O processo contra Bernanke

por Stephen Roach [*]

Federal Reserve. Barack Obama tomou uma das suas mais importantes decisões pós crise: Ben Bernnke será nomeado para um segundo mandato como presidente do Federal Reserve. Trata-se de uma decisão extremamente míope. Se bem que o chefe do banco central da América mereça crédito por ser criativo e corajoso ao orquestrar um excepcionalmente agressivo programa de facilidade monetária, é importante recordar que as suas acções anteriores à crise desempenharam um papel igualmente crítico no estabelecimento do cenário para a mais lancinante recessão desde a década de 1930. É como se a um médico culpado de negligência fosse dado crédito por inventar uma cura milagrosa. Talvez o paciente precisasse de um novo médico.

O sr. Bernanke fez três erros críticos na sua encarnação pré Lehman: Primeiro, e acima de tudo, ele estava profundamente apegado à convicção filosófica de que bancos centrais devem ser agnósticos quando se trata de bolhas de activos. Sob este aspecto, ele mantém-se com o seu antecessor – o assoprador de bolha em série Alan Greenspan – o qual argumentava que as autoridades monetárias estão melhor posicionadas para arrumar a desordem após o estouro de bolhas de activos ao invés de prevenir o dano. Como um corolário desta abordagem, tanto o sr. Bernanke como o sr. Greenspan extraíram as conclusões erradas das estratégias pós bolha anteriores nesta década postas em prática após o estouro da bolha das acções em 2000. Em retrospectiva, a injecção de excesso de liquidez feita pelo Fed em 2001-2003, a qual foi endossada com fervor pelo sr. Bernanke, desempenhou um papel chave ao estabelecer o cenário para a mistura letal de bolhas de propriedade e de crédito.

Segundo, o sr. Bernanke era o campeão intelectual da defesa da "inundação de poupança global" que isentava os EUA das suas tendência pró bolha e atribuía a culpa aos excessos dos poupadores da Ásia. Se bem que não se possa negar a procura por activos em dólar dos credores estrangeiros, é absurdo culpar os prestamistas além-mar pelo comportamento imprudente de americanos que um banco central estado-unidense deveria ter contido. Os excessos dos poupadores da Ásia nada têm a ver com irresponsável tendência da América para alavancar uma bolha habitacional e utilizar o dinheiro resultante para financiar o consumo. O argumento da inundação de poupança do sr. Bernanke era o núcleo de uma negação profundamente enraizada dos EUA, que não se olhou ao espelho e atribuiu a culpa a outros.

Terceiro, o sr. Bernanke é cortado do mesmo pano libertário que colocou o Fed na desordem. Impregnado com o credo de Greenspan de que os mercados sabem melhor do que os reguladores, o sr. Bernanke alinhou com a mentalidade prevalecente no Fed que abdicava da sua autoridade reguladora na era do excesso. A explosão dos derivativos, a extrema alavancagem dos bancos regulados e dos bancos sombra e os excessos de empréstimos hipotecários foram tudo abusos flagrantes a que tanto o sr. Bernanke como sr. Greenspan poderiam ter dito não. Mas eles não o fizeram. Em consequência, um sistema complexo e instável tornou-se perigosamente fora de controle.

Não obstante estes erros, o sr. Obama pode ser prematuro ao dar ao sr. Bernanke o crédito pela grande cura. Ninguém sabe ao certo se a estratégia do Fed acabará finalmente por ter êxito. O pior da recessão dos EUA parece ter sido interrompido por agora – um razoavelmente típico, mas temporário, resultado do velho ciclo de stocks. Mas a sustentabilidade de qualquer recuperação pós bolha é sempre duvidosa. Basta perguntar ao Japão 20 anos após o estouro das suas bolhas.

Enquanto os mercados financeiros estão exultantes com esperanças de revitalização económica – em parte inspirado pelos aplausos ao sr. Bernanke na reunião anual do Fed em Jackson Hole – ainda há boa razão para acreditar que a recuperação dos EUA será anémica e frágil. Os consumidores estado-unidenses estão nas primeiras etapas de uma retracção plurianual pois têm de cortar dívidas e reconstruir poupanças de reforma. A excepcional amplitude e sincronicidade da recessão global dificultará a procura por exportações dos EUA e que estas se tornem um novo motor do crescimento.

Seria o cúmulo da loucura premiar o sr. Bernanke pela recuperação que nunca conseguiu. Mas o prémio aparente do sr. Bernanke é, infelizmente, típico dos improvisados julgamentos que guiam a tomada de decisão em Washington. Nesta mesma veia, é difícil esquecer o discurso de missão cumprida do sr. Greenspan em 2004 que afirmava "nossa estratégia de corrigir as consequências da bolha ao invés da própria bolha teve pleno êxito". Ansioso por declarar ultrapassada a crise, o julgamento de Obama pode igualmente ser prematuro.

A renomeação de Bernanke é uma oportunidade bem vida para um debate mais vasto acerca da conduta e do papel da política monetária dos EUA. O sr. Obama propostas ambiciosas que dão ao Fed vastos poderes novos na administração de riscos sistémicos. Argumentei no Financial Times, 10 meses atrás, que não deveriam ser concedidos estes poderes ao Fed sem maior responsabilização como o exigido por um "mandato de estabilidade financeira" – forçando com efeito o Fed a modelar a política monetária rumo ao objectivo de esvaziar bolhas de activos e desequilíbrios. Sem um mandato político renovado, é concebível que possamos enfrentar outra crise desestabilizadora.

Finalmente, estas decisões reduzem-se à pessoa – neste caso, o sr. Bernanke – que está a ser encarregado da terrível responsabilidade como decisor económico chefe da América. Como estudante da Grande Depressão, ele deveria ter sabido [actuar] melhor. Sim, ele reagiu fortemente após o facto ao tomar acções para evitar as armadilhas realçadas pela sua própria investigação. Mas faltou-lhe a antevisão e coragem para resistir à maior parte das tendências temerárias da era do excesso. O mundo precisa de banqueiros centrais que evitem problemas, não aqueles que se especializam e controle de danos pós crise. Por esta razão, só, ele não deveria ser renomeado. Deixem o debate começar.

[*] Presidente do Morgan Stanley Asia e autor de The Next Asia

O original encontra-se no Financial Times, 25/Agosto/2009.


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02/Set/09