por Paul Craig Roberts
[*]
Se bem que, como era de prever, na noite passada o Senado dos EUA tenha
capitulado às exigências de Wall Street, pela primeira na
memória recente a Câmara dos Representantes ouviu o povo americano
e bloqueou o salvamento dos compadres ricos de Paulson às custas dos
contribuintes estado-unidenses. A mesma Câmara que recusa a
exigência pública de que o regime Bush seja responsabilizado e as
suas guerras gratuitas travadas, recusou transferir US$700 mil milhões a
instituições financeiras cuja irresponsabilidade provocou a pior
crise económica dos EUA desde a Grande Depressão.
Devemos estar gratos por este sinal de que a democracia americana não
está completamente morta e suplantada pela autoridade do ramo executivo.
Contudo, o pacote de salvamento, seja qual for aquele que emerja,
fracassará a menos que leve em conta o seguinte.
Qualquer pacote que mantenha a regra da marcação a mercado
(mark-to-market)
e permita a retomada da venda a descoberto
(short-selling)
minar-se-á a si próprio. Em condições de
pânico sem a existência de um mercado, a regra da
marcação a mercado resulta em preços de activos
levados abaixo dos seus valores, erodindo portanto balanços e
produzindo insolvências. A venda a descoberto que os vendedores lucrem
pela destruição dos preços das acções de
instituições que sofrem problemas de balanço, eliminando
portanto sua capacidade de tomar empréstimo e afastarem-se da
falência.
Um salvamento, ainda que grande, se mantiver a regra da marcação
a mercado e permitir a venda a descoberto estará a despejar dinheiro num
buraco negro.
Um salvamento que seja tratado como um mero acréscimo ao já
maciço endividamento do governo dos EUA desconcertará credores
estrangeiros. Há um limite para o montante de divida pela qual o
Tesouro pode assumir responsabilidade sem minar a sua própria
classificação de crédito. O salvamento, especialmente se
os US$700 mil milhões demonstrarem-se insuficientes e for
necessário mais, pode danificar a posição de
crédito do Tesouro.
Neste caso, credores estrangeiros podem não fornecer os fundos
necessários para o salvamento ou proporcioná-los só a
taxas de juro mais elevadas, as quais minariam elas próprias o
êxito do salvamento.
Segundo um relato de 29 de Setembro no
Washington Post:
"Vinte das maiores instituições financeiras do mundo
possuíam um total somado de US$2,3 milhões de milhões em
hipotecas a 30 de Junho. Elas possuem mais US$1,2 milhão de
milhões de títulos apoiados por hipotecas. E elas informaram
vender outros US$1,2 milhão de milhões de investimentos
relacionados com hipotecas sobre os quais retinham centenas de milhares de
milhões de dólares em passivo potencial, de acordo com
declarações feitas por companhias a agências
regulatórias. Os números não incluem investimentos
que são derivados de hipotecas através de meios mais complicados,
tais como
as obrigações colaterizadas de dívida".
Deixando de lado as obrigações colaterizadas de dívida,
somando os três instrumentos relacionados com hipotecas das 20
instituições financeiras chega-se a US$4,7 milhões de
milhões dos quais US$700 mil milhões constituem 15 por cento. Se
apenas mais de 15% destes instrumentos perturbados forem maus,
o salvamento exigiria mais dinheiro. Até que ponto credores
estrangeiros veriam um buraco sem fim?
Se credores estrangeiros forem financiar o salvamento, este deve ser
crível. O melhor meio de alcançar credibilidade é
combinar o salvamento com uma redução nas outras formas de os EUA
tomarem empréstimos estrangeiros, especificamente o défice
orçamental do governo dos EUA e o défice comercial dos EUA.
Com base na concepção de não permitir recessão e,
talvez, no montante total do custo das guerras, o défice
orçamental dos EUA estima-se que seja de pelo menos US$400 mil
milhões. Considerando a urgência do salvamento, os US$700 mil
milhões também seriam quase o fim da tomada de
empréstimos. Isto significa um mínimo de US$1,1 milhão de
milhões e novas tomadas de empréstimos pelos EUA no decorrer
deste ano, uma soma que poderia levar os credores estrangeiros a vacilar.
