Um ajuste fiscal para cevar os banqueiros e rentistas
ou o mimetismo degenerado do camaleão proletário
Na natureza, o mimetismo é um processo através do qual os animais
buscam se camuflar, se adaptar, se confundir com o meio ambiente ou com outras
espécies, de forma a se defender dos predadores, atacar uma presa ou
agir de forma disfarçada para sobreviver. Geralmente evoluem em termos
de textura, padrão de comportamento ou coloração, visando
sobreviver ou obter uma vantagem em relação aos outros animais.
Se na natureza, essa tática tem alguma efetividade, na política e
na economia o mimetismo é um fenômeno degenerado que transforma as
organizações políticas e sociais em instrumentos
inteiramente diferentes daquilo que pregavam no início de sua
existência, mudam de plumagem, de programa e objetivos e levam seus
militantes e simpatizantes a frustrações,
acomodação, além da derrota moral e política.
Esse fenômeno serve como uma luva para a trajetória do Partido dos
Trabalhadores (PT) nos últimos 20 anos e, especialmente, desde que
assumiu o governo, há 12 anos. Como um camaleão
proletário, exerceu seu mimetismo de maneira impressionante, ao se
adaptar de tal forma ao sistema, que passou a ser um dos seus principais
organismos, se não o principal, da ordem que antes dizia combater.
Quando estava apenas nos governos municipais e estaduais as pessoas pouco se
davam conta das transformações mimetistas que estavam se
observando no interior da organização, afinal somente aqueles que
viviam no local ou regionalmente podiam constatar esse fenômeno. Mesmo
assim, como não se tratava de uma transformação de
caráter nacional, muitos imaginavam que fosse um fenômeno
específico dessa ou daquela região.
No entanto, ao chegar ao governo nacional com Lula, a grande maioria dos
eleitores que votou no agora presidente-operário-metalúrgico
acreditava que seria diferente, uma vez que o objetivo de chegar ao poder tinha
sido concretizado e sua origem de classe garantia um selo de qualidade. As
primeiras medidas duras tomadas por Lula no inicio do governo, mais duras que
no governo FHC e contrárias a tudo que o PT pregara anteriormente,
surpreenderam muito negativamente, mas eram justificadas como um recuou
tático diante de um inimigo enfurecido e uma conjuntura
desfavorável. Assim as primeiras críticas em
relação ao governo eram tratadas como típicas da pressa
pequeno-burguesa, cujo imediatismo não levava em conta a paciência
operária, que se afirmaria no momento certo.
No entanto, os oito anos de governo, voltados essencialmente para favorecer o
grande capital nacional e internacional e recompensar os mais pobres com
migalhas compensatórias como a Bolsa Família, o Prouni e o
Pronatec
[1]
, levou grande parte da militância ao apassivamento e ao desânimo.
Esse fato viria a se completar com a cooptação das
organizações sociais e sindicais, criadas no bojo das lutas do
final dos anos 70 e início dos anos 80, que viriam a se transformar em
dóceis instrumentos do governo e correia de transmissão da paz
social entre as massas, fato que levou essas organizações a
perderem influência junto à população, especialmente
à juventude. Tanto que não tiveram nenhuma influência nas
manifestações de junho de 2013 e nem nas
manifestações que estão ocorrendo atualmente
[2]
.
Mas levando em conta que o governo Lula tivesse descumprido as promessas
inscritas no programa do PT, havia a esperança de que uma mudança
efetiva se daria com a nova candidata, Dilma Rousseff, afinal sua biografia era
impecável. Quando jovem participou de uma organização
guerrilheira, foi presa, torturada brutalmente e sobreviveu com dignidade aos
anos de chumbo. Portanto, poderia fazer um governo que realizasse as reformas
que a militância tanto almejava. No entanto, seus primeiros quatro anos
de governo foram ainda piores que os oito anos de Lula: o crescimento
econômico medíocre, muito semelhante ao período de FHC
(Tabelas 1); foi o pior período para a Reforma Agrária, aumentou
a repressão e a criminalização dos movimentos sociais e
não avançou em nada em relação ao governo anterior.
Produto Interno Bruto no Governo Dilma (variação anual), 2011-2014
|
2011
|
2,73
|
|
2012
|
1,03
|
|
2013
|
2,49
|
|
2014
|
0,1*
|
Fonte: Ipeadata / * Índice estimado
A desilusão envolveu a maioria da militância de base petista. Mas
eis que chegou o período eleitoral e a situação
política do Partido dos Trabalhadores se tornara muito difícil,
especialmente porque uma terceira candidata, Marina Silva, uma dissidente do
PT, crescera de maneira extraordinária após a morte
dramática em um acidente de avião do candidato Eduardo Arraes, da
qual Marina era vice. Mas uma forte desconstrução dessa
candidatura nos meios de comunicação minou suas possibilidades e
colocou novamente no segundo turno os tradicionais candidatos da ordem
institucional brasileira: Aécio Neves, do Partido da Social-Democracia
Brasileira (PSDB), e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.
