O princípio da Grande Depressão II: Conceptualizar a crise
No momento em que escrevo (Janeiro de 2009), firmas de todos os sectores da
economia dos EUA estão a cortar as suas folhas de pagamento; o
desemprego e as pessoas sem casa estão a aumentar e a classe
trabalhadora está a tomar a maior pancada em padrões de vida em
várias gerações, levantando profundas dúvidas
acerca da capacidade de a nossa sociedade capitalista assegurar a médio
a reprodução social geral. Tendências semelhantes
são evidentes por todo o mundo, reflectindo um elevado grau de
interconexão e transnacionalização. Montanhas de
dívida do consumidor, negócios, governo, externa
continuam a acumular-se e a fragilidade do sistema financeiro internacional
torna-se a cada dia mais aparente, frustrando qualquer esperança de uma
recuperação rápida.
Deveríamos começar por dizer alto e claro:
O entendimento marxista da instabilidade inerente e da progressiva
impraticalidade do capitalismo foi vindicado!
Nós marxistas, naturalmente de diferentes modos, temos estado a dizer
que a era dourada do "mundo livre", o longo
boom,
o "livre mercado", o fim da história seja o que for
não passam de um grande mito, que a acumulação
capitalista, com a sua tendência imanente à
polarização, expansão imprudente, irresponsabilidade e
instabilidade, é cada vez mais problemática de qualquer ponto de
vista que defenda a sobrevivência e a realização humana.
Sempre soubemos isto, ao passo que legiões de sabichões e
académicos da corrente predominante não souberam e têm sido
incapazes de saber. (E ainda são)
Então por que não nos sentimos vindicados? Por que nos sentimos
inermes como o proverbial cervo paralisado pelo medo sob os faróis? Onde
está a confiante projecção de um futuro para além
do capitalismo, para ajudar a alimentar a espécie de levantamento
democrático maciço que assegurou a Revolução de
Outubro de 1917, o New Deal nos EUA na década de 1930 e o salário
social das sociedades capitalistas avançadas da Europa Ocidental no
período pós II Guerra Mundial? Parte do problema, naturalmente,
é que previsões marxistas de crises muitas vezes verificaram-se
estar erradas, de modo que quando uma crise "finalmente" emerge
experimentamo-la do mesmo modo como a informação correcta de um
relógio parado (o qual, afinal de contas, está certo duas vezes
por dia). A velha anedota assombra-nos: "Os marxistas previram
correctamente dez das últimas duas crises que atingiram a economia dos
EUA". Precisamos saber: como podemos
usar
o nosso domínio das questões fundamentais para produzir uma
análise superior
desta
crise? Como podemos evitar sucumbir tanto ao maximalismo estéril de
simplesmente afirmar que "capitalismo = crise" e da conversa
insípida da "crise geral", por um lado, ou juntarmo-nos
às hordas de faladores que vomitam pormenores sem fim de subprimes,
hipotecas, derivativos financeiros, salvamentos, "desenvolvimentos mais
recentes", etc, com a tagarelice associada do
qualquer-coisa-é-possível / nada-é-possível, por
outro lado.
Bem, podemos tentar. A resposta não será encontrada, na minha
óptica, na forma de infindáveis descrições
empíricas, nem por meios do "Modelo econométrico
marxista" que o falecido David Gordon tão meticulosamente buscou.
Nem será encontrada em qualquer novo estudo de textos marxistas, embora
tal estudo permaneça importante como uma fonte de
percepção útil. Como sempre nestes ensaios, argumento que
a clarificação conceptual é essencial e, neste caso,
acredito que um fosso conceptual específico tem sido uma
característica definidora do trabalho de economistas marxistas em
países capitalistas que são sistematicamente hostis aos primeiros
estados socialistas do século XX (os assim chamados "Marxistas
ocidentais"). Mais acerca disto dentro de um momento.
As crises de acumulação capitalista têm sido
tradicionalmente classificadas em "cíclicas" e
"estruturais". Pode-se, naturalmente, aplicar ambos os conceitos
simultaneamente, como ao investigar os aspectos cíclicos e estruturais
de uma dada crise. As crises cíclicas são as periódicas, e
periodicamente necessárias, ajustamentos violentos no caminho da
acumulação, revelando a tendência recorrente geral do
capitalismo para minar as suas próprias condições para
expansão ulterior. Elas dividem-se em crises de
"realização" (baseadas na deficiência da procura)
e crises de "liquidação" (baseadas em taxas de lucro
excessivas baixas). As crises estruturais, em contraste, ocorrem quando uma
dada etapa de acumulação (ou "estrutura social de
acumulação") deve necessariamente render-se a uma sucessora.
