Os melhores livros de 2016
por Michael Roberts
Pensei em recordar, a mim e aos leitores do blog, o que me pareceu serem os
melhores livros sobre teoria económica publicados este ano. Meu
critério foi se o livro acrescentava qualquer ideia nova ou entendimento
novo dos desenvolvimentos do capitalismo moderno ou da teoria económica
marxista. Sim, sei que é aborrecido pois não há piadas ou
historietas nesses livros.
Vamos começar com os livros que examinaram as actividades do capital
financeiro e do imperialismo nas economias principais e globalmente. No seu
excelente novo livro,
Finance Capital Today
, o marxista francês François Chesnais analisou em pormenor os
desenvolvimentos chave na finança moderna e as causas do crash
financeiro em 2008.
Como diz François num
comentário ao meu blog
,
"Hoje não está a ser produzido suficiente valor excedente
para relançar o processo de acumulação e o montante que o
satisfaz para consolidar a acumulação de dividendos e activos com
incidência de juros pelos bancos, fundos e indivíduos
(acumulação financeira) e assim as exigências sobre este
já muito insuficiente montante de valor excedente. Isto levou tanto ao
beco sem saída do regime de taxa de juro a longo prazo a quase zero, o
qual não é simplesmente o resultado da facilidade quantitativa,
como aos infindáveis pequenos choques no sistema financeira global.
Naturalmente, a dívida governamental e as resultantes políticas
de austeridade pró rentistas e pró cíclicas só
agravam esta situação mas elas não a explicam e a sua
reversão não resolveria o problema básico do
capitalismo".
Tony Norfield apresenta
uma revisão realmente abrangente e positiva do livro de Chenais no seu blog
.
E em 2016 Tony publicou a sua própria análise do capitalismo
moderno com
The City: London and the Global Power of Finance
. Norfield traz-nos percepções chave para o entendimento da
natureza dos modernos sistemas financeiros e que papel desempenham no
funcionamento (ou não funcionamento) do capitalismo. Tony define como
imperialismo a situação em que um pequeno número de
países domina os mercados mundiais através das suas
corporações multinacionais, as quais tanto podem estar a fabricar
coisas como proporcionar serviços ou financiamento, ou frequentemente
todos os três. O privilégio financeiro é uma forma de poder
económico, capacitando países imperialistas a explorarem recursos
e valor criado alhures no mundo. A finança e a produção no
capitalismo do século XXI são inseparáveis
"eles são parceiros íntimos na
exploração".
Norfield também revela
o vasto papel do capitalismo britânico no imperialismo
.
A Grã-Bretanha é o segundo, após os EUA, quanto à
importância do seu sector financeiro globalmente e em algumas
áreas como o comércio de divisas externas é o principal. A
Grã-Bretanha é a
maior economia rentista do mundo
. Só por esta razão, a votação no referendo do
Brexit coloca em perigo o futuro de Londres como centro do capital financeiro
global.
Enquanto o livro de Tony Norfield encara o imperialismo moderno a partir do
cimo do capital financeiro, John Smith, no seu
Imperialism in the 21st century
, olha-o do ponto de vista dos milhares de milhões que vivem sob o jugo
do imperialismo no que se costumava chamar o Terceiro Mundo e agora chamado de
economia "emergentes" ou "em desenvolvimento". Houve todo
um debate no meu blog
durante este ano sobre a visão de John de que foi a
"super-exploração" de trabalhadores assalariados no
"Sul" o fundamento do imperialismo moderno. O que ajudou a enfatizar
a importância do livro de John.
O papel da finança como causada da instabilidade no capitalismo moderno
foi o tema de livro fascinante de Jack Rasmus,
Systemic Fragility in the Global Economy
. Rasmus considera que a teoria económica convencional (mainstream)
fracassou completamente em explicar esta fragilidade; ou prever quaisquer
crises como a Grande Recessão; ou explicar a resultante
depressão. Ele sustenta que as teorias heterodoxas de crise na economia
mundial pós 1970s também estão em falta. Os keynesianos
estão em falta porque eles perderam a essência da
perspicácia de Keynes quanto à instabilidade e incerteza
encontradas numa economia dominada monetária e financeiramente.
O seu livro é certamente uma contribuição provocante
para um entendimento da fragilidade do capitalismo moderno.
