por Mike Whitney
Taxas de juro. O Fed (Reserva Federal) não precisa de mulheres sedutoras
com grandes decotes para traficar dinheiro. Tudo o que precisa são taxas
de juro baixas. Quando faz as taxas descerem para valores mais baixos do que a
inflação, o Fed proporciona um subsídio aos
empréstimos tomados. Não é assim tão difícil
de entender. Se me predispusesse a dar-te 1 dólar por cada 90
cêntimos que me desses de volta, comprarias todos os dólares que
pudesses. O Fed opera da mesma forma. Produz actividade de mercado criando
incentivos à tomada de empréstimos. Os empréstimos
conduzem à especulação e esta conduz à subida
constante do valor dos activos. São estas as regras do jogo. O Fed
não é um observador imparcial da actividade do mercado livre.
Conduz o mercado, estimula a especulação e controla o seu
comportamento pela fixação das taxas de juro.
Quando o Lehman Bros se afundou no ano passado, os mercados entraram e queda
livre. Uma correcção imediata transformou-se num verdadeiro
pânico. A bolha estourou e milhões de mihões
(trillions)
de dólares em crédito desapareceram num ápice. De um dia
para o outro, cessaram as transacções de títulos de
dívida exóticos. Seguiu-se uma liquidação à
escala global. Os mercados desabaram. Por uns instantes, parecia que todo o
sistema poderia desabar.
A intervenção de emergência do Fed impediu o sistema de
sucumbir, mas a economia ainda está arruinada pela
deflação. Milhares de milhões de resíduos
tóxicos agora entopem o balanço da Reserva Federal. O
dólar caiu como um pedregulho.
Quando o sistema financeiro explode e o crédito é engolido pelo
buraco do capital abaixo, a economia entra numa espiral descendente. O
comércio reduz drasticamente os stocks e despede trabalhadores que, por
sua vez, têm de reduzir os seus gastos e o crédito. Isto origina
menos procura de produtos, que leva a mais despedimentos. É este o
círculo vicioso que os decisores políticos tentam evitar.
É por isso que o presidente do Fed, Ben Bernanke, fez uso da artilharia
pesada e lançou a mais agressiva intervenção da
história do banco central.
O Fed deixou as taxas de juro caírem a zero, mas o seu programa de
Facilidade Quantitativa
(Quantitative Easing),
que monetizou a dívida, na verdade fez descer as taxas para valores
ainda mais baixos aproximadamente para o 2 por cento negativos.
Bernanke comprometeu-se com todos os sectores do sistema financeiro
através de garantias governamentais. Providenciou empréstimos no
valor pleno para colaterais duvidosos que apenas valiam uma
fracção do seu valor original. O mercado já não
consegue funcionar sem o Fed. Aliás, o Fed
É
o mercado, razão pela qual é um disparate falar acerca de
"recuperação". A ideia de recuperação
implica um sistema auto-sustentado baseado na oferta e na procura. Mas, por
enquanto, o governo providencia a procura, o que indica que não
há mercado nem recuperação. Analistas do Goldman Sachs
resumiram a situação desta forma:
"Quanto da retomada doi PIB real foi resultado do estímulo fiscal
e, até à data, onde nos encontramos em termos dos efeitos dos
estímulos? Embora nesta conjuntura seja impossível dar respostas
precisas, vários aspectos do relatório são consistentes
com as nossas estimativas de que o pacote fiscal decretado em meados de
Fevereiro, a chamada Lei para a Recuperação e Reinvestimento
Americano
(American Recovery and Reinvestment Act),
teria representado praticamente todo o crescimento do terceiro
trimestre". (http://www.zerohedge.com/article/hedging-their-bets)
O crescimento positivo é uma ilusão criada pelos gastos do
governo. A economia continua estatelada no chão. Os gastos dos
consumidores e o crédito estão em quebra acentuada. O desemprego
aumenta gradualmente (apesar de crescer a um ritmo mais lento) e os
salários estão sem sinais vitais
(flatlining),
com a agravante de poderem cair pela primeira vez em 30 anos. As
pressões deflacionárias estão em andamento. Os rumores de
uma "recuperação sem emprego" são
intencionalmente enganadores. Os empregos
SÃO
a recuperação e, por isso, uma recuperação sem
postos de trabalho indica meramente uma inflação de activos
causada por uma política monetária errática. As bolsas de
valores em recuperação não deveriam ser confundidas com
uma recuperação genuína.
