A "Grande crise financeira":
Uma espécie de luta inteiramente nova está a emergir
por John Bellamy Foster
[*]
entrevistado por Mike Whitney
MW: A crise financeira está a transformar-se rapidamente numa crise
política. Os governos na Islândia e na Letónia já
entraram em colapso e a queda global principia a acelerar-se.
Tumultos e violência de rua estalaram na Grécia, Letónia e
Lituânia e protestos liderados por trabalhadores tornaram-se corriqueiros
por toda a UE. Quando o desemprego dispara e a actividade económica
estagna, os países tendem a experimentar maior instabilidade social.
Como fazer para tornar o descontentamento e fúria profundamente
enraizados e moldá-lo num movimento político para a
mudança estrutural?
JBF: A primeira coisa a reconhecer é que subitamente estamos num
período histórico diferente. Uma das minhas
citações favoritas vem do filme
Queimada (Burn!),
de 1969, de Gillo Pontecorvo, onde o personagem principal, William Walker
(representado por Marlon Brando) declara: "Muitas vezes entre um
período histórico e outro, dez anos subitamente podem ser o
suficiente para revelar as contradições de todo um
século". Estamos a viver um tal período; não
só por causa da Grande crise financeira e porque o FMI está agora
a clamar que há depressão nas economias capitalistas
avançadas, mas também por causa da crise ecológica global
que se acelerou durante a última década e ficou fora de controle,
e devido ainda ao reaparecimento do "imperialismo nu". O que fazia
sentido há dez anos é absurdo agora. Novos perigos e novas
possibilidades estão a abrir-se. Uma espécie de luta inteiramente
diferente está a emergir.
A queda súbita dos governos na Islândia e na Letónia devido
a protestos contra o roubo financeiro é notável, assim como as
revoltas generalizadas na Grécia e na UE, com milhões nas ruas.
As greves gerais em Guadelupe e na Martinica, nas Antilhas Francesas, e o apoio
dado a estes movimentos pelo novo Partido Anti-Capitalista francês
é um grande progresso. De facto, grande parte do mundo está em
fermentação. Os latino-americanos estão empenhados numa
revolta integral contra o neoliberalismo, liderados pela
Revolução Bolivariana da Venezuela e pela aspiração
a um novo socialismo para o século XXI (como antevisto também na
Bolívia, Equador e Cuba). A Revolução Nepalesa apresentou
uma nova esperança para a Ásia. Lutas sociais em grande escala
estão a verificar-se em economias emergentes tais como o Brasil, o
México e a Índia. A própria China está a
experimentar inquietações.
O único lugar do mundo onde este fermento histórico mundial
actualmente parece não estar a ter efeito significativo são os
Estados Unidos. Isto pode dever-se a duas razões. Primeiro, os EUA, como
centro de um império mundial, são uma fortaleza do
conservadorismo. Segundo, a eleição da
administração Obama confundiu forças progressistas,
levando a noções absurdas de que os democratas sob Obama
estão em vias de criar um novo New Deal sem o reforço da
pressão vinda da revolta dos de baixo. Enquanto isso, sob a
vigilância de Obama, e com a ajuda dos seus conselheiros escolhidos,
vastas quantias de fundos do Estado estão a ser injectadas no sistema
financeiro para beneficiar o capital privado.
O que é necessário nos Estados Unidos de hoje, argumentamos em
The Great Financial Crisis
, é uma renovação do conceito clássico de economia
política (com a sua perspectiva de classe), através da qual
se chega a entender que a economia está sujeita a controle
público e deveria ser arrancada ao domínio da classe dirigente. O
salvamento do sistema neste exacto momento está a ser feito com fundos
dos contribuintes mas sem ouvir a opinião do público. Uma revolta
para ganhar o controle popular da economia política é portanto
necessária.
