Os desafios à nova administração do "bloco
central" da CGD e ao próprio governo
1.
A carteira de títulos da CGD representa cerca de 20% do seu ativo, sendo a mais elevada da banca em Portugal
2.
O elevado volume de crédito em risco e em incumprimento
3.
A quebra continuada verificada no negócio bancário
4.
As elevadas imparidades constituídas e a constituir
5.
Os recursos de clientes
6.
Os indicadores de eficiência e a necessidade de não continuar a sacrificar os trabalhadores da CGD
7.
O negócio ruinoso para a CGD feito pela ministra Maria Luís Albuquerque
8.
Capital, situação liquida, sucessivas recapitalizações e rácios de capital
9.
Os desafios que se colocam ao atual governo
Numa altura em que vai entrar em funções na CGD uma nova
administração do
"bloco central",
em que o presidente executivo é Paulo Macedo, um conhecido
membro do governo PSD/CDS e, como
chairman
(presidente não executivo)
, Rui Vilar, um destacado membro do PS, interessa analisar quais os problemas
atuais da CGD e quais são os desafios que se colocam a esta nova
administração. Isto até porque alguns dos problemas da CGD
são comuns aos outros bancos, daí a importância desta
análise para compreender a situação a que a banca chegou
em Portugal, embora a CGD, por ser um banco público, tenha também
outras obrigações especificas que decorrem deste facto. A
análise da situação da CGD será feita com base nos
relatórios e contas da CGD até ao 3º Trim.2016
(o ultimo publicado),
e nas reuniões que se tiveram com as anteriores
administrações CGD, e procurará identificar não
só os principais problemas que a CGD enfrenta mas também os
desafios que daí decorrem e que, por isso, se colocam à
instituição e à nova administração. E isto
para que se possa acompanhar, e eventualmente avaliar, a ação da
nova administração em áreas que se consideram
críticas na situação da CGD. É evidente que este
estudo apenas analisa algumas situações importantes pois a
informação pública disponível não é
suficiente para uma análise mais profunda.
1. A CARTEIRA DE TÍTULOS DA CGD REPRESENTA CERCA DE 20% DO SEU ATIVO,
SENDO A MAIS ELEVADA DA BANCA EM PORTUGAL: vantagens e riscos
Em Set/2016, a carteira de títulos da CGD somava 20.377 milhões
, o que correspondia a 20,7% do Ativo liquido nessa data (98.234M).
De acordo com o Relatório e Contas de 2015, no fim deste ano 7.493
milhões eram títulos de divida publica portuguesa.
A aplicação em divida publica tem vantagens e inconvenientes. As
vantagens são, por um lado, poder ser utilizado como colateral junto do
BCE para a obtenção de crédito e, por outro lado, o
ponderador da divida pública para cálculo do ativo ponderado pelo
risco (RWA) ser zero, portanto não "come" capital. Para
além disso, vence juros logo gera rendimento. As desvantagens é
de qualquer subida nas taxas de juro da divida pública provoca
prejuízos ou menos-valias com reflexo imediato negativo ou na conta de
resultados ou na conta de capital.
Confrontado com o risco que resulta da CGD ter uma carteira de títulos
tão elevada (20,7% do ativo liquido), a anterior
administração reconheceu o risco, referiu as vantagens, tendo
informado que era seu objetivo, se a continuasse na CGD, baixar a
exposição para metade.
Para além disto, segundo as contas de 2015, no fim deste ano a carteira
de títulos da CGD totalizava 21.541,2 milhões , sendo
17.662,23 milhões (82%)
"ativos financeiros disponíveis para venda"
, ou seja, para obter mais-valias, ou seja especular
( ver nota da pág. 172 do Relatório e contas das CGD de 2015
sobre a contabilização do valor deste tipo de ativos).
A questão que se coloca para reflexão é a seguinte:
Será que um banco público deverá fazer um investimento com
esta dimensão com fins especulativos? Nas declarações que
António Domingues fez em 4.1.2017 na Assembleia da República, na
COF, uma questão que levantou foi se seria missão de um banco
público procurar o equilíbrio especulando com dinheiro dos
contribuintes e depositantes. Um investimento tão elevado em ativos
desta natureza envolve, pelas razões referidas, riscos que, a nosso ver,
um banco público não deve fazer correr o dinheiro dos
contribuintes e dos depositantes. O elevado rácio de liquidez (LCR)
apresentado pela CGD (170,8% em Set.2016), superior ao exigido pelo supervisor,
associado a uma concessão de crédito insuficiente, poderá
ser a causar da aplicação excessiva em ativos financeiros.