Um exemplo é a necessidade do capitalismo de uma forma de
regulação do estado qualitativamente reforçada, uma
transformação institucional do princípio do século
XX que foi fortemente resistida pelo capital, mesmo quando os representantes
mais lúcidos daquele sistema viam a sua necessidade e a massa da classe
trabalhadora lutava a partir de baixo para convencer da sua necessidade. Outra
de tais etapas (ou eras,
"stadial"
)
[NT]
de concepção da crise repousa na "estrutura social da
acumulação" (ou, numa formulação diferente, o
"regime de acumulação") que emergiu no período
pós II Guerra Mundial, caracterizada pela produção em
massa "fordista", a administração keynesiana da procura
e um acordo capital-trabalho assegurando paz de classe (relativa) em troca da
participação assegurada do trabalhador na elevação
da produtividade. A crise estrutural foi o tempestuoso período da
década de 1970 que emergiu do desmanchar deste esquema.
Gostaria de propor, ampliando este conjunto de distinções, uma
estrutura conceptual em três vias, na qual a crise cíclica
é subdividida em duas subcategorias: acumulação e
equilíbrio-de-forças. Temos portanto três tipos de crises:
1) acumulação-cíclica; 2)
equilíbrio-de-forças-cíclica; e 3)
stadial
-estrutural.
Eles podem ser combinados para caracterizar uma conjuntura particular. Crises
de acumulação-cíclicas são as crises
clássicas de superprodução, tanto com aspecto da
realização como da liquidação na
posição dominante. Elas corporificam uma
contradição capitalista central: capitais individuais devem
procurar taxas de lucros sempre mais altas de maneiras que minam as
condições para a sua realização, quando estas
condições envolvem tanto a procura como a natureza da
produção (mecanização, concentração e
centralização do capital, etc).
Crise stadiais-estruturais (saltando o segundo tipo por enquanto) referem-se
naturalmente às eras, ou como que as fases, caracterizantes do
capitalismo. A questão tormentosa para um regime mais intenso de
regulação do estado já foi mencionada; foi preciso a
primeira Grande Depressão (GD I!) para forçar o seu
atravessamento.
[1]
Agora, cerca de sete décadas mais tarde, a contradição
estrutural é diferente: as unidades capitalista de controle (firmas),
devido à persistente concentração (crescimento da
dimensão e interdependência de unidades produtivas),
centralização (reunião do controle em cada vez menos
mãos) e a ascensão da tecnologia da informação,
cresceram para além dos limites da própria
regulação estatal do capital. Nos últimos anos o aumento
de dólares "offshore" (até recentemente a divisa
internacional de reserva não contestada) e os centros financeiros
corroeram crescentemente o poder dos organismos de estabilização
do governo e até mesmo eclipsaram o alcance de entidades supranacionais
tais como o FMI e o Banco Mundial. O potencial para instabilidade no enorme
mercado transnacional de capitais, potenciado pela ascensão de
derivativos financeiros cujo valor facial agora é muitas vezes o PIB
mundial, tem sido descrito vivamente por muitos, mas aqui nós o
colocamos na estrutura de uma propriedade imanente de acumulação
capitalista contínua.
A atenuação do poder regulatório real e potencial da parte
de governos pode ser vista como um exemplo do capitalismo, no fim dos
século XX e princípios do XXI, a reafirmar gradualmente a sua
qualidade elementar característica. Para entender isto plenamente,
contudo, devemos agora mencionar a segunda das três categorias de crise:
equilíbrio-de-forças-cíclico. Das três, esta
é, eu diria, a menos bem entendida, em grande parte devido ao fracasso
generalizado da esquerda "Ocidental" em apreciar o papel
revolucionário da Revolução Russa e das primeiras
sociedades socialistas às quais permitiu ascenderem.
Outubro de 1917 pôs em andamento um poderoso movimento a partir de baixo.
