Controlo público da banca
Porque é necessário e que tipo de controlo é
indispensável
A banca ocupa um lugar central na concessão de crédito que
é vital para o funcionamento de qualquer economia ou sociedade. No
entanto, quando se fala de crédito pensa-se que ele se reduz ao credito
bancário, mas isso não corresponde à verdade. Por isso,
vamos analisar, utilizando dados recentes do Banco de Portugal, o grau de
endividamento do país e qual a parte que foi financiada pela chamada
banca residente, ou seja, aquela que opera no nosso país e tem aqui
instalações permanentes. E isto porque assim ficará mais
claro quer a importância da banca residente na concessão de
credito quer os seus limites e, consequentemente, também os efeitos do
controlo público da banca.
PRINCIPAIS CONCLUSÕES DESTE ESTUDO
Em Jan/2016, a divida do Setor não Financeiro (não
incluída a da banca) atingia 700.253 milhões , mas apenas
43,6% era financiada pela banca
Em Dez/2015, do total de credito concedido pela banca às empresas
privadas, 23,2% era ainda à "construção e
imobiliário", e apenas 15,3% à "Industria
Transformadora e extrativa". A gestão capitalista da banca tem
sempre preferido a promoção da especulação em
prejuízo das empresas de bens transacionáveis e da
industrialização do país.
Entre 2008 e Jun/2014 a banca constituiu 35.521 milhões de
"imparidades", que somadas às que já tinha acumulado
até ao inicio de 2008, dá 42.285 milhões , que
é o valor destruído pela banca resultante de credito concedido
que depois não consegue receber. Quantos hospitais, quantas escolas,
etc, se poderiam construir com este valor destruído? É este um
exemplo da gestão capitalista da banca paga depois pelos contribuintes.
O controlo público da banca é uma necessidade, por um lado, para
pôr cobro a esta destruição maciça de valor e, por
outro lado, para pôr a banca ao serviço do desenvolvimento do
país, deixando de ser um instrumento de promoção da
especulação, e também para reduzir o domínio
estrangeiro neste setor.
Para que tal exigência tenha credibilidade perante a opinião
pública é necessário que o governo PS e os partidos que o
apoiam ponham fim à gestão capitalista que tem existido na CGD, o
único banco do Estado mas que tem 22% de quota de mercado, a qual tem
desacreditado o controlo público da banca. Enquanto isso não for
feito a exigência do controlo público da banca nunca
conseguirá obter, a nosso ver, grande apoio da opinião
pública, pois a transferência da banca para o controlo do Estado,
mantendo o tipo de gestão que existe na CGD, pouco contribuirá
para o desenvolvimento do país.
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EM JAN/2016, A DIVIDA TOTAL DO SETOR NÃO FINANCEIRO ATINGIA 700.253
MILHÕES , O QUE CORRESPONDE A QUATRO VEZES A RIQUEZA CRIADA
ANUALMENTE EM PORTUGAL
Vamos começar por analisar o grau de endividamento do setor não
financeiro, o qual inclui as Administrações Públicas
(Central, Local e Regional],
as empresas públicas, as empresas privadas e os particulares
(famílias), para depois ver quem financia essa divida. Desta forma
ficará mais clara a resposta à questão colocada no inicio.
O quadro 1, com dados divulgados pelo Banco de Portugal no seu Boletim
Estatístico de Março de 2016, permite fazer essa análise
pois revela qual é a divida total do setor não financeiro, assim
a forma como essa divida se reparte por entidades devedoras e também a
alteração registada na sua estrutura entre 2007
(ano de inicio da crise)
e 2016.
Entre Dezembro de 2007 e Janeiro de 2016, a divida total não consolidada
do Setor não Financeiro aumentou de 551.628 milhões para
700.253 milhões (+148.625 milhões ) devido
fundamentalmente ao aumento da divida das Administrações
Públicas que passou, no mesmo período, de 138.060 milhões
para 291.437 milhões (+153.377 milhões ). Em
percentagem do total, a divida das Administrações Pública
representava, em 2007, 25% da divida total e, em Jan/2015, 41,6%. Estes valores
provam mais uma vez o total falhanço de politica de
consolidação orçamental recessiva imposta ao país
pela "troika" e pelo governo PSD/CDS, já que um dos objetivos
principais era o controlo e a redução da divida publica. E o que
aconteceu foi precisamente o contrário, a divida pública explodiu
com tal politica.