Concluindo,
a carteira de títulos da CGD, devido ao seu elevadíssimo montante
e aos riscos que encerra,
é uma ÁREA CRITICA DA CGD que, pelo impacto que pode ter nos
resultados e nos Capitais Próprios e, consequentemente, nos
rácios de capital da CGD e também para os trabalhadores
(pois se correr mal mais sacrifícios poderão ser exigidos)
deverá merecer atenção para se saber como a nova
administração tratará esta questão.
Tenha-se presente que nos primeiros 9 meses de 2015 a CGD teve um lucro de
329 milhões com as operações financeiras sobre
títulos e que, em 2016, em idêntico período, já
acumulou 47,4 milhões de resultados negativos, portanto é
uma rúbrica com resultados muito aleatórios, e o risco é
elevado num período em que os juros da divida publica podem aumentar e
em que a politica monetária do BCE de "
dinheiro barato
" que parece estar a contribuir para a valorização dos
ativos financeiros poderá vir a ser alterada.
2. O ELEVADO VOLUME DE CRÉDITO EM RISCO E EM INCUMPRIMENTO: a
inexistência de uma rigorosa análise de risco e a ausência
de orientações claras para a politica de crédito da CGD
por parte do governo
A CGD apresenta um dos mais elevados rácios de crédito em risco e
de crédito em incumprimento. No fim do 1º sem.2016, depois do Novo
Banco (23,9%) e do Montepio (15,4%) era a CGD (12,2%) que apresentava maior
rácio de crédito em risco. De acordo com os indicadores
constantes das contas referentes ao 3º Trim. 2016, no fim de Setembro de
2016 o rácio de crédito bruto em risco na CGD era de 12,2%, e do
crédito bruto em incumprimento atingia 10,3%
(entre o 3º trim.2015 e o 3.º trim.2016, este último
rácio aumentou de 9,5% para 10,3%).
Em milhões de euros apresentavam os seguintes valores:
|
Crédito em risco
|
8.622,22 milhões
|
|
Crédito em incumprimento
|
7.279,42 milhões
|
São valores muito elevados de crédito em risco e em
incumprimento. E o aumento que se tem verificado nomeadamente no crédito
em incumprimento
(entre o 3ºTrim.2015 e o 3º Trim.2016, passou de 6.783,76
milhões para 7.279,42 milhões )
revela, a nosso ver, duas situações preocupantes. Em primeiro
lugar, uma deficiente avaliação de risco aquando da
concessão de crédito já que, segundo a
administração anterior,
na CGD não vigorava uma politica de avaliação rigorosa de
risco.
É evidente que se isto sucedia não era por culpa dos
trabalhadores da CGD mas sim porque as administrações na
concessão do crédito, nomeadamente dos grandes créditos,
não tomavam em grande consideração o risco para a tomada
de decisão. A confirmar isso estão os setores preferenciais de
concessão de crédito a empresas por parte da CGD (ver
gráfico 1), as elevadas imparidades acumuladas, e a necessidades de
fazer ainda um enorme reforço agora enunciado. Em segundo lugar,
a falta de eficácia da recuperação de crédito em
incumprimento por parte da CGD, talvez para não incomodar os grandes
credores.
Em relação a este último ponto, na pág. 131 e
seguintes das contas de 2015, encontra-se uma extensa exposição
da DAP e da DAE, que são as direções de
recuperação de crédito, respetivamente, de particulares e
de empresas, cujos resultados obtidos são muito reduzidos A DAP tem uma
carteira negocial de 1.800 milhões e no contencioso 2.000
milhões , e a DAE tinha uma carteira de 6.000 milhões
com imparidades já no montante de 2.300 milhões . No
entanto no quadro da pág. 254 refere-se que, em 2015, foram recuperados
apenas 13,7 milhões de euros de crédito em incumprimento, o que
é ridículo.
