por Mike Whitney
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"Explicámos antes a diferença entre uma recessão e
uma recessão. Mas vamos fazê-lo outra vez. Uma recessão
é uma pausa numa economia em outros aspectos saudável e em
crescimento. Uma depressão é quando a economia cai morta".
Bill Bonner, The Daily Reckoning
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Há notícias boas e notícias más. A boa
notícia é que a equipe económica de Obama entende o
problema fundamental com os bancos e sabe o que é preciso fazer para
consertá-los. A má notícia é que Bernanke, Summers
e Geithner têm todos laços estreitos com os grandes bancos e
recusam-se a fazer o que é necessário. Ao invés disso,
eles mantêm-se a apoiar instituições fracassadas com
injecções de capital enquanto cozinham elaboradas
estratégias para comprar os activos podres dos bancos através de
transacções pela porta dos fundos. É tudo muito opaco,
apesar dos divertidos nomes de relações públicas que eles
colam aos seus vários planos de "resgate". Esta charada
prossegue há mais de um mês enquanto o desemprego continua a
aumentar, o mercado de acções continua a mergulhar e o
país desliza cada vez mais fundo para dentro da areia movediça
económica.
Paul Krugman resumiu a resposta da administração na sua coluna de
sexta-feira, "A grande hesitação":
"Há um crescente sentimento de frustração, mesmo de
pânico, acerca do fracasso do sr. Obama em fazer as suas palavras
corresponderem aos seus feitos. A realidade é que quando vem tratar com
os bancos a administração Obama é hesitante. A
política está encravada no padrão vigente...
Por que responsáveis continuam a apresentar planos que ninguém
considera críveis? Porque de certo modo responsáveis de topo na
administração Obama e no Federal Reserve convenceram-se que
activos perturbados ... estão realmente a valer muito mais do que
alguém está disposto a pagar por eles e que se estes
activos fossem adequadamente apreçados todas as
perturbações se desvaneceriam. ...
Além disso, responsáveis parecem acreditar que obter
resíduos tóxicos a preços adequados curaria os males de
todas as nossas grandes instituições financeiras. (Paul Krugman,
The Big Dither,
New York Times
)
Krugman está certo acerca da "hesitação" mas
errado acerca dos resíduos tóxicos. Geithner e Bernanke sabem
exactamente o que valem estes activos apenas centavos de dólar.
Eis porque Geithner evitou tomar US$5 ou US$10 mil milhões destes
mortgage-backed securities (MBS) e colocá-los em leilão
público. Isso seria a coisa razoável a fazer e removeria qualquer
dúvida acerca do seu verdadeiro valor. Mas o secretário do
Tesouro não quer fazer isso exactamente porque chamaria
atenção par o facto de o sistema bancário estar
insolvente; os cofres estão cheios de nada excepto empréstimos
lixo que estão a ser incumpridos a um ritmo recorde. Ao invés
disso, Geithner cozinhou um plano para uma "parceira
público-privada" a qual proporcionará mais US$1
milhão de milhões
(trillion)
em financiamento para
private equity
[1]
e
hedge funds
comprarem activos tóxicos dos bancos. O Tesouro oferecerá
empréstimos a juros baixos que podem ser transformados em
doação
(non recourse loans)
(com garantias explícitas do governo contra qualquer perda potencial) a
investidores qualificados. Se as firmas de hedge funds ou de private equity
não fizerem um lucro em três anos, elas simplesmente devolvem os
activos ao Tesouro e obtêm o seu dinheiro de volta. No essencial, o plano
de Geithner proporciona um generoso subsídio à indústria
privada sobre um investimento totalmente livre de risco. É um
negócio de amor.
Ao mesmo tempo, o plano alcança os dois principais objectivos de
Geithner; dá aos bancos a oportunidade de depurar os seus
balanços de hipotecas lixo e permite-lhes também manter a actual
estrutura de administração no lugar. A dádiva dos
contribuintes de US$1 milhão de milhões aos hedge funds é
apenas mais um osso sumarento atirado aos clientes reais de Geithner os
especuladores da Wall Street.
Infelizmente, os mercados não gostam da incerteza, razão pela
qual o plano tortuoso de Geithner colocou os
traders
num furor. A Wall Street passou do coçar a cabeça em
perplexidade a uma disparada em busca de saídas. Só no mês
passado, o mercado de acções mergulhou uns colossais 18 por
cento, indicando declínio de confiança na liderança
política. Geithner agora é visto como mais um esplêndido
lobbysta da banca, tal como o seu antecessor, Paulson. A sua falta de clareza
apenas aumentou o senso generalizado de mal-estar. Os mercados exigem
transparência e pormenores, não ofuscação,
tagarelice e fala-barato. Eis como o blog Baseline Scenario, de Simon Johnson,
resumiu:
"A confusão ajuda o poderoso... Quando há complicados
esquemas de salvamento governamental, taxas de câmbio múltiplas ou
alta inflação, é muito difícil manter o
acompanhamento dos preços dos mercado e proteger o valor de firmas. O
resultado, se levado a um extremo, é saqueio: o colapso de bancos,
firmas industriais e outras entidades porque os iniciados apanham o dinheiro
(ou outros valores) e fogem.
