A "Grande crise financeira":
Uma espécie de luta inteiramente nova está a emergir

por John Bellamy Foster [*]
entrevistado por Mike Whitney

MW: A crise financeira está a transformar-se rapidamente numa crise política. Os governos na Islândia e na Letónia já entraram em colapso e a queda global principia a acelerar-se. Tumultos e violência de rua estalaram na Grécia, Letónia e Lituânia e protestos liderados por trabalhadores tornaram-se corriqueiros por toda a UE. Quando o desemprego dispara e a actividade económica estagna, os países tendem a experimentar maior instabilidade social. Como fazer para tornar o descontentamento e fúria profundamente enraizados e moldá-lo num movimento político para a mudança estrutural?

JBF: A primeira coisa a reconhecer é que subitamente estamos num período histórico diferente. Uma das minhas citações favoritas vem do filme Queimada (Burn!), de 1969, de Gillo Pontecorvo, onde o personagem principal, William Walker (representado por Marlon Brando) declara: "Muitas vezes entre um período histórico e outro, dez anos subitamente podem ser o suficiente para revelar as contradições de todo um século". Estamos a viver um tal período; não só por causa da Grande crise financeira e porque o FMI está agora a clamar que há depressão nas economias capitalistas avançadas, mas também por causa da crise ecológica global que se acelerou durante a última década e ficou fora de controle, e devido ainda ao reaparecimento do "imperialismo nu". O que fazia sentido há dez anos é absurdo agora. Novos perigos e novas possibilidades estão a abrir-se. Uma espécie de luta inteiramente diferente está a emergir.

A queda súbita dos governos na Islândia e na Letónia devido a protestos contra o roubo financeiro é notável, assim como as revoltas generalizadas na Grécia e na UE, com milhões nas ruas. As greves gerais em Guadelupe e na Martinica, nas Antilhas Francesas, e o apoio dado a estes movimentos pelo novo Partido Anti-Capitalista francês é um grande progresso. De facto, grande parte do mundo está em fermentação. Os latino-americanos estão empenhados numa revolta integral contra o neoliberalismo, liderados pela Revolução Bolivariana da Venezuela e pela aspiração a um novo socialismo para o século XXI (como antevisto também na Bolívia, Equador e Cuba). A Revolução Nepalesa apresentou uma nova esperança para a Ásia. Lutas sociais em grande escala estão a verificar-se em economias emergentes tais como o Brasil, o México e a Índia. A própria China está a experimentar inquietações.

O único lugar do mundo onde este fermento histórico mundial actualmente parece não estar a ter efeito significativo são os Estados Unidos. Isto pode dever-se a duas razões. Primeiro, os EUA, como centro de um império mundial, são uma fortaleza do conservadorismo. Segundo, a eleição da administração Obama confundiu forças progressistas, levando a noções absurdas de que os democratas sob Obama estão em vias de criar um novo New Deal sem o reforço da pressão vinda da revolta dos de baixo. Enquanto isso, sob a vigilância de Obama, e com a ajuda dos seus conselheiros escolhidos, vastas quantias de fundos do Estado estão a ser injectadas no sistema financeiro para beneficiar o capital privado.

Clique a imagem para encomendar. O que é necessário nos Estados Unidos de hoje, argumentamos em The Great Financial Crisis , é uma renovação do conceito clássico de economia política (com a sua perspectiva de classe), através da qual se chega a entender que a economia está sujeita a controle público e deveria ser arrancada ao domínio da classe dirigente. O salvamento do sistema neste exacto momento está a ser feito com fundos dos contribuintes mas sem ouvir a opinião do público. Uma revolta para ganhar o controle popular da economia política é portanto necessária.