Segundo também a administração anterior da CGD, a
área de recuperação de crédito estava
desorganizada, sendo de reduzida eficácia, havendo muitos
créditos em relação aos quais não tinha havido
qualquer iniciativa ou ação para o recuperar nos 3 últimos
anos. Cerca de 70% do crédito concedido pela CGD está concentrado
em apenas 20% dos clientes
(risco de concentração elevado),
sendo os setores mais beneficiados com o crédito, a nível de
empresas, a construção, o imobiliário e o crédito
para compra de ações, ou seja, para especular, portanto a "
CGD não atuava como o banco público
". É de prever que os interesses instalados nas áreas
beneficiadas no passado pela política de crédito da CGD sejam
poderosos e, eventualmente, possam a estar a paralisar a CGD na
recuperação de crédito.
No final de 2015, 50,1% do crédito concedido pela CGD tinha sido para
habitação; 17,3% para o setor da Construção e
imobiliário
(entre 2014 e 2015, aumenta de 16,8% para 17,3%, como revela o gráfico);
7,1% para as atividades financeiras e apenas 5,8% para indústria e 0,8%
para agricultura e pescas; ou seja, apenas 6,6% do crédito concedido
pela CGD tinha sido para a indústria, agricultura e pescas, isto
é, para a atividades essencialmente produtivas. E a CGD é um
banco público que devia ter como principal missão apoiar o
crescimento económico e o desenvolvimento do país.
Isto prova, por um lado, que as respetivas administrações
não desenvolveram nem aplicavam uma politica de análise rigorosa
de risco, como era da sua responsabilidade, nem tomavam em
consideração o risco na tomada de decisão de
concessão dos grandes créditos; e, por outo lado, a
ausência de orientações claras do governo em
relação à política de crédito da CGD, o que
determinou que as administrações fizessem o que queriam, embora
os seus custos fossem depois pagos pelos contribuintes e pelo país.
A POLITICA DE CRÉDITO E A ÁREA DE RECUPERAÇÃO DE
CRÉDITO são áreas críticas e fundamentais para a
recuperação económica do país e da CGD e, por isso,
devem merecer uma atenção especial de acompanhamento, e a nova
administração deve ser avaliada pelos resultados obtidos nelas.
É necessário que o governo, como representante do acionista
Estado, defina com clareza qual é missão da CGD neste campo, e
que não permita que a administração da CGD funcione, como
aconteceu no passado, concedendo crédito que nada tinha a ver com os
objetivos que devem ser o de um banco público, não tendo em
consideração nas suas decisões, nomeadamente em
relação aos grandes créditos, uma análise rigorosa
do risco como os dados anteriores confirmam, pois as suas decisões eram
muitas vezes orientadas por critérios partidários ou de
amiguismo.
3. A QUEBRA CONTINUADA VERIFICADA NO NEGÓCIO BANCÁRIO: uma
consequência do contexto económico, da falta de objetivos claros
definidos pelo governo, e de uma gestão que se revelou incapaz para
responder às necessidades da economia
A CGD não disponibiliza de uma forma sistemática nos seus
relatórios o volume de novo crédito concedido
(produção nova), o que é um indicador da falta de
transparência que existe, no entanto os dados da evolução
do crédito tanto bruto como liquido revelam que o novo crédito
(produção nova) não tem sido suficiente para compensar o
crédito amortizado mais o crédito liquidado, mais o
crédito abatido ao ativo mais o crédito vendido, cujos dados
não são públicos
(mais um indicador da falta de transparência existente nas contas da CGD)
já que o saldo tanto bruto como liquido da carteira de crédito
tem diminuído de uma forma continuada nos últimos anos, o que tem
acontecido também em outros bancos.
O gráfico 2, com dados das contas da CGD do período 2008-2016,
mostra a variação do crédito bruto, do crédito
líquido e das imparidades acumuladas no período referido.
Portanto, até 2010 verificou-se um aumento do crédito concedido
pela CGD já que o crédito bruto aumentou 7.085 milhões
(+9,1%), o crédito liquido cresceu 6.596 milhões
(+8,8%) e as imparidades acumuladas subiram 489 milhões (+23,1%).
No entanto, a partir de 2010 verificou-se uma descida continuada do
crédito já que, entre 2010 e Set.2016, a carteira de
crédito bruto diminuiu em 14.579 milhões (-17,2%), e a de
crédito liquido reduziu-se em 17.352 milhões , mas
imparidades acumuladas aumentaram em 2.773 milhões (106,3%).
O gráfico 3, construído com dados do Relatório e Contas da
CGD de 2015 (pág. 83) mostra de uma forma clara que o crédito
novo (produção nova) concedido a empresas não tem sido
suficiente nem para compensar o crédito amortizado.