Analisada a evolução da divida do Setor não Financeiro e a
sua repartição por entidades devedoras, interessa agora saber
quem financiou esta divida. O quadro 2, também com dados do Banco de
Portugal permite fazer essa análise.
A análise da divida total do Setor não Financeiro por fontes de
financiamento leva à conclusão que o Setor financeiro, que
é banca, já contribui com menos de metade do financiamento tendo
mesmo perdido peso entre 2007 e 2016 pois, passou neste período, de
53,1% do total do financiamento ao Setor não Financeiro para apenas
43,6%; em contrapartida, o recurso a financiamento exterior (estrangeiro)
aumentou de 23,7% do total para 30,9%, subindo assim a dependência e a
exposição do país ao exterior e, consequentemente, a sua
vulnerabilidade, tornado mais difícil a saída da zona do euro, se
tal se vier a colocar. Revela também a incapacidade da banca residente
para o fazer
Um aspeto que interessa chamar a atenção é o aumento do
financiamento das Administração Públicas ao Setor
não Financeiro (entre 2007 e 2016) passa de 2,8% para 8,2%, que é
fundamentalmente financiamento de entidades das Administrações
Públicas a outras entidades das Administrações
Públicas, o que significa que após a consolidação a
divida efetiva das Administrações Públicas é
inferior à que consta do quadro 1.
O FINANCIAMENTO DAS EMPRESAS PRIVADAS PELA BANCA
A repartição do credito concedido pela banca às empresas
por setores de atividade económica permite ficar saber que setores
são promovidos e mais apoiados pela banca, e que setores são
subvalorizados e mesmo asfixiados pela banca utilizando a "arma" do
crédito. O quadro 3, com dados do Banco de Portugal, permite fazer essa
análise.
Em 2007, dos 242.311 milhões de endividamento total das empresas
privadas, como consta do quadro 1, o montante de 125.432 milhões
tinha como fonte credito concedido fundamentalmente pela banca. Se a
analisarmos a repartição desse credito por setores de atividade
económica conclui-se que os setores preferidos pela banca era a
"Construção e o Imobiliário" que detinha 34,3%
do total de credito concedido às empresas privadas, enquanto as
"Industrias Transformadoras e extrativas", os setores por
excelência produtores de bens transacionáveis e base da
industrialização do país, tinham apenas 14,7% do total de
credito concedido às empresas. Portanto, muito menos de metade do
recebido pela construção e imobiliário. E, em 2015, apesar
destes dois setores de atividade deterem uma parcela inferior 23% - essa
parcela continua a ser ainda muito superior à detida por todas as
Industrias Transformadoras (15,3%). Pode-se, com propriedade dizer, que a banca
em Portugal sempre apostou nas atividades especulativas, pois é para
elas que tem preferencialmente encaminhado uma proporção maior do
credito que concede. Por isso, pode-se dizer que ela nunca esteve ao
serviço do crescimento económico e desenvolvimento do
país, orientando o crédito para aquelas atividades que maiores
efeitos têm no crescimento económico sustentado do país.