As várias teorias ou explicações da causa das crises sob o
capitalismo numa perspectiva marxista ou radical foram reunidas numa
colecção de documentos intitulada
The Great Financial Meltdown
, habilmente editada por Turan Subusat.
Turan apresenta uma excelente introdução e resumo das
visões dos principais académicos marxistas.
Isto inclui um debate entre David Harvey e eu próprio sobre a relevância da lei de Marx da lucratividade para as crises
. Turan argumenta que as causas das crise sob o capitalismo e, em particular, o
recente crash financeiro global e a subsequente Grande Recessão, podem
ser considerados de três ângulos: ou há uma causa subjacente
sistémicas das crise (a queda da taxa de lucro ou subconsumo); ou
é conjuntural (cada crise tem uma causa diferente); ou é o
resultado de decisões políticas (ex.: a agenda neoliberal,
desregulamentação financeira, etc)?
O fracasso da teoria económica convencional em ter qualquer papel
útil a desempenhar em tal discussão foi exposto por Ben Fine em
dois volumes, chamados
Microeconomics
e
Macroeconomics: a Critical Companion
. Fine (juntamente com o co-autor Ourania Dimakou) apresenta uma crítica
abrangente de todas as teorias e modelos económicos convencionais. Isto
os faz um antídoto valioso ao veneno convencional da teoria do
marginalismo e do equilíbrio geral; e da Lei de Say com a
negação de crises ou quedas na macroeconomia.
Fine destaca que a teoria macroeconómica comutou de teoria para modelos.
Modelos matemáticos substituem teoria, com modelos a serem testados
ex-post. O que está errado com a modelação convencional
é a falta de realismo nas suposições iniciais. Fine
percorre de cabo a rabo o famoso modelo acelerador-multiplicador keynesiano que
mostra a instabilidade do capitalismo mas não diz o porque. Fine
prossegue na análise da contra-revolução contra o modelo
mais radical de Keynes da instabilidade e de como a corrente convencional
castrou-o num modelo que se move para equilíbrio dadas as
suposições de quedas de preços e salários na
verdade, uma síntese com a teoria neoclássica. Modelos de
crescimento estão divorciados de modelos de flutuação a
curto prazo.
É interessante comparar a crítica de Fine com a de Paul Romer
, um economista convencional, que também se estende ao estado da teoria
macroeconómica no seu paper
The trouble with macroeconomics
. Romer diz que a explicação de crises sob o capitalismo como
sendo apenas o resultado de "choques exógenos" a um processo
inerentemente harmonioso é inútil. Se você se mantém
a acrescentar possíveis "choque imaginários" para
explicar mudanças drásticas numa economia, "mais
variáveis tornam pior o problema da identificação".
Como destaca Romer,
"resolver o problema da identificação significa alimentar
factos com valores verdadeiros que possam ser avaliados, mas a
matemática não pode estabelecer o verdadeiro valor de um facto.
Nunca pôde. Nunca poderá".
Dois grandes livros sobre grandes questões do capitalismo moderno: o
aumento da desigualdade e a queda da produtividade e do crescimento, foram
produzidos por não-marxistas. No seu livro,
Global Inequality
, o antigo economista chefe do Banco Mundial, Branco Milanovic, mostra que a
desigualdade global aumentou desde o início da década de 1980,
quando a "globalização" começou.
O aumento da desigualdade é o resultado do impulso do capital para
reduzir a fatia do trabalho e aumentar lucro e para as recorrentes e
periódicas diminuições
(failures)
da produção capitalista
. O crescimento dos rendimentos tem estado concentrado na China e, em menor
extensão e mais recentemente, na Índia.
O mais controverso livro de teoria económica entre os convencionais em
2016 foi o de Robert J. Gordon,
The rise and fall of American growth
. No seu livro, a acumulação da investigação ao
longo da última década, Gordon conclui que o grande novos
paradigma promotor da produtividade que supostamente está a vir da
revolução digital realmente já está acabado e a
futura explosão dos robots/inteligência artificial não
mudará isso. Ao contrário, ao invés do crescimento
económico e da produtividade,
a economia capitalista mundial está a desacelerar em resultado da diminuição do crescimento populacional e da produtividade
.