Esta é a perspectiva agora enfrentada pelos Estados Unidos.
O Tesouro tornou claro que prosseguirá uma estratégia
"mistura-e-selecção", como anunciado... O rumo da
política está estabelecido. Durante pelo menos os próximos
18 meses, sabemos o que esperar na frente bancária. Agora o Tesouro
está comprometido, a liderança nesta área não
desviará de uma política pró iniciados para grandes
bancos; eles não estão interessados em abordagens alternativas
(eu perguntei). O resultado será nova destruição do
sistema de crédito privado e mais recursos para acções
relativamente não transparentes por parte do Federal Reserve, com todos
os riscos implícitos.
A estrada para o inferno económico é pavimentada com boas
intenções de maus bancos". (Simon Johnson Baseline Scenario)
Isto é uma crítica inabitualmente dura por parte de um antigo
economista chefe do FMI, mas a análise de Johnson é directa.
Geithner está a colocar os interesses dos bancos antes daqueles do
país. A "parceria público-privada" é apenas um
caminho intricado para evitar o penoso encargo de dobrar os bancos, destruir
accionistas, separar os maus activos e substituir administrações.
O mesmo também é verdade para o Term Asset-Backed Securities Loan
Facility (TALF) de Bernanke, o qual é outra fútil tentativa para
recomeçar o fracassado mecanismo de geração de
crédito da Wall Street, a titularização. Foi a
titularização (a qual é a conversão de lagos de
hipotecas em títulos) que nos levou a esta confusão. Não
faz qualquer bem restaurar um sistema que é inerentemente inclinado
à crise e que só funciona adequadamente quando o mercado
está em alta. Há meios mais eficientes do que o PPP para
recapitalizar os bancos, assim como melhores meios para promover os gastos do
consumidor do que o TALF. O Tesouro deveria estar a olhar para o alívio
da dívida, programas de trabalho e salários mais altos, ao
invés de mover-se cegamente para o mesmo ponto morto. Há
soluções que não envolvem taxas de juro artificialmente
baixas, subsídios do governo por resíduos tóxicos ou
pródigas doações a hedge funds. Eles simplesmente exigem
um compromisso de reconstruir a economia sobre os princípios sãos
do trabalho árduo, da produtividade e da razoável
distribuição dos lucros.
Mesmo torcedores da indústria, como o
Wall Street Journal,
estão cépticos quanto ao TALF de Bernanke e denunciaram-no como
apenas mais uma outra sucata.
Wall Street Journal: "Se você perdeu o primeiro boom dos hedge
funds, agora pode ser o momento para aproveitar. Examinando os termos do novo
Term Asset-Backed Securities Loan Facility do Federal Reserve, os investidores
que o utilizarem deveriam poder gerar retornos substanciais com pouco risco. O
TALF efectivamente transforma o Fed num generoso corrector
primário".
Quem precisa de um mercado livre quando a Comissão Política de
Obama está mais do que desejosa de apoiar a indústria privada com
centenas de milhares de milhões de dólares do fisco?
Há uma outra parte do plano de Geithner que é ainda mais
perturbadora, que é, depois de os bancos venderem os seus activos
dúbios aos hedge funds, o que farão com o dinheiro? Os
consumidores estão a retrair-se, de modo que o conjunto dos clientes
confiáveis permanecerá pequeno. E os negócios estão
a tentar descarregar stocks existentes, de modo que não desejarão
tomar emprestado para aumentar o investimento ou reequipar-se em qualquer
momento próximo. Se as oportunidades para emprestar secarem, os bancos
serão forçados a procurar meios não convencionais para
gerar lucros. Minha suposição é que os bancos
colocarão uma grande porção dos seu dinheiro nos hedge
funds para especulação com
commodities,
as quais lançarão o preço do petróleo, do
gás natural e de outras matérias-primas para a estratosfera tal
como o fizeram no ano passado quando o petróleo atingiu os US$147 por
barril. Os bancos realmente não têm opção; 65 por
cento do seu negócio eram investimentos titularizados. Aquela porta foi
encerrada para sempre.
"DEMASIADO GRANDE PARA FALIR"?
