A punição imperial de um país
Como a administração Trump está a travar uma guerra feroz
à RDPC
A diplomacia nunca teve uma oportunidade. Pouco depois de tomar posse o
presidente Trump assinou uma directiva estabelecendo uma política norte
coreana baseada em medidas abertamente hostis. O Departamento do Tesouro foi
instruído para implementar uma série de sanções
contra a Coreia do Norte e aqueles que comerciassem com o país.
Diplomatas estado-unidenses foram instruídos a instarem
responsáveis estrangeiros em praticamente toda reunião a
romper contactos
com a Coreia do Norte. Este programa tem estado a acelerar-se nas
últimas semanas, com
consequências
de extremo alcance.
Ao negociar a última série de sanções da ONU, a
administração Trump pretendeu um embargo petrolífero total
e outras medidas duras contra a República Democrática e Popular
da Coreia (RDPC, o nome oficial da Coreia do Norte). Como não atingiu
totalmente seus objectivos, o presidente Trump emitiu uma
ordem executiva
dez dias após a votação das sanções que
pretendem impor um bloqueio comercial total contra a Coreia do Norte.
A ordem executiva de Trump apresa toda a propriedade possuída nos
Estados Unidos por quem esteja envolvido no comércio de
importação ou exportação com a Coreia do Norte,
assim como qualquer "pessoa norte-coreana envolvida em actividade
comercial que gere receita" para a RDPC.
Navios que atraquem em portos norte-coreanos são proibidos de visitar os
Estados Unidos durante um período de seis meses, o que encorajará
companhias de navegação a evitarem a Coreia do Norte. O
secretário do Tesouro
Steven Mnuchin indicou
que o seu departamento planeia trabalhar em conexão "muito
estreita com a Guarda Costeira e outros acerca disto" e que "podemos
aplicar acções também contra portos". Exactamente o
que ele tem em mente não foi especificado, mas a sua
declaração parece implicar que portos que permitam a navios
infractores atracarem durante o período de interdição
podem ser alvos de punição.
Dentre as demais disposições da ordem executiva, a
primária centra-se sobre operações financeiras. Todos os
fundos que passam através do sistema financeiro dos EUA que em qualquer
ponto envolvam a RDPC ou um indivíduo norte-coreano devem ser
congelados. O Departamento do Tesouro está autorizado a impor
sanções a instituições financeiras estrangeiras que
"conscientemente efectuem ou facilitem qualquer transacção
significativa em conexão com a Coreia do Norte" e a "bloquear
toda propriedade" que a entidade possua nos Estados Unidos.
Como as transacções financeiras internacionais têm de
passar através do sistema estado-unidense, qualquer
instituição envolvida no tratamento ou facilitação
do comércio da Coreia do Norte arrisca a ruína. Qualquer firma
que o Departamento do Tesouro sancione perderá o dinheiro que enviar
através do sistema estado-unidense e será barrada de
operações financeiras internacionais. Inevitavelmente, a entidade
financeira também assistiria a uma corrida aos seus fundos por
depositantes em pânico.
Seria suicida para qualquer negócio financeiro efectuar uma
transacção que envolvesse a Coreia do Norte. Consequentemente,
para a maior parte, a Coreia do Norte está em vias de ser
excluída do comércio internacional. A RDPC pode ser limitada
unicamente a transacções em pequena escala pagas com sacos de
cash. Logo, a Coreia do Norte pode não ser mais capaz de importar
petróleo e gás natural. Uma vez que a RDPC não tem fontes
internas e esgotado o seu stock interno destas commodities, poderia enfrentar
um encerramento quase total da sua economia.
Pensa-se que a RDPC tenha uma reserva de combustível de dimensão
razoável, mas ela não perdurará para sempre. E uma vez
esgotado o stock, fábricas e unidades manufactureiras não
poderão operar. Camiões e autocarros deixarão de circular.
Hospitais podem ficar sem energia para iluminação e equipamento
médico. Por ter uma quantidade limitada de terra arável, a Coreia
do Norte tipicamente deve confiar em importações para alimentar
plenamente o seu povo. Com o acesso da RDPC ao sistema financeiro internacional
agora bloqueado, mais cedo ou mais tarde a fome e talvez a
inanição podem visitar aquela terra.
Segundo Juan Zarate, antigo responsável na administração
George W. Bush, a
ordem executiva constitui
"um regime de sanções em plena carga e asfixiante" que
"torna muito claro que instituições financeiras correm o
risco de caírem presa de sanções estado-unidenses".
Tatman Savio, sócio de uma empresa comercial com sede em Hong Kong,
reflecte esta
avaliação
: "Estas sanções são vastas e apanham tudo.
Não há ambiguidade acerca daquilo que o presidente Trump
está a tentar consumar. Ela tem como objectivo isolar a Coreia do Norte
através da utilização de medidas de sanções
secundárias".
O secretário do Tesouro Mnuchin
adverte
: "Instituições financeiras estrangeiras estão agora
notificadas de que, indo em frente, elas podem optar entre fazer
negócios com os Estados Unidos ou com a Coreia do Norte, mas não
com ambos". Dada a enorme disparidade económica entre os dois
países, isto não é de todo uma opção.
Trata-se de um ultimato e Mnuchin apela a "todos os países do mundo
para se juntarem a nós cortando todos os laços comerciais e
financeiros com a Coreia do Norte".