Este movimento moldou o caminho da acumulação por todo o mundo,
incluindo os países capitalistas avançados. A emergência de
uma estado pós capitalista, numa enorme massa de terra, criou uma base
para o desenvolvimento político e social dos explorados e das classes
empobrecidas por toda a parte do mundo capitalista e deu à Grande
Depressão o seu carácter especial como ameaça ao
capitalismo como tal. Isto, deveria ser notada, é verdadeiro apesar da
fraqueza material e da deformação política e cultural que
fizeram parte da sociedade soviética e do seu desenvolvimento. O efeito
combinado das revoluções, tanto com êxito como sem
êxito do princípio do século XX
e
da Depressão foi criar uma alteração maciça no
equilíbrio de forças de classe em favor da classe trabalhadora e
das classes e estratos sociais subalternos relacionados. Excepto na URSS e, no
pós guerra, na Europa do Leste e na China, esta alteração
não resultou numa transferência do poder do estado ou no derrube
das classes dominantes capitalistas; ela, no entanto, resultou num
período no qual o processo capitalista elementar foi reprimido,
atenuado, forçado a funcionar em surdina e a responder a
exigências populares. Assim, juntamente com a primitiva
construção socialista no Leste, temos a Social-Democracia
europeia, o salário social, vários e diversos "acordos
capital-trabalho", a ruptura dos impérios coloniais, a
estabilização keynesiana e a regulação no ocidente.
A história das últimas décadas do século XX,
até o presente, é a do desfazer gradual desta
posição de força da classe trabalhadora e a
reversão do equilíbrio de forças de classe para o seu
estado mais normal: uma classe trabalhadora passiva, apolítica, e uma
saudavelmente (do ponto de vista capitalista) desvalorizada força de
trabalho. O declínio da sindicalização nos Estados Unidos
é um símbolo factual desta história.
E em seu lugar, em flagrante contradição, está a
emergência nos EUA da generalização da propriedade da casa
pela classe trabalhadora após a II Guerra Mundial. A reflectir o
avanço social da classe trabalhadora, a propriedade da casa
também foi central para o descarrilamento ideológico subsequente,
tal como o "consumismo", o estilo de vida suburbano e muito mais. Mas
a acumulação de riqueza pessoal na forma de imobiliário
também era uma ameaça crescente à condição
proletária clássica e, portanto, um obstáculo à
progressiva re-emergência do domínio
irrestrito
da classe capitalista. O que era necessário mais uma vez, do
ponto de vista do capital era nada menos do que um novo
re-despojamento
dos trabalhadores numa grande escala. Deste ponto de vista, a
crise
para o capital
é
a avançada posição social e política da classe
trabalhadora que emergiu a seguir às mobilizações
relacionadas com as guerras mundiais, a Depressão, a vitória
sobre o fascismo
e
a existência continuada, e ameaça, da União
Soviética. A
resolução
da crise é a re-proletarização, muito mais
avançada nos EUA do que, digamos, na Europa Ocidental.
Agora, com estas peças do puzzle no lugar, podemos resumidamente
descrever a crise actual. Ela é uma crise de
perfeita tempestade:
uma reunião de acumulação-cíclica, de
equilíbrio-de-forças-cíclica, e de elementos
stadiais-estruturais.
A crise de superprodução esteve longo tempo em
preparação. Mas a financiarização o enorme
aumento dívidas de todas as espécies constitui, como bem
sabemos, uma compensação. Quando a procura do consumidor é
restringida devida a uma queda da fatia salarial do rendimento (como tem estado
a acontecer desde a década de 1970), o fosso pode ser transposto por
planos de prestações e outras formas de tomadas de
empréstimos pelo consumidor. A dívida pública pode
impulsionar a procura agregada. As fábricas dos EUA podem despachar bens
para o resto do mundo e emprestar ao mundo o dinheiro para pagá-las.
(Naturalmente, este relacionamento foi revertido nas décadas de 1980 e
1990 e agora tomamos empréstimos maciços do mundo ao invés
de emprestar-lhe.) A questão, contudo, é: quão longe pode
ir o processo? Quão longe pode a fita elástica ser esticada antes
de se romper? Este autor recorda-se de investir rácios de dívida
(dívida do consumidor para rendimento pessoal disponível, sobre
toda a dívida para o PIB, etc) no princípio da década de
1970 e concluir, de modo verdadeiro e preocupante, que estes rácios
então
estavam todos a ultrapassar os seus níveis de 1929! Certamente uma base
segura para prever um colapso iminente o qual, contudo, chegou quase 40
anos depois. (Sombra do "prever dez das duas crises")
Agora a questão quanta alavancagem da dívida é
possível? parece irrespondível, a menos que entremos no
ciclo equilíbrio-de-forças (o único que, como observado,
parece trazer perturbação a muitos marxistas). Por que, por
exemplo, quando o mercado hipotecário mostrava sinais de crise no ano
passado não foi possível uma nova titularização? A
tensão neste mercado tem estado em ascensão durante anos, afinal
de contas. A resposta pode muito bem estar junto a estas linhas: O
re-empacotamento e subscrição dos maus empréstimos
era
possível, em princípio. Simplesmente teria exigido a
espécie de pensamento sublime e horizonte a longo prazo que está
em oposição ao capital como chimpanzés a
permanecerem erectos sobre as duas pernas durante curtos períodos
mas pode ser alcançada por eles través da
utilização do aparelho de estado. O que aconteceu, contudo,
é que poderosos círculos dirigentes na banca e nas
finanças (e na política) concluíram que a crise
habitacional
não deveria
ser adiada outra vez: que
agora
era tanto necessária como politicamente possível. A crise dos
sem tecto na classe trabalhadora estado-unidense é precisamente a
afirmação de um imperativo capitalista central: a
reprodução do estatuto de proletários dos trabalhadores
exige em última análise a sua destituição da
condição de proprietários.