A polarização entre as duas candidaturas e a possibilidade real
da derrota de Dilma Rousseff criou um sentimento de unidade entre vários
setores de esquerda e da militância de base petista, no sentido de que
era necessário votar em Dilma para evitar o mal maior, que era uma
vitória de Aécio Neves. Diante do perigo da derrota, Dilma
radicalizou o discurso: se vestiu de vermelho nos comícios, atacou os
banqueiros, prometeu defender o salário e os direitos dos trabalhadores
e continuar com "mais mudanças". Numa disputa acirrada, Dilma
ganhou as eleições por pequeníssima margem de votos, na
qual vários partidos de esquerda e a até então desiludida
militância de base tiveram um papel determinante, sem os quais a derrota
teria sido certa.
Tudo levaria a crer que a agora presidente eleita Dilma Rousseff teria
compreendido os sinais das ruas e da militância e agora poderia
reorientar o governo de forma a contemplar aquela imensa massa de militantes
que, num gesto de generosidade, garantira o seu segundo mandato.
Surpreendentemente, para a grande maioria, logo após a vitória,
Dilma fez um giro de 180 graus em suas promessas políticas e resolveu
mudar radicalmente seu discurso político: entregou a chave do cofre ao
mercado, ao nomear Joaquim Levy, para o ministério da Fazenda, um
conhecido Chicago boy; a senadora Kátia Abreu para a Agricultura,
defensora dos latifundiários, e Armando Monteiro, presidente da
Confederação Nacional da Indústria, para o Comércio
e Desenvolvimento. A partir daí começou uma escalada de medidas
neoliberais, que eles chamam de ajuste fiscal e monetário, onde a cada
semana o País é surpreendido com novas medidas de arrocho fiscal,
monetário e confisco generalizado da renda
[NR]
dos trabalhadores.
Primeiras medidas do "saco de maldades"
Para entendermos o ajuste que está sendo realizado na economia
brasileira, é importante ressaltar que o conjunto da política
econômica do País vem sendo elaborada em função da
administração da dívida pública. Como o governo
não possui recursos para pagar as amortizações desse
débito, então lança novos títulos no mercado de
forma a rolar a dívida, aumentando seu estoque, que hoje está
estimado em R$ 2,3 milhões de milhões (U$ 920 mil milhões
pelo câmbio de janeiro). E quanto mais aumenta o montante da
dívida, maior é o pagamento de juros. Atualmente, o governo,
além de não pagar as amortizações, também
não está pagando integralmente os juros, uma vez que este
serviço cresceu tanto que o
superávit primário
[3]
não é suficiente para honrar o pagamento do seu montante. Assim,
o diferencial entre juros efetivamente pagos e juros não pagos é
também rolado, contribuindo para mais aumento da dívida interna,
num processo semelhante a uma bola de neve. Portanto, elevar a taxa de juros
significa aumentar ainda mais o lucro dos banqueiros e rentistas em geral, que
juntos detém mais de 70% dos títulos da dívida.
Desde o anúncio da vitória eleitoral, o governo Dilma já
aumentou por três vezes consecutivas a taxa de juros básica da
economia, a SELIC, variável que remunera os títulos
públicos, chancelando as chantagens do mercado, que alardeava nos meios
de comunicação a iminente volta da inflação,
exatamente para que o governo aumentasse os juros. Como se sabe, cada ponto
percentual de aumento na taxa SELIC significa um acréscimo de cerca de
R$ 25 mil milhões nos pagamentos de juros da dívida interna (U$
10 mil milhões pela taxa de câmbio de janeiro), montante que vai
impactar ainda mais nos gastos públicos, uma vez que os juros são
pagos com os recursos do orçamento.
Desde que o novo ministro assumiu a pasta da Fazenda, dois pacotes ortodoxos
já foram anunciados, além de outras medidas tomadas por decreto,
medidas provisórias ou vetos presidenciais. Todas essas medidas
têm o objetivo de cortar gastos e direitos dos trabalhadores e
aposentados, de forma a que o governo possa atingir a meta de superávit
fiscal de 1,2% do Produto Interno Bruto, ou cerca de R$ 66 mil milhões.
Como existe um passivo de mais R$ 20 mil milhões de débitos do
ano passado colocados como contas a pagar neste ano, o ajuste deverá
atingir R$ 86 mil milhões, recursos que na prática serão
confiscados dos trabalhadores e da grande maioria da população
pobre.
No primeiro pacote, o governo atingiu diretamente o seguro desemprego e
exatamente a parcela de trabalhadores mais frágil, justamente aquela
que, em função da demissão, está mais desamparada.
Anteriormente, todos os desempregados, após seis meses de trabalho,
tinham direito ao seguro-desemprego. Pelas novas regras, só terão
direito a este benefício os assalariados que trabalharam
consecutivamente por no mínimo 18 meses. Para se ter uma ideia do
alcance dessa medida, basta dizer que cerca de 60% dos demitidos não
terão direito ao seguro-desemprego. Entre os mais jovens, a medida
deixará de fora cerca de 78% dos dispensados. Pesquisa realizada na
Universidade de Brasília e divulgada pelo jornal
Valor Econômico
comprova esse dado: entre janeiro e novembro de 2014, dos 10,8 milhões
de dispensados sem justa causa, 64% tinham menos de 1,6 meses de trabalho
[4]
.
