Porquê o Sudão?

por Karen Kwiatkowski [*]

. Agora, já sabemos o suficiente sobre a administração Bush, seus predecessores e, infelizmente, seus sucessores. Resumamos.

  • O petróleo é importante para Washington.
  • Influir na produção do petróleo é importante para Houston, Nova-York e Washington.
  • É preciso manter, a qualquer preço, a ilusão de segurança financeira no plano internacional.
  • O culto sagrado da Reserva Federal e o interesse obsessivo e fetichista que o mercado tem na saúde física e mental de Alan Greenspan são “positivos”.
  • A propaganda, na era da informação, funciona ainda melhor que antes. Antes da televisão e da internet, as pessoas tinham tendência para crer no que viam com os seus próprios olhos e confiavam na sua própria experiência. Nos nossos dias, consumimos, sem verificar, enormes quantidades de desinformação “governamental” ou outra.
  • O americano gosta de ser um bom tipo, que age “por uma boa causa”.

    Tendo estas regras como referência é possível explicar a Bósnia, o Kosovo, o Afeganistão, o Iraque, o neoconservadorismo, uma boa parte da esquerda americana e, naturalmente, o Sudão e a recente resolução da Câmara: Declaração de um genocídio em Darfour, Sudão .

    O Sudão é um país onde, como na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão, no Iraque e em tantos outros, passaram-se e continuam a passar-se todos os dias acontecimentos lastimáveis. Todavia, ser-nos-á mais fácil compreender a questão específica do Sudão se nos referirmos ao que já sabemos.

    Regra nº1: O petróleo é importante. Deitemos uma vista de olhos ao recentíssimo relatório do Departamento de Energia acerca do Sudão ! Publicado precisamente em Julho de 2004, vejam só!

    Regra nº 2: A influência no domínio do petróleo é importante e o país que mais a exerce, é aquele que leva a melhor! E tendo examinado a análise que o Departamento de Energia faz do Sudão, ficamos a saber qual é o governo que trabalha em colaboração próxima com o (mau) governo sudanês desde há anos, concedendo, à sua indústria petrolífera, protecção e investimentos. Sabemos, igualmente, qual é o governo que submeteu o Sudão a sanções, por ser um país “terrorista”. Para facilitar as coisas, chamemos a estes dois governos, assim, ao acaso, China e Estados-Unidos. Além disso, que diabo, no ano passado, esses malditos franceses aceitaram participar num enorme projecto energético no Sudão. Se este cenário começa a parecer-vos vagamente familiar, bem-vindos ao documento 101 da moderna política externa americana!

    Regra nº 3: As ilusões de segurança financeira são sacrossantas. Não há problemas em incluir o genocídio sudanês no “problema” do Próximo-Oriente e não há problemas em financiar a máquina de guerra. Os soldados alistam-se em massa e já vai para anos que a economia continua a consolidar-se. É só ler as boas notícias!

    Regra nº 4: Lembremo-nos do sistema da Reserva Federal e continuemos a reverenciá-lo. O Sudão é provavelmente importante por causa do petróleo. Mas, se pensarmos nos interesses económicos da China, aos quais vêm juntar-se as regras nº2 e 3, a situação parece um pouco perigosa. Leia-se, outra vez, o relatório de Gary North , de há algumas semanas, para sabermos mais.

    Regra nº 5: A propaganda funciona e, de todas elas, é a do governo que funciona melhor. Os fundadores da nação tinham razão ao desconfiar das alianças incómodas com o estrangeiro, pelo facto de um número importante de americanos influentes estarem já ligados por essas alianças. Os americanos, em particular os membros da classe dos eleitores, tinham uma experiência pessoal dos países europeus e mantinham com eles poderosos laços culturais, comerciais e familiares. Receava-se que quem tivesse uma experiência pessoal e fortes interesses no ultramar obrigasse Washington a tomar decisões pouco razoáveis em matéria de política externa. 230 anos mais tarde, o problema deu origem a metástases. No nosso caldo de cultura de Washington, que ninguém vigia, a política externa americana é cozinhada e servida de forma criativa por pessoas movidas por interesses específicos, ideológicos e económicos, muitas vezes de natureza estritamente privada e, muitas vezes, completamente contrários aos interesses americanos. As corporações instalaram-se no interior das assessorias e devoram a casa como pequenas térmitas incansáveis. Ao fazerem isso, produzem enormes quantidades de políticas externas, do género de invasões preventivas, assim como leis que regem o globo, que nós promulgamos, quando somos os únicos a poder libertarmo-nos. Assim é muito mais cómodo.

    Na ausência de uma oposição popular à agenda corporativista de Washington, aceitamos a política externa americana, como se fosse uma espécie de viagra nacional. Ninguém sente necessidade de compreender os temas sensíveis, de melhorar a qualidade dos intercâmbios ou de examinar, com honestidade, os resultados do passado e as lições que daí se podem tirar. Tudo o que há a fazer é engolir uma pílula, de cada vez que nos ingerimos nos assuntos de um governo estrangeiro, como Washington recomenda.

    Regra nº 6: O americano gosta de ser um bom tipo, que age “por uma boa causa”. A regra nº 6 e a regra nº 5 vão muito bem a par e é o que nos permite raciocinar como o temos vindo a fazer, desde há muito. Pelo facto de nenhum americano não se recordar de ter vivido sob lei marcial americana, de ter sido governado pelo exército, nem de ter assistido a batalhas travadas em território nacional, não há americano que tenha a menor ideia da maneira de como se podem ver e sentir as coisas em tais circunstâncias, nem as realidades deste género de situação. Ficamos muito contentes ao julgar que todas as nossas ocupações e intervenções são “boas acções”, quando os órgãos do governo, os burocratas e os homens políticos nos afirmam isso. Um genocídio acontece no Sudão, no Sul e no Oeste do país, em Darfour, e todos os “bons” americanos sentem o desejo de fazer qualquer coisa, como nos diz a maioria dos representantes da Câmara.

    Sem querer ofender a administração Bush, o genocídio no Sudão (a versão dada pela Câmara dos Representantes, não o seu modelo real ) não poderia ter vindo mais a propósito.

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    [*] Tenente-coronel reformada da Força Aérea americana que, no fim da sua carreira, passou quatro anos e meio no Pentágono. Actualmente vive no Vale de Shenandoah com a sua família e é defensora das liberdades. Duas vezes por semana, no sítio militaryweek.com , assina uma coluna sobre temas de defesa. Seu email é ksusiek@shentel.net .

    O original encontra-se em http://globalresearch.ca/articles/KWI410A.html .
    Tradução de MJS


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
  • 13/Out/04