É possível começar com a exigência de um novo New
Deal, enraizada na melhor herança da administração
Roosevelt na década de 1930, mais notavelmente na Works Progress
Administration. Mas tal como Robert McChesney e eu argumentámos em
"Um novo New Deal sob Obama?"
no número de Fevereiro de 2009 da
Monthly Review,
a luta tem de mover-se rapidamente para além disso, para uma
expansão dos direitos dos trabalhadores conforme princípios
socialistas, rompendo a lógica do capital. Para que isto se verifique
tem de haver uma grande revolta dos de baixo pelo menos na escala do movimento
de sindicalização industrial da década de 1930 que criou
uma nova força política no país (posteriormente
destruída na Era McCarthy). A história desta luta é
contada no clássico de David Milton,
The Politics of U.S. Labor,
o qual também destaca que a ascensão do movimento trabalhista
foi liderada por sindicalistas socialistas e radicais.
É importante, como explicou István Mészáros em
Beyond Capital
que a política radical que se abre neste momento histórico
não seja desviada para uma tentativa de salvar o sistema existente e sim
dirigida a transcendê-lo. Como escreveu Mészáros:
"Para ter êxito no seu objectivo original, a política radical
na altura da crise deve transferir as suas aspirações na
forma de poderes de decisão efectivos a todos os níveis e em
todas as áreas, incluindo a economia ao próprio corpo
social a partir do qual emanariam as exigências materiais e
políticas subsequentes".
Nos Estados Unidos, um objectivo primário de qualquer política
radical deveria ser o corte dos gastos militares, os quais são o
tacão de ferro imperial que subjuga o mundo inteiro, ao mesmo tempo que
corrompe o corpo político dos EUA e desvia o excedente de prementes
necessidades sociais.
O ponto fraco óbvio de toda a estrutura política,
ideológica e económica que comanda os Estados Unidos de hoje
é que o sistema fracassou claramente em atender às necessidades
reais do povo. Ao invés de corrigir estas necessidades prementes na
crise, a ênfase dos senhores da economia é salvar o capital
privado virtualmente sem qualquer custo. Entre Outubro de 2008 e Janeiro de
2009 o governo federal proporcionou cerca de US$160 mil milhões em
capital, injecções e garantias de dívida ao Bank of
America, o qual tinha um valor líquido total no fim de Janeiro de apenas
uma pequena fracção daquela quantia. O resto afundou-se no buraco
do rato.
O roubo de fundos públicos para salvar capital privado encontra-se agora
numa escala jamais vista. Uma classe operária politizada e organizada
capaz de entender e reagir àquele roubo, e optar através disso
por reestruturar a sociedade, para atender reais necessidades sociais
igualitárias é o que deve ser esperado. O título de uma
capa recente da
Newsweek
declarava: "Agora somos todos socialistas". Como se revelou, os
editores da
Newsweek
estavam simplesmente a referir-se ao aumento das despesas públicas que
agora se verificar o que está longe de ser uma
indicação de socialismo. Mas o facto de isto ser dito nos media
corporativos salienta o facto de que estamos num momento histórico
diferente no qual forças radicais têm a possibilidade de
avançar.
MW: Quando a economia se tornou mais dependente da
financiarização para o crescimento, o fosso entre ricos e pobres
cresceu cada vez mais. Tal como destaca no seu livro, "Nos Estados Unidos
os 1 por cento de proprietários ricos do topo possuíam mais do
que o dobro dos 80 por cento da base da população. Se isto fosse
medido simplesmente em termos de riqueza financeira, os 1 por cento do topo
possuem mais do que quatro vezes os 80 por cento da base" (p. 130). Como
é que as pessoas da classe trabalhadora têm feito para manter as
cabeças acima da água com toda esta riqueza a ser comutada para
os ricos?
JBF: A resposta é razoavelmente óbvia. Se o povo não pode
manter o seu padrão de vida na base do seu rendimento, ele
contrairá empréstimos contra o rendimento e contra seja o que for
de riqueza que tenham. O resultado se os seus rendimentos não
ascenderem, ou se o valor dos activos que tenham não aumentar
é que ele simplesmente afundará cada vez mais profundamente na
dívida numa tentativa só de se manter à tona. Fiquei
preocupado acerca do crescimento da dívida habitacional da classe
operária em 2000 e efectuei um estudo para The Survey of Consumer
Finances, o qual é publicado a cada três anos pelo governo federal
com uma defasagem nos dados de três anos. Esta é a única
fonte de dados importante do governo federal que temos sobre dívida
imobiliária decomposta em grupos de rendimento de modo a que possamos
determinar o fardo da dívida das diferentes classes.
