por Henry C.K. Liu
Muitos sugeriram que a China não é obrigada a comprar
Títulos do Tesouro
(US Treasuries)
dos EUA com os seus dólares do excedente comercial. Eles destacam que a
China assim o faz voluntariamente porque a dívida soberana dos EUA
é o instrumento mais seguro para armazenar valor. Isto agora,
obviamente, já não é verdadeiro. Assim, por que a China
continua a comprar dívida soberana estado-unidense? A resposta é
que a China não tem outras opções senão tornar-se
uma credora dos EUA devido ao desequilíbrio comercial EUA-China. O que
se segue explica o porque.
Uma dívida não é uma coisa independente. Ela designa o
relacionamento financeiro entre partes. Para que exista uma dívida entre
partes, uma parte, ou partes, deve ser devedora, ou devedoras, e a contraparte
ou contrapartes deve ser credora, ou credoras. Uma dívida não
pode existir sem uma posição de crédito
contrabalançadora.
O crédito impulsiona a economia, não a dívida. A
dívida é o reflexo espelhado do crédito. Mesmo o espelho
mais preciso violenta a simetria ao reflectir. Por que um espelho devolve uma
imagem direita à esquerda e não invertida como fazem as lentes
das câmaras fotográficas? A resposta científica é
que uma imagem espelhada transforma a frente em costas ao invés de
esquerda em direita como habitualmente assumido. Mas nós muitas vezes
aceitamos esta aberrante distorção do espelho como verdade
imparcial e impensadamente consideramos o reflexo distorcido no espelho como
uma representação perfeita.
Na linguagem da teoria financeira, crédito e débito são
opostos mas não idênticos. De facto, crédito e
débito operam em relações invertidas. O crédito
exige um valor líquido positivo e o débito não.
Alguém pode ter bom crédito e nenhuma dívida.
Dívidas altas reduzem a classificação de crédito.
Quando alguém entende o crédito, entende a força principal
por trás da moderna economia financeira, a qual é conduzida pelo
crédito e atrasada pela dívida. Comportamentalmente, a
dívida distorce os cálculos de utilidade marginal e rearranja o
rendimento disponível. A dívida transforma as
acções das corporações em Bens de Giffen
[1]
, cuja procura aumenta quando o seu preço sobe e cria o que o
antigo presidente do Federal Reserve Board Alan Greenspan chamou
"exuberância irracional", o homem económico enlouquecido.
Os economistas monetaristas encaram o dinheiro emitido pelo governo como um
instrumento de dívida soberana com maturidade zero, historicamente
derivado da letra de câmbio
(bill of exchange)
na banca livre. Esta visão é válida só para a
espécie de dinheiro que é um certificado de dívida que
pode dar direito a uma quantia prescrita de ouro ou outra espécie de
valor intrínseco. Mas a moeda fiduciária emitida por um governo
soberano não é uma dívida soberana e sim um instrumento
soberano de crédito. Títulos de governos soberanos são
dívida soberana ao passo que títulos de governos locais
são dívida de agência mas não dívida
soberana, porque governos locais, apesar de possuírem poderes limitados
para tributar, não podem imprimir dinheiro, o que é da exclusiva
autoridade do governo federal ou de um governo central. Quando o dinheiro
compra títulos, a transacção representa crédito
soberano cancelando débito público ou corporativo. Este
relacionamento é de certa forma directo, mas é de
importância fundamental.