O mesmo pacote dificultou o direito de recebimento de pensão por morte,
aumentando para 24 meses o prazo de contribuição ao INSS,
além de exigir um tempo mínimo de dois anos de casamento ou
união estável, para se ter direito ao benefício. Esse
pagamento agora deverá variar de acordo com o número de filhos e
idade do cônjuge; restringiu o recebimento do abono salarial para os 23
milhões trabalhadores que ganham até dois salários
mínimos, que agora o receberão de acordo com o tempo trabalhado;
o auxílio-doença só será pago após 30 dias
de afastamento do trabalhador; e dificultou ainda o pagamento aos 600 mil
pescadores nos períodos de proibição da pesca, quando os
peixes estão desovando. Além dessas medidas, já tinham
sido reajustados os preços das passagens, da energia elétrica, da
gasolina e dos telefones.
Uma semana depois, o governo lançou novo pacote de medidas ortodoxas,
com aumento de impostos de combustíveis e importação,
além de encarecimento do crédito direto ao consumidor. A partir
de agora, o imposto sobre operações financeiras passará de
1,5% para 3% para todos os consumidores; os impostos sobre gasolina e
óleo diesel também aumentarão, bem como os produtos de
importação. No início do ano, foi aumentado o Imposto
sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis e também
aumentou a taxa de juros para financiamento da casa própria. Além
disso, a presidente Dilma vetou a correção de 6,5% do Imposto de
Renda (IR) que tinha sido aprovada pelo Congresso, o que significa um confisco
de R$ 7 mil milhões aos trabalhadores. Nessa empreitada Dilma não
está só: desde 1966, quando as faixas do imposto de renda
deixaram de ser indexadas à variação do nível de
preços, a inflação subiu 226%, enquanto a tabela do IR foi
corrigida em apenas 99%.
Para completar o "saco de maldades" do segundo governo Dilma, a
presidente anunciou que iria colocar parte expressiva do patrimônio da
Caixa Econômica Federal na Bolsa de Valores, o que na prática
significa privatizar parcela importante da Caixa Econômica Federal (CEF).
Ressalte-se que a CEF é uma empresa de controle 100% estatal, ao
contrário do Banco do Brasil ou da Petrobrás, que têm
ações na Bolsa brasileira e de Nova York e parte de seu
patrimônio está em mãos privadas. Caso essa medida seja
efetivamente realizada, poderá representar o fim da Caixa
Econômica como banco público, gerador de políticas sociais,
e sua transformação em instituição gerida pela
lógica privada. Além disso, o governo também aprovou a lei
que permite o controle dos hospitais pelo capital estrangeiro.
Mas para quem imagina que as medidas ortodoxas irão parar por aí,
está bastante enganado. Dia piores virão, pois os
fundamentalistas neoliberais, tal como fanáticos sofisticados,
irão prosseguir sua "sanha saneadora", ou marcha em
direção ao abismo, buscando sugar até onde for
possível os recursos da economia. Basta ler as declarações
do chefe do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Alejandro
Werner, para compreendermos o que estar por vir. Impávido, esse senhor
afirmou recentemente que as medidas tomadas pelo governo estão no
caminho certo, mas há que ser feito ainda mais tanto no lado fiscal
quanto na infraestrutura. Ou seja, os abutres financeiros nunca estão
satisfeitos e querem sempre mais! E como o governo capitulou completamente
à terapia de choque neoliberal, teremos uma conjuntura bastante adversa
nos próximos anos, isso se a população não se
levantar e resolver dar um basta à sangria neoliberal.
Um cenário montado para aumentar os juros
Qual a conjuntura em que essas medidas foram anunciadas e quais os argumentos
que os fundamentalistas utilizam para justificar a sua política
ortodoxa? O cenário para a implementação plena das
políticas neoliberais que culminaram com as chamadas medidas de
austeridade do novo governo Dilma já vinha sendo articulado pelo mercado
financeiro desde o começo do ano passado. As notícias exageradas
sobre a escalada da inflação e o não cumprimento das metas
inflacionárias; as denúncias sobre os gastos excessivos do
governo, o descontrole fiscal e a redução do superávit
primário; além do debate sobre o intervencionismo estatal, a
independência do Banco Central e o baixo crescimento econômico
faziam parte de uma estratégia bem coordenada das chamadas forças
do mercado, reproduzida amplamente pelos meios de comunicação,
hoje os principais porta-vozes dos fundamentalistas do capital rentista, para
chantagear o governo e alcançar seus interesses aumento dos juros
da dívida pública e uma política ortodoxa para reduzir os
direitos e garantias dos trabalhadores.
Vale lembrar que as classes dominantes brasileiras e, especialmente os
banqueiros e rentistas em geral, já ganharam rios de dinheiro com os
juros da dívida interna nos governos Lula e Dilma.
[5]
Mas os rentistas ainda não estavam satisfeitos: era necessário
extorquir mais os trabalhadores e avançar sobre os direitos e garantias
duramente conquistados no passado. Portanto, a decisão do governo Dilma
de chamar o banqueiro Joaquim Levy para o ministério da Fazenda apenas
complementa uma trajetória que já vinha sendo realizada desde o
início do governo do Partido dos Trabalhadores, em 2002. Vale lembrar
que nesses 12 anos de governo, o PT manteve intacto o núcleo duro da
política macroeconômica neoliberal, como o superávit
primário, as metas de inflação, a independência do
Banco Central e o câmbio flutuante.