O salvamento ganharia credibilidade se os défices orçamental e
comercial fossem corrigidos como parte do pacote. O governo dos EUA precisa
escolher entre o seu sistema financeira e as suas guerras. Como as guerras
não servem os interesses dos EUA, excepto para aqueles de uns poucos
poderosos grupos de interesses, o governo deveria declarar um fim imediato
às guerras, reduzindo portanto o défice orçamental em pelo
menos US$200 mil milhões por ano.
O governo deveria então voltar-se para o orçamento militar, que a
cerca de US$700 mil milhões é maior do que os gastos militares
somados do resto do mundo somado. A única justificação
para tão enorme montante de gastos militares é uma
política de hegemonia mundial dos EUA, uma política que o colapso
financeiro torna sem sentido. O orçamento da defesa precisa ser cortado
suficientemente para equilibrar o orçamento dos EUA ou, melhor ainda,
chegar a um excedente de US$100 mil milhões.
Tal acção demonstraria aos credores estrangeiros uma abordagem
responsável à crise económica. Ao invés de mais do
que duplicar os pedidos de novo crédito junto aos credores estrangeiros,
o governo dos EUA podia manter constante o nível actual de tomada de
empréstimos com a eliminação do défice
orçamental. Isto assinalaria uma nova seriedade junto a prestamistas
estrangeiros.
O défice comercial também deve ser corrigido. Os EUA
estão dependentes da vontade de estrangeiros para financiar o seu
consumo anual de US$800 mil milhões a mais do que produzem. Estes
fluxos de financiamento em curso de credores estrangeiros com activos em
dólar em tão grandes quantidades levantam questões acerca
do valor do US dólar.
A produção externalizada de bens e serviços para mercados
nos EUA aumentou significativamente o défice comercial pois este bens e
serviços contam como importações quando as
corporações estado-unidenses trazem-nos para o país a fim
de serem comercializados. A actividade deslocalizada deve ser restringida com
impostos, quotas ou tarifas. Seria difícil impor tarifas ou quotas
sobre bens fabricados por empresas dos nossos credores estrangeiros. Mas
firmas dos EUA que estão a produção offshore para mercados
dos EUA poderiam ser restringidas. Finalmente, terão de ser dados
passos para trazer o défice comercial dos EUA a um equilíbrio,
mas isto poderia espera o fim da crise financeira.
Ao longo dos últimos 20 ano os EUA cometeram um conjunto de erros
sérios que podem demonstrar-se fatais. Com o colapso da União
Soviética, o governo lançou uma política de hegemonia
mundial para a qual faltavam-lhe meios. O governo dos EUA permitiu que grande
parte das sua base manufactureira fosse localizada offshore ao ponto de estar
dependente de importações até mesmo para a sua capacidade
militar. O governo desregulamentou o sector financeiro e permitiu a
ascensão de novos instrumentos financeiros altamente alavancados cujos
fracassos actualmente ameaçam os EUA com o colapso económico.
O economista Herman E. Daly, da Universidade de Maryland, destaca que a crise
actual é realmente do "super-crescimento de activos financeiros em
relação ao crescimento de riqueza real". Daly acredita que
os "activos financeiros cresceram num grande múltiplo da economia
real" e que "a troca de papel por papel agora é 20 vezes maior
do que a troca de papel por mercadorias reais". A explosão do
ónus da dívida simplesmente ultrapassou a riqueza.
O problema, por outras palavras, não pode ser salvo. Historicamente,
as dívidas que não puderam ser resgatadas foram anuladas pela
inflação. A mesma inflação que destrói
dívidas destruirá poupanças.
Um salvamento fracassado é o pior resultado possível. A
possibilidade de fracassos aumenta se o governo estado-unidense tentar
transformar dívida privada podre em dívida pública boa sem
considerar a expansão da dívida pública.
02/Outubro/2008
[*]
Ex-secretário assistente do Tesouro na administração
Reagan. Foi Editor Associado da página editorial do
Wall Street Journal
e Editor Colaborador da
National Review.
É co-autor de
The Tyranny of Good Intentions
. Email:
PaulCraigRoberts@yahoo.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/roberts10022008.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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