Em 2015, o novo crédito concedido a empresas (produção
nova) totalizou 5.550 milhões , mas o crédito amortizado
pelas empresas somou 5.894 milhões , o que determinou que a
carteira de crédito a empresas tenha diminuído em 344
milhões Isto revela que a produção nova não
foi suficiente para compensar o crédito amortizado pelas empresas.
O gráfico 3 mostra também o crédito novo e o
crédito amortizado por segmentos, informação que é
só divulgada em 2015, e não em outros anos, e a conclusão
que se tira é que, pelo menos em 2015, o crédito novo concedido a
micro e PME´s (3216 milhões ) foi superior ao crédito
amortizado (2970 milhões ) verificando-se um saldo positivo de 246
milhões que não foi suficiente para compensar os saldos
negativos registados nos restantes segmentos de empresas. No entanto, estes
dados mostram as potencialidades do crédito de que tanto necessitam as
micro e PME´s não aproveitadas pela CGD.
Em 2015, o saldo do crédito à habitação
propriamente dito diminuiu em 912 milhões . Apenas o
crédito a particulares para "outros fins", que atualmente
inclui não só o consumo mas também uma parcela de
habitação, é que o saldo foi positivo pois aumentou em 333
milhões .
Face a esta continua redução da carteira de crédito da
CGD, o desafio que se coloca à nova administração, que
não deixa de ser uma missão difícil atendendo ao contexto
existente
(crise económica prolongada/crescimento económico anémico)
é inverter esta queda continuada do crédito, que resulta do novo
crédito concedido não ser suficiente para compensar o
crédito amortizado, o crédito liquidado, o que é abatido
ao ativo e também aquele que é vendido (NPL). E isto se se
quiser apoiar a economia e o desenvolvimento do país. E neste campo cabe
ao governo, como acionista único da CGD, definir com clareza que setores
da economia e que tipos de empresas devem ser preferencialmente apoiados a fim
de impedir que a CGD seja utilizada, como no passado, para promover a
especulação imobiliária e financeira causando elevadas
distorções no crédito concedido e na economia, com pesados
prejuízos para o país e para os contribuintes.
Mas isso terá de ser feito, não como aconteceu no passado, em que
foram privilegiados setores que não contribuem para o crescimento
sustentado da economia e do desenvolvimento, mas fundamentalmente a atividade
produtiva, e também acautelando os interesses dos detentores das
poupanças entregues à gestão da CGD, que são os
depositantes e os contribuintes, o que exige a aplicação na CGD
de uma análise rigorosa de risco que, segundo a anterior
administração, não vigorou na CGD.
De acordo com as declarações feitas na COF da Assembleia
República, em 4.1.2017, António Domingues não acreditava
no aumento do negócio bancário enquanto não se registar um
crescimento económico significativo e, por essa razão, a CGD,
segundo ele, só poderá alcançar lucros (200M em 2017
e 700M em 2019) pela via da redução dos custos operacionais
(fechando balcões e reduzindo os trabalhadores), através da
redução das imparidades e por meio da venda de ativos não
estratégicos, o que é muito limitativo.
4. AS ELEVADAS IMPARIDADES CONSTITUÍDAS E A CONSTITUIR: a
confirmação de uma política de crédito que lesou o
país e os contribuintes e que não se baseou numa
avaliação rigorosa do risco cujas responsabilidades urge apurar
As imparidades correspondem a crédito concedido que, com fundamento, se
prevê que não será recebido, o que significa uma perda
(prejuízo). No período 2010 a Set.2016, a CGD teve de constituir
os seguintes montantes de imparidades.
A CGD registou, no período 2008-Set.2016, 8.872 milhões de
imparidades , sendo 5.706 milhões em mau crédito
concedido, e 3.167 milhões em maus investimentos financeiros
realizados. Para além disto, o relatório e contas do 3º
Trim.2016 da CGD refere-se que "
durante os meses de julho a setembro de 2016, os valores registados em
imparidades resultam exclusivamente da periocidade dos valores previstos no
orçamento de 2016
" e que "
o plano de recapitalização prevê um aumento de capital de
até 2.700 milhões para cobrir as necessidades de imparidades
referidas".
Se este aumento de capital for utilizado na sua totalidade para cobrir
imparidades por crédito concedido, as imparidades constituídas
para cobrir mau crédito maus investimentos no passado atingirá,
no período 2010-2016, o impressionante montante de 8.872 milhões
, o que corresponde a 11,2% da carteira de crédito bruta existente
em 2015, o que já dá uma ideia do custo da má
gestão na CGD.