Publiquei um artigo com base nesta investigação no número
de Maio de 2000 da
Monthly Review,
intitulado
"Working-Class Households and the Burden of Debt."
.
Acompanhei-o seis anos depois com um artigo no número de Maio de 2006 da
Monthly Review
sobre
"A bolha do endividamento familiar"
o qual era para ser incorporado no
The Great Financial Crisis.
Ali escrevi que "A bolha habitacional e a força do consumo na
economia estão conectados ao que pode ser denominado a "bolha da
dívida habitacional", a qual poderia facilmente explodir devido
à ascensão das taxas de juro e da estagnação ou ao
declínio dos preços habitacionais". Isto naturalmente foi o
que aconteceu e a razão porque esta crise se tornou tão severa
foi a destruição ao longo de décadas das finanças
domésticas da classe trabalhadora, nas costas da qual verificou-se a
financiarização.
MW: Como define "deflação da dívida"
(debt-deflation)
e explica o seu perigo potencial para a economia? Quando o crédito
continua a dificultar-se e os preços da habitação afundam
não estaremos a deslizar para um reforço da espiral
deflacionária? Pensa que a política fiscal reverterá esta
tendência ou o pacote de estímulo é demasiado pequeno para
travar o contínuo escorregamento do imobiliário e das
acções?
JBF: A expressão "deflação da dívida"
está associada particularmente ao trabalho de Irving Fisher durante da
Grande Depressão. Fisher escreveu um artigo para a revista
Econometrica
em 1933 intitulado "The Debt-Deflation Theory of Great Depressions".
A deflação quando aplicada à economia geral é uma
queda no nível geral de preços, algo nunca visto nos Estados
Unidos desde a Grande Depressão, e catastrófico na economia do
capital monopolista (e ainda mais sob o capital monopolista-financeiro). Em
primeiro lugar, deflação (ou desinflação, isto
é, a redução da inflação para o que o
Federal Reserve chama níveis "abaixo do óptimo")
significa que as margens de lucro das corporações são
esmagadas, mesmo se o custo da estrutura de produção e a
produtividade permanecem as mesmas. Sob tais circunstâncias, a
competição de preços é reactivada com firmas
gigantes numa luta realmente de vida ou morte. Isto também gera
pressão para pesados despedimentos e reduções de
salários, criando toda a espécie de círculos viciosos.
Mas o temor real da deflação tem a ver com a enormemente inchada
estrutura financeira e a enorme carga de dívida da economia. Sob a
inflação, a qual é habitualmente assumida estar encravada
nas economias capitalistas avançadas, as dívidas são
reembolsadas com dólares "mais pequenos" (isto é, com
menos valor ao longo do tempo). Numa economia deflacionária, contudo, a
dívida tem de ser paga com dólares "maiores" (que valem
mais ao longo do tempo). Isto então cria uma espiral de
deflação da dívida, que acelera enormemente o colapso
financeiro. Como afirmou Fisher, "a deflação provocada pela
dívida reage sobre a dívida. Cada dólar de dívida
ainda não pago torna-se um dólar maior e se o super-endividamento
com o qual começámos for suficientemente grande, a
liquidação da dívida não pode aguentar a queda de
preços que provoca". Dito de forma diferente, citando
The Great Financial Crisis
(p. 116), "os preços caem quando devedores vendem os seus activos
a fim de pagarem as suas dívidas, e quando os preços caem as
dívidas remanescentes devem ser pagas em dólares mais valiosos do
que aqueles contraídos em empréstimo, provocando mais
incumprimentos, o que leva a preços ainda mais baixos e portanto a uma
espiral deflacionária". A fim de verificar esta tendência
deflacionária, o Federal Reserve e o Tesouro têm estado a tentar
reflacionar a economia através da impressão de dinheiro
(eufemisticamente chamada "facilidade quantitativa"). Mas não
tiveram êxito e as forças deflacionárias ainda são
muito fortes, levando o presidente Obama a advertir logo após a sua
eleição que "estamos agora em risco de cair numa espiral
deflacionária que poderia aumentar ainda mais a nossa dívida
maciça ".
