"O risco maior é a barbárie"
Entrevista de João Pedro Stédile
a Roldão Arruda
O MST e outras organizações populares têm dito que
está em curso um processo para desestabilizar o governo de Luiz
Inácio Lula da Silva. Onde o senhor vê indícios desse
processo?
Basta ler os jornais. Basta ler as declarações de próceres
do PFL
[1]
, o que diz o ACM
[2]
, o que escrevem os colunistas ligados à direita. É evidente que
os setores mais reacionários da política brasileira e, mais
ainda, aqueles setores ligados aos serviços de inteligência,
incontroláveis, estão apresentando a hipótese de
impedimento do presidente.
Preparam um golpe?
Como disse o sociólogo Emir Sader, num artigo recente, os golpes
modernos não são no estilo clássico, da força
bruta. São pequenos golpes, todos os dias, com o objetivo de minar a
credibilidade e criar um clima de insustentabilidade. A
articulação dos setores direitistas para dar maior
exposição às denúncias de corrupção
é evidente.
O senhor tem dito que é preciso aglutinar forças em defesa do
governo. Não acha difícil fazer isso, considerando que o governo
ainda não correspondeu à expectativa popular? A política
econômica na linha neoliberal é a mesma do governo anterior, o
nível de desemprego continua alto, o salário mínimo
não cresceu como se esperava.
O esforço do MST e de outros movimentos populares não é
para mobilizar forças em torno do governo. Nós temos autonomia e
assim devemos continuar. Nosso esforço é para pressionar o
governo. Há uma crise e o que se busca são formas de sair dela.
Setores governistas e do capital querem que o governo saia pela direita,
comprometendo-se ainda mais com os interesses do capital. E nós dizemos
que a melhor forma de o governo sair da crise é abandonando o projeto
neoliberal e recompondo sua aliança com o povo.
[3]
Como ele faria isso?
Para recompor a aliança com o povo, o governo precisa dar sinais claros
de mudança na política econômica. Precisa usar os recursos
públicos, ora contingenciados pela política burra do
superávit primário, para atender aos direitos sociais. Ou seja:
aplicar os recursos em educação, salário mínimo,
reforma agrária, investimentos que gerem emprego.
Não acha que o governo ficaria mais instável se fizesse um
movimento brusco na economia, como o senhor recomenda?
Se não mudar, ele pode ter estabilidade. mas ficará ainda mais
refém do capital internacional e dos interesses dos bancos. Por outro
lado, perderá a credibilidade com o povo e comprometerá a
reeleição.
O clima de instabilidade ao qual o senhor se referiu e a
fragilização do governo podem criar o risco de convulsão
social no País?
Não. Nós vivemos um período histórico de descenso
do movimento de massas. Isso foi causado por 15 anos de neoliberalismo, que
resultou no enfraquecimento das organizações, quebrou o direito
ao trabalho e levou desânimo às massas. O papel dos dirigentes e
dos movimentos populares é estimular as lutas sociais, mostrar para o
povo que ele não pode ficar esperando soluções milagrosas
e, muito menos, pela ação de um presidente paternalista. O perigo
maior que vejo nessa conjuntura é o da barbárie social. Falo
daquela situação em que os problemas sociais se agravam e as
pessoas passam a buscar apenas saídas pessoais que levam a todo
tipo de desvios. Elas não levam a nenhuma organização
social, nem à civilidade. Isso sim é que é perigoso. O
alto nível de desemprego, a pobreza e a desesperança, associados
à falta de credibilidade nas instituições representa um
problema muito grave.
Em vez de golpe, a oposição não estaria tentando
imobilizar Lula, garantindo seu retorno ao poder, nas próximas
eleições?
Há varias cenários em curso e ninguém sabe ainda como vai
acabar, pois depende da correlação de forças. Há
setores mais à direita que apostam no impedimento. O PSDB
[4]
, a Febraban
[5]
e seus aliados querem desgastar o governo, para levá-lo à derrota
antecipada e ganhar as eleições de 2006. Há setores do
governo que querem sair da crise por meio de uma aliança com o PMDB
[6]
, sem grandes alterações. E há setores que chegam a
defender a aliança com o PSDB. Foi o caso dos irmãos Viana, do
Acre. Nós, dos movimentos sociais, deixamos claro na Carta ao Povo
Brasileiro que a única saída popular seria o governo se aliar com
o povo, mudar a política econômica, fazer uma reforma ministerial
clara, conduzir a reforma política e construir um novo projeto para o
País.
Notas
[1] Partido dos latifundiários ligados à agricultura de
exportação.
[2] Antonio C. Magalhães, político corrupto da Baia.
[3] Nota de resistir.info: Tal possibilidade parece altamente
improvável. Não parece crível que, nesta altura, o
governo do sr. Lula inverta o rumo neoliberal que escolheu. O Brasil
é hoje um país administrado pelos seus credores da Wall Street.
A sua submissão ao imperialismo manifesta-se em todos os aspectos
até mesmo no tocante à política externa, como se viu na
intervenção feita pelo chanceler Amorim na conferência de
apoio ao governo títere do Iraque.
[4] Partido do ex-presidente Fernando H. Cardoso.
[5] Federação dos banqueiros.
[6] Partido conservador.
O original encontra-se em 'O Estado de S. Paulo', edição de 26/Junho/2005.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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