A implosão vindoura:
Os 'demasiado grande para falir' e a teoria dos grandes números
por Henry C.K. Liu
O fracasso potencial de bancos considerados demasiado grandes para falir
(
too big to fail, TBTF
)
apresenta desafios insolúveis aos decisores políticos. A
inaceitabilidade do impacto sistémico de tais fracassos sobre a ordem
financeira, económica e social requer a intervenção do
governo num mercado em crise. Até agora, a resposta oficial à
ameaça dos TBTF tem sido centrada na ilimitada protecção
governamental de credores de grandes bancos em relação às
perdas que eles do contrário enfrentariam com as suas falências.
Mas a expectativa de protecção do credor dos TBTF realmente
encoraja os grandes bancos a assumirem mais risco, empurrando-os portanto para
mais perto do abismo da falência, resultando em significativos custos
líquidos recorrentes para a economia e a sociedade.
A administração Obama e o Congresso estão agora a tentar
tratar a questão fundamental dos TBTF, geralmente reconhecida como um
factor contribuidor chave para o quase colapso do sistema financeiro global em
2008. Contudo, os programas governamentais de salvamento destinados às
grandes instituições financeiras resultaram em que os bancos se
tornaram ainda maiores do que antes da crise. Aparentemente, a
solução da administração para o "demasiado
grande para falir" é fazer bancos ainda maiores.
Consta que o JP Morgan Chase
retém
mais de US$1 de cada US$10
depositados nos EUA. Os quatro maiores super bancos (JP Morgan Chase, Bank of
America, Wells Fargo e Citibank) agora emitem uma de cada duas hipotecas e
cerca de dois de cada três cartões de crédito nos EUA.
Desde a crise financeira, a cada um destes quatro super bancos é
permitido que retenham mais de 10% dos depósitos do país, tendo
sido isentos de uma regra antiga que vedava tal dominação do
mercado. Em várias regiões metropolitanas, a estes novos super
bancos é agora permitido tomarem fatias de mercado para além do
que as orientações antitrust do Departamento de Justiça
permitiam anteriormente. Tal concentração da fatia de mercado
prejudicará os consumidores de duas maneiras. Ela manterá alto o
custo do crédito para os tomadores de empréstimo devido à
falta de competição, mesmo quando os custos dos fundos para os
bancos permanecem artificialmente baixos. Também pressionará as
reservas dos bancos para cima a fim forçá-los a passar o custo
para os tomadores de empréstimos. O sistema bancário americano
é agora de um punhado de grandes companhias globais de trading que
pretendem ser bancos, ganhando enormes lucros com transacções de
alto risco efectuadas com dinheiro proporcionado pelo governo, ao invés
de uma rede de pequenas instituições locais conservadoras a
servirem comunidades do seu domicílio meramente como
intermediárias de dinheiro através de depósitos locais por
taxas nominais.
Sheila C. Bair, presidente do Federal Deposit Insurance Corp, descreveu o
problema dos TBTF
como: "Eles alimentam a crise e tornaram-se piores por causa da
crise".
O sistema financeiro dos EUA está a parecer-se mais como um trust
financeiro de um pequeno número de super bancos a operarem com
deliberado risco moral
(
moral hazard
)
apoiado pelos sempre prontos salvamentos governamentais, ao passo que os
consumidores são cada vez mais confrontados com menos escolhas de
serviços financeiros entre fornecedores competitivos.
Os esforços da administração Obama para introduzir um novo
regime regulatório a fim de impedir crises financeiras recorrentes
disparadas pelas instituições TBTF inclinam-se a impor
padrões de capital mais elevados a estas super
instituições financeiras e a fortalecer o
Federal Reserve
como um
super regulador para tomar o comando de um conjunto mais vasto de firmas
financeiras perturbadas a fim de tornar mais lento o seu negócio de um
modo ordenado e com perdas mínimas para os depositantes. Se bem que
capital adequado seja necessário uma banca saudável, o problema
com o sistema bancário de hoje é que está infestado com
comércio de conveniência
(propriety trading)
de alto risco que é o que as exigências de capital dos bancos
convencionais possivelmente não podem manipular.
O secretário do Tesouro Timothy F. Geithner
declara
que o imperativo de
política pública dominante que motiva a reforma é
"tratar do risco moral criado pelo que nós fizemos, o que tivemos
de fazer na crise para salvar a economia". Mas há pouca
evidência de que o risco moral esteja a ser reduzido ou de que a economia
esteja a ser salva. O que foi salvo foi o segmento de elite da indústria
bancária e financeira a expensas da saúde a longo prazo da
economia, enquanto o risco moral é agora o modo operativo aceite para
super bancos.
