Uma vaga de incumprimentos está a aproximar-se

por Luigi Guiso [*]

Políticos falam de rebentos verdes, o que sugeriria que o pior da crise está para trás e que uma recuperação sólida está prestes a começar. Infelizmente, tal conversa é prematura e com toda probabilidade factualmente errada. Surpresas sérias ainda permanecem logo ali na esquina. O máximo que podemos hoje dizer é que o pior do pânico financeiro, e a queda resultante no produto global, provavelmente está ultrapassado. A crise foi contida. Isto na verdade deve ser saudado. Mas será que ela desapareceu para sempre?

O que ainda não vimos, e começamos agora a observar, é como uma economia enfraquecida alimentará outra vez o sector financeiro. Ou seja, ainda não levámos plenamente em conta os incumprimentos por parte de empresas e famílias e o seu impacto sobre uma indústria financeira já aflita. A questão chave hoje é quão generalizados serão estes incumprimentos? Qual será o seu impacto sobre os balanços dos nossos bancos já aflitos?

Há várias razões para considerar esta questão seriamente e para sermos cautelosos quanto ao futuro. Primeiro, os incumprimentos surgem com longos intervalos e tendem a persistir por longo tempo. A maior parte das firmas entra numa recessão com bastante liquidez de activos que servem como um amortecedor mesmo quando sofrem de vendas decrescentes e fluxos de caixa em encolhimento. Elas podem liquidar alguns activos para conseguir a liquidez de que precisam para evitar incumprimentos custosos. Os bancos também têm fortes incentivos para garantirem liquidez àquelas companhias na esperança de uma recuperação rápida. Graças a estes estabilizadores sistémicos, os incumprimentos tendem a ocorrer na ponta final do ciclo e muitas vezes quando a recuperação já se está a verificar. Na Itália, por exemplo, durante a recessão de 1992, os incumprimentos atingiram o pico um ano após o fosso mas permaneceram quase 30% acima da média durante os quatro anos seguintes.

Segundo: incumprimentos provocados por uma incapacidade de reembolso do tomador do empréstimo podem disparar um outro, um incumprimento de tipo mais insidioso: o incumprimento estratégico, o incumprimento de tomadores solventes que potencialmente podem reembolsar mas preferem não fazê-lo. Quando incumprimentos se tornam generalizados, o custo social do incumprimento é grandemente reduzido. Isto torna mais fácil incumprir o empréstimo, mesmo por firmas e consumidores que sob circunstâncias normais seria capazes e estariam dispostos a reembolsar. Avaliar a importância desta vertente é crítico mas difícil de fazer. Uma das razões é que os incumpridores estratégicos podem plausivelmente durante uma recessão afirmar que são incapazes de reembolsar e geralmente é difícil provar o contrário.

Um inquérito muito recente [1] perguntou a uma amostra de famílias americanas se incumpririam a sua hipoteca mesmo se fossem capazes de reembolsá-la. Descobriu-se que até 17% dos inquiridos incumpririam mesmo se fossem capazes de pagar a sua hipoteca. Quando o défice de situação líquida atinge 50% do valor da casa, o número de incumprimentos estratégicos eleva-se para 26%. O inquérito também documenta que a propensão das pessoas para incumprirem mesmo quando capazes de reembolsar é fortemente influenciada pela observação de que os seus vizinhos incumpriram. Este incentivo para imitar pode resultar numa ampliação dos incumprimentos de firmas incapazes de reembolsar devido à recessão.

Terceiro: há evidência de que grandes bancos estão a retirar crédito a pequenas empresas, forçando-as dessa forma ao incumprimento e à bancarrota. Sem tal racionamento de crédito, estas firmas sob circunstâncias normais seriam viáveis. A razão é que muitos bancos acham difícil e custosos avaliar a capacidade de uma pequena companhia reembolsar um empréstimo. Isto pode não ser uma preocupação séria em países tais como a Holanda ou vários outros do Norte da Europa com negócios relativamente grandes. Mas pode ser um problema sério em países tais como a Itália, Alemanha ou Espanha onde a importância relativa dos pequenos negócios é muito mais alta. A extensão do problema depende grandemente da medida em que pequenas firmas possam ter acesso a fontes alternativas de financiamento, particularmente empréstimos de pequenos bancos locais que têm uma vantagem comparativa na avaliação da qualidade do crédito a pequenos tomadores.

Quarto e final: incumprimentos podem ser acelerados pelas mesmas forças que os provocaram primeiro no princípio da crise: a ascensão das taxas de juro outra vez ao normal a partir da actual baixa histórica. Isto acontecerá mais cedo ou mais tarde e é uma questão já na agenda de banqueiros centrais, os quais estão a pensar acerca de uma estratégia de saída da crise.

Na generalidade, a ameaça de uma onda de incumprimentos maciço prestes a atingir nossas economias sugere que o nosso actual optimismo provavelmente é inapropriado. Tudo o que podemos permitir-nos hoje é apenas uma sensação de alívio por termos sido capazes de escapar ao pior do pânico.

24/Julho/2009

[1] L. Guiso, P. Sapienza and Luigi Zingales, "Moral and Social Constraints to Strategic Default on Mortgages", Financial Trust Index Working Paper Series.

[*] Professor de teoria económica no European University Institute, Florença.

O original encontra-se em http://www.eurointelligence.com/article.581+M5707fb181c8.0.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
13/Ago/09