No entanto, mesmo com total carta branca para executar o "saco de
maldades", é necessário um conjunto de argumentos para
justificar o ajuste fiscal e monetário, afinal é
recomendável neutralizar o descontentamento da opinião
pública, especialmente num momento em que o País está
à beira de um ataque de nervos, em função do transporte
caótico, da saúde precária, dos baixos salários, da
falta de água nas grandes metrópoles e da volta das
manifestações de rua. Antes de tudo, a mídia procura
apresentar o ajuste como uma necessidade técnica para resgatar os
fundamentos da economia, despertar o "espírito animal" dos
empresários para realizar investimentos e, posteriormente, retomar o
crescimento econômico. Caso não seja feito esse dever de casa, a
perspectiva será o caos: a retomada da inflação, o
descontrole das contas públicas, a recessão, o desemprego,
além do espantalho da perda do
grau de investimento,
sem o qual haveria uma fuga do capital estrangeiro e a perda da credibilidade
do governo junto ao mercado internacional.
Em termos mais técnicos, os fundamentalistas ortodoxos partem do
princípio de que a crise e os problemas da economia (o
desequilíbrio interno, como costumam dizer) são resultado do fato
de que o governo está gastando exageradamente, muito acima das receitas
fiscais, o que é a fonte da inflação e do déficit
público, uma vez que há mais dinheiro na economia do que a
produção de bens e serviços. Para financiar esse
déficit, o governo se endivida junto ao setor privado e aos agentes
econômicos em geral, mediante a venda de títulos públicos,
com prazo determinado de resgate e pagamento de juros nesse período,
gerando assim a dívida interna que tende a aumentar à medida em
que o governo continua gastando mais do arrecada. Como o déficit
público leva ao aumento da inflação, o Banco Central
é obrigado a elevar a taxa de juros para controlar o processo
inflacionário. Em outras palavras, a confluência de déficit
público, inflação e elevação dos juros levam
ao aumento permanente da dívida interna os gastos do governo
seriam, portanto, os responsáveis por todos os problemas da economia.
Em função dessas premissas, eles argumentam que é
necessário o ajuste fiscal e monetário para colocar a casa em
ordem. Quanto mais rápido e duro for ajuste, também mais
rapidamente se resgatará o equilíbrio da economia e a
credibilidade das autoridades públicas junto ao mercado, abrindo
espaço para o crescimento sustentado. É bem verdade que no curto
prazo as medidas serão dolorosas, pois envolverão corte nos
gastos públicos, especialmente nos gastos sociais, e aperto
monetário, como a redução e encarecimento do
crédito ao consumidor, além da queda no crescimento da economia e
aumento do desemprego, mas esses sacrifícios serão passageiros e
razoáveis diante de um futuro alvissareiro para todos. Portanto, vale a
pena apertar os cintos, pois assim conquistaremos o melhor dos mundos
graças aos pastores neoliberais que viabilizarão uma conjuntura
de pão e mel para todos no longo prazo.
As justificativas teóricas neoliberais
As justificativas teóricas para a implementação de medidas
ortodoxas estão baseadas nos velhos dogmas de automatismo regulador do
mercado e no equilíbrio geral, a partir dos quais, deixando-se o mercado
funcionar sem a interferência do Estado, ele levará ao ponto de
equilíbrio todas as variáveis econômicas. Com sua
mão invisível, o mercado tem a capacidade de harmonizar os
interesses de todos os agentes econômicos
[6]
. Por exemplo, os preços chegarão ao equilíbrio se
funcionar a lei da oferta e da demanda; os juros também estarão
em equilíbrio em função da relação entre
poupança e investimento; o emprego se manterá pleno se os
trabalhadores aceitarem o salário de equilíbrio, o que significa
dizer que só existe desemprego porque os trabalhadores não querem
reduzir os salários; o câmbio flutuante se encarregará de
encontrar a taxa de equilíbrio entre a entrada e a saída de
dólares e, portanto, levará ao equilíbrio o
comércio exterior; e assim por diante... Nessa conjuntura é
fundamental um Estado mínimo, que cuide apenas da defesa do País
e da proteção dos contratos, o resto o mercado se
encarregará de ajustar automaticamente.
A partir dos anos 60 e, especialmente nos anos 70 e 80, essa teoria foi
desenvolvida e aperfeiçoada para aplicação na economia
real contemporânea, mediante aquilo que se convencionou a chamar de
expectativas racionais
. Esse espaço é pequeno para desenvolver essa teoria em
profundidade, mas em linhas gerais os teóricos dessa linha de pensamento
afirmam que os agentes econômicos em geral tomam suas decisões a
partir de sua experiência, das informações que possuem,
aliadas às expectativas futuras
[7]
. Com esse conjunto de informações buscam maximizar suas
utilidades, ou seja, optar por aquilo que for mais útil para seus
interesses. Por exemplo, os consumidores, diante da conivência do governo
com a inflação e da perspectiva de escalada inflacionária,
procurarão se antecipar a esse processo e realizar as compras para se
defender da adversidade no futuro. Os empresários, por sua vez,
também procurarão embutir nos preços dos bens e
serviços a expectativa de inflação futura, caso não
queira ter prejuízo. Numa conjuntura dessa ordem, serão
infrutíferas as tentativas do governo no sentido de influenciar a
produção e o emprego mediante as políticas fiscal e
monetária. Aí então o Banco Central ganha um papel de
relevância no sentido de coordenar as expectativas, reduzindo ou
aumentando as taxas de juros para deixar a inflação no centro da
meta. Por isso, a importância da independência do Banco Central.
