Brasil: Aprofunda-se o processo de regressão
por Marco Antonio V. dos Santos
[*]
"'Estamos nos transformando na grande roça do mundo',...
César Borges de Souza, vice-presidente da Caramuru Alimentos,
a maior empresa de processamento de grãos de capital nacional."
[1]
Afirmamos em nosso documento "
Regressão a uma Situação Colonial de Novo Tipo
"
[2]
que a reconfiguração da formação
econômico-social brasileira responde a sua inserção como
país dominado no processo de reconfiguração do sistema
imperialista, da economia mundial, ou "
a movimentos de expansão e deslocamento da economia internacional
", como quer o BNDES em seu documento:
"Por que os investimentos na indústria vão crescer".
[3]
A partir desta análise mostramos que as mudanças na estrutura
econômica da formação brasileira se expressavam,
principalmente, num processo que se desdobrava em quatro movimentos distintos
e, ao mesmo tempo, faces do mesmo processo;
1 na formatação de uma nova estrutura industrial já
não mais integrada horizontalmente e verticalmente pelo encerramento de
um conjunto, ou de elos, parcelas das cadeias produtivas, de ramos de
atividades industriais, segmentos industriais que se faziam desde a
extração e manufatura de matérias primas e insumos ao
produto final até o encerramento de setores da produção de
bens de consumo, que assim passam a ser importados ou somente montados no
país (nesse último caso, por monopólios estrangeiros). Com
isso, perdem-se segmentos industriais relevantes ou rompem-se elos em cadeias
produtivas. A desindustrialização é, portanto, um
fenômeno constitutivo da regressão a uma situação
colonial de novo tipo.
2 na organização de um novo setor industrial voltado para
a constituição de ilhas de produção e montagem de
mercadorias, em empresas estrangeiras ou associadas, de média
tecnologia, principalmente para exportação. Na pauta de
exportações brasileira, a presença de produtos com alto
valor agregado, oferta dinâmica e uso intensivo de tecnologia pode
permitir conclusões equivocadas. Com algumas poucas
exceções, estes produtos que figuram como
exportação brasileira, em realidade, de made in Brazil só
têm a fase de montagem do que foi produzido em outros países, nas
cadeias de produção internacional, organizadas pelas empresas
transnacionais imperialistas. Fase de montagem que requer um baixo nível
de especialização e força de trabalho barata. A tecnologia
e o conhecimento técnico incorporados a essas mercadorias se concentram
em peças e componentes importados, e boa parte do valor agregado
beneficia as empresas dos países imperialistas onde essas peças e
componentes são produzidas, e que organizam estas redes de
produção.
3 na constituição de um setor agroindustrial voltado
à exportação. Na exportação de commodities
minerais. Assim, o pólo dinâmico da economia se transfere para
setores voltados à exportação. Portanto, um conjunto de
setores que se realizam no exterior. No geral, setores de
elaboração de produtos primários. Ou seja, os novos
setores dinâmicos têm seu ciclo produtivo concluído no
exterior, realizado no exterior. Nesse sentido, o Brasil aprofunda a
característica de país exportador de mercadorias intensivas em
força de trabalho e derivadas da exploração de seus
recursos naturais, baseando-se, para competir no mercado mundial, em sua
disponibilidade de força de trabalho barata e de pouca qualidade. A
especialização na produção e
exportação de commodities é outra das
características da regressão colonial.
4 na montagem de um sistema com o objetivo de remunerar o capital
financeiro, remunerando com altos juros o capital fictício que circula e
só existe nas engrenagens da especulação, através
da articulação entre um elevado superávit primário
e altos saldos na balança comercial, que permitem remunerar o capital de
"cassino". Capital este que corre para cá com total liberdade
atrás das vantagens que só o Brasil e o governo do PT são
capazes de dar. Para isto, configura um mecanismo a fim de executar uma
punção sobre grande parcela da mais-valia produzida internamente,
mesmo quando realizada no exterior, a favor do capital financeiro. Extorque do
povo um elevado superávit primário em relação ao
PIB, o que possibilita ao governo - mantendo a taxa de juros a mais alta na
economia mundial - capturar uma parcela da mais-valia produzida e, comprando os
dólares do saldo da balança comercial, transformá-los em
remuneração ao capital financeiro beneficiado por estas
altíssimas taxas de juros internas oferecidas.