EM JUN/2014, AS "IMPARIDADES" DE CREDITO ATINGIAM 42.285
MILHÕES , UMA ENORME DESTRUIÇÃO DE VALOR CAUSADA
PELA GESTÃO PRIVADA DA BANCA
Interessa, em primeiro lugar, dizer o que são "imparidades"
para que o leitor não familiarizado com os conceitos bancários,
compreenda rapidamente o significado do números que vão ser
apresentados. De forma sintética pode-se definir "Imparidades"
como o valor do crédito que foi concedido que não se recebe, e
por isso se perde, ou então credito cuja probabilidade de não se
receber é muito elevada. Quer num caso quer em outro dá origem a
prejuízos. E os prejuízos resultantes de "Imparidades"
têm explodido na banca portuguesa, e continuam a explodir fruto da
politica de credito seguida até à crise, que apostou
fundamentalmente em atividades especulativas como se mostrou, e após o
inicio da crise na concessão de credito com base numa análise de
risco pouco rigorosa ou mesmo sem qualquer análise de risco, assim como
na má gestão e mesmo na gestão danosa que carateriza
também a gestão dos bancos, que é escondido sob o manto da
confidencialidade, e que continua a produzir elevadas perdas de credito e,
consequentemente, prejuízos. O quadro 4, com dados do BdP, prova isso.
Entre 2007 e Junho de 2014 (
últimos dados disponibilizados pelo BdP
), os bancos em Portugal constituíram 37.248 milhões de
"imparidades"
(coluna 3 do quadro 4)
, ou seja, depois de analisar a situação dos devedores a quem
concederam credito concluíram que 37.248 milhões era
credito que não se ia receber, portanto seriam perdidos. Mas em 2007, a
banca já tinha nos seus balanços elevadas imparidades. Segundo o
Banco de Portugal, no fim de 2007 as imparidades que existiam nos
balanços dos bancos já atingia 6.764 milhões
(1ª linha da coluna 7 do quadro 4
). Se somarmos a este valor as imparidades constituídas nos anos
seguintes
(2008 e seguintes)
que totalizam 35.521 milhões (ver coluna 3 do quadro)
obtém-se 42.285 milhões de "imparidades"
(credito perdido ou que se prevê perder), um montante enorme, que
representa uma enorme destruição de valor determinada pela
gestão capitalista privada da banca.
Mas apesar de ter acumulado, até Junho de 2014, 42.285 milhões
de "imparidades", no entanto os bancos tinham registado nessa
data, nos seus balanços, apenas 21.776 milhões
(coluna 7 do quadro, linha referente a Junho 2014),
o que significa que já tinham abatido nas suas contas 20.509
milhões , fazendo assim desaparecer dos seus balanços, da
sua rubrica de "credito concedido" e de "imparidades
acumuladas", 21.776 milhões , considerando-os como
definitivamente perdidos e fazendo assim a limpeza dos seus balanços.
Uma parcela importante desde crédito que é anulado, e assim
desaparece da vista pública, é registado numa conta fora do
balanço denominada "Créditos abatidos ao ativo", que
todos os bancos têm, onde acumulam centenas de milhões de
créditos concedidos mas que depois não foram recebidos, muitos
deles resultantes de atos de má gestão ou mesmo de gestão
danosa, que o Banco de Portugal não investiga.
OS CUSTOS COM IMPARIDADES SÃO SUPERIORES AOS CUSTOS COM PESSOAL
Como revelam os dados do Banco de Portugal constantes das colunas (2) e (3), em
vários anos os custos com as "imparidades", ou seja, com o
credito perdido foram superiores aos custos com pessoal. No período
considerado (2007-Jun.2014), os custos com as "imparidades" causaram
à banca a operar em Portugal um prejuízo de 37.248 milhões
, enquanto os custos com pessoal somaram, no mesmo período, apenas
30.909 milhões . Eis uma outra consequência da gestão
privada capitalista da banca. Apesar disso, os trabalhadores são o alvo
preferido das administrações, e não as imparidades.
AS IMPARIDADES NOS PRINCIPAIS BANCOS QUE CONTROLAM 74% DO CREDITO CONCEDIDO EM
PORTUGAL ATINGIRAM 33.742,1 MILHÕES EM 2015
O quadro 5, com dados das contas dos próprios bancos, mostra a
dimensão das "imparidades" em cada um dos oito principais
bancos (agora sete, o BANIF foi absorvido pelo Santander-Totta) que controlam
cerca de 74% de todo o crédito concedido no nosso país.