Os dados mais recentes do FDIC [Federal Deposit Insurance Corporation] revelam
que os novos super bancos agora podem tomar emprestado de forma mais barata do
que os seus pares mais pequenos porque os credores assumem serem estas grandes
instituições a prova de falhas. Esta tendência
deixará o mercado financeiro dominado por um trust gigantesco de super
bancos entrelaçados.
Desde a crise, ao JP MorganChase, Bank of America, Wells Fargo e Citibank foi
permitido possuírem, cada um, mais de 10% dos depósitos do
país apesar de uma regra muito antiga que vedava essa prática. Em
várias regiões metropolitanas, a estes bancos é agora
permitido tomarem fatias de mercado para além do que as
orientações anti-trust do Departamento da Justiça
permitiam anteriormente.
O plano da Casa Branca, tal como esboçado até agora, permitiria a
estes super bancos, cuja falência colocaria em risco o sistema financeiro
e a economia, que continuassem a existir, mas tornaria muito mais custoso para
eles proporcionarem serviços financeiros ao público. O plano
forçaria tais instituições a manterem mais fundos na
reserva e tornaria mais difícil para eles contraírem
empréstimos demasiado pesadamente contra os seus activos. O plano
exigiria que estes super bancos produzissem os seus próprios
procedimentos para se desenrascarem no caso de uma crise, um plano que
responsáveis da administração dizem poder ser tornado
público previamente, presumivelmente para impor disciplina de mercado
às companhias maiores e mais interconectadas. Uma vez que bancos existem
para fazer lucros, o resultado final é que o custo de serviços
bancários aumentará tanto para os tomadores de empréstimos
corporativos como para o público em geral.
O plano administração simplesmente passa o custo do risco moral
para os consumidores. O que precisa ser feito é dividir estes super
bancos e as firmas de trading que pretendem ser bancos em
instituições regionais separadas por corta-fogos financeiros a
fim de impedir o contágio sistémico, e impor limites estritos ao
hedging circular. Mas a administração e os seus aliados do
Congresso continuam a rejeitar tais propostas.
Mervyn King, governador do Banco da Inglaterra, e Paul A. Volcker, antigo
presidente do Fed, sugeriram separadamente passos impetuosos a fim de
forçar as maiores instituições financeiras do país
a se desfazerem dos seus anexos mais arriscados. King apelou à
ressurreição do
Glass-Steagall
, uma legislação do
New Deal que separava os bancos de investimento dos bancos comerciais.
A solução para o dilema do "demasiado grande para
falir" repousa intuitivamente em impedir as instituições de
se tornarem demasiado grandes. Mas devido à interconexão de
mercados, mesmo falências em grande número de pequenas entidades
podem disparar a falência sistémica. Isto dá a entidades
com perfil de risco semelhante, mas não demasiado grandes
individualmente, a capacidade de provocar falência sistémica.
Na matemática a teoria dos
grandes números
inclui o
fenómeno do crescimento exponencial, o qual verifica-se quando a taxa de
crescimento de uma função matemática é
exponencialmente proporcional ao valor actual da função. Tal
crescimento exponencial é matematicamente insustentável e
acabará por implodir.
O marketing multinível é concebido para criar uma grande
força de marketing ao compensar não só as vendas que gera
como também as vendas de outras forças de marketing que cada
força do mercado introduz na companhia, criando abaixo uma linha
ilimitada de distribuidores e uma hierarquia de múltiplos níveis
de compensação na forma de uma pirâmide, tal como aquela
utilizada pela
Amway Corporation
. A crise nas hipotecas sub-prime é
provocada pelo maciço marketing em rede, ainda que individualmente cada
hipoteca sub-prime seja apenas um pequeno contrato.
Nenhum banco, ainda que grande e bem capitalizado, pode aguentar o ataque
violento de um colapso sistémico devido à exposição
ao risco de terceiros na generalidade do mercado efectuado pelo marketing
multi-nível de passivos tais como as hipotecas subprime e a sua
titularização.
Portanto o problema do fracasso sistémico de mercado é provocado
não simplesmente por unidades de grandeza, mas também pela
ausência de corta-fogos para impedir o crescimento exponencial
insustentável na exposição aos riscos e o resultante
efeito de contágio sistémico de falências em grande
número devidas à reacção encadeada de terceiros.
É difícil entender porque os decisores políticos
não estão a tomar conhecimento deste facto óbvio de modo a
centrarem-se sobre a necessidade de corta-fogos em mercados financeiros
interconectados tanto para impedir a escada da reacção da cadeia
de risco como para conter o contágio do fracasso sistémico.
09/Novembro/2009
O original encontra-se no
Asia Times on Line
de 09/Novembro/2009,
Failure written into 'too big' policy
, no
NewDeal 2.0 Project
do Franklin and Eleanor Institute,
Coming Implosion: Too Big To Fail and the Theory of Large Numbers
, e em
http://www.henryckliu.com/page205.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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