[Boletim do CeCAC, ano XII, nº1]
Podemos dizer que, desde que publicamos nosso texto, se aprofundou, tornando-se
mais evidente, com suas características, emergindo mesmo da
análise superficial de "indicadores", o processo de
regressão, de adequação da formação
brasileira aos "
movimentos de expansão e deslocamento da economia internacional
" e, concomitante, neste processo as frações da classe
dominante que vinham com contradição em relação a
aspectos do movimento de regressão convergiram, no principal, em sua
direção.
Vamos analisar, a partir dos quatro movimentos/características que
identificamos acima, com as quais conceituamos o processo de regressão,
como este se desdobrou. Analisar como evolui o processo a partir de suas
características.
A
primeira,
"
... uma nova estrutura industrial já não mais integrada
horizontalmente e verticalmente...
".
Segundo,
"
... na organização de um novo setor industrial voltado para a
constituição de ilhas de produção e montagem de
mercadorias, em empresas estrangeiras ou associadas, de média
tecnologia, principalmente para exportação.
".
Terceiro,
"
... na constituição de um setor agroindustrial voltado à
exportação. Na exportação de commodities minerais.
Assim, o pólo dinâmico da economia se transfere para setores
voltados à exportação.
".
Quarto,
"
... na montagem de um sistema com o objetivo de remunerar o capital
financeiro,...
". (Boletim do CeCAC, ano XII, nº1)
É de fundamental importância, ao colocar em prática nossa
crítica a partir da análise da formulação de
economistas burgueses, dos economistas do BNDES, IEDI, particularmente, ter em
conta que o ponto de vista de classe onde estão situados o ponto
de vista das diversas frações da classe dominante os leva
a ver ou a não ver, em suas análises, fenômenos ou a
enfocá-los de seu ponto de vista e, assim, a identificá-los sob a
forma determinada pelos interesses da classe que representam. Um bom exemplo
disto está no documento do BNDES, "
Visão do Desenvolvimento nº. 26
".
Esta modalidade de cegueira ideológica se expressa por todos os
documentos que analisamos. Nestes textos, partindo do ponto de vista de classe,
os economistas das distintas frações da classe dominante
brasileira, não podem ver que a mudança estrutural importante
não é o crescimento ou queda de um índice ou de outro,
porém a reconfiguração da economia brasileira condicionada
pelos processos de reorganização da economia mundial. Aqui, o
crescimento ou queda de um índice é resultado do processo de
regressão sob a determinação da economia mundial, do
imperialismo.
Partindo da análise dos textos do IEDI e de órgãos
governamentais como o BNDES, podemos comprovar que, não só se
aprofunda o processo de regressão, como também que as diversas
frações da classe dominante passaram a alocar seus capitais em
torno do novo "
sentido da colonização
", a regressão, atendendo às determinações do
sistema em busca da taxa de lucro.
O IEDI publicou em 23/03/07, portanto um ano e quatro meses depois de ter
lançada a questão "
Ocorreu uma Desindustrialização no Brasil?
"
[4]
, a
Carta nº. 252
"
Desindustrialização e Dilemas do Crescimento Econômico
Recente
" que inicia afirmando: "
Podemos dizer que a desindustrialização está aumentando...
", para concluir, "
Em síntese, mesmo dotado de um parque industrial amplo e diversificado,
verifica-se nos últimos anos um processo de
desindustrialização no país,...
".
O trabalho do IEDI começa por apontar para o baixo ritmo de crescimento
da economia brasileira, partindo do pressuposto correto de que numa economia
capitalista é o crescimento da indústria que puxa o crescimento
de toda a economia:
"O baixo dinamismo da economia brasileira, expresso em baixas taxas de
crescimento do PIB, se constitui em um dos principais problemas
macroeconômicos da atualidade. O crescimento da indústria de
transformação, setor que por suas características de
encadeamento de demandas ao longo das cadeias produtivas dentro e fora da
indústria exerce um importante efeito de liderar a taxa de crescimento
agregada, também tem crescido pouco." ("Carta IEDI nº.