No período 2008/2015, os oito principais bancos constituíram
23.810 milhões de "imparidades", devido a credito
concedido que não é pago, que somadas às que existiam no
fim de 2007 dá 33.742 milhões de créditos perdidos,
muito dele devido à má gestão ou mesmo gestão
danosa de que não se pede responsabilidades. É uma enorme
destruição de valor. Quantos hospitais, escolas, etc. se poderiam
construir com este valor destruído pela gestão dos bancos?
É uma reflexão que nunca é feita. Quanto se poderia poupar
com uma melhor gestão da banca? Também é uma
reflexão que nunca é feita.
Os dados do quadro 5
(as três colunas à direita)
também revelam o valor dos créditos que já foram limpos e
desapareceram silenciosamente dos balanços dos bancos no período
2008/2015. Para saber o seu montante basta deduzir às
"Imparidades que deviam existir em 31/12/2015
" (33.742,1 milhões ) as "
imparidades existentes em 31/12/2015
" (19.828,3 milhões ), o que dá 14.113,7
milhões . Eis o valor de credito concedido que as
administrações destes oito bancos fizeram desaparecer,
através de uma limpeza geral, sem que o supervisor fizesse alguma coisa.
Eis uma prova da gigantesca destruição de valor resultante da
gestão privada capitalista da banca. O quadro 5, permite conhecer essa
destruição individualmente por bancos, e para que se possa ficar
com uma ideia mais precisa, calculou-se a percentagem em relação
ao volume de credito concedido. E a conclusão que se tira é que
as maiores destruições de valor, no período 2007/2015, se
verificam, por ordem decrescente, no BANIF (15,2% do credito total), no BCP
(13,02%), no Crédito Agrícola (10,61%), no Montepio (9,7%), no
BES/Banco Novo (9,43%), na CGD (7,47%), no BPI (5,71%) e, finalmente, no
Santander-Totta (4,25%).
UM CONTROLO PÚBLICO DA BANCA DIFERENTE DA GESTÃO CAPITALISTA DA
CGD
Para pôr cobro à gestão capitalista da banca que tem
destruído um valor gigantesco (42.285 milhões até
Jun/2014), incluindo na própria CGD (destruição de 7.027,7
milhões até Dez/2015), que são valores pertencentes
a quem depositou dinheiro ou aplicou dinheiro, pois contrariamente ao que
muitos pensam ou dizem a banca não cria dinheiro, limita-se a emprestar
o dinheiro que recebe, recebendo uma taxa de juro superior à que tem de
pagar; repetindo, para por cobro a uma gestão capitalista da banca que
tem promovido também a especulação que existe mesmo na CGD
(na CGD, são exemplos os empréstimos ao Joe Berardo no caso do
BCP, ao Manuel Fino na Cimpor e mais recentemente ao BES/GES),
é necessário o controlo público da banca, pois o Banco
de Portugal é incapaz, como entidade de supervisão, de o fazer,
sendo também incapaz de evitar a má gestão e mesmo a
gestão danosa.
Mas a nosso ver, para que a exigência do controlo público tenha
credibilidade perante a opinião pública é
necessário por cobro à gestão capitalista que tem existido
na CGD, em tudo idêntica à dos bancos privados. Numa altura em que
a administração da CGD vai ser substituída, os partidos
que apoiam o governo não se podem alhear desta questão, sob a
pena da exigência do controlo público da banca perder
credibilidade. A CGD não pode servir para dar emprego aos
boys
do partido do governo ou do
"centrão".
É necessário colocar na CGD uma
administração competente e identificada com os objetivos de
recuperação da economia e do desenvolvimento do país.
É preciso que se defina para a nova administração da CGD
uma missão e objetivos quantificados claros, o que nunca existiu para a
CGD. O que acontecer na CGD, pela sua dimensão e importância,
será certamente um teste para esta nova solução
governativa.
25/Março/2016
[*]
Este artigo tem como base uma intervenção que fiz no
seminário
"Controlo público da banca, condição para o
desenvolvimento e soberania nacional
" no ISCTE mas completada pois a escassez de tempo impediu que terminasse
a intervenção que havia preparado.
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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