Declaração Final da II Assembleia Global do Jubileu Sul
Com a presença de representantes de 39 países,
Jubileu Sul realizou a sua
II Cimeira Sul-Sul e a Assembleia Tricontinental
na cidade de Havana, Cuba,
de 25 a 28 de Setembro de 2005.
Neste momento recordamos os encontros históricos realizados em 1985, em
Havana e a sua contribuição para a criação de um
maior nível de consciência global sobre a verdadeira natureza do
problema da dívida que, ao mesmo tempo, fortaleceu a luta da
resistência contra o pagamento de uma dívida esclavagista.
O presidente Fidel Castro fez-se eco de diversos participantes ao declarar que
a dívida dos países do Sul já fora paga muitas vezes e que
não tinha nenhum fundamento moral, político ou legal, pelo que,
em qualquer caso, não devia ser paga.
Vinte anos depois, Jubileu Sul encontra-se aqui para afirmar que, nós,
os povos do Sul somos os verdadeiros credores de uma enorme dívida
ecológica, moral, social, financeira e histórica, dívida
acumulada durante os últimos séculos, durante a longa
história da colonização e que contínua a
acumular-se, em consequência do saque contínuo e da
exploração dos nossos recursos, dos nossos povos, do nosso
trabalho e das nossas economias. Denunciamos, particularmente, as actuais
guerras contra os povos que lutam pela sua libertação nacional e
contra a sua ocupação.
O pagamento da dívida potencializa uma sistemática
violação dos direitos humanos, na medida em que provoca
encarceramentos, mortes, desaparecimentos e exílio. Insistimos na
nulidade total da dívida por imoral e injusta, que socava a soberania
popular e o direito de determinação do nosso próprio
futuro.
Passaram seis anos desde a fundação da nossa Assembleia. Ao
longo desta II Assembleia pudemos constatar o considerável crescimento e
consolidação da nossa singular rede, baseada no Sul e no nosso
Movimento para a eliminação da dominação da
dívida, e para assegurar o reconhecimento e a restituição
da dívida histórica, financeira e ecológica que o Norte
contraiu com o Sul. Reunimo-nos aqui para enriquecer estes êxitos,
avaliar novas possibilidades e preparar os nossos planos de acção.
Desde a realização da nossa última Assembleia, fomos
testemunhas de uma dramática escalada do terrorismo neoliberal, que
adopta a forma de agressão imperialista, incluindo a invasão e
ocupação de nações soberanas, bem como a um
crescimento da militarização em numerosas partes do mundo. Ao
mesmo tempo, no entanto, também houve um crescimento, em número e
dimensão, dos movimentos que se opõem à guerra e à
expansão do neoliberalismo corporativo globalizado. Jubileu Sul sente
orgulho por fazer parte da resistência global e por ter um papel
estratégico no Movimento e na Constituição do processo de
formação do Fórum Social Mundial. Queremos sublinhar que
o tema da dívida tem um grande significado na agenda dos movimentos a
nível mundial, e que, cada vez mais, é reconhecido como um
assunto de direitos humanos, ligado ao processo do livre
comércio e à militarização, que é uma
componente das mesmas práticas neoliberais.
As forças do movimento e as suas exigências forçaram os
chamados credores a comprometer-se com o tema da dívida de modo
inadequado. Um exemplo disso é a recente proposta do G8
países ainda mais enriquecidos devido aos mecanismos fraudulentos da
dívida que oferecem cancelar uma minúscula parcela da
dívida, exigida de modo colateral por um punhado de países,
acompanhada de condições que mais não significam do que a
manutenção do mesmo sistema de dominação. Estas
iniciativas são uma clara manifestação da profundidade da
actual crise e da natureza enganadora dos múltiplos esquemas da chamada
diminuição da dívida, da sua redução e das
contrapartidas oferecidas pelos credores.
Alertamos que estas iniciativas contêm o perigo da
cooptação das instâncias de incidência formal e dos
governos que se recusam a reconhecer e revelar a hipocrisia do G8 e dos seus
instrumentos, como o Fundo Monetário Internacional, erradamente chamados
de internacionais. Iniciativas como o HIPC, trocas, dívida soberana
devem ser denunciadas como mecanismos enganosos e de aprofundamento, que
perpetuam novos mecanismos de manutenção da dívida externa
e interna.
Jubileu Sul afirma que o papel e o mandato adoptado pela nossa assembleia
é o de trabalhar pela exigência da recusa incondicional e a
anulação da dívida externas de todos os países do
Sul.
Ao mesmo tempo pedimos o reconhecimento e a restituição da
dívida moral, social, financeira e ecológica que o Norte contraiu
para com o Sul.
Comprometemo-nos a expandir e aprofundar o nosso movimento, a desafiar e vencer
as nossas debilidades, a assegurar a presença activa de Jubileu Sul nas
campanhas e movimentos contra a globalização imperialista, em
todas as suas formas e manifestações, incluindo as guerras contra
nações soberanas, a privatização das bases
militares e a destruição do meio ambiente. Denunciaremos
também a participação dos governos do Sul na
perpetuação da dívida, pondo em risco os bens dos nossos
povos que esses governos pretendem privatizar. Comprometemo-nos a redobrar
esforços por uma mudança das políticas dos governos do
Sul, as quais devem ser dirigidas ao repúdio das dívidas
externas. Vemos na realização das auditorias à
dívida um passo fundamental para o êxito dos nossos objectivos.
Cresceremos sobre os êxitos já alcançados nos anos
anteriores, fortaleceremos Jubileu Sul como um movimento que dá
força e voz aos povos oprimidos e explorados do mundo que defendem as
suas culturas, também ameaçadas pela dívida e pela
exploração capitalista. Ao mesmo tempo que fazemos um apelo aos
povos do Norte para que continuem a desenvolver o seu apoio à
exigência do fim da dominação da dívida,
permaneceremos enraizados nos movimentos regionais e nacionais, dentro das
organizações do povo, desenvolvendo as nossas capacidades a favor
da análise, do desenvolvimento do consenso e da
articulação das nossas posições sobre a
dívida e outros temas com ela relacionados. Seremos parte dos
esforços para desenvolver e articular as alternativas dos povos contra a
ordem global neoliberal e a guerra.
Neste contexto, Jubileu Sul compromete-se a apoiar a soberania do povo de Cuba
e o fim do cruel e ilegal embargo dirigido polo governo dos Estados Unidos.
Enriquecemos as nossas energias com a realização desta assembleia
em Havana, que é símbolo e inspiração para todos os
que lutam contra a opressiva ordem neoliberal. Ao expressar a nossa
solidariedade a Cuba, expressamos também a nossa gratidão pela
sua generosa colaboração com a nossa reunião e a nossa
causa, fiéis ao espírito e à presença de Ernesto
Che Guevara, um espírito vivo na nossa luta tricontinental e na nossa
aliança contra o imperialismo.
A luta continua
Por um mundo livre da dívida e da dominação
Não ao pagamento da dívida ilegítima
Cancelamento total e incondicional da dívida
Os povos do sul são credores
28/Setembro/2005
O original encontra-se em
http://movimientos.org/noalca/show_text.php3?key=5402
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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