Dinheiro emitido por ordem do governo é agora o único dinheiro de
curso legal em todas as economias nacionais modernas. A Teoria estatal do
dinheiro (Chartalism)
[2]
sustenta que a aceitação geral da divisa fiduciária
emitida pelo governo repousa fundamentalmente sobre a autoridade do governo
para tributar. A disposição do governo para aceitar a divisa
fiduciária que emite para o pagamento dos impostos permite tal
emissão de divisa dentro de uma economia nacional. Esta divisa é
dívida soberana para obrigações fiscais, as quais
são descarregáveis por instrumentos de créditos emitidos
pelo governo na forma de dinheiro fiduciário. Ao emitir moeda
fiduciária, o governo não fica a dever nada excepto cumprir uma
promessa de aceitar a sua moeda para pagamento de impostos. Um regime de banca
central opera sobre a noção de dinheiro fiduciário emitido
pelo governo como crédito soberano. Um banco central opera
essencialmente como prestamista de último recurso para o sistema
bancário do país, aproveitando-se do crédito soberano. A
posição de quem empresta
(lender)
é uma posição credora.
Thomas Jefferson profetizou de forma notável:
"Se o povo americano permitir aos bancos controlar a emissão da sua
divisa, primeiro pela inflação e depois pela
deflação, os bancos e corporações que
crescerão em torno dele privarão o povo de toda propriedade
até os seus filhos acordarem sem lar no continente que os seus pais
ocuparam ... O poder de emissão da moeda deveria ser tomado dos bancos e
devolvido ao Congresso e ao povo a quem ele pertence".
Esta advertência aplica-se também a todos os outros povos do mundo.
O governo lança impostos não para financiar as suas
operações e sim para dar valor à sua moeda
fiduciária como instrumento de crédito soberano. Se quiser, o
governo pode financiar as suas operações inteiramente
através de pagamentos pelo utilizador
(user fees),
como sugerem alguns conservadores fiscais. O governo nunca precisa estar
endividado para com o público. Ele cria uma componente da dívida
governamental a fim de proporcionar uma taxa de juro de referência
(benchmark)
para ancorar o mercado da dívida privada, não porque ele precise
de moeda. Tecnicamente, um governo soberano nunca precisa tomar emprestado. Ele
pode emitir crédito fiscal na forma de moeda fiduciária para
atender a todos os seus passivos. E apenas um governo soberano pode emitir
moeda fiduciária como crédito soberano.
REORDENAMENTO DA ESTRUTURA CONCEPTUAL
Se a moeda fiduciária não é dívida soberana,
então toda a estrutura conceptual do capitalismo financeiro está
sujeita a reordenamento, assim como a física foi sujeita a reordenamento
quando a compreensão humana do mundo mudou a percepção de
que a Terra não está estacionária nem é o centro do
universo. A necessidade de formação de capital para financiar o
desenvolvimento socialmente útil revelar-se-á uma farsa cruel,
pois o crédito soberano pode financiar todo o desenvolvimento
socialmente útil sem problema. As poupanças privadas não
são necessárias para financiar o desenvolvimento
sócio-económico público, uma vez que as poupanças
privadas não são requeridas para a oferta de crédito
soberano. Portanto o relacionamento entre a taxa de poupança privada
nacional e as finanças públicas é na melhor das
hipóteses indirecto.
O crédito soberano pode financiar uma economia na qual o desemprego seja
desconhecido, com salários constantemente a subir para proporcionar
poder de compra do consumidor a fim de impedir super-capacidade de
produção. Uma economia vibrante é aquela na qual há
escassez de trabalho persistente que pressiona em alta os salários para
reduzir a super-capacidade. As poupanças privadas são
necessárias só para o investimento privado que não tem
finalidade ou valor social intrínseco. Poupanças sem pleno
emprego são deflacionárias, pois as poupanças reduzem o
consumo corrente para proporcionar investimento para aumentar a oferta futura,
a qual não é necessária numa economia com super-capacidade
criada pela falta de procura, a qual por sua vez foi criada pelos baixos
salários e o desemprego. A Lei de Say da oferta a criar a sua
própria procura é uma situação muito especial que
é operacional só sob o pleno emprego com altos salários. A
Lei de Say ignora a defasagem temporal crítica entre oferta e procura
que pode ser fatalmente problemática para as necessidades de fluxo de
caixa numa economia moderna em movimento rápido. As poupanças
exigem pagamentos de juros, a composição dos quais
regressivamente fará qualquer esquema financeiro insustentável.