O editor económico do
Financial Times,
Martin Wolf, advertiu na coluna de sexta-feira quanto aos perigos do nosso
rumo actual. Disse ele:
"Se grandes instituições são demasiado grandes e
interconectadas para falir... então a conversa de mantê-las como
operações "comerciais"... é uma brincadeira
doentia. Tais bancos não são operações comerciais;
eles são departamentos dispendiosos do Estado e devem ser tratados como
tais.
O Reino Unidos tem de tomar uma decisão. Se ele acredita que custosos
salvamentos devem ser acumulados sobre ainda mais custosos salvamentos,
então o sistema bancário nunca mais pode ser tratado outra vez
como actividade comercial: é um serviço público regulado
fim de história. Se o governo quer que seja uma actividade
comercial, então os incumprimentos são necessários, como
alguns agora argumentam. Faça a sua escolha. Mas não acredite que
possa ter ambos". (Martin Wolf, Big risks for the insurer of last resort,
Financial Times
)
O Citigroup agora é oficialmente um "departamento do Estado"
embora ao seu presidente e o seu desprezível bando de piratas ainda seja
permitido receber os seus cheques de pagamento e conversarem junto à
máquina de café do banco. A sobrevivência do Citi depende
da generosidade relutante do contribuinte estado-unidense, o qual é
agora o seu maior accionista. O mega-banco desmoronou de US$58 por
acção para US$1 por acção em menos de dois anos.
Agora é mais caro comprar um
grande latte
no Starbrucks do que comprar três acções do Citi ... e,
pelo menos com o Starbrucks, o comprador obtém um ganho. Não
há volta a dar no caso do Citi. Ele está morto. A questão
real é: quanto tempo Geithner deixará esta piada continuar antes
de efectuar a sua tarefa?
Wolf está correcto ao chamar a atenção para o mito do
"demasiado grande para falir". De facto, o presidente do Kansas
Federal Reserve, Thomas Hoenig, salientou o mesmo ponto num comunicado
divulgado esta semana:
"Fomos lentos a enfrentar os problemas fundamentais no nosso sistema
financeiro e relutantes e tomar acção decisiva em
relação a instituições fracassadas. Fomos
rápidos a proporcionar liquidez e capital público, mas não
definimos um plano consistente e não tratámos as falhas
básicas e, em alguns casos, da posição insolvente destas
instituições.
Compreensivelmente preferiríamos não "nacionalizar"
estes negócios, mas ao reagir como fizemos estamos no entanto a resvalar
para uma situação em que as instituições
estão a ser nacionalizadas aos bocados sem resolução da
crise". (Too Big has Failed, thanks to Calculated Risk)
Hoenig e Wolf são suficientemente inteligentes para saberem que o
problema não é tão simples como parece. Eles sabem que as
maiores instituições financeiras estão atadas em conjunto
numa rede complexa de contratos e contrapartidas principalmente credit
default swaps (CDS) as quais vão às dezenas de
milhões de milhões de dólares e que se a um jogador for
permitido incumprir, isto podia empurrar todos os outros pelo poço do
elevador abaixo. O problema poderia ser resolvido com regulação
adequada que forçaria todos os CDS a uma troca regulada de modo a que
fiscais do governo pudessem certificar-se de que eles estão
suficientemente capitalizados para liquidar quaisquer reclamações
que fossem contra eles levantadas. Mas, até agora, ninguém no
Congresso tomou a iniciativa de propor a regulação
necessária. Portanto, o contribuinte continua a liquidar centenas de
milhares de milhões de dólares de reclamações de
seguros contra a AIG, a qual foi tão grosseiramente subestimada que ela
não podia cumprir as suas próprias obrigações. O
fiasco da AIG abriu uma janela quanto à motivação real por
trás da engenharia financeira e da sopa de letras dos complexos
instrumentos de dívidas (CDOs, MBS, CDS). A Wall Street sabia que afinal
das contas o caminho mais rápido para engordar era contornar
exigências de capital mínimo e expandir a alavancagem para
níveis insustentáveis. Por outras palavras, um sistema de
capitalismo alimentado pela dívida com apenas partículas de
capital. Isto funcionou lindamente, até que deixou de funcionar.