Esse arcabouço teórico compõe o que os economistas
ortodoxos denominam de tripé macroeconômico:
metas de inflação, superávit primário e
câmbio flutuante
, com independência do Banco Central para coordenar as expectativas.
As
metas de inflação
significam um instrumento pelo qual as autoridades econômicas definem um
índice de inflação anual e se comprometem
institucionalmente com essa meta, de forma a manter a economia estável e
dar horizonte de cálculo para os agentes econômicos poderem
investir. Uma das condições para que esse mecanismo funcione
é o Banco Central ter plena autonomia para resistir a pressões
fiscais, políticas e institucionais que contrariem os objetivos da meta,
de forma a que possa alcançar os objetivos da estabilidade.
O
superávit primário
significa o esforço realizado pelo governo, ao longo do ano, no sentido
de economizar recursos fiscais para pagar a dívida. Quanto maior o
superávit, melhores condições terá o governo de
honrar os juros e amortizações contratados com os detentores de
títulos. Um grande superávit primário significa que o
governo é um bom pagador e que o País é um local vantajoso
para se investir nos papéis governamentais. O superávit
primário pode ser conseguido tanto pelo aumento de impostos,
através dos quais o governo aumenta suas receitas, quanto pelo corte de
gastos, mecanismo que também permite ao governo reservas financeiras
para pagar o serviço da dívida. Os ortodoxos geralmente
aconselham seguir o segundo caminho. Quanto mais desorganizada for a sociedade,
mais fácil será a implementação dessas medidas.
O
câmbio flutuante
é a terceira variável-mestra da ortodoxia neoliberal.
Câmbio flutuante significa dizer que a entrada e saída de
dólares será regulada pelo mercado. Quando ocorrer a entrada no
País de uma quantidade de dólares maior que suas necessidades, o
preço do dólar tende a cair e a moeda local se valoriza. Quando a
quantidade de dólares que estiver entrando no País for menor que
suas necessidades, teremos escassez dessa moeda e os preços tendem a
subir. Quanto a entrada de dólares e as necessidades do País
estiverem em simetria, teremos então o preço de equilíbrio
do dólar. Acontece que o dólar é um preço
fundamental para a economia, pois influencia o comércio exterior (a
moeda nacional valorizada reduz as exportações e estimula as
importações e o turismo de brasileiros no exterior) e, dependendo
do nível de importação de matérias-primas e bens em
geral, pode contribuir para o aumento ou redução da
inflação.
Desmontando os argumentos falaciosos
Apesar de sua aparência técnica, muitas vezes recheada por
equações matemáticas para tornar elegantes os argumentos e
constranger os menos iniciados no economês, esses postulados neoliberais
representam uma enorme inconsistência teórica, além de
expressar uma pobreza de argumentos típicos da economia política
vulgar. Em termos populares, podemos dizer que têm a profundidade de um
pires e a consistência de uma gelatina. Na verdade, todo o
arcabouço da teoria neoliberal guarda relação estreita com
a degeneração ideológica do capitalismo
contemporâneo, pois nesses tempos de apodrecimento do sistema, em que o
capital não tem mais nada a oferecer aos trabalhadores, os
teóricos capitalistas também já não possuem
fundamentos sólidos para defender o sistema.
Não possuem, como no passado, defensores da estatura de Smith e Ricardo,
que fundamentavam suas teorias com base no real e muitas de suas descobertas
foram incorporadas e desenvolvidas pelo marxismo. Ou pensadores como Say ou
Marshall. Nem mesmo um Schumpeter ou Keynes que, mesmo defensores do sistema,
identificavam sua instabilidade e problemas. Agora não, tudo se reduz ao
dogma do mercado e do equilíbrio geral, adicionados de banalidades mais
para o terreno da psicologia do que para a economia. São teóricos
capitalistas de segunda mão, quase uma plêiade de místicos
que buscam defender seus argumentos apelando para o senso comum, para os
sofismas, para a psicologia, para os argumentos rasteiros, muitas vezes com
embalagem sofisticada e, especialmente, para a manipulação dos
meios de comunicação de massas, sem os quais não
sobreviveriam. Na verdade, seus argumentos representam pura e simplesmente uma
armadilha para aprisionar governos e povos nas malhas do capital financeiro e
tem como objetivo enriquecer ainda mais o grande capital, banqueiros e
rentistas em geral.
Vejamos a inconsistência dos argumentos mais gerais e depois daqueles
mais específicos. Antes de tudo,
o
equilíbrio geral da economia
: esse é um dogma que não se sustenta em nenhum momento na
economia de um País, de um Estado ou de uma cidade. Pelo
contrário, a economia está sempre em desequilíbrio e
até mesmo Keynes já tinha constatado na década de 30 que
o sistema capitalista é estruturalmente instável. Basta dar uma
olhada nos ciclos econômicos que ocorrem desde os primórdios do
capitalismo para se constatar esse dado da realidade, além das
três grandes depressões do sistema: 1873-1896; 1929-1945; e agora
2008 - ?. Da mesma forma que os cristãos acreditam que Cristo nasceu por
obra e graça do Espírito Santo, os fundamentalistas ortodoxos
também creem que se deixar tudo por conta do mercado se
encontrará o equilíbrio geral da economia.
