por Plínio de Arruda Sampaio
O desafio que o crime organizado lançou ao governo do Estado de
São Paulo é resultado do colapso de uma política de
segurança pública baseada apenas na repressão brutal. Ela
não funciona, por ser, acima de tudo, ineficiente. Não ataca as
causas do problema, não é preventiva e não investe em
inteligência policial.
É necessária uma integração de diversas
políticas públicas, que vai além apenas do investimento na
estruturação das forças de segurança. A
experiência concreta mostra que tão decisiva quanto a
ação policial, são investimentos em
distribuição de renda, educação, lazer e
participação popular.
Se medidas como essas não forem implantadas imediatamente, não
é nenhum exagero dizer que a instalação de um estado de
caos social, muito maior do que o atual ataque do PCC em São Paulo,
é apenas uma questão de tempo.
Infelizmente, em vez de atentar para o risco que a sociedade paulista
está correndo, os partidos da classe dominante estão usando o
episódio para fazer politicagem. Acabam por travar uma guerra
política menor um acusando o outro de imprevidência, falta
de energia e outras críticas do mesmo teor.
A estratégia correta para deter a escalada do crime organizado
não consiste apenas em dotar a policia de armas mais poderosas e em
aumentar as penas das infrações criminais, mas, principalmente,
de reestruturar de cima abaixo todo o aparelho repressivo do Estado,
substituindo primitivos métodos de coação adotados
atualmente por métodos baseados nos recursos modernos da psicologia e em
experimentos exitosos com a aplicação de penas mais humanas e
mais eficazes. Essa revisão não pode deixar de abranger uma
verdadeira devassa na vida dos integrantes dessas instituições,
porque todos sabem que não há crime organizado sem
conexões com altas autoridades do aparelho repressivo do Estado.
Mas nada disto terá efeito se a reestruturação do aparelho
repressivo não for acompanhada por uma verdadeira reforma urbana, pois,
como é conhecido de todos, a aglomeração de grande
número de pessoas em habitações precárias, em
espaços reduzidos e de vias de circulação estreitas,
favorece a logística do crime e dificulta a vigilância policial.
A classe dominante não tem condições de fazer esse
diagnóstico e, menos ainda, de tomar essas medidas porque isto
implicaria cortar na própria carne. Na verdade, ela só consegue
pensar em mais truculência contra a truculência dos bandidos
quando, na verdade, o problema só poderá ser resolvido quando a
sua própria truculência contra a população for
detida.
São Paulo, 15 de maio de 2006
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