As religiões proíbem a usura por razões muito
práticas.
O relacionamento entre activo e passivo exprime-se como crédito e
débito, com a designação determinada pelo fluxo da
obrigação. Um fluxo do activo para o passivo é conhecido
como crédito, o inverso é conhecido como débito. Um credor
é alguém que o seu passivo para aumentar o seu activo, o qual
inclui o direito de cobrança sobre os passivos dos seus devedores.
Dívida soberana é um pretenso jogo para tornar
comerciáveis dívidas monetárias privadas denominadas em
moeda fiduciária.
O estado soberano, representando o povo, possui todos os activos de um
país que não são do sector privado. Isto é
verdadeiro sem considerar se o estado opera sob princípios socialistas
ou capitalistas. Portanto os activos do estado são a riqueza nacional
menos aquela porção da riqueza do sector privado após
passivos fiscais, mas todas as outras reclamações sobre o sector
privado por direito soberano. Altos salários são o determinante
chave da riqueza nacional. A privatização geralmente reduz
activos do estado embora possa aumentar a receita fiscal. Na medida em que um
estado soberano existe, o seu crédito é limitado apenas pela
riqueza nacional. Se o crédito soberano for utilizado para aumentar a
riqueza nacional, então o crédito soberano é ilimitado na
medida em que o crescimento da riqueza nacional se mantiver ao ritmo do
crescimento do crédito soberano.
Quando um estado soberano emite moeda de curso legal, ele emite um instrumento
monetário apoiado pelos seus direitos soberanos, os quais incluem a
tributação. Um estado soberano nunca deve dívidas internas
excepto por desígnio voluntário. Quando um estado soberano toma
emprestado a fim de evitar cobrar impostos ou aumentar tributos, isto é
um expediente político, não uma necessidade financeira. Quando um
estado soberano toma emprestado, através da veda de títulos
soberanos denominados na sua própria divisa, ele está a retirar
crédito soberano emitido anteriormente do sistema financeiro. Quando um
estado soberano toma emprestado divisas estrangeiras, ele perde o seu
privilégio do crédito soberano e reduz-se a um devedor
ordinário porque nenhum estado soberano pode emitir divisa estrangeira.
A hegemonia do dólar impede todos os estado além dos EUA de
financiarem o seu desenvolvimento interno com crédito soberano.
Títulos do governo actuam como absorvedores de crédito soberano
do sector privado. Títulos do governo dos EUA, graças à
hegemonia do dólar, desfrutam da mais alta classificação
de crédito, chegando ao topo de uma pirâmide de risco de
crédito nos mercados de dívida internacional soberana e
institucionais. A hegemonia do dólar é um fenómeno
geopolítico no qual o dólar dos EUA, uma moeda fiduciária,
assume o status de divisa primária de reserva na arquitectura financeira
internacional. A arquitectura é uma arte cuja estética baseia-se
na bondade moral, da qual a actual arquitectura financeira internacional
está visivelmente carente. Portanto a hegemonia do dólar é
objectável não só porque o dólar, como divisa
fiduciária, usurpa um papel que não merece, como também
porque o seu efeito sobre a comunidade mundial é destituído de
bondade moral, porque destrói a capacidade de governos soberanos
além dos EUA utilizarem o crédito soberano para financiar o
desenvolvimento das suas economias internas, e força-os a exportar para
ganhar reservas de dólar a fim de manter o valor cambial das suas
próprias divisas.
