balanço de forças já
não estava a favor dos rebeldes. Se a polícia recuperasse toda
sua capacidade operacional, então os rebeldes não teriam chance
alguma.
Então, a partir desse ponto os americanos não tiveram outra
opção a não ser eles mesmos irem pegar você na noite
de 28 de fevereiro?
Isso mesmo. Eles sabiam que a qualquer hora iriam perder a oportunidade de
"resolver" a situação. Eles se apegaram a essa
opção enquanto ainda era possível, e nos embarcaram num
avião no meio da noite. Foi isso o que eles fizeram.
Os americanos Embaixador Foley, Luis Moreno e companhia insistem
no fato de que você pediu a ajuda deles, que eles tiveram que arranjar um
vôo para colocá-lo em segurança no último minuto.
Vários jornalistas estavam prontos para endossar a versão deles.
Por outro lado, um dos guardas de segurança que estava no mesmo
avião, falando em condições de anonimato, disse ao
Washington Post, logo após o evento, que a versão dos EUA era
"pura mentira". Seu chefe de segurança pessoal, Frantz
Gabriel, confirmou também que você foi raptado aquela noite pelos
próprios militares americanos. Em quem devemos acreditar?
Bem, para mim é muito simples. Você está lidando com um
país que estava disposto e pronto para, diante das Nações
Unidas e do mundo inteiro, fabricar alegações sobre a
existência de armas de destruição em massa no Iraque. Eles
estavam prontos para mentir sobre questões de importância global.
Não surpreenderia que eles fossem capazes de pegar um punhado de pessoas
para dizer as coisas que precisavam ser ditas no Haiti, num pequeno país
sem grande importância estratégica. Eles tinham seu pessoal, seus
recursos, seu modo de fazer as coisas. Eles apenas executaram o plano. Isso
é tudo. Foi tudo parte do plano.
Eles disseram que não podiam enviar os soldados da Força da Paz
para ajudar a estabilizar a situação, mas, assim que você
saiu, as tropas chegaram rapidinho.
O plano estava perfeitamente claro.
Eu tenho ainda duas últimas questões. Em agosto e em setembro de
2005. No correr das eleições que se deram, finalmente, em
fevereiro de 2006, havia muita discussão no Fanmi Lavalas sobre como
deveriam proceder. No final, a maioria dos militantes da base apoiou seu
antigo companheiro, seu "irmão gêmeo" René
Préval, mas alguns membros da direção do partido optaram
por se apresentarem como candidatos eles mesmos; outros estavam mesmo prontos
para apoiar a candidatura de Marc Bazin. Foi uma situação
confusa, uma situação que levou grande pressão sobre a
organização, mas você manteve-se em silêncio.
Em uma ditadura, as ordens vêm de cima para baixo. Numa
organização democrática, o processo é mais
dialético. Os pequenos grupos ou células que nós chamamos
os "ti fanmis", são parte do Fanmi Lavalas, eles discutem,
debatem, expressam-se, até que uma decisão coletiva
apareça dessa discussão. É assim que a
organização funciona. Obviamente nossos opositores irão
sempre clamar: "Ditadura! Ditadura! É Aristide que está
dando as ordens". Mas as pessoas que são próximas da
organização sabem que essa não é nossa
prática. Nós não temos nenhum histórico de
situação em que alguém vem e dá ordens sem
discussão.
Eu lembro que quando tivemos que escolher os futuros candidatos do Fanmi
Lavalas às eleições, em 1999, as discussões na
fundação [a Fundação Aristide para a Democracia]
frequentemente prolongavam-se noite à dentro. Delegações
vinham de toda parte do país, e membros dos núcleos de base
argumentavam a favor ou contra. Frequentemente não era fácil
chegar a um acordo, mas era assim que o processo funcionava. Então,
quando chegou o momento de decidir sobre o novo candidato à
presidência, no ano passado [2005], eu estava confiante de que as
discussões iriam se dar do mesmo modo, ainda que naquele estágio
muitos membros da organização houvessem sido mortos e muitos mais
estavam desaparecidos, no exílio, ou na prisão. Eu não fiz
nenhuma declaração, de um jeito ou de outro, sobre o que eles
deveriam fazer ou a quem apoiar. Eu sabia que eles tomariam a decisão
certa do seu próprio jeito. Muitas coisas que eu decidi, enquanto
presidente, foram, na verdade, decididas desse modo: a decisão
não partia de mim, e, sim, deles. Foi com essas palavras que eu falei.
As decisões que nós tomamos emergiram através de um
processo genuinamente coletivo. As pessoas são inteligentes e sua
inteligência frequentemente surpreende.
Eu sabia que os senadores do Fanmi Lavalas que decidiram apoiar Bazin logo
iriam confrontar-se com a verdade, mas eu não sabia quando isso iria
acontecer, já que a verdadeira decisão vinha do povo, da base, e
não do alto. Ninguém poderia prever isso, a alguns meses de
antecedência. Nunca duvide da inteligência do povo, seu poder de
discernimento. Eu dei uma ordem para apoiar Bazin ou oporem-se a Bazin?