252", p.2)
O problema não é que o PIB tenha crescido pouco, o problema
é de que cresceu pouco por ter sido "puxado" para baixo pela
"indústria de transformação", como aponta a nova
carta onde o IEDI dá os índices do aprofundamento da "
desindustrialização
", a partir deles podemos mostrar como se desenvolveram as
características do processo de regressão que relacionamos acima:
A primeira, de que a estrutura industrial constituída anteriormente vem
sendo substituída por "
... uma nova estrutura industrial já não mais integrada
horizontalmente e verticalmente...
".
"Se um parque industrial está perdendo importância, seja em
termos quantitativos ou qualitativos, esse processo pode se dar de duas formas,
não excludentes. Na primeira, determinados setores industriais
vão perdendo peso, em termos absolutos e/ou em relação ao
total da indústria, não sendo isso compensado pelo ganho de
importância de outros segmentos industriais. Esse processo é de
maior gravidade, se os setores que encolhem são intensivos em tecnologia
(setores de ponta)." ("Carta IEDI nº. 252", p. 9)
É isto o que vai caracterizar a
"desindustrialização", "
determinados setores industriais vão perdendo peso, em termos absolutos
e/ou em relação ao total da indústria, não sendo
isso compensado pelo ganho de importância de outros segmentos industriais.
" Não só a indústria vai perdendo "
determinados setores
" como também vai perdendo setores "
intensivos em tecnologia
".
"Uma atualização do estudo anterior aponta para um
aprofundamento do processo de desindustrialização nos
últimos dois anos. A menor taxa de crescimento da indústria de
transformação relativamente aos demais setores da economia
é um indicativo de que o processo de desindustrialização
está progredindo. Mais ainda, observando os componentes da demanda
agregada que mais cresceram no período, o expressivo crescimento das
importações (9,3% em 2005 e 18,1% em 2006), com baixo incremento
da produção da indústria de transformação
(1,1% em 2005 e 1,9% em 2006), sugere que pode estar ocorrendo um forte
processo de substituição de produção
doméstica por importações" ("Carta IEDI nº.
252", p. 3).
O que vai mostrar o estudo é que setores ou elos da cadeia produtiva
são desativados e substituídos pela importação de
peças e componentes, por outro lado, nos setores em que se mantiveram
com suas cadeias de produção completa não se deu a
atualização dos processos produtivos. Mesmo quando se diz que
estes setores não recuaram tecnologicamente, mas estagnaram, se
está afirmando que estão empregando tecnologias já
superadas ou em vias de superação na economia mundial (os trustes
e cartéis transferem tecnologia "velha" retirando novos lucros
delas) visto que esta vem vivendo um processo intensivo de
incorporação de novas tecnologias, com o objetivo de aumentar a
taxa de lucro, intensificando a exploração das classes dominadas.
"Uma conclusão geral sobre as mudanças na estrutura
produtiva: a abertura econômica, se não provocou uma
regressão tecnológica, também não promoveu um
"upgrade" em termos de processos produtivos mais sofisticados."
("Carta IEDI nº. 252", p.2).
Segundo,
"
... na organização de um novo setor industrial voltado para a
constituição de ilhas de produção e montagem de
mercadorias, em empresas estrangeiras ou associadas, de média
tecnologia, principalmente para exportação
.". (Boletim do CeCAC, ano XII, nº1)
O estudo do IEDI mostra que outra forma do que vai chamar de
"desindustrialização", a reconfiguração
da indústria no Brasil, se dá com o processo que denomina de
"
terceirização
" da produção de peças e componentes e
matérias-primas. Mostra que esse processo de "
terceirização
" expressando o que identifica como
"desindustrialização", a reconfiguração
da indústria brasileira, se dá quando a produção
industrial de matérias-primas, peças e componentes é
transferida para outras empresas e, no caso do Brasil, para o exterior,
resultando na situação, por exemplo, da zona franca de Manaus,
onde "
... a indústria apenas 'encaixa' peças e componentes que foram
produzidas no exterior,
".