O ex-presidente da CGD, António Domingues, nas declarações
que fez, em 4.1.2017, na COF da Assembleia da República referiu que
tinha feito uma nova avaliação
(um a um)
dos créditos individualmente significativos
(créditos superiores a 3 milhões )
e que, com base numa avaliação conservadora feita a esses
créditos, tinha concluído que era necessária
reforçar as imparidades constituídas em mais 2.700 milhões
. E este enorme aumento (reforço) de imparidades tem como causa
créditos individualmente significativos concedidos a grandes empresas e
a grupos económicos que se preveem que não serão
recebidos, o que faz aumentar o valor anterior de imparidades de 5.795
milhões 8.405 milhões de perdas só no mau
credito concedido
(11.572 milhões de imparidades totais),
que são perdas enormes. Mais uma consequência de uma
política de crédito que não se adequava a um banco
público e às necessidades de crescimento económico
sustentado e de desenvolvimento do país.
O desafio que se coloca à nova administração da CGD
é, perante estas enormes perdas de crédito previstas, analisar
como e porquê, e quem foi fundamentalmente beneficiado com elas, e tomar
medidas para inverter as situações em que isso é ainda
possível, através da recuperação de uma parte
significativa desse crédito. E isto porque embora se tenham
constituído imparidades isso não significa obrigatoriamente a
totalidade desse crédito, mesmo o coberto com imparidades, esteja
totalmente perdido. E para o futuro, aplicar uma análise rigorosa do
risco para reduzir a necessidade de constituir novamente enormes imparidades,
pois só isso contribuiria para a CGD apresentar rapidamente resultados
positivos. A auditoria anunciada pelo governo e já comunicada à
CGD pode dar uma ajuda importante quer no apuramento de responsabilidades quer
na introdução de procedimentos que evitem, no futuro,
prejuízos de igual dimensão. Esta é uma área
critica a monitorizar pelo acionista Estado, nomeadamente a capacidade da nova
administração para não se submeter a interesses poderosos
que naturalmente se movimentarão para impedir as ações
para recuperar, pelo menos, uma parte desses créditos significativos e
para não continuar a beneficiar mais as grandes empresas na
concessão de crédito, e com base nos resultados obtidos avaliar a
nova administração.
Finalmente, interessa lembrar que os 2.700 milhões de imparidades
que o ex-presidente ainda considerava ser necessária constituir, se
forem constituídas pela nova administração, e se depois
uma parte delas forem consideradas excessivas porque se conseguiu recuperar uma
parcela desse crédito, até porque o cálculo das
imparidades foi muito conservador, como Antonio Domingues reconheceu na
Assembleia da República, elas deverão ser revertidas,
constituindo lucros da CGD financiados pela própria
capitalização, o que é importante não esquecer.
Este é um procedimento que poderá ser utilizado para aumentar os
prejuízos atuais, e alcançar rapidamente lucros no futuro, que
interessa estar atento até para não atribuir injustificadamente
como um resultado da ação da nova administração.
5. OS RECURSOS DE CLIENTES: a dimensão do Ativo da CGD financiado com
recursos de clientes e sua elevada importância no "funding" da
CGD
A CGD é um dos bancos onde os recursos de clientes representam uma
parcela significativa do seu "funding". Nas declarações
que António Domingues fez na COF da Assembleia da República em
4.1.2017, afirmou que os recursos dos clientes representavam mais de 90% dos
recursos da CGD. Segundo o relatório e contas do 3º Trimestre de
2016, o rácio de transformação (crédito
liquido/depósitos) era apenas de 90%, portanto por cada 100 de
depósitos obtidos a CGD emprestava apenas 90.
O quadro 2 mostra com maior clareza e com maior rigor, para o período
2008- 2015, a percentagem do Ativo da CGD que foi financiado com recursos de
clientes.
No fim de 2015, 73,6% do financiamento do Ativo Bruto da CGD (do seu "
funding
") tinha como fonte os recursos de clientes em depósitos ou
representados por títulos. Portanto, a manutenção destes
elevados recursos na CGD é uma questão vital para o
equilíbrio financeiro da CGD e para a sua capacidade de conceder
crédito à economia e às famílias. A nível de
depósitos tem-se verificado alguma volatilidade com revela o
gráfico 4.