Não, eu não dei ordem alguma, qualquer que seja. Eu confiei na
adesão para chegar à verdade. É claro que a
organização é guiada por certos princípios, e eu
chamei a atenção para alguns deles, então. Na
África do Sul, em 1994, poderia haver eleições justas se
Mandela ainda estivesse na prisão, se Mbeki estivesse ainda no
exílio, se os outros membros da ANC estivessem na clandestinidade? A
situação no Haiti nesses últimos anos é muito
semelhante: não poderia haver eleições justas antes que os
prisioneiros fossem libertados, antes que os exilados fossem autorizados a
voltar, e assim por diante. Eu estava pronto para falar sobre isso, como uma
questão de princípio geral. Mas ir além disso, e declarar
apoio a esse ou aquele candidato, a essa ou aquela linha de ação,
isso não cabe a mim dize-lo.
Como você vê o futuro? O que vai acontecer agora? Pode haver
mudança, de fato, no Haiti, sem que se encare diretamente a
questão de privilégios de classe e poder, sem procurar-se um modo
de superar a resistência da classe dominante?
Devemos enfrentar essas questões, de um jeito ou de outro. A
condição sine qua non para isso é, sem nenhuma
dúvida, a participação do povo. Uma vez que o povo possa
verdadeiramente participar do processo democrático, então seria
capaz de encontrar um meio aceitável de continuar. De qualquer modo, o
processo é irreversível. Ele é irreversível em
nível mental, no nível da consciência do povo. Membros dos
setores pobres da sociedade haitiana agora têm uma experiência em
democracia, de uma consciência coletiva, e eles não
aceitarão mais a imposição de um governo ou um candidato.
Eles demonstraram isso em fevereiro de 2006, e eu sei que eles
continuarão a demonstrá-lo. Eles não aceitarão a
mentira no lugar da verdade, como se fossem tão estúpidos para
não perceber a verdade entre os dois.
Tudo recai, no final, no princípio que todo "moun se moun"
cada pessoa é uma pessoa, cada pessoa é capaz de pensar
por si mesma, quer você aceite isso ou não. Aqueles que não
aceitam isso, quando olham para os negros do Haiti consciente ou
inconscientemente, é isso que eles vêem: vêem pessoas que
são muito pobres, muito grosseiras, muito ignorantes, para pensarem por
si sós. Eles vêem pessoas que precisam de outros para tomar
decisões sobre elas. É uma mentalidade colonial, de fato, e essa
mentalidade está ainda muito disseminada em nossa classe
política. Isto é também uma projeção: eles
projetam sobre o povo os sentimentos de sua própria fraqueza, sua
própria desigualdade sob os olhos do senhor.
Então, sim, para mim, há um caminho à frente, e ele tem
que passar pelo caminho do povo. Mesmo que não tenhamos ainda
instituições e estruturas democráticas viáveis,
já existe uma consciência democrática coletiva, e isso
é irreversível. Fevereiro de 2006 mostra o quanto já
conquistamos, mostra em que ponto estamos na via da democracia, mesmo depois do
golpe, mesmo depois de dois anos de violência feroz e repressão.
O que permanece incerto é o tempo que isso irá demorar.
Nós podemos avançar rapidamente se, através de
mobilizações, o povo encontre interlocutores dispostos a escutar,
a dialogar com eles. Se não encontrá-los, isso vai levar mais
tempo. De 1992 a 1994, por exemplo, havia pessoas do governo americano que
estavam dispostos a ouvir, pelo menos um pouco, e isso ajudou a fazer
avançar o processo democrático. Depois de 2000, nós
tivemos que negociar com um governo americano diametralmente oposto ao
predecessor, e tudo se arrastou demoradamente, ou passou a retroceder. A
questão é quanto tempo vai demorar. O problema real não
é somente haitiano, ele não se encontra dentro do Haiti. É
um problema para o Haiti que é localizado fora do Haiti! As pessoas que
controlam isso podem acelerar as coisas, segurá-las, ou
bloqueá-las completamente, como quiserem.
Mas o processo em si, o processo democrático no Haiti, continuará
de uma maneira ou de outra. Ele é irreversível. É assim
que eu entendo a questão. Quanto ao que vai se passar agora ou daqui
para frente, isso está incerto. As variáveis desconhecidas que eu
mencionei antes continuam fortes, e muito depende de como irão reagir
aqueles que controlam os meios de repressão, em casa ou no estrangeiro.
Nós ainda precisamos desenvolver novos meios de reduzir e,
possivelmente, eliminar nossa dependência em relação
às potências estrangeiras.
Qual seu próximo passo pessoal? Eu sei que você ainda espera
retornar ao Haiti o mais cedo possível. Há algum progresso nesse
sentido? Quais são suas próprias prioridades agora?