Também convém mencionar o efeito que a deflação tem
sobre o investimento. Com o capital confrontado com o facto de que nuns poucos
anos no futuro o nível de preços poderia ser mais baixo do que
é agora, os lucros esperados sobre o investimento e nova capacidade
produtiva (uma vez que leva anos a ser construído e tem de ser pago em
preços a actuais) são deprimidos, criando uma
estagnação mais profunda da acumulação.
O pacote de estímulo apresentado pela administração Obama
é demasiado pequeno para estimular a procura e reflacionar a economia
sob tais circunstâncias. É de menos de US$400 mil milhões
por ano, 40 por cento do qual é em isenções fiscais, de
modo que o aumento da despesas governamental é minúsculo em
comparação com a dimensão do buraco criado pela queda
drástica no consumo, no investimento e nos gastos dos governos estaduais
e locais. Ele também é minguado pelo total dos programas de apoio
do governo federal, primariamente para instituições financeiras,
o qual agora monta a US$9,7 milhões de milhões
(trillion)
na forma de injecções de dinheiro, garantias de dívida,
permutas de títulos do Tesouro por resíduos tóxicos
financeiros, etc.
MW: Karl Marx parece ter previsto o colapso financeiro que agora enfrentamos.
Ele disse em
O Capital:
"A superficialidade da economia política mostra-se no facto de que
encara a expansão e contracção do crédito como a
causa das alterações periódicas do ciclo industrial,
embora seja um mero sintoma delas". Marx parece concordar com a sua teoria
de que o problema real é mais profundo a estagnação
económica, a qual força o capital excedente a procurar
investimentos mais lucrativos. Enquanto as teorias monetaristas de Milton
Friedman estão agora sob ataque contundente, Keynes e Marx parecem
ter-se levantado particularmente bem. O que Marx queria dizer quando falava
acerca da "economia política"?
JBF: Marx foi um analista agudo das crises financeiras do seu tempo e descreveu
as suas principais características. Contudo, ele via as expansões
financeiras a verificarem-se no pico de um boom, não como um
fenómeno secular. A financiarização no sentido de uma
mudança a longo prazo do centro de gravidade da economia para as
finanças, com especulação financeira construída ao
longo de décadas, é uma situação completamente sem
precedentes.
Marx e Engels deram grande ênfase ao crescimento das
companhias/corporações sob a forma de sociedade anónima e
ao aparecimento de um mercado para títulos industriais que
começou a surgir no fim do século XIX. Foi esta
criação do mercado moderno de títulos industriais que
constituiu o princípio real do emergir das finanças como um
aspecto relativamente autónomo da economia capitalista monopolista.
Há essencialmente duas estruturas de preços para a economia: uma
na economia real relacionada à produção de bens e
serviços, a outra no âmbito financeiro associada ao preço
de activos (papeis que dão direito a riqueza). As duas estão
inter-relacionadas mas podem ser dissociadas uma da outra durante
períodos de tempo. Keynes na década de 1930 destacou os perigos
de uma economia cada vez mais governada pela fixação especulativa
dos preços dos activos financeiros. Mas foi um observador tão
agudo do capitalismo que mesmo no seu tempo começou a ver as
contradições que emergiam entre capital dinheiro (ou
fictício) e capital real.
Uma das coisas que Marx argumentou neste contexto é que as altas na
especulação financeira eram respostas à
estagnação e ao declínio na economia real, pois o capital
procurava desesperadamente um meio de manter e expandir o seu excedente.
Portanto ele escreveu que a "pletora de capital dinheiro" em tais
períodos era devida a "dificuldades no emprego, directamente da
falta de esferas de investimento, isto é, devido a um excedente nos
ramos de produção" e mostrava nada mais do que as barreiras
imanentes à expansão capitalista (citado em
The Great Financial Crisis,
p. 39).