É possível começar com a exigência de um novo New Deal, enraizada na melhor herança da administração Roosevelt na década de 1930, mais notavelmente na Works Progress Administration. Mas tal como Robert McChesney e eu argumentámos em "Um novo New Deal sob Obama?" no número de Fevereiro de 2009 da Monthly Review, a luta tem de mover-se rapidamente para além disso, para uma expansão dos direitos dos trabalhadores conforme princípios socialistas, rompendo a lógica do capital. Para que isto se verifique tem de haver uma grande revolta dos de baixo pelo menos na escala do movimento de sindicalização industrial da década de 1930 que criou uma nova força política no país (posteriormente destruída na Era McCarthy). A história desta luta é contada no clássico de David Milton, The Politics of U.S. Labor, o qual também destaca que a ascensão do movimento trabalhista foi liderada por sindicalistas socialistas e radicais.

É importante, como explicou István Mészáros em Beyond Capital que a política radical que se abre neste momento histórico não seja desviada para uma tentativa de salvar o sistema existente e sim dirigida a transcendê-lo. Como escreveu Mészáros: "Para ter êxito no seu objectivo original, a política radical na altura da crise deve transferir as suas aspirações — na forma de poderes de decisão efectivos a todos os níveis e em todas as áreas, incluindo a economia — ao próprio corpo social a partir do qual emanariam as exigências materiais e políticas subsequentes".

Nos Estados Unidos, um objectivo primário de qualquer política radical deveria ser o corte dos gastos militares, os quais são o tacão de ferro imperial que subjuga o mundo inteiro, ao mesmo tempo que corrompe o corpo político dos EUA e desvia o excedente de prementes necessidades sociais.

O ponto fraco óbvio de toda a estrutura política, ideológica e económica que comanda os Estados Unidos de hoje é que o sistema fracassou claramente em atender às necessidades reais do povo. Ao invés de corrigir estas necessidades prementes na crise, a ênfase dos senhores da economia é salvar o capital privado virtualmente sem qualquer custo. Entre Outubro de 2008 e Janeiro de 2009 o governo federal proporcionou cerca de US$160 mil milhões em capital, injecções e garantias de dívida ao Bank of America, o qual tinha um valor líquido total no fim de Janeiro de apenas uma pequena fracção daquela quantia. O resto afundou-se no buraco do rato.

O roubo de fundos públicos para salvar capital privado encontra-se agora numa escala jamais vista. Uma classe operária politizada e organizada capaz de entender e reagir àquele roubo, e optar através disso por reestruturar a sociedade, para atender reais necessidades sociais igualitárias é o que deve ser esperado. O título de uma capa recente da Newsweek declarava: "Agora somos todos socialistas". Como se revelou, os editores da Newsweek estavam simplesmente a referir-se ao aumento das despesas públicas que agora se verificar — o que está longe de ser uma indicação de socialismo. Mas o facto de isto ser dito nos media corporativos salienta o facto de que estamos num momento histórico diferente no qual forças radicais têm a possibilidade de avançar.

MW: Quando a economia se tornou mais dependente da financiarização para o crescimento, o fosso entre ricos e pobres cresceu cada vez mais. Tal como destaca no seu livro, "Nos Estados Unidos os 1 por cento de proprietários ricos do topo possuíam mais do que o dobro dos 80 por cento da base da população. Se isto fosse medido simplesmente em termos de riqueza financeira, os 1 por cento do topo possuem mais do que quatro vezes os 80 por cento da base" (p. 130). Como é que as pessoas da classe trabalhadora têm feito para manter as cabeças acima da água com toda esta riqueza a ser comutada para os ricos?

JBF: A resposta é razoavelmente óbvia. Se o povo não pode manter o seu padrão de vida na base do seu rendimento, ele contrairá empréstimos contra o rendimento e contra seja o que for de riqueza que tenham. O resultado – se os seus rendimentos não ascenderem, ou se o valor dos activos que tenham não aumentar — é que ele simplesmente afundará cada vez mais profundamente na dívida numa tentativa só de se manter à tona. Fiquei preocupado acerca do crescimento da dívida habitacional da classe operária em 2000 e efectuei um estudo para The Survey of Consumer Finances, o qual é publicado a cada três anos pelo governo federal com uma defasagem nos dados de três anos. Esta é a única fonte de dados importante do governo federal que temos sobre dívida imobiliária decomposta em grupos de rendimento de modo a que possamos determinar o fardo da dívida das diferentes classes.

