A cobiça pelo petróleo brasileiro
por Fernando Siqueira
[*]
entrevistado por Valéria Nader
[**]
Enquanto caminham a pleno vapor as notícias de novas reservas de
petróleo na província do pré-sal incluindo as
reservas de Carioca, Tupi e Júpiter na Bacia de Campos , sente-se
a mão cada vez mais pesada de poderosos lobbies externos para ficar com
a mina de ouro.
Halliburton, Repsol e outras mais contam, ademais, com o braço amigo de
influentes figuras que, beneficiando-se do prodigioso espaço concedido
pela mídia, salientam que as atuais descobertas de petróleo
não foram frutos exclusivos de 50 anos de trabalho da Petrobrás.
Teriam resultado, outrossim, da nova Lei do Petróleo de F. H. Cardoso, a
qual estabeleceu o fim do monopólio da União na
exploração desse combustível e aumentou o número de
empresas atuando no país.
E não param por aí as benesses que essa concepção
pode receber. Encontra muitas vezes escandalosa guarida em uma preocupante
interseção entre interesses privados e públicos.
A AEPET
Associação de Engenheiros da Petrobrás
, tendo em vista mais uma indicação de
apropriação indébita de nossos recursos, já
está propondo mudanças na Lei do Petróleo criada no
governo FHC em carta enviada ao Congresso. É para comentar as
justificativas a essa mudança e o contexto atual de
exploração de petróleo em nosso país que
conversamos com o engenheiro da AEPET Fernando Siqueira.
Correio da Cidadania: Em entrevista concedida em abril ao Correio da Cidadania,
o senhor avaliava que, a se confirmarem reservas de petróleo da ordem de
90 mil milhões de barris na nova província do pré-sal
(incluindo as reservas de Carioca, Tupi e Júpiter na Bacia de Campos),
seria urgente rever a Lei do Petróleo do governo FHC, que estabeleceu o
fim do monopólio da União na exploração desse
combustível. Houve algum avanço na confirmação
dessas reservas?
Fernando Siqueira: Sim. Dois avanços consideráveis: a
Petrobrás descobriu mais dois campos (Guará e Bem-te-vi) na
camada do "pré-sal" da Bacia de Santos. Podem ocorrer volumes
maiores, pois ainda há, a serem explorados, os 41 blocos do
pré-sal que foram corretamente retirados do 9º leilão.
Além deles, existem os 10 blocos na borda do pré-sal que
estão incluídos no oitavo leilão, suspenso por liminar.
CC: A AEPET Associação de Engenheiros da Petrobrás
já está propondo mudanças na Lei do Petróleo
criada no governo FHC em carta enviada ao Congresso. Qual a justificativa para
essa mudança e qual o teor mais importante das alterações
propostas?
FS: As justificativas são fortes:
1) A Lei do Petróleo, 9478/97, está com incoerências que
precisam ser eliminadas. Por exemplo: os artigos 3º e 21º rezam que
as jazidas e o produto da exploração delas pertencem à
União, consoantes com a Constituição Federal. Mas o artigo
26 diz que quem produzir o petróleo é dono dele. Este artigo
é fruto do lobby sobre o Congresso Nacional; 2) A lei 9478/97 estabelece
que a União terá uma Participação Especial na
produção pelas concessionárias. O Decreto 2705, de 1998,
estabelece esta participação num patamar absurdamente baixo. Para
águas profundas, a participação varia de 0 a 40%. No
mundo, os países exportadores recebem, em média, 84% a
título de Participação Especial; 3) A justificativa para a
mudança da Constituição era a vinda de capital externo
para descobrir novas áreas produtoras. Ora, o pré-sal não
tem mais o que descobrir. Já está descoberto e a quantidade de
petróleo é enorme, sem nenhum risco.
Suponhamos, para efeito de cálculo, que chegue a 100 mil milhões
de barris de reserva. A 140 dólares o barril, isto representa uma
riqueza de US$ 14 trilhões, que pertence ao povo brasileiro. Como
cedê-lo, nas atuais condições, para concessionárias
estrangeiras ou seus testas de ferro?
CC: Alguns críticos às mudanças salientam que as atuais
descobertas de petróleo não foram frutos exclusivos de 50 anos de
trabalho da Petrobras. Teriam resultado, outrossim, da nova lei, a partir da
qual aumentou o número de empresas atuando no país. O que o
senhor responderia a esses críticos?
FS: Esta é uma profunda falácia. A Petrobrás estudou essa
província durante 30 anos, correu todos os riscos para
encontrá-la, sendo que o 1º poço custou US$ 240
milhões. A empresa também desenvolveu toda a tecnologia para
explorar nessa profundidade. Em contrapartida, as empresas estrangeiras que
vieram não adquiriram um único bloco em áreas novas.
Só compraram blocos onde a Petrobrás pesquisou e eliminou boa
parte do risco geológico. No caso do pré-sal é ainda mais
gritante: as empresas não tinham conhecimento tecnológico nem
confiança ou coragem de participarem sozinhas e se associaram à
Petrobrás. Mas não ajudaram em nada. A
Petrogal
, por exemplo, não conhece águas profundas. Nem a Repsol. Mas
são sócias.
CC: O senhor acredita que as mudanças propostas na Lei do
Petróleo poderão se concretizar?
FS: Acredito piamente. Não tem o menor sentido permanecerem as
condições atuais do marco regulatório. O Brasil não
pode abrir mão de uma riqueza desta ordem tendo 60 milhões de
miseráveis, um sistema de saúde caótico, uma
educação vergonhosa, uma infra-estrutura e um desenvolvimento
muito aquém do seu potencial.