Marx permanece o fundamento mais forte para a crítica da economia
capitalista, até aos nossos dias. Mas o Keynes real (a não ser
confundido com o keynesianismo bastardo de hoje) também é
importante, uma vez que ele enfatizou aquilo a que chamou as "falhas
existentes" da economia capitalista: a tendência para a alta
desigualdade e o alto desemprego. Ele também destacou os perigos de um
sistema dependente das finanças especulativas.
MW: A estagnação salarial e a desigualdade do rendimento
será um resultado directo da financiarização?
JBF: Eu diria isso de outro modo. A estagnação salarial e a
crescente desigualdade do rendimento e da riqueza são componentes da
tendência à estagnação subjacente. Ambos mostraram
uma tendência para piorar ao longo do tempo, o que resulta no
aprofundamento das tendências estagnacionistas dentro da economia geral.
Os salários reais nos Estados Unidos atingiram o pico em 1971, quando
Richard Nixon era presidente, e em 2008 havia caído de volta aos
níveis de 1967, quando Lyndon Johnson era presidente. Isto verificou-se
apesar do enorme crescimento da produtividade e da expansão da riqueza
ao longo destas décadas. Portanto, isto é um marcador da
"tendência do excedente para crescer", como Baran e Sweezy
afirmaram, ou de uma taxa ascendente do valor excedente, nas próprias
palavras de Marx. Isto foi acompanhado por um crescimento maciço do
rendimento e da riqueza no topo. Como afirmámos em
The Great Financial Crisis
(p. 130), "De 1990 a 2002, para cada acréscimo de dólar
ganho por aqueles nos 90 por cento da base [dos rendimentos], os 0,01 por cento
mais altos (hoje cerca de 14 mil famílias) ganharam um adicional de
US$18 mil". Por volta de 2007 a desigualdade de rendimento/riqueza nos
Estados Unidos havia atingido as proporções de 1929, isto
é, o nível atingido exactamente antes do crash do mercado de
acções de 1929 que levou à Grande Depressão.
Penso que você está correcto, apesar de a
financiarização tornar pior a desigualdade de rendimento e de
riqueza, e de contribuir para a estagnação de salários.
Podemos encarar o neoliberalismo basicamente como a ideologia do capital
monopolista-financeiro, apresentada originalmente como a resposta da classe
dominante à estagnação, e a seguir ajustada cada vez mais
para a promoção da financiarização do capital, ela
própria uma resposta estrutural à estagnação. O
neoliberalismo promoveu a ruptura incessante de sindicatos, forçando os
salários à baixa, cortando despesas do Estado em bem estar
social, com desregulamentação, livre mobilidade do capital,
desenvolvimento de nova arquitectura financeira, etc.
Um meio de entender isto é a enorme necessidade de
injecções de dinheiro novo para alimentar uma superestrutura
financeira que era voraz na sua exigência de novo capital dinheiro, a
qual precisava alavancar ainda mais acumulação de dívida e
especulação financeira. Companhias de seguros, imobiliário
e fundos mútuos, todos eles proporcionavam injecções para
dentro da superestrutura financeira, tal como fazia o Estado. Todos os limites
foram removidos. Sob tais circunstâncias os trabalhadores eram
encorajados a utilizar as suas casas como mealheiros para financiar o consumo,
cartões de crédito foram entregues a adolescentes,
empréstimos subprime foram concedidos a gente com pouca capacidade para
pagar. Pacotes de aposentadoria individual foram comutados para as contas
individuais de reforma
(Individual Retirement Accounts, IRAs)
que estavam atadas ao sistema financeiro especulativo. Isto tinha todos os
sinais de um sistema viciado. Nestas circunstâncias, também, a
economia real, particularmente a produção de bens e a
manufactura, foi dizimada. Na introdução de
The Great Financial Crisis
incluímos um gráfico que cobre o período desde 1960 o
qual mostra a produção de bens em percentagem do PIB num lento
declínio a longo prazo, ao passo que a dívida em percentagem do
PIB está a disparar ao longo do mesmo período. Tudo isto
significa uma redistribuição maciça que se afasta do povo
trabalhador em direcção ao capital, e para aqueles no
pináculo da pirâmide financeira.