A Reserva Federal enfrenta fortes ventos adversos. As taxas de juro baixas
poderão ter consequências inesperadas. O baixo custo do
dólar tornou-o a divisa preferencial do
carry trade
[1]
. Os investidores tomam dólares emprestados a baixo custo e usam-nos
para comprar activos a juros mais elevados noutras paragens. O processo, que
sobe em flecha, está repleto de perigos, como alerta o economista
Nouriel Roubini num artigo do
Financial Times:
"Desde Março tem havido uma corrida maciça a todo o tipo de
activos de risco
e uma corrida ainda maior em certas classes de activos
de mercados emergentes (as suas acções, títulos de
dívidas e divisas). Simultaneamente, o dólar desvalorizou
acentuadamente, enquanto o rendimento dos títulos de dívida do
governo aumentou ligeiramente, embora continuassem em baixa e
estáveis
Mas enquanto a economia dos EUA e a economia global encetaram uma
recuperação modesta, os preços dos activos subiram em
flecha desde Março numa corrida grande e sincronizada.
O valor
dos activos de risco subiu demasiado, demasiado cedo e demasiado rápido,
comparado com os fundamentos macroeconómicos.
Então o que está por detrás desta reanimação
maciça? Certamente ela tem sido ajudada por uma onda de liquidez devido
às taxas de juro próximas do zero e à facilidade
quantitativa. Mas um factor ainda mais importante que alimenta esta bolha de
activos é a fraqueza do dólar norte-americano, conduzido pela
mãe de todos os
carry trades.
O dólar norte-americano tornou-se a principal divisa dos
carry trades,
pois o Fed tem mantido as taxas de juro em suspenso e acredita-se que
continuará a fazê-lo por longo tempo. Os investidores que se
têm aproveitado do dólar norte-americano para comprar numa base
altamente alavancada activos de rendimento mais alto e outros activos globais
não estão apenas a tomar emprestado a taxas de juro de 0% em
termos de dólar; eles estão a tomar emprestado a taxas de juros
muito negativas...
Qualquer investidor que entre neste jogo arriscado parece um génio
mesmo que apenas vá à boleia de uma imensa bolha
financiada por um grande custo negativo de tomar emprestado
Esta política alimenta simultaneamente a bolha de activos global e
uma nova bolha dos activos nos EUA
A temerária política norte-americana que está a alimentar
estes
carry trades
está a obrigar outros países a seguirem a sua política de
facilidade monetária.
Isto está a manter as taxas de juro
a curto prazo mais baixas do que seria desejável.
Assim, a bolha
perfeitamente correlacionada através de todas as classes de activos
globais torna-se maior a cada dia que passa.
Mas um dia, esta bolha irá rebentar, dando origem à maior queda
coordenada de activos: caso as condicionantes conduzirem o dólar a
reverter o seu curso e valorizar-se subitamente
, o
carry trade
alavancado terá de fechar repentinamente, pois os investidores
cobrirão a sua exposição
short
em dólares. Seguir-se-á um pânico, à medida que o
encerramento de posições em activos de risco muito alavancados em
todas as classes de activos financiados pelo dólar provocar um colapso
coordenado de todos esses activos de risco acções,
commodities,
classes de activos de mercados emergentes e instrumentos de
crédito". ("The Mother of all Carry Trades Faces an Inevitable
Bust", Nouriel Roubini,
Financial Times)
Qualquer pessoa atenta ao mercado percebeu a correlação inversa
entre as acções e o dólar. Quando o dólar esmorece,
as acções disparam. Quando o dólar ganha força, as
acções descem a pique. Finalmente, o dólar irá
reverter o seu curso e encetar uma recuperação, provavelmente
quando Bernanke parar o seu trabalho tipográfico. Isso disparará
a próxima correcção grave a qual fará explodir
bolhas por todas as classes de activos.
O êxito de Bernanke em reflacionar preços de activos a afundarem
dependeu inteiramente da manipulação das taxas de juro e das
injecções de liquidez. Não houve esforço para
reparar o balanço das famílias, aumentar a produção
ou reforçar a procura global. É um truque astuto de um mestre
ilusionista, mas tem os seus custos. Quando o dólar reanimar, os
mercados entrarão em crash. E Bernanke será o responsável.
[1] Carry trade: Operação financeira que consiste em tomar
dinheiro num país com taxa de juros baixa e aplicá-lo em outro
país onde as taxas de juros sejam superiores.
O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=15919
.
Tradução de EC.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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