Publiquei um artigo com base nesta investigação no número de Maio de 2000 da Monthly Review, intitulado "Working-Class Households and the Burden of Debt." . Acompanhei-o seis anos depois com um artigo no número de Maio de 2006 da Monthly Review sobre "A bolha do endividamento familiar" o qual era para ser incorporado no The Great Financial Crisis. Ali escrevi que "A bolha habitacional e a força do consumo na economia estão conectados ao que pode ser denominado a "bolha da dívida habitacional", a qual poderia facilmente explodir devido à ascensão das taxas de juro e da estagnação ou ao declínio dos preços habitacionais". Isto naturalmente foi o que aconteceu e a razão porque esta crise se tornou tão severa foi a destruição ao longo de décadas das finanças domésticas da classe trabalhadora, nas costas da qual verificou-se a financiarização.

MW: Como define "deflação da dívida" (debt-deflation) e explica o seu perigo potencial para a economia? Quando o crédito continua a dificultar-se e os preços da habitação afundam não estaremos a deslizar para um reforço da espiral deflacionária? Pensa que a política fiscal reverterá esta tendência ou o pacote de estímulo é demasiado pequeno para travar o contínuo escorregamento do imobiliário e das acções?

JBF: A expressão "deflação da dívida" está associada particularmente ao trabalho de Irving Fisher durante da Grande Depressão. Fisher escreveu um artigo para a revista Econometrica em 1933 intitulado "The Debt-Deflation Theory of Great Depressions". A deflação quando aplicada à economia geral é uma queda no nível geral de preços, algo nunca visto nos Estados Unidos desde a Grande Depressão, e catastrófico na economia do capital monopolista (e ainda mais sob o capital monopolista-financeiro). Em primeiro lugar, deflação (ou desinflação, isto é, a redução da inflação para o que o Federal Reserve chama níveis "abaixo do óptimo") significa que as margens de lucro das corporações são esmagadas, mesmo se o custo da estrutura de produção e a produtividade permanecem as mesmas. Sob tais circunstâncias, a competição de preços é reactivada com firmas gigantes numa luta realmente de vida ou morte. Isto também gera pressão para pesados despedimentos e reduções de salários, criando toda a espécie de círculos viciosos.

Mas o temor real da deflação tem a ver com a enormemente inchada estrutura financeira e a enorme carga de dívida da economia. Sob a inflação, a qual é habitualmente assumida estar encravada nas economias capitalistas avançadas, as dívidas são reembolsadas com dólares "mais pequenos" (isto é, com menos valor ao longo do tempo). Numa economia deflacionária, contudo, a dívida tem de ser paga com dólares "maiores" (que valem mais ao longo do tempo). Isto então cria uma espiral de deflação da dívida, que acelera enormemente o colapso financeiro. Como afirmou Fisher, "a deflação provocada pela dívida reage sobre a dívida. Cada dólar de dívida ainda não pago torna-se um dólar maior e se o super-endividamento com o qual começámos for suficientemente grande, a liquidação da dívida não pode aguentar a queda de preços que provoca". Dito de forma diferente, citando The Great Financial Crisis (p. 116), "os preços caem quando devedores vendem os seus activos a fim de pagarem as suas dívidas, e quando os preços caem as dívidas remanescentes devem ser pagas em dólares mais valiosos do que aqueles contraídos em empréstimo, provocando mais incumprimentos, o que leva a preços ainda mais baixos e portanto a uma espiral deflacionária". A fim de verificar esta tendência deflacionária, o Federal Reserve e o Tesouro têm estado a tentar reflacionar a economia através da impressão de dinheiro (eufemisticamente chamada "facilidade quantitativa"). Mas não tiveram êxito e as forças deflacionárias ainda são muito fortes, levando o presidente Obama a advertir logo após a sua eleição que "estamos agora em risco de cair numa espiral deflacionária que poderia aumentar ainda mais a nossa dívida maciça ".