O próprio poder mítico do mercado é outro mantra cegamente
cultivado. Eles afirmam, seguindo uma tradição desde os tempos de
Smith, que o mercado é capaz de harmonizar os interesses de todos os
agentes econômicos. O livre mercado, na visão ortodoxa, é o
local onde produtores e consumidores, com interesses divergentes, se encontram
para realizar atos de compra e venda os consumidores querem comprar pelo
menor preço, enquanto os produtores querem vender pelo preço
máximo. Com sua mão invisível, tal qual um demiurgo
justiceiro, o mercado se encarregaria de encontrar um preço de
equilíbrio. Esse é um dogma que na prática não
possui aderência ao mundo real. Se assemelha a uma miragem que os
viajantes perdidos no deserto costumam observar. Num mundo onde
oligopólios e monopólios dominam tanto o processo de
produção quanto de distribuição de bens e
serviços e, portanto, têm a capacidade de formar os preços
da economia, acreditar no livre mercado é ter a mesma
convicção dos romeiros, que acreditam piamente na
santíssima trindade.
E o que se esconde, na prática, por trás do tripé
macroeconômico fundamentalista metas de inflação,
superávit primário e câmbio flutuante?
Uma feroz ofensiva contra salários, direitos e garantias dos
trabalhadores e aposentados. Senão vejamos. A matriz teórica
desses fundamentalistas inverte completamente os objetivos da política
macroeconômica, que é a busca do crescimento, do aumento do
emprego, da renda e do consumo, e transforma a estabilidade monetária no
objetivo central da política econômica, aliada à
redução do papel do Estado e à
desregulamentação da economia, derivando desse quadro de
referência todas as outras variáveis econômicas e sociais
[8]
. A partir desses pressupostos, abandona-se o planejamento, a política
industrial, a política de rendas tudo gira em torno das metas
inflação, contas equilibradas e câmbio flutuante. Nesse
contexto, o Banco Central independente passa ter um papel determinante para
coordenar as expectativas, definir as taxas de juros e regular a taxa de
câmbio, enquanto o Ministério da Fazenda cuida do ajuste fiscal.
Estão assim montadas as bases para colocar o conjunto da economia a
serviço dos banqueiros e rentistas.
O regime de metas de inflação
começou a ser utilizado no Brasil a partir de junho1999, em
função da crise cambial e do fracasso do Plano Real. A partir
daí o Banco Central passou a ter independência operacional para
conduzir a política monetária, de forma a atingir a meta
inflacionária. Os argumento para a implementação das metas
de inflação buscam enfatizar que este mecanismo reduz as
incertezas e imprevisibilidades, sendo condição fundamental para
que os agentes econômicos atuem num ambiente de estabilidade e
transparência garantida institucionalmente e, dessa forma, possam
exercer melhor suas atividades. Se obteria assim um ambiente de baixa
inflação, condição fundamental para a retomada do
crescimento econômico.
Como o objetivo central da política econômica é a
estabilidade dos preços, o mecanismo básico para alcançar
essa meta é o desaquecimento
da demanda, via aumento dos
juros e contração do crédito. Se observarmos o Brasil,
poderemos constatar que foram raros os anos em que a inflação
atingiu a meta, além do fato de que desde a década de 90 o
crescimento econômico tem sido medíocre, salvo alguns anos do
segundo governo Lula. Enquanto países como a China e Índia, que
não utilizam a política de metas de inflação,
conseguiram elevado crescimento econômico com inflação
baixa. Portanto, as metas de inflação significam apenas uma
camisa de força para organizar a transferência de renda do setor
público e dos trabalhadores para os setores ligados ao mercado
financeiro.
Isso pode ser melhor verificado se observamos o segundo dogma neoliberal, que
é o
superávit primário
. Como vimos, superávit primário é a economia que o
governo faz, cortando gastos, para pagar os juros da dívida
pública. Quanto maior o superávit primário, maior
será a quantia transferida para os detentores dos títulos da
dívida. Se observarmos o ajuste fiscal que o governo vem realizando,
veremos que foram realizados cortes no seguro-desemprego, aposentadorias,
aumento de juros no crédito ao consumidor e aumento de impostos, medidas
com as quais o governo espera economizar R$ 20 mil milhões. No entanto,
essa política neoliberal é tão irracional que se
atentarmos para o fato de que somente o aumento de 1,25% ponto percentual na
taxa de juros, ocorrida após a segunda eleição de Dilma,
significou um aumento de R$ 25 mil milhões no pagamento de juros da
dívida pública.
Na verdade, a economia brasileira vem sendo administrada em
função dessa dívida e esse tem sido o principal entrave
para o desenvolvimento econômico. Trata-se de uma sangria de recursos que
somente no governo Dilma atingiu a impressionante soma de R$ 992 mil
milhões (Tabela 2). A imprensa e o
mainstream
acadêmico alardeiam aos quatro ventos que essas medidas representam uma
necessidade técnica e uma solução natural para os
problemas da economia brasileira. Assim, o ajuste fiscal deverá ser
realizado para enfrentar o excesso de gastos do Estado, principal entrave para
o crescimento econômico do País. Realmente, o Estado brasileiro
tem um conjunto de gastos em excesso, sendo que o principal deles é o
pagamento dos juros e amortização da dívida interna. Este
sim é o problema central da economia brasileira. Nesse caso, o ajuste
fiscal deveria ser feito punindo financeiramente os especuladores e rentistas
em geral que se apropriam de cerca de 5% do PIB todo ano e assim travam as
possibilidades de realização investimentos públicos e de
políticas públicas que favoreçam a
população, medidas que poderiam ser associadas à
progressividade na cobrança dos tributos e imposto sobre grandes
fortunas.