[2]
Isto não precisa ser pensado como uma simples
conspiração: é, antes, o facto de o equilíbrio de
forças ter evoluído, do nosso ponto de vista numa
direcção desfavorável, até um ponto no qual actores
poderosos nos mercados financeiros, e no governo, agora pensam que as
consequências de salvar a propriedade das casas dos de baixo rendimento
são piores do que as consequências de permitir que a propriedade
desmorone. Isto pode parecer como nada mais do que "boa decisão
financeira", mas em última análise resulta de uma
alteração do equilíbrio mundial das forças de
classe, no qual a extinção da União Soviética, se
bem que certamente não tenha sido o único factor, foi no entanto
crucial. E, como eles dizem, é aqui que a fita de borracha se rompe.
Assim, temos uma crise de acumulação-cíclica em forma
potencial, a desenvolver-se ao longo do tempo. Temos um aparelho de
regulação-estabilização concebido tanto para
impedir a baixa económica real, ou pelo menos amaciar a pancada (isto
é o que eles querem dizer com "aterragem suave"), um aparelho
que entretanto é cada vez mais minado pela
transnacionalização básica. Finalmente, as galinhas do
equilíbrio-de-forças voltam à casa para empoleirar-se: a
vontade
de compensar a baixa evapora-se quando a
necessidade
política as faz desvanecer. Uma perfeita tempestade.
Quando o mar se alterar na consciência da classe trabalhadora e a
organização se verificar note que digo "quando",
não "se" os círculos dirigentes
precisarão então de formas reforçadas de
regulação apropriadas para a sua própria recém
transnacionalizada economia mundial e eles descobrirão que estas formas
não estão em vigor! Além disso, tais formas podem nem
mesmo, em última análise, serem possíveis. Mas tudo isto
é, como eles dizem, uma outra estória.
Notas
1- Realmente, o que chamamos a (primeira) Grande Depressão é
na verdade a segunda. Os historiadores económicos estão
familiarizados com o período 1870-93 (ou aproximadamente), um
período de comércio deprimido e desemprego elevado que foi bem
arraigado na consciência popular, até ser apagado pela importante
viragem da década de 1930. (Quão rapidamente esquecemos!) A crise
do final do século XIX pode ser considerada estrutural, resolvida pela
ascensão dos trusts e dos barões ladrões
(robber barons).
Entretanto, começarei a contagem com a Grande Depressão (GD I)
mais recente, pois desejamos saber se estamos postados no limiar da sua
sucessora.
2- O sistema de cuidados de saúde funciona como um meio de
re-despojamento. As despesas com abrigos de idosos, em particular, exaurem
recursos monetários pessoais e (em alguns casos) deparam-se com tectos
do Medicare sobre reembolsos de abrigos para idosos. As pessoas devem
então transformarem-se em miseráveis
("spend down")
até chegarem a ser elegíveis para o Medicaid. Elas então
são removidas dos seus lares, propriedades agrícolas e de activos
em papéis e os seus filhos são privados da sua herança. A
economia política dos cuidados de saúde e aquela da
"questão habitacional" estão estreitamente
inter-relacionadas. Meus agradecimentos a Lise Vogel por detectar uma
imprecisão na minha primeira formulação deste ponto.
[NT] O autor utiliza a palavra "stadial", para a qual não se
encontra uma boa tradução em português. A palavra é
utilizada habitualmente em climatologia, significando um período de
temperaturas mais frias durante um interglacial, mas de duração
ou intensidade insuficiente para ser considerada uma glaciação.
Um exemplo de
stadial
é a Pequena Idade do Gelo. Para a extensão do conceito às
ciências sociais ver
http://en.wikipedia.org/wiki/Sociocultural_evolution#Stadial_theory
[*]
Editor de
Science & Society.
O original encontra-se em
http://www.scienceandsociety.com/editorial.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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