Myron Scholes, economista ganhador do Prémio Nobel, que ajudou a
inventar um modelo para opções de preço, acrescentou a sua
voz ao coro crescente de irados reformadores a pensarem que o mercado CDS
deveria ser sucateado todo junto. Segundo o noticiário da Bloomberg,
Scholes disse que "os reguladores precisam "explodir ou queimar"
os derivativos nos mercados de venda livre para ajudar a resolver a crise
financeira. Os mercados cessaram de funcionar e estão faltos de sinais
de preço... A "solução é realmente explodir ou
queimar no mercado de balcão os CDSs e swaps e produtos estruturados e
deixar-nos começar outra vez". (Bloomberg)
O Tesouro e o Fed adoptaram a posição de que não
consertarão o sistema até serem a isso forçados a ponta de
pistola. Isto é uma receita para o desastre, não só por
causa da crescente frustração pública ou da queda livre
dos mercados de acções como porque os bancos são apenas a
ponta do iceberg. As outras instituições financeiras não
bancárias estão cheias até à borda com lodo apoiado
por hipoteca que também exigirá tratamento de emergência. O
MarketWatch dá-nos um relance da grandeza do problema no artigo da
semana passada "Banks fall out of bed, Citi shares under a buck":
"A última investigação do estratega do Market, Ed
Yardeni, mostra que 80,6%, ou US$7,4 milhões de milhões, dos
activos mantidos pelas companhias financeiras Standard&Poor's eram Nível
2", diz ele num relatório da investigação. Os activos
Nível 2 são chamados marcas do modelo, as quais são
transmitidas num valor com base em suposições, não
verdadeiros preços de mercado".
O que significa "activos Nível 2"? Significa que os gigantes
financeiros estão com poucos activos líquidos como
dinheiro ou US Treasurys e carregados com toscos papeis apoiados por
hipotecas aos quais eles arbitrariamente assinalaram um valor que
ninguém em sã consciência alguma vez pagaria. Todo o
sistema financeiro dos EUA, incluindo os fundos de pensão e companhias
de seguros, é uma enorme bomba relógio de dívidas
intumescidas que está prestes a explodir a qualquer minuto.
Surpreendentemente, Bernanke pensa que pode simplesmente agitar a sua varinha e
recomeçar os moribundos mercados de crédito. É isto que o
TALF pretende fazer. O problema é que mesmo que o Fed compre todos os
títulos AAA possuídos pelas respectivas
instituições financeiras (a maior parte delas não
bancárias) isso ainda representa apenas 20 por cento das dívidas
podres nas contabilidades. Eis o que disse Tyler Durden no sítio web
Zero Hedge:
"Infelizmente para Geithner, o qual aparentemente não lê
demasiado profundamente os dados, o grosso do declínio de US$1
milhão de milhões em titularizações vem de
empréstimos para casa própria e não de agências RMBS
(Residential Mortgage Backed Securities), as quais reflectem o mercado
hipotecário "defeituoso", isto é, o subprime, alt-A e
com origem jumbo, empréstimos que são a causa da crise de
crédito e que são classificados muito abaixo do relevante
nível AAA. O mercado realmente não cumpridor que o Tesouro
está a tratar é na melhor das hipóteses 20% do montante
revisto total" (Tyler Durden, Could TALF be the biggest disappointment
yet?, Zero Hedge)
Isto deixa Geithner e Bernanke com poucas boas opções. Eles tanto
podem expandir o TALF para incluir os sórdidos títulos
classificados como AA (e mais baixos) colocando o contribuinte em ainda
maior risco ou eles concebem alguma facilidade de empréstimo
totalmente nova que ultrapassará as instituições
financeiras em conjunto e emitirá crédito directamente aos
consumidores e aos pequenos negócios. Não há terceira
opção.
O problema com o TALF é que ele ignora a nova realidade
económica, que a procura do consumidor entrou em colapso devido
às perdas maciças na casa própria e nas contas de
aposentação. Quando os mercados de crédito congelaram no
ano passado, os valores da habitação caíram drasticamente
levando à devastação dos balanços familiares e
forçando uma mudança radical nos hábitos de despesas.
Aquele corte nos gastos criou um loop de retroalimentação para o
sector financeiro, o qual torna impossível reinflacionar a bolha de
crédito. A dimensão final do sistema financeiro será
determinada, em grande medida, pela capacidade do povo para tomar
empréstimos outra vez, a qual depende de muitos factores incluindo
segurança do emprego, poupanças e optimismo quanto ao futuro.
É desnecessário dizer que a crescente preocupação
acerca de uma Depressão tipo década de 1930 não
ajudará a levantar os espíritos ou a melhorar as probabilidades
de uma recuperação rápida. Dito isto, há passos
positivos que a administração pode tomar agora para restaurar a
confiança nos mercados e colocar o navio em condições.
Estas medidas classificam-se em três tipos: redução da
dívida (esquecimento), regulação e responsabilidade. A
confiança não é construída com oratória
inspirada ou carisma pessoal, mas acções concretas para
restabelecer regras-base no sistema que penalizem vigaristas e quem comete
fraudes. A recuperação não é possível sem um
forte compromisso para com estas mudanças básicas.
[1] Private equity:
tipo de actividade financeira realizada por instituições que
investem essencialmente em empresas que ainda não são listadas em
bolsa de valores, a fim de alavancar seu desenvolvimento.
O original encontra-se em
http://www.informationclearinghouse.info/article22174.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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