Juros da dívida pública no governo Dilma
(R$ mil milhões, valores corrigidos pelo INPC)
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2011
|
265
|
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2012
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227
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2013
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249
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2014
|
251
|
Fonte: Achados Económicos/Banco Central
Já o
câmbio flutuante
representa uma ferramenta muito importante para o capital internacional
especulativo, especialmente nesses tempos de flexibilização
quantitativa (
quantitative easing
). Como o capital especulativo ganhou mobilidade irrestrita entre as
nações, passou a ter também a possibilidade de arbitrar o
diferencial da taxa de juros entre o seu País de origem e os
países onde está sendo aplicado. Como as economias subordinadas
geralmente têm taxas de juros maiores que a economias centrais, pela
própria hierarquia do sistema financeiro internacional, a flexibilidade
quantitativa amplia o horizonte da especulação, possibilita-lhes
grandes lucros, com a vantagem de que esses capitais podem sair do País
aos primeiros sinais de uma crise. Além disso, a entrada de
dólares acima das necessidades do País faz o preço do
dólar cair, resultando numa performance negativa para a balança
comercial, pois a moeda nacional valorizada dificulta as
exportações, o que resultará em déficits comerciais.
Portanto, todo o arcabouço teórico neoliberal visa reduzir a
possibilidade de o governo realizar política econômica e anular na
prática a política fiscal e monetária e a
indução do crescimento econômico
[9]
. Além disso, é um mecanismo para transferir renda
[NR]
do setor público para o privado e uma armadilha para confiscar os
salários dos trabalhadores e aposentados, reduzir os gastos sociais,
além de diminuir os direitos e garantias dos trabalhadores. Em todas as
nações em que essas medidas foram adotadas os resultados foram os
piores possíveis, que o digam os países do Sul da Europa, como a
Grécia, onde mais de 30% vive na miséria, com um desemprego geral
de 26% e entre a juventude esse índice alcança 50%
[10]
.
As medidas de austeridade não só não foram
eficazes
para resolver a crise, como aumentaram a recessão e o endividamento,
além de produzir uma tragédia social por toda a Europa: o
desemprego aumentou escandalosamente, os salários diminuíram, as
aposentadorias foram cortadas, milhares de funcionários públicos
foram demitidos, os serviços públicos se deterioraram e as
condições de vida de vastos setores da população
caíram a níveis de pobreza absoluta. No entanto, mesmo diante de
um quadro social desta ordem, os banqueiros e rentistas ganharam muito dinheiro
às custas do sacrifício da população e a
crise se tornou ainda mais grave!
Marcha em direção ao pântano
Portanto, o ajuste fiscal no Brasil, se não for barrado pela luta
social, deverá produzir os mesmos resultados que produziu na Europa e em
outras partes do mundo, com a desvantagem de aumentar todos os problemas que se
propôs a resolver com uma única exceção: os
banqueiros e rentistas aumentarão os seus lucros em meio à
regressão social e econômica. O governo do Partido dos
Trabalhadores, nosso camaleão proletário, ao optar pelo
núcleo duro do neoliberalismo no Brasil, cumpriu a última etapa
de sua degeneração ideológica e política, seguindo
o mesmo caminho de outras formações sociais-democratas
só que num tempo muito mais breve que seus congêneres europeus.
Por que o ajuste fiscal e monetário será um fracasso
econômico, social e político? Primeiro, porque essas medidas
fracassaram em todas as partes do mundo em que foram implementadas. Segundo,
porque estas medidas já foram realizadas à exaustão nos
dois mandatos do governo FHC com os resultados que todos conhecemos: ao longo
de seu governo a inflação sempre esteve acima da meta, muito
embora a imprensa conivente não tenha feito o mesmo carnaval que fez
recentemente; o crescimento econômico também ao longo dos oito
anos foi medíocre, cerca de 2,5% na média anual do
período; o desemprego atingiu níveis dramáticos,
especialmente na Grande São Paulo, onde atingiu o recorde de 19% da
força de trabalho; a dívida interna aumentou cerca de sete
vezes; a valorização artificial do Real levou a sucessivos
déficit na balança comercial e ao sucateamento de várias
cadeias produtivas, além de uma grave crise cambial, que colocou em
nocaute o plano de estabilização.
Terceiro, porque essas medidas são anunciadas numa conjuntura
internacional muito desfavorável para o Brasil. Vale lembrar que o ciclo
de aumento dos preços das commodities se esgotou e a tendência
é a continuidade na queda desses preços em função
da retração econômica mundial. Como ocorreu acentuada
reprimarização da economia brasileira, com aumento dos produtos
agropecuários na pauta de exportação, a crise mundial vai
continuar impactando negativamente no desempenho da balança comercial.
Some-se a isso uma conjuntura interna bastante difícil, como a
estagnação econômica ao longo do primeiro mandato, a crise
no abastecimento de água e energia elétrica, as denúncias
de corrupção e a queda nos investimentos da Petrobrás,
responsáveis por 10% do investimento.
