Uma vitória histórica no Nepal
por Carlos Aznárez
Não é pouca coisa o que aconteceu no Nepal. São anos de
luta guerrilheira, de sacrifícios e resistências no campo de
batalha, de milhares de trabalhadores, camponeses e camponesas massacrados
pelas bombas e pelas balas de uma da piores ditaduras monárquicas da
região, que agora revertem numa vitória popular impecável.
"Estamos surpreendidos", dizem os adoradores do "terrorismo
mediático"; "estamos consternados", sustentam em
Washington aqueles que bebem no discurso ingerencista de George W. Bush, porque
não podem entender como aconteceu aquilo que para eles é uma
hecatombe. Maoismo nestas épocas?, sussurrou, preocupado, a um
jornalista o genocida espanhol Javier Solanas. A resposta foi-lhe dada nas
ruas pelos e pelas nepalenses que com uma tenacidade e uma consciência
blindada não só combateram na guerrilha como também
recordemo-lo desafiaram a polícia e o exército do rei
Gyanendra, e foram encarcerados, golpeados, torturados e até
desaparecidos devido à sua rebeldia, mas nunca cessaram de combater.
Assim, durante anos, na selva e nas montanhas, como guerreiros e guerreiras, e
a seguir em imponentes manifestações que a partir de 2005
inundaram as ruas de Kamandú e outros centros urbanos do país,
exigindo a abdicação do monarca, foi-se gestando a vitória
do presente.
Por isso, não se trata de nenhuma surpresa. Surpreendidos podem estar
os cúmplices internacionais daqueles que afundaram o Nepal não
acreditavam naquilo que há muito tempo era anunciado nos muros das ruas
do Nepal: "A monarquia cairá e governará o povo dirigido
pelo camarada Prachanda". Agora que chegou o momento, são os
mesmos "observadores" europeus e ianques que têm de dar a
"ingrata notícia" às suas diferentes metrópoles.
Para eles, começa um pesadelo que não fora pensado. Para o povo
do Nepal, abre-se um caminho de esperança e construção do
poder popular.
Cabe assinalar que o Nepal é um pequeno país situado entre a
região chinesa do também convulsionado Tibete e o norte da
Índia, com uma superfície total de 140 mil quilómetros
quadrados. Ali vivem aproximadamente 24 milhões de habitantes, a
maioria deles em zonas rurais e em condições de extrema pobreza.
O actual Estado nepalês, criado há dois séculos e comandado
por um punhado de feudais moribundos, adoradores do capitalismo, foi acossado
por muitas contradições irreconciliáveis. Todos os
esforços reformistas para remendar a superestrutura
político-cultural, assim como a base económica, não
puderam conter o deslizamento gradual para o seu colapso total, e dessa cinzas
surgiram os fogos actuais.
O Nepal agora é o segundo país mais pobre do mundo. Como bem
afirmou o PCN(M) em um dos seus apelos ao povo para que se rebelasse nas urnas:
"A desigualdade económica, na qual 10% dos ricos é dona de
46,5% do rendimento nacional, é uma das piores do planeta; 71% da
população vive abaixo do nível de pobreza absoluta; 90%
da população vive no campo em condições primitivas
e 81% trabalha em agricultura primitiva; só 10% da
população tem trabalho e 60% está subempregada; quase um
terço da força laboral viu-se obrigada a ir trabalhar na
Índia e em outros países onde os salários
miseráveis ou incorporaram-se às forças armadas
mercenárias da Índia e da Inglaterra; o domínio
imperialista e de potências expansionistas em todas as esferas
está a aprofundar-se e mais de dois terços do orçamento
para o desenvolvimento depende de empréstimos estrangeiros".
O contraste com esta situação de vida paupérrima é
dado, no Nepal, pela sua belíssima geografia onde se situam os montes
Himalaias e o monumental pico do Everest, tão visitado por
excursões planificadas por sectores da alta burguesia europeia e
não poucos aventureiros juvenis que com as suas mochilas costumam chegar
à maravilhosa Kamandú.
Da luta armada ao triunfo nas urnas
Não são poucas as organizações
político-militares que tentaram percorrer o caminho que hoje parecem
estar a atingir os partidários do maoismo nepalense. Contudo, quase
todos os esforços nesse sentido culminaram em negociações
entre o poder que tentavam derrubar e as forças insurgentes. Aquilo que
marca a diferença neste caso é que enquanto em outras
experiências as guerrilhas encontraram-se frente à impossibilidade
de obter uma vitória militar, neste caso o poderoso exército
popular construído durante anos pelo PCN(M) e sua influência
indiscutível entre o povo pobre (ali está a
recordação das grandes greves contra a monarquia) foi forjando
uma realidade de ferro que nem sequer a pressão internacional a favor da
realeza pôde desconhecer.
Vejamos então quem são os vencedores deste presente nepalense e
de que rincões da história recente do país provem este
reconhecimento concedido pelo povo nas urnas.
O Partido Comunista do Nepal (Maoista) foi fundado em 1949, mas só em
1994 verificou-se o seu relançamento como organização
político-militar maoista liderada por Pushpa Kamal Dahal (mais conhecido
como Camarada Prachanda). Foi formado após uma cisão do Partido
Comunista do Nepal (Centro de Unidade), cuja denominação utilizou
até 13 de Fevereiro de 1996, quando seus seguidores decidiram
levantar-se em armas contra o governo monárquico. Nesse dia, por todo o
território nepalense, ouviu-se o grito de batalha que começou a
guerra popular prolongada: "A rebelião justifica-se".