"A desindustrialização pode ocorrer também quando a
forma como se produz sofre grandes alterações por meio da
terceirização da força de trabalho e da
produção de matérias - primas. Com a
terceirização da mão-de-obra parte da
produção da indústria é transferida para o setor
serviços. Um exemplo são os serviços de
manutenção de máquinas e equipamentos industriais que,
até o final dos anos 1980 estavam, em grande medida, a cargo das
próprias empresas industriais. No início dos anos 1990 essa
produção passou para empresas do setor terciário. A
terceirização da produção de matérias
primas, peças e componentes é fruto da adoção da
prática de linhas de produção mais especializadas no
produto final. Nesse caso a produção industrial é
transferida para outras empresas industriais no Brasil ou no exterior."
("Carta IEDI nº. 252", p. 9).
A
terceira
característica, a ".
.. constituição de um setor agroindustrial voltado à
exportação. Na exportação de commodities minerais.
Assim, o pólo dinâmico da economia se transfere para setores
voltados à exportação.
", (Boletim do CeCAC, ano XII, nº1) vem se acelerando rapidamente sob
a determinação da economia mundial:
"Para investigarmos se está ocorrendo uma tendência recente
à desindustrialização duas linhas de
argumentação serão apresentadas. De um lado, a
persistência da política econômica que combina elevadas
taxas de juros e cambio apreciado tem desistimulado (sic) o crescimento da
economia e da indústria em particular. Por outro lado, as
mudanças na estrutura produtiva provocadas em grande parte pela abertura
econômica, levaram a uma concentração maior da
produção em setores com vantagens competitivas na
exploração de recursos naturais em detrimento de setores mais
tradicionais e mais empregadores de mão de obra e de setores de alta
tecnologia, com vantagens competitivas dinâmicas no comercio
internacional. Essa tendência à especialização em
recursos naturais torna as exportações industriais do país
mais vulneráveis às flutuações de preços no
mercado internacional, com conseqüências negativas para a
balança comercial a longo prazo." ("Carta IEDI nº.
252", p. 4).
Como mostra o documento do IEDI, a reconfiguração da economia
brasileira para acompanhar o processo de reorganização da
economia mundial, o que no texto está "traduzido" de forma a
encobrir os determinantes externos, como "
as mudanças na estrutura produtiva provocadas em grande parte pela
abertura econômica
", "
levaram
", como o texto do IEDI conceitua o processo, ou de melhor forma,
determinaram (determinaram no sentido das delimitações impostas
pelas leis que regem a reprodução do capital) "...
a uma concentração maior da produção em setores com
vantagens competitivas na exploração de recursos naturais,
" e "...
em detrimento de setores mais tradicionais e mais empregadores de mão de
obra e de setores de alta tecnologia
.". Como diz o documento, uma "
tendência à especialização em recursos naturais
".
Os documentos do BNDES "
Visão do Desenvolvimento
", confirmam as análises que vimos fazendo de que a
formação econômico-social brasileira vive um processo de
reconfiguração em razão das mudanças por que passa
a economia mundial.
O
Visão
de nº. 21, "
Investimentos vão crescer entre 2007 e 2010
", se inicia estabelecendo uma relação entre o crescimento
da economia brasileira e da economia mundial:
"Há fatores determinantes comuns na desaceleração da
economia internacional e do Brasil a partir dos anos 1980. O principal deles
foi a mudança que ocorreu na economia americana." (
"Visão" nº. 21
, p. 2).
Mais adiante, o texto do BNDES aponta, de forma atravessada, a "
mudança estrutural importante
" ocorrida na economia brasileira que, de acordo com o texto, se dá
a partir de 2002.
"A partir de 2002, a economia voltou a se expandir a taxas um pouco mais
elevada de 2,8% ao ano. Esse crescimento veio, no entanto, associado a uma
mudança estrutural importante. Em contraste com o observado nas
últimas décadas verificou-se a acumulação de
elevados saldos em transações correntes da ordem de 1,5 % do PIB
ao ano." ("Visão" nº. 21, p. 3).
Ora, a "
mudança estrutural importante
" não está na "
acumulação de elevados saldos
" e sim nas transformações que já vêm ocorrendo
na economia brasileira bem antes de 2002. Mudança estrutural esta que
leva ao resultado dos saldos em transações correntes e que
só pode ser estudada no contexto do rearranjo da "
economia internacional
".