Também convém mencionar o efeito que a deflação tem sobre o investimento. Com o capital confrontado com o facto de que nuns poucos anos no futuro o nível de preços poderia ser mais baixo do que é agora, os lucros esperados sobre o investimento e nova capacidade produtiva (uma vez que leva anos a ser construído e tem de ser pago em preços a actuais) são deprimidos, criando uma estagnação mais profunda da acumulação.

O pacote de estímulo apresentado pela administração Obama é demasiado pequeno para estimular a procura e reflacionar a economia sob tais circunstâncias. É de menos de US$400 mil milhões por ano, 40 por cento do qual é em isenções fiscais, de modo que o aumento da despesas governamental é minúsculo em comparação com a dimensão do buraco criado pela queda drástica no consumo, no investimento e nos gastos dos governos estaduais e locais. Ele também é minguado pelo total dos programas de apoio do governo federal, primariamente para instituições financeiras, o qual agora monta a US$9,7 milhões de milhões (trillion) na forma de injecções de dinheiro, garantias de dívida, permutas de títulos do Tesouro por resíduos tóxicos financeiros, etc.

MW: Karl Marx parece ter previsto o colapso financeiro que agora enfrentamos. Ele disse em O Capital: "A superficialidade da economia política mostra-se no facto de que encara a expansão e contracção do crédito como a causa das alterações periódicas do ciclo industrial, embora seja um mero sintoma delas". Marx parece concordar com a sua teoria de que o problema real é mais profundo — a estagnação económica, a qual força o capital excedente a procurar investimentos mais lucrativos. Enquanto as teorias monetaristas de Milton Friedman estão agora sob ataque contundente, Keynes e Marx parecem ter-se levantado particularmente bem. O que Marx queria dizer quando falava acerca da "economia política"?

JBF: Marx foi um analista agudo das crises financeiras do seu tempo e descreveu as suas principais características. Contudo, ele via as expansões financeiras a verificarem-se no pico de um boom, não como um fenómeno secular. A financiarização no sentido de uma mudança a longo prazo do centro de gravidade da economia para as finanças, com especulação financeira construída ao longo de décadas, é uma situação completamente sem precedentes.

Marx e Engels deram grande ênfase ao crescimento das companhias/corporações sob a forma de sociedade anónima e ao aparecimento de um mercado para títulos industriais que começou a surgir no fim do século XIX. Foi esta criação do mercado moderno de títulos industriais que constituiu o princípio real do emergir das finanças como um aspecto relativamente autónomo da economia capitalista monopolista. Há essencialmente duas estruturas de preços para a economia: uma na economia real relacionada à produção de bens e serviços, a outra no âmbito financeiro associada ao preço de activos (papeis que dão direito a riqueza). As duas estão inter-relacionadas mas podem ser dissociadas uma da outra durante períodos de tempo. Keynes na década de 1930 destacou os perigos de uma economia cada vez mais governada pela fixação especulativa dos preços dos activos financeiros. Mas foi um observador tão agudo do capitalismo que mesmo no seu tempo começou a ver as contradições que emergiam entre capital dinheiro (ou fictício) e capital real.

Uma das coisas que Marx argumentou neste contexto é que as altas na especulação financeira eram respostas à estagnação e ao declínio na economia real, pois o capital procurava desesperadamente um meio de manter e expandir o seu excedente. Portanto ele escreveu que a "pletora de capital dinheiro" em tais períodos era devida a "dificuldades no emprego, directamente da falta de esferas de investimento, isto é, devido a um excedente nos ramos de produção" e mostrava nada mais do que as barreiras imanentes à expansão capitalista (citado em The Great Financial Crisis, p. 39).