MW: No seu livro
The Great Financial Crisis
critica Paulson por suas injecções de capital nos bancos dizendo
que "no máximo elas compram o tempo necessário no qual
vastas massas de empréstimos questionáveis podem ser liquidados
de um modo ordeiro, restaurando a solvência mas a uma taxa de actividade
económica muito mais baixa com uma séria recessão
ou depressão". Na sexta-feira, Timothy Geithner disse à CNBC
que "Preservaremos o sistema que é possuído e administrado
pelo sector privado". Isto sugere que o secretário do Tesouro pode
não liquidar os activos tóxicos de todo, mas sim tentar manter a
aparência de que estes bancos abaixo da linha de água estão
solventes. O que pensa que acontecerá se Geithner se recusar a
nacionalizar os bancos?
JBF: Eu não interpretaria a declaração de Geithner deste
modo. Mais exactamente, estamos a experimentar um dos maiores roubos da
história. Escrevi sobre a questão da nacionalização
para o "Notas dos editores" no número da
Monthly Review
a sair em Março de 2009.
Todas as tentativas para resgatar o sistema financeiro neste momento
vão na direcção da nacionalização. O governo
federal está a proporcionar cada vez mais capital e a assumir
responsabilidade financeira pelos bancos. Contudo, eles estão a fazer
tudo o que podem para manter os bancos em mãos privadas, o que resulta
numa espécie de nacionalização
de facto
com controle privado
de jure.
Se o governo federal será finalmente forçado à
nacionalização plena (isto é, a assumir o controle directo
dos bancos) é uma grande questão. Mas mesmo isso é
improvável que mude a natureza do que está em curso, a qual
é um caso clássico de socialização das perdas de
instituições financeiras enquanto deixa intactos os ganhos
maciços ainda nas mãos daqueles que mais lucraram com todo o
período de especulação financeira extrema.
Para ter uma ideia do que está a acontecer é preciso entender que
o governo federal, como já indiquei, comprometeu-se até o momento
nesta crise com US$9,7 milhões de milhões em programas de apoio
primariamente para financiar instituições. O Federal Reserve
(juntamente com o Tesouro) agora converteu-se no que é chamado um
"banco mau"
("bad bank").
Em resultado, o Federal Reserve tornou-se o banqueiro de último
recurso para o resíduo tóxico com a fatia dos Títulos do
Tesouro no balanço do Fed a cair de cerca de 90 por cento para cerca de
20 por cento no decorrer da crise, com grande parte do resto agora
constituído por resíduos financeiros tóxicos.
Obviamente, a nacionalização plena e directa seria mais racional
do que isto. Mas é preciso lembrar o sistema de poder tanto
económico como político de que estamos a tratar no
presente. O caso clássico da plena nacionalização da banca
foi no capitalismo corporativista italiano das décadas de 1920 e 1030 e
foi executado por um regime fascista. Sem sugerir que agora nos encaminhamos
neste rumo, deveria ficar claro a partir disto que a própria
nacionalização dos bancos não é panaceia.
O facto de que Geithner, a escolha de Obama para a Secretaria de Tesouro,
está a supervisionar o enorme roubo que se está a verificar, que
provavelmente excede qualquer roubo na história, com os contribuintes
comuns a pagarem a conta, certamente levaria alguém a fazer perguntas
acerca da natureza "progressista" da nova administração.
MW: O antigo chefe do Fed, Alan Greenspan, descartou as críticas
às suas políticas monetárias dizendo que ninguém
poderia ter visto a gigantesca bolha de crédito a desenvolver-se na
habitação. No seu livro, contudo, você faz esta
observação: "Foi a realidade da estagnação
económica principiando na década de 1970... que levou à
emergência da espécie de 'novo regime capitalista financiarizado'
de 'keynesianismo financeiro paradoxal' pelo qual a procura na economia era
estimulada primariamente 'graças a bolhas de activos' " (p. 129).
Esta declaração sugere que o Fed sabia exactamente o que estava a
fazer quando cortou taxas e criou um furor especulativo. Bolhas de activos
alimentadas pela dívida são um modo de comutar riqueza de uma
classe para outra enquanto evita a estagnação da economia
subjacente. Será que este problema pode ser consertado através da
regulamentação e da melhor supervisão ou é algo
intrínseco ao próprio capitalismo?