Esta modalidade de cegueira ideológica se expressa por todo o documento,
como por exemplo, quando diz que se reduziu a "
vulnerabilidade externa
". Ora, a inserção do Brasil como fornecedor de
commodities,
da agroindústria, da agropecuária, minerais e até
industriais, a reconfiguração da economia mundial, aumentou a
vulnerabilidade do Brasil às crises ou processos de crescimento ou
estancamento da economia mundial. Podemos dizer que hoje a economia do Brasil
é muito mais vulnerável às oscilações da
economia mundial do que quando alimentávamos uma dívida
impagável (que gerou a moratória de 1987). Vulnerável no
sentido de que aumentou, intensificou, a dominação imperialista,
aprofundou a condição do Brasil de país dominado no
sistema imperialista. E de uma forma específica que estamos conceituando
de
regressão a uma situação colonial de novo tipo.
É importante analisar os setores da economia que vão crescendo e
onde se dão maiores investimentos para que possamos perceber o sentido
para onde se move a formação econômica social brasileira
nesta nova etapa do processo de dominação imperialista. O
documento que estamos citando percebe, evidentemente, do seu ponto de vista,
que a economia no Brasil se move em outro sentido.
"Pesquisa realizada pelo BNDES, em 2006, aponta que os investimentos em
curso, em análise ou em perspectiva na indústria, na
infra-estrutura e na construção residencial, já
estão se movendo em direção a uma trajetória de
aceleração ao longo dos próximos quatro anos." (
"
Visão", n°. 19
, p. 4).
Ao não ser capaz de perceber que "
os investimentos em curso
", dirigem-se para setores específicos da economia, os economistas
do BNDES só são capazes de identificar "
uma trajetória de aceleração
" e, mesmo quando especificam os investimentos por setor, não
são capazes de analisar o sentido em que se move a economia, apesar de
que o documento classifica a maior parte dos investimentos como "
autônomos
" com relação à economia brasileira.
"A taxa de investimento está hoje em seus recordes
históricos nas áreas de petróleo e gás e de
extrativa mineral. Ambos os setores estão respondendo ao aumento da
demanda e dos preços internacionais. Na siderurgia e em papel e celulose
vislumbra-se um movimento importante de deslocamento para o Brasil de
capacidade produtiva, hoje instalada em países desenvolvidos,
atraído pela forte competitividade brasileira nestes setores."
("Visão", n°. 19, p. 5).
Do ponto de vista dos interesses da classe operária, o que a
análise do BNDES exposta na citação acima mostra é
que, nos setores da "
indústria extrativa mineral
" e de "
petróleo e gás
", as taxas de investimentos atingem hoje recordes históricos,
inclusive investimentos de capital externo com o objetivo explícito de
atender ao aumento da demanda da economia mundial imposto pela
transferência da indústria dos países imperialistas para a
China. Reconfiguração da economia mundial que resulta para o
Brasil num processo de "regressão", mais desemprego e
exploração para os dominados.
Da mesma forma se dá com a transferência para cá dos
setores da indústria, dos países imperialistas,
siderúrgica e de papel e celulose. A razão exposta pelo BNDES
para esse movimento, a "
forte competitividade brasileira nesses setores
", pode ser traduzida, principalmente, pelo preço muito mais baixo
da força de trabalho, e também pela proximidade das fontes de
matérias-primas, além de outras vantagens, como bases produtivas
já instaladas.
Na conclusão do seu texto, o BNDES destaca, "grosso modo",
quatro grandes setores nos quais identifica esta aceleração de
investimentos, sendo o primeiro próximo a R$ 300 bilhões, o de
petróleo e gás, extrativa mineral, insumos básicos
(siderurgia e celulose). No quadro que reproduzimos abaixo o BNDES identifica
que esse setor é comandado pela dinâmica dos "mercados
externos".