Em contraposição a Gordon há uma miríade de
tecno-optimistas e economistas os quais consideram que o mundo está
à beira de uma explosão de produtividade conduzida por robots,
inteligência artificial, genética e um conjunto de novas
"tecnologias disruptivas" disruptivas no sentido de que
empregos e funções tradicionais estão em vias de
desaparecer e de serem substituídas por robots e algoritmos. Os
optimistas argumentam que, desde o tempo de Thomas Malthus, eras de
expectativas deprimidas como a nossa inspiraram previsões de
ruínas que se demonstraram erradas quando as economias subiram poucos
anos mais adiante.
A proporcionar uma visão equilibrada do impacto da tecnologia sob o
capitalismo está um livro curto mas grande,
The Bleeding Edge
, de Bob Hughes.
Hughes graficamente esboça numa série de capítulos
que, se a tecnologia fosse controlada por uma organização
pública e em comum (ou como ele prefere, seguindo Kropotkin, o pensador
anarquista, numa "associação mútua"),
então enormes avanços na inovação poderiam ser
feitos. Ele apresenta uma série de exemplos para a
resolução do aquecimento global, reversão da
destruição do ambiente, redução da
produção esbanjadora e protecção dos recursos
naturais, incluindo flora e fauna.
Finalmente, mas não menos importante, vêm os dois grandes livros
de teoria económica marxista lançados este ano. Anwar Shaikh diz
que não é um marxista e sim um "economista
clássico". No seu magistral
Capitalism: Competitition, Conflict, Crises
, com 1000 páginas, Shaikh explica que a sua "abordagem é
muito diferente tanto da teoria económica ortodoxa como da
tradição heterodoxa dominante". Ele rejeita a abordagem
neoclássica que parte de "Firmas perfeitas, indivíduos
perfeitos, conhecimento perfeito, comportamento egocêntrico perfeito,
expectativas racionais, etc" e então "várias
imperfeições são introduzidas na estória para
justificar padrões individuais observados" embora "não
possa haver uma teoria geral das imperfeições".
Shaikh enfatiza que sob o capitalismo é o lucro que conduz o crescimento e que há flutuações cíclicas na lucratividade
. Estas são expressas nos ciclos de negócios e de capital fixo
inerentes à produção capitalista. As crises são
normais no capitalismo. A história dos sistemas de mercado revela
padrões recorrentes de ascensões e queda ao longo de
séculos, provenientes precisamente do mundo desenvolvido. As crises
chave sob o capitalismo são "depressões", tais como as
da década de 1840, a "Longa Depressão" de 1873-1893, a
"Grande Depressão" da década de 1930, as "Crises
de Estagflação" da década de 1970 e agora a Grande
Crise Global.
Shaikh considera que superficialmente a última crise, a Grande
Recessão, parece uma crise de financiarização excessiva.
Mas isto deixa de identificar a causa real da crise. Keynesianos e pós
keynesianos argumentam que a causa da crise actual é desigualdade e
desemprego, de modo que há uma necessidade de manter uma
proporção estável de salário e de utilizar a
política orçamental e monetária para manter o pleno
emprego. Mas Shaikh argumenta que tais políticas não
funcionariam, pelo menos nos EUA, pois os pós keynesianos erraram as
causas da crise, causa essa que é o movimento na lucratividade o
factor dominante sob o capitalismo.
O livro de Fred Moseley,
Money and Totality
, é uma defesa profunda da teoria do valor de Marx e a sua
relevância para as leis do movimento no capitalismo moderno. Moseley
conduz o leitor perfeita e cuidadosamente através de todas as
interpretações competitivas da teoria do valor e do preço
de Marx e mostra que uma análise marxista apresenta um único
sistema realista do capitalismo. Se interpretarmos uma real macroeconomia
capitalista monetário como um sistema único, então
é perfeitamente possível (com todas as advertências de
problemas de mensuração e de dados) executar análises
empíricas para verificar ou não as leis de Marx do movimento do
capitalismo. Testar teoria e leis com evidências é agora o nome do
jogo.
Fred Moseley permite-nos fazer isso com a confiança de que estamos a testar uma teoria lógica e consistente que é verificável empiricamente
.
Ah, esquecia. Há também o meu livro,
The Long Depression
.
O original encontra-se em
thenextrecession.wordpress.com/2016/12/21/best-books-of-2016/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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