JBF: Greenspan naturalmente está a tentar desesperadamente salvar a sua
reputação e a afastar qualquer sensação de que
é culpado. Eu concordaria em que o Fed sabia o que estava a fazer
até certo ponto e que promoveu deliberadamente uma bolha de activos na
habitação o que Stephanie Pomboy chamou "The Great
Bubble Transfer" a seguir ao estouro da bolha da Nova Economia
tecnológica em 2000. O ponto de vista de que ninguém viu os
perigos é falsa, naturalmente. Recordo-me da afirmação de
Paul Krugman para salvar as aparências, em seu
The Return of Depression Economics and the Crisis of 2008
de que apesar de algumas pessoas pensarem que os problemas financeiros e
económicos da décadas de 1930 poderem repetir-se, elas não
eram "pessoas sensatas". Segundo Krugman, "pessoas
sensatas" como ele próprio (isto é, aqueles que exprimem o
consenso daqueles no poder) sabiam que estas coisas nunca poderiam acontecer
mas revelou-se que ele estava errado. É verdade, como diz
Greenspan, que ninguém podia ter previsto precisamente o que realmente
aconteceu. E certamente havia um bocado de gente cega no topo. Mas houve montes
de advertências e preocupações. Por exemplo: redigi o
editorial (
"The Great Fear"
) do número de Abril de 2005 da
Monthly Review
em que se referia às "taxas de juro em ascensão
(ameaçando uma estouro da bolha habitacional que apoiava o consumo nos
EUA)" como um dos "perigos chave de uma estagnação
económica". Outros observadores atentos da economia estavam a dizer
a mesma coisa.
Nestes anos o Federal Reserve Board estava na verdade a debater se adoptava uma
política de furar as bolhas de activos antes elas ficarem fora de
controle. Mas tanto Greenspan como Bernanke eram contra uma
operação tão perigosa, afirmando que isto podia deitar
abaixo todo a fraca estrutura financeira. Uma vez que não sabiam o que
fazer quanto à bolha de activos, eles simplesmente sentaram sobre as
suas mãos e tentaram conversar sobre o levantamento do mercado. A
visão dominante era de que o Federal Reserve podia travar uma avalanche
financeira colocando uma rocha no lugar certo no momento em que houvesse um
sinal de perturbação. De modo que Bernanke foi em frente, fechou
os olhos e rezou, elevando taxas de juros para restringir
inflação (uma acção exigida pela elite financeira)
e o resto é história.
Durante todo o tempo aqueles que estavam nas alturas do comando das
instituições financeiras deram as ordens e o Fed seguiu as suas
vontades. O próprio Greenspan não é idiota. Ele escreveu
em
Challenge Magazine,
em Março-Abril de 1988, acerca dos perigos associados à bolha
habitacional. Mas como presidente do Federal Reserve Board prosseguiu a
financiarização à força, uma vez que não
havia outra opção para o sistema. É desnecessário
dizer que tal financiarização estava associada a crescentes
disparidades na riqueza e no rendimento do país. A própria
dívida é um instrumento de poder e aqueles na base estavam a ela
encadeados, ao passo que os do topo estavam a utilizá-la para
alavancarem o aumento de fortunas. O valor líquido total dos 400
americanos mais ricos da revista
Forbes
(uma crescente percentagem dos quais tinham base nas finanças) ascendeu
de US$91,8 mil milhões em 1982 para US$1,2 milhões de
milhões em 2006, enquanto a maior parte das pessoas na sociedade estava
a achar cada vez mais difícil conseguir aguentar-se. Nada disto foi um
acidente. É tudo intrínseco ao capital monopolista-financeiro.
26/Fevereiro/2009
[*]
Editor da
Monthly Review
e professor de sociologia na Universidade de Oregon.
Co-autor com Fred Magdoff de
The Great Financial Crisis: Causes and Consequences
, publicado em Fevereiro de 2009.
O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=12476
. Tradução de JF.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
|