QUADRO RESUMO
|
Características
|
Setores
|
Perspectivas
|
Investimentos Previstos 2007-2010
|
|
Comandados pela dinâmica dos mercados externos
|
Petróleo e gás, extrativa mineral, insumos básicos
(siderurgia e celulose)
|
Investimento em forte expansão, intensivos em capital, projetos de
longo prazo de maturação
|
R$293 bilhões
|
|
Elevada elasticidade da demanda a juros
|
Construção residencial e bens de consumo duráveis
|
Demanda crescente, em função do aumento da renda e do
crédito
|
R$470 bilhões em Construção residencial (1) e R$44
bilhões em Automobilística e Eletrônica
|
|
Dependentes de orçamento fiscal
|
Habitação popular, infra-estrutura urbana, saneamento,
portos e ferrovias (investimentos permanentes)
|
Restrições orçamentárias podem atrasar parte
dos investimentos identificados
|
R$62 bilhões em Saneamento, portos e ferrovias
|
|
Infra-estrutura empresarial
|
Energia elétrica, telecomunicações, portos e
ferrovias,
|
Relevantes para a competitividade sistêmica, mas sujeitos a
Incertezas
|
R$147 bilhões de investimentos em Energia
|
(1) inclui habitação popular.
Debaixo de noções como as de "maior
integração da economia brasileira com a internacional
", "
integração internacional dessas empresas e setores
", o texto esconde que o processo expressa a maior
integração do Brasil no lugar que lhe é determinado pelo
imperialismo.
"Existe um grupo de setores que se beneficiou mais diretamente da maior
integração da economia brasileira com a internacional. Esse
benefício decorreu não só do crescimento acelerado desses
mercados nos últimos anos, mas também de processos em curso de
deslocamento para o Brasil de segmentos das cadeias industriais na siderurgia e
na celulose hoje instalados em países do Hemisfério Norte. Nesse
momento, o que se observa é que há vários blocos de
investimentos em processos de efetivação que devem ampliar, ainda
mais no futuro, a integração internacional dessas empresas e
setores." ("Visão", n°. 19, p. 6).
São setores e empresas que se constituem ou se desenvolvem em
função da requisição da nova fase da economia
mundial, o que implica e implicou contradições no interior da
classe dominante, determinando as políticas econômicas aplicadas
pelo governo bem como as condições na qual a classe
operária trava a luta de classes, inclusive do ponto de vista subjetivo.
É importante notar aqui que se trata do deslocamento para o Brasil de
"
segmentos das cadeias industriais
" configurando a constituição de "
uma nova estrutura industrial já não mais integrada
horizontalmente e verticalmente...
". De segmentos transferidos para cá em virtude da "
forte competitividade
" oferecida pela economia brasileira, fundamentalmente, pelo aumento da
exploração da classe operária que, sob o comando do PT na
luta de classes, vê cair seus salários e aumentar o
exército de reserva.
O
segundo
movimento o de fornecimento de insumos para a
reconfiguração da economia mundial: minerais e matérias
primas, etc. vai conformar outra característica do movimento que
conceituamos como o de
regressão colonial de novo tipo.
"Nesse sentido, o Brasil aprofunda a característica de país
exportador de mercadorias intensivas em força de trabalho e derivadas da
exploração de seus recursos naturais, baseando-se, para competir
no mercado mundial, em sua disponibilidade de força de trabalho barata e
de pouca qualidade. A especialização na produção e
exportação de commodities é outra das
características da regressão colonial." (Boletim do CeCAC,
ano XII, nº 1)
Nos demais setores arrolados, principalmente os casos da
habitação popular e infra-estrutura urbana, onde a análise
do BNDES aponta grandes investimentos, a perspectiva não se sustenta.
Primeiro, porque não há um crescimento significativo da massa de
rendimentos, depois porque as metas de superávit primário
não permitem investimentos para atender as necessidades da
população de mais baixo nível de renda.
De outra forma se dá com a indústria automobilística e
eletrônica, que tem sua produção voltada para a
exportação ou para os setores de camada média de melhor
nível de renda, beneficiada pelo crédito, pela
redução dos juros e o aumento dos prazos.
De forma diferente se dá nos casos de energia elétrica,
telecomunicações, portos, estradas e ferrovias, naquilo que o
documento classifica como "
infra-estrutura empresarial
", investimentos voltados para atender os interesses do grande capital no
processo de reconfiguração.
É ilustrativo voltar para o "
Visão do Desenvolvimento
" de nº.19, no qual o BNDES levanta as perspectivas de investimentos
na indústria, para que se perceba o sentido para onde caminha a
formação econômico-social brasileira.