Essa conjuntura configura um quadro de enormes dificuldades econômicas e
sociais e políticas, diferente dos oito anos de mandatos de Lula, quando
o ciclo de aumento das commodities, aliado a políticas econômicas
orientadas pelo Estado, possibilitaram um crescimento econômico maior que
no período FHC, permitindo assim a realização de
políticas sociais compensatórias que foram a marca de seu
governo, muitos embora os ricos nunca tenham deixado de ganhar tanto dinheiro
como nesse período. Esta janela de oportunidades está fechada
para o segundo mandato do governo Dilma.
Portanto, um ajuste fiscal e monetário com o País em estado de
estagnação econômica é uma aberração
irracional, típica da cegueira neoliberal. Ao contrário do que os
fundamentalistas vêm apregoando, essas medidas levarão o
País à recessão, ao desemprego e à queda na renda
da população, como está ocorrendo na Europa. Afinal,
aumento nas taxas de juros, elevação dos impostos, cortes nos
gastos público, contração do crédito e
redução dos benefícios sociais levarão
consequentemente à queda nos investimentos privados e ao desaquecimento
da economia, com aumento do desemprego e redução na renda das
famílias. Como se sabe, a renda das famílias representa dois
terços na composição do Produto Interno Bruto. Portanto,
essas medidas significam um fracasso anunciado, mas os neoliberais sempre
encontrarão uma justificativa para suas estripulias exóticas
geralmente costumam justificar o fracasso com a balela de que tudo
não deu certo porque não se aplicou plenamente todo o
receituário recomendado. Uma prática semelhante aos pastores das
novas igrejas evangélicas que, diante da não
realização dos milagres que prometeram, afirmam que a
graça não foi alcançada porque os fiéis não
tiveram fé.
Evidentemente que um quadro conjuntural desta ordem representa o pior dos
mundos para os trabalhadores e para a maioria da população. No
entanto, será um paraíso para os banqueiros e rentistas em geral,
que aumentarão o saque dos recursos públicos e o confisco dos
direitos, garantias e salários dos trabalhadores. Por isso, estão
em êxtase diante das decisões da nova equipe econômica e das
outras medidas que ainda tomarão para tornar mais difícil a vida
dos brasileiros, processo que deverá durar até que o desastre
leve o povo brasileiro a reagir diante da selvageria neoliberal, como já
aconteceu em outros países. Oxalá isso ocorra o mais breve
possível.
1- Programas compensatórios do governo federal: O Bolsa Família
para as famílias mais pobres; o Prouni, concede bolsa para os estudantes
das universidades privadas e viabiliza esses empreendimentos; e o Pronetec
financia cursos técnicos também nas universidades privadas.
2- Para uma melhor compreensão da trajetória e crise do Partido
dos Trabalhadores, consultar: Costa, Edmilson. A tragédia da
social-democracia retardatária no Brasil. São Paulo: Novos Temas,
e
resistir.info
.
3- Economia que o governo faz, cortando gastos públicos, para pagar os
serviços da dívida pública.
4-
Valor Econômico,
13 de janeiro de 2015. Os dados têm como base
estudo do professor Carlos Alberto Ramos, da Universidade de Brasília.
5- Um levantamento mais detalhado sobre o pagamento de juros no Brasil a
partir de 2002 pode ser encontrado em: Costa, Edmilson.
Os 20 anos do Plano Real, uma herança terrível para os trabalhadores.
.
6- A questão da mão invisível do mercado foi teorizada
pioneiramente por Adam Smith, em sua obra A riqueza das nações.
São Paulo: Abril Cultural, 1983. Posteriormente Milton Friedman
desenvolveu as concepções em relação ao mercado em
seu livro Capitalismo e liberdade. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
7- Araújo, Assílio Luiz Zanella de. Avaliação
crítica do regime de metas de inflação a partir de uma
ótica pós-keynesiana.
www.ufrgs.br
Análise Econômica, v. 31, n. 60 (2013).
8- Plihon, Dominique. Desequilíbrios mundiais e instabilidade
financeira: a responsabilidade das políticas neoliberais. Um ponto de
vista keynesiano. In A mundialização financeira
gênese, custos e riscos (org. François Chesnais). São
Paulo: Xamã, 1999.
9- Gobetti, Sergio Wulff; Amado, Adriana Moreira. Ajuste fiscal no Brasil:
algumas considerações de caráter pós-keynesiano.
10- Carta, Giani. Tsipras leva e abre o debate. São Paulo: Carta
Capital, No. 835.
[NR] No Brasil chamam de renda a qualquer tipo de rendimento, mesmo os
não provenientes de actividades rentistas.
Nota: Resistir.info dispõe de alguns exemplares de "A crise económica mundial, a
globalização e o Brasil", de Edmilson Costa (287 pg., ed. ICP).
Custa 15 euros (porte incluido).
Os interessados poderão transferir essa
quantia para o NIB 003601689910004600741 e a seguir informar (com nome/morada)
para o email resistir[arroba]resistir.info.
[*]
Doutorado em economia pela Universidade de Campinas, com
pós-doutorado na mesma instituição. É autor, entre
outros, de A crise econômica mundial, a globalização e o
Brasil (Edições ICP, 2013) e A globalização e o
capitalismo contemporâneo (Expressão Popular, 2008), além
de artigos e ensaios publicados no Brasil e no exterior. É diretor de
Pesquisa do Instituto Caio Prado Junior, um dos editores da revista
Novos Temas
e secretário de Relações Internacionais do PCB.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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