Mesmo tendo um parlamento vergonhoso, ainda assim, acho que a sociedade tem que
exigir os seus direitos e defender o patrimônio nacional. E aqui dou
algumas razões: suponhamos, para efeito de raciocínio, que as
reservas do pré-sal sejam da ordem de 100 mil milhões de barris e
que o petróleo se mantenha no preço de US$ 140/barril (sabemos
que a tendência de subida é irreversível, visto que
chegamos ao pico de oferta). Isto representa uma riqueza de US$ 14
milhões de milhões.
Com esse dinheiro, a União Federal pode pagar sua dívida
mobiliária e criar um Fundo de Desenvolvimento Sustentado para as
gerações futuras, como fez a Noruega; destinar verbas anuais de
R$ 100 mil milhões para a educação e R$ 100 mil
milhões para a saúde, usando parte para prevenção,
parte para erradicar doenças como dengue, malária, chagas, e
parte para equipar os hospitais de tratamento e assistência
médica, bem como destinar aos institutos, tipo Manguinhos, Vital Brasil,
Butantã, Lapec e outros, recursos para fabricar vacinas e
remédios para a população carente; destinar verba anual de
R$ 100 mil milhões para tirar cerca de 60 milhões de brasileiros
do nível de miséria, número vergonhoso, sobretudo para o
país mais viável do planeta; destinar verba de R$ 100 mil
milhões anuais para pesquisa e desenvolvimento, através de
universidades, institutos e laboratórios de pesquisa; destinar R$ 100
mil milhões para construir uma infra-estrutura viável e investir
no saneamento básico; destinar, também, uma verba de R$ 100 mil
milhões para dotar as Forças Armadas de condições
de defender o país, em especial a Marinha, para defender a costa
brasileira e a plataforma continental, protegendo não apenas as reservas
de petróleo, mas também as riquezas do mar, a chamada
"Amazônia Azul", que possui recursos fabulosos.
Quer dizer, há muito a se fazer no país com esses recursos.
CC: Subsidiárias da empresa internacional Halliburton são
sabidamente algumas das contratadas da Petrobrás para tudo que diz
respeito à exploração das reservas de petróleo e
gás no litoral. Como o senhor prevê que essa e outras empresas
atuarão em face das alterações propostas na Lei do
Petróleo?
FS: A Halliburton, cujo presidente foi, por muito tempo, o atual
vice-presidente norte-americano, é um caso de polícia
(internacional). Além de ter trazido o seu diretor (Nelson Narciso) de
Angola para ser diretor da ANP, ela administra, há 10 anos consecutivos,
o banco de dados daquela agência reguladora, ou seja, os dados de
exploração que a Petrobrás é obrigada, pelo artigo
22 da Lei 9478/97, a repassar à ANP. A Halliburton tem ainda um
mega-contrato de serviços com a Petrobrás há vários
anos, para perfilagem e canhoneio de poços. É uma
relação meio incestuosa que precisa ser revista.
Lembro que nós estamos em pleno terceiro e definitivo choque mundial de
petróleo (com a oferta chegando ao pico e a demanda crescendo
fortemente), cuja conseqüência é a subida,
irreversível, do preço do barril de petróleo. Como os EUA
têm uma brutal dependência do petróleo (consomem cerca de 10
mil milhões de barris/ano, dos quais 8 mil milhões internamente e
2 mil milhões nas bases militares, tendo 29 mil milhões em
reservas) e os preços irão disparar, aquele país deve vir
com todo o seu aparato político/econômico/militar atrás de
nossas reservas. A Halliburton, como ponta de lança, e as demais
empresas norte-americanas estarão à frente desse processo com
todos os seus recursos escusos de pressões e constrangimentos, como
mostrado no livro "Confissões de um assassino
econômico", do norte-americano John Perkins.
A Repsol também vem fazendo lobby fortíssimo pela reabertura dos
leilões e a permanência do marco regulatório. Ela é
uma empresa do Banco Santander, cujo dono é o Scotland National Bank
Co., ou seja, é o capital anglo-americano, o mesmo que coordenou a
invasão do Iraque. É presidida pelo também presidente do
IBP, o lobbista João Carlos de Luca. A Halliburton, assim como a Repsol,
é membro da poderosa comunidade financeira internacional
anglo-americana.
CC: A ex-ministra das minas e energia, Dilma Roussef, atualmente muito
influente no governo através da Casa Civil, prosseguiu exercendo
influência no setor elétrico, como, por exemplo, através da
indicação de Maria da Graça Foster para a diretoria de
Energia e Gás da Petrobrás no lugar de Ildo Sauer. Como
deverão, nesse sentido, atuar o governo e seus representantes em face
das pressões que deverão advir de vários lobbies contra
mudanças na lei, para que empresas privadas continuem se beneficiando
dos leilões de petróleo?
FS: A ministra é presidente do Conselho de Administração
da Petrobrás. E teve um papel importante na retirada dos 41 blocos do
9º leilão. Acho até que esta é uma das razões
pelas quais os "aloprados" querem queimar sua candidatura. A
substituição do Ildo Sauer foi, entretanto, ruim para a
Petrobrás e para o país. Ildo era o mais nacionalista dos
diretores da Petrobrás. Vinha defendendo os interesses da empresa e do
país com muita competência e zelo. A Maria da Graça, por
sua vez, é esposa do Collin Foster, que tem uma empresa que, segundo a
imprensa internacional, presta serviços à Halliburton. Ele
adquiriu blocos no Brasil e declarou que pretendia formar uma grande empresa de
petróleo. Há conflitos de interesses, no mínimo,
preocupantes.
24/Junho/2008
[*]
Da Associação dos Engenheiros da Petrobrás
[**]
Economista, do jornal
Correio da Cidadania
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1980/58/
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
|