Primeiro o documento assinala a grandeza dos valores a serem investidos.
Grandeza que não se pode comparar com a dos investimentos nos demais
setores; segundo, o fato de que esses grandes investimentos na indústria
estão voltados para configurar o setor industrial "
autônomo, em relação ao mercado interno.
" e voltado a atender a economia mundial.
"Os resultados da pesquisa são, de certa forma, surpreendentes,
tanto pela magnitude dos valores de investimento levantados, quanto pelo fato
de serem em sua maior parte autônomos ao mercado interno."
"A maior parte desses investimentos é de caráter
autônomo, em relação ao mercado interno. Responde a
movimentos de expansão e deslocamento da economia internacional.
Reflete, por sua vez, a competitividade do Brasil e a capacidade de resposta de
suas empresas ao cenário externo favorável,...".
("
Visão
", nº. 19, p. 7)
Portanto, como reconhece o BNDES, não só estão previstos
grandes somas de investimentos na economia brasileira para os próximos
quatro anos, somas bem maiores do que as que vêm sendo investidas nos
últimos anos, como também, estes investimentos vão no
sentido de reconfigurar a formação econômica brasileira
respondendo "
a movimentos de expansão e deslocamento da economia internacional.
". Expansão e deslocamento na economia mundial em busca de maior
taxa de lucro, em busca de superar sua crise.
Este montante de investimentos projetados tanto pelo Estado como pelo capital
interno, como pelo capital de cartéis e trustes transnacionais, expressa
um movimento no sentido de dar nova conformação à
infra-estrutura econômica. Movimento que, se momentos atrás,
provocou alguma fricção entre as diversas frações
da classe dominante, frações já envolvidas no processo de
reconfiguração e frações da burguesia brasileira
voltadas para o mercado interno, hoje se faz sob o aplauso de todos.
Não podemos desconhecer a competência do BNDES para levantar os
dados sobre os investimentos programados para a indústria para o
período 2007-2010, e a amplitude do levantamento de que é capaz.
"O BNDES é o maior banco de desenvolvimento brasileiro. Esse papel
lhe permite reunir um conjunto amplo de informações sobre os
horizontes de investimento dos principais setores da economia."
("Visão",
nº. 19, p. 1).
É exatamente a competência que lhe possibilita seu "
papel
" e o amplo conjunto de informações que reuniu "
sobre os horizontes de investimento dos principais setores da economia
", que nos permite constatar que tal "
magnitude
" de "
valores
" de investimentos reconfigurando a forma de inserção da
formação brasileira no sistema imperialista não poderia se
dar sem a participação do principal da classe dominante
brasileira.
De outra forma, a tese que estamos avançando é a de que,
após um período de fricção entre setores da
burguesia brasileira que acumulam internamente, principalmente da burguesia
industrial, e setores da burguesia que haviam assumido o papel indutor no
processo de reconfiguração da formação brasileira o
principal dos diversos setores das classes dominantes integrou-se ao processo.
A outra expressão da unificação dos diversos setores da
classe dominante em torno do processo de reconfiguração se
dá pela unificação em torno do governo Lula, de todos os
partidos, maiores ou menores, que expressam interesses menores ou maiores das
classes dominantes.
Hoje o governo Lula reúne um arco que vai de Collor, Maluf, ACM, Jader
Barbalho,
et caterva
até o PL, PP, PTB de Roberto Jefferson, o PV, PDT, PSB, PC do B e PT, e
ainda mais, de Caiado da União Ruralista ao MST, dos banqueiros à
CUT.
Poucas vezes se viu tal habilidade das classes dominantes em colocar
lugar-tenentes operários a serviço de seus interesses.
Notas:
[1] Revista Forbes Brasil, Ano 7 n° 153, 4 de abril/2007,
pág. 46.
[2]
Boletim do CeCAC
, ano XII, nº. 1, 2006.
[3] Por que os investimentos na indústria vão crescer.
Visão do Desenvolvimento
nº. 19. BNDES. [
[4]
Carta 183
, 25/11/2005. IEDI.
[*]
Economista.
O original encontra-se em
http://www.cecac.org.br/MATERIAS/Aprofunda-se_a_regressao.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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