Bloqueios são considerados actos de guerra. Tecnicamente, os Estados
Unidos não estão a impor um bloqueio pois não estou a
impedir fisicamente o comércio com a Coreia do Norte. Mas o resultado
é o mesmo. Através de ameaças, a
administração Trump está a forçar
nações a abandonarem relações comerciais com a
Coreia do Norte.
Os EUA são livres para fazerem suas ameaças e não há
nada de subtil na
mensagem à China
de Mnuchin: "Se a China não seguir estas sanções [da
ONU], aplicaremos sanções adicionais sobre eles e os impediremos
de terem acesso aos EUA e ao sistema internacional do dólar e
isso é bastante significativo".
A China, na esperança de defender de possível
retaliação estado-unidense, já ordenou a todas as
empresas coreanas e joint ventures
com base no seu território que encerrassem no princípio de 2018.
Esta acção vai além do que ditam as sanções
da ONU. Além disso,
bancos chineses
estão a notificar depositantes norte-coreanos a retirarem seus fundos.
Está a tornar-se cada vez mais difícil para comerciantes tratar
de transacções financeiras e negócios
transfronteiriços estão a ser triturados até uma paragem.
Em 26 de Setembro o Departamento do Tesouro sancionou 26 indivíduos e
oito bancos norte-coreanos envolvidos em comércio internacional,
incluindo o Banco de Desenvolvimento Agrícola e o Banco de
Comércio Exterior. Este último é considerado como a
principal instituição financeira da Coreia do Norte por negociar
com câmbios estrangeiros. O
Departamento do Tesouro declara
que sua intenção é "promover a ruptura do acesso da
Coreia do Norte ao sistema financeiro internacional". Ele também
impõe um
boicote secundário
a qualquer um que comercie com os bancos ou indivíduos sancionados.
A guerra económica da administração Trump é global
e inflexível. A actuar como secretária de Estado assistente,
Susan Thornton diz
que o secretário de Estado Rex Tillerson "fez da RDPC uma
questão chave em todo encontro com líderes e ministros por todo o
mundo" e sua mensagem "é agressivamente reforçada pelos
nossos embaixadores em capitais por toda a parte e em reuniões a todo
nível". Em cada um destes encontros, responsáveis
estado-unidenses coagem seus interlocutores estrangeiros a "cortar as
fontes de apoio financeiro da RDPC".
A subsecretária do Tesouro,
Sigal Mandelker diz
que os Estados Unidos têm "a capacidade única de mapear e
alvejar as redes comerciais e financeiras da Coreia do Norte" e seu
"objectivo é estrangular as fontes de receita da Coreia do
Norte". Thornton não é tímida na
utilização de linguagem agressiva, exigindo que "todos os
países devem deixar de comerciar com a Coreia do Norte". Ela
acrescenta: "Uma peça chave da nossa estratégia para sufocar
financeiramente a Coreia do Norte é alvejar as indústrias mais
lucrativas do regime". As sanções das Nações
Unidas, diz ela, "deveriam ser o piso, não o tecto".
Toda esta conversa de sufocar e estrangular a economia da Coreia do Norte
e portanto o seu povo dificilmente espanta. A política
é amplamente aceite, mas deve ser declarado: a RDPC tem o direito de se
ocupar no comércio normal internacional. Ela tem o direito de dirigir a
sua economia sem embaraços e de alimentar o seu povo. A
administração Trump tem estado a ameaçar a Coreia do
Norte, tanto militarmente como economicamente, numa base quase diária.
Washington quer que a Coreia do Norte desnuclearize unilateralmente, mas as
suas acções só fortalecem a convicção da
Coreia do Norte de que ela precisa de um dissuasor nuclear uma
conclusão não irrazoável do lado norte-coreano.
A implacável guerra económica que está a ser travada pela
administração Trump pode não estar a ter manchetes da
mesma maneira que a conversa da guerra. Mas isso não diminui o dano que
está a ser feito. A pressão de Washington sobre outros
países está a ter um efeito, pois um país após
outro corta ligações diplomáticas e comerciais com a RDPC
ou desfaz relações comerciais. A administração
Trump rejeitou ofertas norte-coreanas de conversações,
acreditando que pode conduzir a Coreia do Norte à submissão
económica sem a necessidade do toma-lá-dá-cá em
negociações. Num tuíte recente, Trump reiterou sua
hostilidade ao conceito de diplomacia: "Eu disse ao Rex Tillerson, nosso
admirável secretário de Estado, que ele está a
desperdiçar tempo ao tentar negociar com o Homem do Foguetinho".
Os Estados Unidos têm demasiado músculo económico para que
algum país seja capaz de dizer não. Mas quantos norte-coreanos
terão em consequência de sofrer fome, perda de emprego e invernos
gélidos? A cruel punição colectiva de um país
inteiro nada pode produzir senão miséria e deveria ser
classificada por aquilo que ela é: um acto de guerra.
04/Outubro/2017
[*]
Membro do Comité de Solidariedade para a Democracia e a Paz na Coreia,
colaborador de
ZoominKorea
, membro da Task Force to Stop THAAD in Korea and Militarism in Asia and the
Pacific. Seu sítio web é
gregoryelich.org
Do mesmo autor:
A guerra de Trump ao povo norte-coreano
, 28/Set/17
O desenvolvimento acelerado dos mísseis da Coreia Norte
, 03/Jul/17
As relações dos EUA com a Coreia do Norte em tempos de mudança
, 26/Fev/17
Sanções da ONU impõem sofrimento ao povo norte-coreano
, 09/Mar/17
O original encontra-se em
www.zoominkorea.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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