Administração Pública: Inversão da destruição que estava em curso?
por Eugénio Rosa
[*]
Nos dias 2 e 3 de Junho realiza-se em Lisboa o 11º Congresso da
Federação Nacional dos Sindicatos da Função Pública
. É um momento oportuno para fazer um balanço e uma
reflexão sobre a Administração Pública até
pela importância que ela tem para todos os portugueses, facto esse que
é esquecido pelos "comentadores" que dominam os media e que
não se cansam de denegrir os seus trabalhadores.
Como revelam os dados da DGAEP, entre Dez/2011 e Set/2015, período da
"
troika"
e do governo PSD/CDS, o numero de trabalhadores de todas as
Administrações Públicas (Central, Local e Regional) sofreu
uma forte redução de 78.340 (-10,8%), sendo os grupos
profissionais mais atingidos o dos "técnicos superiores"
(-2.622), o dos "assistentes técnicos" (-12.967), os
"assistentes operacionais" (-21.533), profissionais que são
essenciais ao funcionamento de todos os serviços públicos, e o
dos "docentes" do ensino básico, secundário e superior
(-28.574), fundamentais ao desenvolvimento do país, e também o
dos "enfermeiros" (-1.431) necessários ao funcionamento do
SNS. O aumento verificado no número de médicos neste
período (+ 1.865) é na sua maioria fictício pois trata-se
principalmente de médicos-tarefeiros que fazem poucas horas por dia.
Entre 31/Dez/2012 e 30/Set/2015, o governo PSD/CDS reduziu em 50.527 os
trabalhadores da Função Pública, mas 21.720 (42,9%) foram
trabalhadores com contratos a prazo. Entre Set.2015 e Mar.2016, com o governo
PS o número de trabalhadores da Função Pública
aumentou em 12.88, sendo 12.493 (96,9%) com contratos a prazo. Em Set.2015, os
trabalhadores com contratos a prazo representavam 9,7% do total de
trabalhadores da Função Pública, mas em Mar.2016 já
correspondiam a 11,4% de todos os trabalhadores da Função
Pública
(na Administração Central representavam 13,9%)
. Para um governo que tomou o compromisso de combater a precariedade,
não resta dúvida que é um mau exemplo que dá e
também um mau principio que urge corrigir.
Entre 2010 e 2015, as Despesas com Pessoal de todas as
Administrações Públicas (Central, Local e Regional)
diminuíram de 24.611 milhões para 19.950 milhões
, ou seja, em 4.661 milhões , o correspondente a 2,7% do PIB
médio deste período. Em 2016, regista-se uma inversão
pois, entre 2015 e 2016, prevê-se um aumento de 657 milhões
que é destinada fundamentalmente a repor os cortes de
remunerações feitos aos trabalhadores não permitindo, no
entanto, inverter de uma forma real a degradação dos
serviços públicos em Portugal levada acabo pela
"troika" e pelo governo PSD/CDS.
Os dados do quadro 4 permitem tirar algumas conclusões importantes desde
que se tenha presente o seguinte: os valores de Julho de 2014 são
remunerações e ganhos sem cortes pois, como consequência da
decisão do Tribunal Constitucional, o corte de Passos Coelho/Portas que
era superior ao de Sócrates deixou de vigorar e durante alguns meses (um
deles foi precisamente Outubro de 2014), os trabalhadores da
Função Pública, receberam as suas
remunerações sem cortes. Como mostram os dados do quadro. (1) A
remuneração média mensal dos trabalhadores da
Função Pública sem cortes é de 1.444 e o
ganho médio mensal (que inclui os outros abonos) também sem
cortes é de 1.669; (2) Com o corte de Sócrates era de
1.385 (a remuneração média) e 1.602 (o ganho
médio); (3) Com o corte de Passos Coelho/Portas que incidia
também sobre remunerações inferiores a 1.500, mas
que foi declarado inconstitucional pelo Tribunal, era já apenas
1.311 (a remuneração média) e 1.512 (ganho
médio); (4) Com a reposição de 20% do corte feito pelo
governo PSD/CDS em 2015 a remuneração base média sobe
1.406 e o ganho médio para 1.614 ; (5) Com a
reposição de 20% do corte pelo governo do PS em Janeiro de 2016,
que somados aos 20% de Passos Coelho, significa que se verifica a
reposição atinge 40%, a remuneração média
base mensal dos trabalhadores da Função Pública passou a
ser de 1.417 e o ganho médio passou a ser de 1.623. A
remuneração base sem cortes é 1.444 e o ganho
médio sem cortes é de 1.659 segundo a DGAEP do
Ministério das Finanças, valores estes que só serão
repostos no ultimo trimestre de 2016.
26/Maio/2016
[*]
edr@netcabo.pt
Como mostram os dados do quadro 5, os ministérios mais atingidos pela
fúria de destruição da troika e do governo PSD/CDS foram o
da Educação e o da Saúde, essenciais para a
população, em que procurou-se desta forma abrir caminho ao
negócio dos grupos privados, de que é exemplo na
educação os contratos de associação a financiar
privados quando existiam escolas públicas próximas, duplicando
assim os gastos para o Estado e para os contribuintes.
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