Marx permanece o fundamento mais forte para a crítica da economia capitalista, até aos nossos dias. Mas o Keynes real (a não ser confundido com o keynesianismo bastardo de hoje) também é importante, uma vez que ele enfatizou aquilo a que chamou as "falhas existentes" da economia capitalista: a tendência para a alta desigualdade e o alto desemprego. Ele também destacou os perigos de um sistema dependente das finanças especulativas.

MW: A estagnação salarial e a desigualdade do rendimento será um resultado directo da financiarização?

JBF: Eu diria isso de outro modo. A estagnação salarial e a crescente desigualdade do rendimento e da riqueza são componentes da tendência à estagnação subjacente. Ambos mostraram uma tendência para piorar ao longo do tempo, o que resulta no aprofundamento das tendências estagnacionistas dentro da economia geral. Os salários reais nos Estados Unidos atingiram o pico em 1971, quando Richard Nixon era presidente, e em 2008 havia caído de volta aos níveis de 1967, quando Lyndon Johnson era presidente. Isto verificou-se apesar do enorme crescimento da produtividade e da expansão da riqueza ao longo destas décadas. Portanto, isto é um marcador da "tendência do excedente para crescer", como Baran e Sweezy afirmaram, ou de uma taxa ascendente do valor excedente, nas próprias palavras de Marx. Isto foi acompanhado por um crescimento maciço do rendimento e da riqueza no topo. Como afirmámos em The Great Financial Crisis (p. 130), "De 1990 a 2002, para cada acréscimo de dólar ganho por aqueles nos 90 por cento da base [dos rendimentos], os 0,01 por cento mais altos (hoje cerca de 14 mil famílias) ganharam um adicional de US$18 mil". Por volta de 2007 a desigualdade de rendimento/riqueza nos Estados Unidos havia atingido as proporções de 1929, isto é, o nível atingido exactamente antes do crash do mercado de acções de 1929 que levou à Grande Depressão.

Penso que você está correcto, apesar de a financiarização tornar pior a desigualdade de rendimento e de riqueza, e de contribuir para a estagnação de salários. Podemos encarar o neoliberalismo basicamente como a ideologia do capital monopolista-financeiro, apresentada originalmente como a resposta da classe dominante à estagnação, e a seguir ajustada cada vez mais para a promoção da financiarização do capital, ela própria uma resposta estrutural à estagnação. O neoliberalismo promoveu a ruptura incessante de sindicatos, forçando os salários à baixa, cortando despesas do Estado em bem estar social, com desregulamentação, livre mobilidade do capital, desenvolvimento de nova arquitectura financeira, etc.

Um meio de entender isto é a enorme necessidade de injecções de dinheiro novo para alimentar uma superestrutura financeira que era voraz na sua exigência de novo capital dinheiro, a qual precisava alavancar ainda mais acumulação de dívida e especulação financeira. Companhias de seguros, imobiliário e fundos mútuos, todos eles proporcionavam injecções para dentro da superestrutura financeira, tal como fazia o Estado. Todos os limites foram removidos. Sob tais circunstâncias os trabalhadores eram encorajados a utilizar as suas casas como mealheiros para financiar o consumo, cartões de crédito foram entregues a adolescentes, empréstimos subprime foram concedidos a gente com pouca capacidade para pagar. Pacotes de aposentadoria individual foram comutados para as contas individuais de reforma (Individual Retirement Accounts, IRAs) que estavam atadas ao sistema financeiro especulativo. Isto tinha todos os sinais de um sistema viciado. Nestas circunstâncias, também, a economia real, particularmente a produção de bens e a manufactura, foi dizimada. Na introdução de The Great Financial Crisis incluímos um gráfico que cobre o período desde 1960 o qual mostra a produção de bens em percentagem do PIB num lento declínio a longo prazo, ao passo que a dívida em percentagem do PIB está a disparar ao longo do mesmo período. Tudo isto significa uma redistribuição maciça que se afasta do povo trabalhador em direcção ao capital, e para aqueles no pináculo da pirâmide financeira.