O gráfico revela, por um lado, uma tendência de crescimento
continuado dos recursos de clientes que resulta da confiança que os
portugueses têm na CGD e, por outro lado, a existência de uma
volatilidade causada por qualquer acontecimento que possa afetar essa
confiança (
(risco reputacional)
). A instabilidade que se verificou ao longo do último ano relativamente
à administração da CGD bem como a permanente
"guerrilha" do PSD e do CDS contra o banco público, a que se
juntou taxas de juro pagas pelo Estado mais atrativas
(na banca as taxas de juro brutas oferecidas por depósitos já
rondam os 0,4%/ano, enquanto os Certificados do Tesouro Poupança Mais,
por ex., oferecem logo no 1º ano 1,25% que cresce todos os anos até
atingir pelo menos 3,25% ao fim de 5 anos);
repetindo a associação de todos estes fatores teve como
consequência, para a CGD, a perda de 1.778 milhões de
recursos, em 9 meses de 2016.
Portanto, o desafio futuro que se coloca à nova
administração da CGD é recuperar o nível de
confiança dos portugueses que existia no passado, para assim recuperar a
tendência de crescimento continuado de recursos, o que pressupõe,
por um lado, estabilidade e uma gestão que inspire confiança e,
por outro lado, capacidade para responder à concorrência num
contexto muito difícil de taxas baixas com reduzida
atração sobre os clientes, e de estagnação da
poupança, e a necessidade de baixar taxas para aumentar a margem
financeira num contexto de queda do negócio bancário.
6. OS INDICADORES DE EFICIÊNCIA E A NECESSIDADE DE NÃO CONTINUAR A
SACRIFICAR OS TRABALHADORES DA CGD
Um indicador utilizado para medir a eficiência de um banco é o
chamado
"cost-to-income",
o rácio que se obtém dividindo os custos operacionais
(despesas com pessoal, gastos gerais administrativos e
amortizações)
pelo Produto bancário. O gráfico 5, mostra a
evolução a registada.
O gráfico 5, mostra que os valores do "
cost-to-income
" da CGD em 2016 continuam a ser superiores aos registados no inicio da
crise (2007) e do valor ideal que, segundo o Banco de Portugal, é 50%,
muito difícil de alcançar se o negócio bancário
não aumentar. No entanto, se no lugar de utilizarmos o Produto
Bancário, que é influenciado pelos resultados de
operações financeiras (
muitas delas especulativas)
que são altamente voláteis e não fazem parte do "
core business
" de um banco comercial, e ainda mais de um banco público, e se
utilizarmos o "
Produto Bancário core
", que se obtém somando a Margem Financeira às
Comissões liquidas, portanto o que resulta da atividade "core"
e não especulativa do banco
(sem operações financeiras)
, e se com base no valor assim obtido calcularmos dois indicadores de
eficiência
Rácio Custos Operacionais/Produto bancário "core"
e "
Rácio Despesas com Pessoal/Produto bancário core"
obtemos para estes rácios de eficiência os resultados que
estão no gráfico 6.
Embora tanto o
"Rácio Custos Operacionais / Produto bancário core"
como o "
Rácio Custos de Pessoal/Produto bancário core"
apresentem em Set.2016
(últimos dados disponíveis)
valores superiores aos do inicio da crise (2007), no entanto estes indicadores
registaram a partir de 2013 uma importante redução. E isto apesar
de se ter verificado uma quebra para menos de metade do "Produto
bancário corre" causada pela redução para menos de
metade da Margem Financeira como mostram os dados do quadro 3,
consequência da quebra verificada no negócio bancário
determinado pela crise e pela incapacidade da banca responder às
necessidades das empresas neste contexto, porque pedidos de crédito
não faltaram, o que faltou foi empresas que dessem um mínimo de
garantias do reembolso dos créditos concedidos à banca. E neste
contexto difícil não foram criados os instrumentos adequados
às micro e PME´s
(ex.: Fundos garantia de operações de crédito que
servissem efetivamente a maioria das PME´s a obter credito junto da banca
de que tanto necessitavam)
para que as empresas pudessem dar as garantias mínimas exigidas pelos
bancos.
Entre 2007 e 2015, o "Produto bancário core" reduziu-se em 30%
(- 727,4 milhões ), pois passou de 2.426,8 milhões
para 1.699,4 milhões . Esta redução tão
elevada no "Produto bancário core" foi causada pela quebra na
Margem Financeira que diminuiu em 41,5% (- 844 milhões ), pois as
Comissões Liquidas até aumentaram neste período em 29,5%.