Sim, de fato: a última declaração de Thabo Mbeki sobre
isso data de fevereiro [de 2006]. Ele disse que não via qualquer
razão particular pela qual eu não pudesse voltar para casa, e
isso permanece assim. É claro que se trata também de avaliar o
momento mais oportuno, a segurança e a estabilidade da
situação. O governo da África do Sul nos acolheu como
convidados, e não como exilados. Por ajudar-nos tão generosamente
eles dão sua contribuição à paz e estabilidade no
Haiti. E uma vez que as condições sejam favoráveis,
nós voltaremos. Assim que René Préval julgar que é
o momento oportuno, voltarei. E eu estou pronto para voltar amanhã.
Pelos olhos dos seus adversários você representa ainda uma grande
ameaça política?
Criminosos como Chamblaim e Philippe estão livres para patrulhar as
ruas, ainda agora, mas eu devo permanecer no exílio porque alguns
membros da elite acham que represento uma grande ameaça? Quem é a
verdadeira ameaça? Quem é culpado e quem é inocente?
Repetindo, ou nós vivemos numa democracia ou não.
Estaríamos nós respeitando a lei ou não. Não
há justificativa legal para bloquearem meu retorno. Isso é quase
cômico: eu fui eleito presidente, mas fui acusado de ditador por pessoas
anônimas que não representam ninguém e, no entanto,
têm o poder de me expulsar do país e de retardar ou bloquear meu
retorno [risos]. Em todo caso, assim que eu possa retornar o medo dessas
pessoas irá evaporar-se como a neblina, pois não tem
consistência. Elas não têm mais consistência que
tinham as ameaças de ação legal contra mim, as quais foram
finalmente abandonadas semana passada, assim que até mesmo os advogados
americanos encarregados de processar o caso deram-se conta que a coisa toda era
vazia, que não havia nada ali.
Você não tem algum plano futuro de desempenhar algum tipo de papel
na política?
Frequentemente me colocam essa questão, e minha resposta permanece a
mesma. Para mim é bastante claro. Há diferentes modos de servir
ao povo. Participar da política do estado não é a
única maneira. Antes de 1999 eu servia ao povo, do lado de fora das
estruturas do estado. Minha primeira vocação era o ensino, uma
vocação que eu nunca abandonei, eu ainda tenho um compromisso com
ela. Uma das grandes realizações de nossa segunda
administração foi a construção da Universidade de
Tabarre, que foi construída inteiramente sob embargo, mas que, em
infra-estrutura, tornou-se a maior universidade do Haiti (depois de 2004 ela
foi ocupada pelas tropas estrangeiras).
Eu adoraria voltar a lecionar, eu pretendo permanecer ativo em
educação. No que concerne à política, eu nunca tive
qualquer interesse em tornar-me um líder político
"vitalício". Isso foi Duvalier: presidente vitalício.
De fato, é assim que a maior parte dos partidos políticos no
Haiti ainda funciona: eles servem aos interesses de um indivíduo
particular, de um pequeno grupo de amigos. Frequentemente não passa de
meia dúzia de pessoas agrupadas em torno de seu chefe vitalício.
Não é assim que uma organização política
deveria funcionar. Uma organização política é
composta de seus membros, ela não é o instrumento de um só
homem. É claro que eu gostaria de ajudar a fortalecer a
organização. Se eu puder ajudar na formação de seus
membros, se eu puder acompanhar a organização em seu
desenvolvimento, então eu ficaria contente em servi-la. Fanmi Lavalas
necessita ter mais disciplina interna; o processo democrático precisa de
partidos políticos funcionando corretamente, partidos no plural. Assim,
eu não dominarei ou dirigirei o partido, isso não é meu
papel, mas vou contribuir no que puder.
Depois de todos esses longos anos de luta e depois dos acontecimentos dos
últimos anos, qual seu balanço geral sobre a
situação? Você está desanimado? Otimista?
Eu não estou desanimado. Você é professor de filosofia,
então me permita formular minha resposta em termos filosóficos.
Você sabe que nós podemos pensar as categorias do ser, seja em
termos de potencial, seja em termos de ação, em potência ou
em ato. Essa é uma distinção aristotélica familiar:
o ser pode ser potencial ou atual. Enquanto permanecer potencial, você
não pode tocá-lo, confirmá-lo. Mas é, portanto,
existe. A consciência coletiva do povo haitiano, sua
mobilização para a democracia, essas coisas podem não ter
sido ainda inteiramente atualizadas, mas elas existem, elas são reais.
Isso é o que me sustenta. Eu sou sustentado por esse potencial coletivo,
a potência desse ser potencial coletivo [ser coletivo em potência].
Esse poder não tem sido ainda atualizado, ele não tem sido ainda
efetivado na construção de escolas suficientes, de mais
hospitais, de mais oportunidades, mas essas coisas virão. O poder
é real. É o que anima a caminhada em frente.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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