Moeda emitida por decreto governamental soberano é um monopólio
soberano ao passo que dívida não é. Qualquer um com uma
classificação de crédito aceitável pode tomar
emprestado ou emprestar, mas só governos soberanos podem emitir moeda
fiduciária com curso legal. Quando um governo soberano emite moeda
fiduciária, ele emite certificados do seu bom crédito soberano
para descarregar passivos fiscais impostos pelo governo soberano sobre os seus
cidadãos. Moeda de emissão privada pode existir só com a
graça e permissão do soberano e é diferente da moeda
emitida pelo governo soberano em que a moeda emitida privadamente é
"vale"
(IOU, I owe you,
devo-lhe) do emitente, com o emitente devendo ao possuidor a
satisfação em retorno do dinheiro. Mas moeda fiduciária
emitida por um governo soberano não é uma dívida do
governo porque a moeda é suportada por uma dívida potencial do
possuidor na forma de passivos fiscais. O dinheiro emitido por um governo
soberano através de decreto como de curso legal é boa por lei
para liquidação de todas as dívidas, privadas e
públicas. Qualquer um que se recuse a aceitar dólares nos EUA
para pagamento de dívida está a violar a lei estado-unidense.
Instrumentos utilizados para liquidar dívidas são instrumentos de
crédito.
A compra de títulos soberanos com moeda fiduciária emitida pelo
governo é um dos meios do governo para injectar mais crédito
soberano dentro da economia. Pela lógica, a oferta monetária numa
economia não é dívida do governo porque, se aumentar a
oferta monetária significa aumentar a dívida nacional,
então a facilidade monetária contrairia o crédito da
economia. Mas a evidência empírica sugere outra coisa: a
facilidade monetária aumenta a oferta de crédito. Portanto, se a
criação de moeda fiduciária pelo governo soberano aumento
o crédito, a moeda emitida por decreto pelo governo soberano é um
instrumento de crédito.
DA ANTI-MATÉRIA AO DINHEIRO NEGATIVO
O economista Hyman Minksky observou correctamente que sempre que é
emitido
crédito, é criada moeda. A emissão de crédito cria
dívida para a parte da contraparte, mas dívida não
é dinheiro e o crédito sim. Dívida é dinheiro
negativo, uma forma de anti-matéria financeira. Os físicos
entendem o relacionamento entre matéria e anti-matéria. Einstein
teorizou que a matéria resulta da concentração de energia
e Paul Dirac conceptualizou o sub-produto da criação de
anti-matéria através da criação de matéria a
partir da energia. A colisão de matéria e anti-matéria
produz aniquilação que retorna a matéria e
anti-matéria a energia pura. O mesmo é verdadeiro com
crédito e débito, os quais são relacionados mas opostos.
Eles são criados em formas separadas a partir da energia financeira para
produzir matéria (crédito) e anti-matéria (débito).
A colisão do crédito e do débito produzirá
aniquilação e retornará a resultante união a pura
energia financeira não adequada ao benefício humano. O pagamento
da dívida termina a interacção financeira.
Dívida monetária é reembolsável com moeda. Um
governo soberano não ser torna um devedor com a emissão de moeda
fiduciária, a qual, nos EUA, toma a forma de uma nota do Federal
Reserve, não uma nota ordinária de banco. A palavra
"banco" não aparece nos dólares dos EUA. Moeda de
maturidade zero
(Zero maturity money, ZMM)
na economia do dólar é igual a M2
[3]
mais todos os fundos do mercado monetário, menos depósitos a
prazo. Isto mede a oferta de activos financeiros resgatáveis ao par a
pedido. O ZMM cresceu de US$550 mil milhões em 1971 quando o presidente
Nixon retirou o dólar do padrão ouro para US$9,6 milhões
de milhões
(trillion)
em Dezembro de 2009 e não é uma dívida federal. Ele monta
a cerca de 67,3% do PIB estado-unidense, de US$14,26 milhões de
milhões, ligeiramente mais do que a dívida nacional de US$12,33
milhões de milhões no mesmo ponto do tempo. O crédito
soberano é o que dá à economia dos EUA a sua força
inerente.