Nesse momento o Partido estabeleceu inequivocamente, no denominado "Plano
do início histórico da guerra popular", que esta guerra
popular propunha-se construir um Estado de Nova Democracia, para a seguir
"marchar ao socialismo e finalmente ao comunismo, passando por uma
série de revoluções culturais sob a ditadura do
proletariado, e portanto é parte integral e um componente da
revolução proletária mundial". Como manifestou o
líder do PCN(M) num documento de 1996, "esta luta seguirá as
leis objectivas do desenvolvimento da guerra popular por meio das suas
diferentes etapas estratégicas e voltas e revoltas, sem nunca se deter
até que consiga sua meta final: a sociedade sem classes, o comunismo
universal que tão brilhantemente enunciou Mao na sua teoria de continuar
a revolução sob a ditadura do proletariado. Portanto, muitos
mais dos nossos irmãos e irmãs de classe terão que fazer o
supremo sacrifício e dar a vida para que continuem a arder as chamas da
revolução até que todo rastro da sociedade classista fique
em cinzas e alcancemos o comunismo porque, como disse Mao: ou todos entramos
no comunismo ou ninguém entra".
Antes de converter-se em partido político e em opção
eleitoral vitoriosa, a guerrilha maoista dominava 80% do país,
estabelecendo governo locais e regionais em vários distrito.
Após um ano de pequenas escaramuças, conseguiram assentar na
parte central do país junto às terras baixas do Himalaia (a leste
e oeste de Katmandú). Os guerrilheiros foram criando
organizações nacionais de apoio entre as minorias de Magar,
Gurung, Tamang, Newar, Tharu, Rai, Limbu e Madhise, assim entre os nepalenses,
formando uma frente ampla chamada Samyukta Jana Morcha (SJM) ou Frente Popular
Unida (Maoísta), cujo presidente era Baburam Bhattarai.
Os que apoiam os maoistas argumentavam que libertaram a população
do tirânico sistema de castas, dando igualdade de direitos às
mulheres (tanto na luta guerrilheira como nas frentes de massas elas
desempenharam um papel destacadíssimo), e que enfrentavam uma monarquia
opressora e autoritária, agora finalmente derrotada.
Uma estratégia de guerra popular
O PCN(M) aderia à estratégia maoista de guerrilhas e guerra
popular, pela qual tomaria o controle gradual do campo até cercar as
cidades, lutando contra as forças governamentais só quando
superassem em número significativamente o inimigo. Em 2001 o
exército nepalense começou uma campanha militar contra os
rebeldes maoistas, especialmente nas áreas ocidentais do país,
com intermintentes altos de fogo.
O Departamento de Estados dos Estados Unidos incluiu este partido na sua lista
de organizações terroristas (algo que ainda está em vigor)
e enviou centenas de milhões de dólares de ajuda ao governo do
Nepal a fim de combate-los.
Quando em 2005 o rei Gyanendra tomou o poder absoluto, em Abril de 2006 o
partido convocou uma greve geral indefinida, juntamente com outros sete
partidos opositores, o que levou o rei a anunciar que restabelecia o
Parlamento. Ainda que os outros partidos tivessem acabado as
mobilizações e nomeado um candidato a primeiro-ministro, o
Partido Comunista do Nepal (Maoista) recusou a decisão do rei, pela boca
do mesmo Prachanda, por considerá-la uma conspiração para
permitir que continuasse no poder.
Prachanda também acusou a aliança opositora de não cumprir
o acordo de doze pontos que firmaram e de haver traído as
aspirações do povo nepalense. Além disso, anunciou que
continuariam a bloquear Katmandú até que se cumprissem suas
exigências, mas a 26 de Abril de 2006 levantaram o bloqueio das estrada
com a exigência de que os partidos políticos iniciassem a
criação de uma assembleia constituinte na sua reunião
seguinte.
Em Maio do mesmo ano foram retiradas as acusações de terrorismo
aos membros do PCN(M) e transmitiu-se à Interpol a petição
de anulação das ordens de prisão internacional contra os
membros do Partido. Finalmente, em Dezembro de 2007 o parlamento aboliu a
monarquia por ampla maioria e decidiu a reforma da constituição e
integração dos maoistas no exército.
Este partido faz parte do Movimento Internacionalista Maoista e do
Comité de Coordenação dos Partidos e
Organizações Maoistas do Sul da Ásia.
Agora, contra ventos e tempestades, e no âmbito de um aluvião de
observadores europeus (como Mr. James Carter), os maoistas levantaram-se com um
triunfo indiscutível. Vitória que tem muito a ver com a
tenacidade de uma luta guerrilheira de anos e a convicção de que
as ideias do PCN(M) estão profundamente enraizadas na
população do Nepal, que sofreu nas suas costas uma cruel ditadura
monárquica amparada pelos EUA e os países europeus.
O triunfo anti-monárquico no Nepal abre, sem dúvida alguma,
perspectivas mais que estimulantes em outros países que ainda sofrem
governos monárquicos na Europa, Ásia e África. São
também uma chamada de atenção para aqueles que tentam
reiteradamente desalentar os que lutam com as armas nas mãos (quando se
fecham todos os caminhos pacíficos) contra os opressores dos seus povos.
Sem essa actividade insurgente, constante e prolongada, teria sido
impossível alcançar a vitória que os nepaleses hoje
festejam nas ruas.
14/Abril/2008
O original encontra-se em
http://www.resumenlatinoamericano.org/
, nº 1025
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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