MW: No seu livro The Great Financial Crisis critica Paulson por suas injecções de capital nos bancos dizendo que "no máximo elas compram o tempo necessário no qual vastas massas de empréstimos questionáveis podem ser liquidados de um modo ordeiro, restaurando a solvência mas a uma taxa de actividade económica muito mais baixa – com uma séria recessão ou depressão". Na sexta-feira, Timothy Geithner disse à CNBC que "Preservaremos o sistema que é possuído e administrado pelo sector privado". Isto sugere que o secretário do Tesouro pode não liquidar os activos tóxicos de todo, mas sim tentar manter a aparência de que estes bancos abaixo da linha de água estão solventes. O que pensa que acontecerá se Geithner se recusar a nacionalizar os bancos?

JBF: Eu não interpretaria a declaração de Geithner deste modo. Mais exactamente, estamos a experimentar um dos maiores roubos da história. Escrevi sobre a questão da nacionalização para o "Notas dos editores" no número da Monthly Review a sair em Março de 2009. Todas as tentativas para resgatar o sistema financeiro neste momento vão na direcção da nacionalização. O governo federal está a proporcionar cada vez mais capital e a assumir responsabilidade financeira pelos bancos. Contudo, eles estão a fazer tudo o que podem para manter os bancos em mãos privadas, o que resulta numa espécie de nacionalização de facto com controle privado de jure. Se o governo federal será finalmente forçado à nacionalização plena (isto é, a assumir o controle directo dos bancos) é uma grande questão. Mas mesmo isso é improvável que mude a natureza do que está em curso, a qual é um caso clássico de socialização das perdas de instituições financeiras enquanto deixa intactos os ganhos maciços ainda nas mãos daqueles que mais lucraram com todo o período de especulação financeira extrema.

Para ter uma ideia do que está a acontecer é preciso entender que o governo federal, como já indiquei, comprometeu-se até o momento nesta crise com US$9,7 milhões de milhões em programas de apoio primariamente para financiar instituições. O Federal Reserve (juntamente com o Tesouro) agora converteu-se no que é chamado um "banco mau" ("bad bank"). Em resultado, o Federal Reserve tornou-se o banqueiro de último recurso para o resíduo tóxico com a fatia dos Títulos do Tesouro no balanço do Fed a cair de cerca de 90 por cento para cerca de 20 por cento no decorrer da crise, com grande parte do resto agora constituído por resíduos financeiros tóxicos.

Obviamente, a nacionalização plena e directa seria mais racional do que isto. Mas é preciso lembrar o sistema de poder — tanto económico como político — de que estamos a tratar no presente. O caso clássico da plena nacionalização da banca foi no capitalismo corporativista italiano das décadas de 1920 e 1030 e foi executado por um regime fascista. Sem sugerir que agora nos encaminhamos neste rumo, deveria ficar claro a partir disto que a própria nacionalização dos bancos não é panaceia.

O facto de que Geithner, a escolha de Obama para a Secretaria de Tesouro, está a supervisionar o enorme roubo que se está a verificar, que provavelmente excede qualquer roubo na história, com os contribuintes comuns a pagarem a conta, certamente levaria alguém a fazer perguntas acerca da natureza "progressista" da nova administração.

MW: O antigo chefe do Fed, Alan Greenspan, descartou as críticas às suas políticas monetárias dizendo que ninguém poderia ter visto a gigantesca bolha de crédito a desenvolver-se na habitação. No seu livro, contudo, você faz esta observação: "Foi a realidade da estagnação económica principiando na década de 1970... que levou à emergência da espécie de 'novo regime capitalista financiarizado' de 'keynesianismo financeiro paradoxal' pelo qual a procura na economia era estimulada primariamente 'graças a bolhas de activos' " (p. 129). Esta declaração sugere que o Fed sabia exactamente o que estava a fazer quando cortou taxas e criou um furor especulativo. Bolhas de activos alimentadas pela dívida são um modo de comutar riqueza de uma classe para outra enquanto evita a estagnação da economia subjacente. Será que este problema pode ser consertado através da regulamentação e da melhor supervisão ou é algo intrínseco ao próprio capitalismo?