Um possuidor de moeda fiduciária é um possuidor de crédito
soberano. O possuidor de moeda fiduciária não é um credor
do estado, como alguns economistas monetários afirmam erradamente. A
moeda fiduciária apenas confere ao seu possuidor uma
substituição pela mesma moeda do governo, nada mais. O
dólar, sendo uma nota do Federal Reserve, habilita o possuidor a trocar
a nota por outra nota idêntica no Federal Reserve Bank e só isso. O
possuidor da moeda fiduciária está a actuar como um agente do
estado, com a plena confiança e o crédito do estado por
trás do instrumento, o qual é bom para pagar impostos e é
dinheiro de curso legal para toda dívida pública e privada. A
moeda fiduciária, como um passaporte, habilita o possuidor à
protecção do estado em reforço do crédito soberano.
É um certificado do poder financeiro do estado inerente à
soberania.
A teoria da moeda Chartalista
[1]
afirma que o governo, em virtude do seu poder para cobrar impostos
pagáveis com dinheiro de curso legal designado pelo governo, não
precisa de financiamento externo. Consequentemente, o crédito soberano
capacita o governo a financiar uma economia de pleno emprego mesmo numa
economia de mercado regulado. A lógica do Chartalismo raciocina que uma
taxa de imposto excessivamente baixa resultará numa procura baixa pela
divisa e que um excedente fiscal crónico do governo é
economicamente contra-producente e insustentável porque drena
crédito da economia continuamente. A administração
colonial na África britânica utilizava impostos sobre a terra para
induzir os nativos despreocupados a utilizarem a sua divisa e a empenharem-se
na produtividade financeira.
Portanto, de acordo com a teoria Chartalista, uma economia pode financiar com
crédito soberano as necessidades do seu desenvolvimento interno, para
alcançar pleno emprego e maximizar um crescimento equilibrado, sem
qualquer necessidade de dívida soberana ou empréstimos ou
investimentos estrangeiros, e sem a penalidade da hiper-inflação.
Mas a teoria Chartalista é operacional só em regimes
monetários predominantemente fechados. Países que participam no
"livre comércio" internacional neoliberal sob a égide
de mercados financeiros e de divisas globais e não regulamentados
não podem operar sob os princípios chartalistas por causa do
dilema do câmbio externo. Qualquer governo que imprima a sua
própria divisa para financiar necessidades internas legítimas
para além da dimensão das suas reservas cambiais verá logo
a sua divisa convertível sob ataque nos mercados de câmbios, pouco
importando se a divisa está ligada por uma taxa de câmbio fixa a
outra divisa ou se está a flutuar livremente. Portanto todas as
economias não-dólar são forçadas a atrair capital
estrangeiro denominado em dólares mesmo para atender necessidades
internas. Mas economias não-dólar devem acumular dólares
de reserva antes de poderem atrair capital estrangeiro. Mesmo com controle de
capitais, o capital estrangeiro só investirá no sector exportador
onde possam ser ganhos rendimentos em dólar. Mas os dólares que
economias exportadoras acumulam com excedentes comerciais só podem ser
investidos em activos em dólar, privando as economias
não-dólar do capital necessário em sectores internos. A
única protecção contra tais ataques à divisa
interna é suspender a plena convertibilidade, o que manterá o
investimento estrangeiro afastado. Portanto a hegemonia do dólar, a
subjugação de todas as outras divisas internas ao dólar
como a divisa de reserva chave, priva as economias não-dólar do
capital necessário ao privar os seus governos do poder de emitir
crédito soberano para o desenvolvimento interno.
Sob os princípios do chartalismo, o capital estrangeiro não serve
a finalidades internas úteis fora de uma agenda imperialista. A
hegemonia do dólar essencialmente afasta a capacidade de os parceiros
comerciais dos EUA financiarem o seu próprio desenvolvimento interno nas
suas próprias divisas e força-los a procurar empréstimos e
investimentos estrangeiros denominados em dólares, os quais os EUA, e
apenas os EUA, podem imprimir com relativa liberdade.