JBF: Greenspan naturalmente está a tentar desesperadamente salvar a sua reputação e a afastar qualquer sensação de que é culpado. Eu concordaria em que o Fed sabia o que estava a fazer até certo ponto e que promoveu deliberadamente uma bolha de activos na habitação — o que Stephanie Pomboy chamou "The Great Bubble Transfer" a seguir ao estouro da bolha da Nova Economia tecnológica em 2000. O ponto de vista de que ninguém viu os perigos é falsa, naturalmente. Recordo-me da afirmação de Paul Krugman para salvar as aparências, em seu The Return of Depression Economics and the Crisis of 2008 de que apesar de algumas pessoas pensarem que os problemas financeiros e económicos da décadas de 1930 poderem repetir-se, elas não eram "pessoas sensatas". Segundo Krugman, "pessoas sensatas" como ele próprio (isto é, aqueles que exprimem o consenso daqueles no poder) sabiam que estas coisas nunca poderiam acontecer — mas revelou-se que ele estava errado. É verdade, como diz Greenspan, que ninguém podia ter previsto precisamente o que realmente aconteceu. E certamente havia um bocado de gente cega no topo. Mas houve montes de advertências e preocupações. Por exemplo: redigi o editorial ( "The Great Fear" ) do número de Abril de 2005 da Monthly Review em que se referia às "taxas de juro em ascensão (ameaçando uma estouro da bolha habitacional que apoiava o consumo nos EUA)" como um dos "perigos chave de uma estagnação económica". Outros observadores atentos da economia estavam a dizer a mesma coisa.

Nestes anos o Federal Reserve Board estava na verdade a debater se adoptava uma política de furar as bolhas de activos antes elas ficarem fora de controle. Mas tanto Greenspan como Bernanke eram contra uma operação tão perigosa, afirmando que isto podia deitar abaixo todo a fraca estrutura financeira. Uma vez que não sabiam o que fazer quanto à bolha de activos, eles simplesmente sentaram sobre as suas mãos e tentaram conversar sobre o levantamento do mercado. A visão dominante era de que o Federal Reserve podia travar uma avalanche financeira colocando uma rocha no lugar certo no momento em que houvesse um sinal de perturbação. De modo que Bernanke foi em frente, fechou os olhos e rezou, elevando taxas de juros para restringir inflação (uma acção exigida pela elite financeira) e o resto é história.

Durante todo o tempo aqueles que estavam nas alturas do comando das instituições financeiras deram as ordens e o Fed seguiu as suas vontades. O próprio Greenspan não é idiota. Ele escreveu em Challenge Magazine, em Março-Abril de 1988, acerca dos perigos associados à bolha habitacional. Mas como presidente do Federal Reserve Board prosseguiu a financiarização à força, uma vez que não havia outra opção para o sistema. É desnecessário dizer que tal financiarização estava associada a crescentes disparidades na riqueza e no rendimento do país. A própria dívida é um instrumento de poder e aqueles na base estavam a ela encadeados, ao passo que os do topo estavam a utilizá-la para alavancarem o aumento de fortunas. O valor líquido total dos 400 americanos mais ricos da revista Forbes (uma crescente percentagem dos quais tinham base nas finanças) ascendeu de US$91,8 mil milhões em 1982 para US$1,2 milhões de milhões em 2006, enquanto a maior parte das pessoas na sociedade estava a achar cada vez mais difícil conseguir aguentar-se. Nada disto foi um acidente. É tudo intrínseco ao capital monopolista-financeiro.

26/Fevereiro/2009

[*] Editor da Monthly Review e professor de sociologia na Universidade de Oregon.  Co-autor com Fred Magdoff de The Great Financial Crisis: Causes and Consequences , publicado em Fevereiro de 2009.

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=12476 . Tradução de JF.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
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