A tese de Mundell-Fleming, com a qual Robert Mundell ganhou o Prémio
Nobel de 1999, declara que nas finanças internacionais um governo tem de
escolher entre (1) taxas de câmbio estáveis; (2) mobilidade
internacional de capitais e (3) autonomia política interna (pleno
emprego, políticas de taxas de juro, gastos fiscais
contra-cíclicos, etc). Como mercados financeiros globais não
regulados, um governo pode ter apenas duas das três opções.
Por meio da hegemonia do dólar, os Estados Unidos são o
único país que pode desafiar a tese Mundell-Fleming. Durante mais
de uma década desde o fim da Guerra-Fria, os EUA mantiveram os
dólares fiduciários significativamente acima do seu valor
económico real, atraíram excedentes em conta capital e exerceram
autonomia política unilateral dentro de um sistema financeiro
globalizado ditado pela hegemonia do dólar. As razões para isto
são complexas mas a mais importante razão única é
que todas as principais commodities, mais destacadamente o petróleo,
são denominadas em dólar, sobretudo como uma extensão de
geopolítica de superpotência. Este facto é a âncora
para a hegemonia do dólar que torna possível a hegemonia
financeira estado-unidense, a qual torna possível o excepcionalismo e
unilateralismo dos EUA.
Quando a China exporta riqueza real para os EUA por dólares
fiduciários, ela está a receber crédito soberano
estado-unidense em troca de riqueza material na forma de bens. Portanto o
défice comercial dos EUA denominado em dólares é de facto
concessão de empréstimo dos EUA à China através da
compra de bens chineses. A China agora é uma possuidora da moeda
fiduciária dos EUA e como tal está a actuar como uma agente do
estado dos EUA, com a plena confiança e crédito dos EUA por
trás do instrumento de crédito soberano dos EUA (dólar), o
qual é bom para pagar impostos estado-unidenses e é de curso
legal para toda a dívida pública e privada nos EUA. A moeda
fiduciária, tal como um passaporte, habilita o seu possuidor à
protecção do estado ao impingir crédito soberano. É
um certificado de poder financeiro do estado inerente à soberania. Uma
vez que a China não paga impostos estado-unidenses, os dólares
que ela recebe só podem ser utilizados para comprar dívida
soberana dos EUA
(Treasuries)
através da extinção de instrumentos de crédito
soberano dos EUA (dólares). Através desta
transacção, a China muda a sua posição de agente do
crédito soberano dos EUA para a de credor dos EUA. Eis porque a China
deve comprar
Treasuries
com o seu dólar excedente para mudar a sua posição
de um agente dos EUA para a de um credor dos EUA.
O único meio de a China livrar-se deste dilema é exigir que
todas
as exportações chinesas sejam pagas em divisa chinesa.
05/Janeiro/2009
N.T.
[1]
Bens de Giffen:
produtos em que um aumento do preço provoca aumento da sua procura.
Este comportamento difere da maioria dos outros produtos, que são mais
procurados à medida que o seu preço cai. Em termos
microeconómicos, a elasticidade-preço da procura por Bens de
Giffen é positiva e, por conseqüência, sua curva de procura
é crescente. O bens de Giffen devem o seu nome a Sir
Robert Giffen, o qual Alfredo Marshall no seu livro
Principles of Economics.
considerou ser o autor desta ideia.
[2]
Chartalism
: teoria monetária do princípio do século XX que defende a
utilização de dinheiro fiduciário
(fiat money)
ao invés de dinheiro mercadoria
(commodity money).
O seu teórico foi G.F. Knapp.
[3]
M2:
Indicador de oferta monetária. O M1 é basicamente o dinheiro e
quase dinheiro em circulação mais o depositado em contas à
ordem. O M2 é o M1 mais contas a prazo e pequenos instrumentos de
poupança. O M3 é o M2 mais grandes instrumentos de
poupança (inclui os eurodólares no caso dos EUA). Em Março
de 2006 o banco central dos EUA cessou de divulgar as suas estatísticas
do M3.
O original encontra-se em
http://www.henryckliu.com/page215.html
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.