A queda abrupta na Margem Financeira teve como causas principais a
redução muito grande no rendimentos dos juros do crédito
concedido, determinada pela quebra do negócio bancário, pelo
disparar do incumprimento que obrigou os bancos a abater muito crédito
ao ativo ou a vendê-lo muitas vezes a preço de saldo, bem como
pelas taxas de juro indexadas ao "Euribor" que os bancos nunca
previram que fossem negativas, tal como a banca nos Estados Unidos nunca
admitiu que o valor das habitações descesse porque, segundo ela,
sempre tinha aumentado
(a análise deste risco esteve também sempre ausente no nosso
país e agora queixam-se).
Interessa observar que a redução da Margem Financeira teria sido
ainda maior, se os encargos com os juros de depósitos não
tivessem sofrido uma redução muito mais elevada. Como mostram os
dados do quadro 3, os juros de operações ativas, que são
fundamentalmente os créditos concedidos, diminuíram em 49,5%, mas
os juros pagos aos depositantes reduziram-se em 53,6%. As taxas de juros de
depósitos atingiram já um nível tão baixo que
é impossível atrair poupanças com juros tão baixos,
ou então conter, e muito menos aumentar, a Margem Financeira com mais
redução das taxas de juro pagas pelos depósitos
bancários.
Portanto
o aumento do negócio bancário é, como referimos já
anteriormente, certamente o desafio mais importante que terá de
enfrentar a nova administração, e pelo qual terá
também de ser avaliada
, até porque a redução dos Custos operacionais e, dentro
destes dos custos de Pessoal tem limites que não podem ser ultrapassados
(entre 2009 e Set. 2016, a CGD fechou 128 agências em Portugal, e
só num ano - Set.2015/Set.2016 reduziu o numero de trabalhadores
no nosso país em 582)
pois, caso contrario, põe-se em causa a eficácia e a viabilidade
da própria CGD, como a entidade bancária mais importante a operar
em Portugal.
O quadro 4, completa a análise anterior pois permite comparar a CGD com
outros bancos.
Como rapidamente se conclui a situação da CGD não é
diferente da dos outros bancos, e nos indicadores "
recursos de clientes por balcão e por trabalhador
", "
custos operacionais por volume de negócios
" e "
volume de negócios por colaborador
" até está em melhor posição.
7. O NEGÓCIO RUINOSO PARA A CGD FEITO PELA MINISTRA MARIA LUÍS
ALBUQUERQUE COM A FOSUN AQUANDO DA PRIVATIZAÇÃO DA FIDELIDADE
O governo do PSD/CDS, aquando da privatização da companhia de
seguros FIDELIDADE fez um acordo com o grupo chinês
FOSUN
com a duração de 20 anos que é ruinoso para a CGD e que
é, por isso, necessário renegociar. Segundo esse acordo imposto
pelo Ministério das Finanças, a CGD recebe pelos seguros que
vende da FIDELIDADE em exclusivo nos seus balcões, apenas metade da
comissão que é praticada no mercado. Segundo o relatório e
contas de 2015, a CGD recebeu 43,4 milhões de comissões,
quando devia ter recebido 87 milhões . Para o período de 20
anos tal acordo aprovado por Maria Luís Albuquerque representa um
prejuízo para CGD de, pelo menos, 880 milhões . É de
prever que o prejuízo efetivo até seja superior a 1.000
milhões , já que a nossa estimativa foi feita com base na
receita de 2015, e é de prever que ela cresça todos os anos
até pelo efeito do aumento dos prémios de seguros.
Portanto, renegociar este acordo leonino em que os interesses da CGD não
foram tidos em conta, e eliminar este prejuízo anual para a CGD é
também um desafio que se coloca à nova
administração, e pelo qual terá também de ser
avaliada.
8. CAPITAL, SITUAÇÃO LIQUIDA, SUCESSIVAS
RECAPITALIZAÇÕES E RÁCIOS DE CAPITAL
O quadro 5, mostra a evolução dos Capitais Próprios da CGD
no período 2000- Set/2016.
No período 2000-2016, a CGD foi recapitalizada com 3.650 milhões
, mas foi fundamentalmente após o inicio da crise em 2007 que, com
o acumular de prejuízos, causados pela má gestão
(analisada anteriormente)
e pela crise, que teve e tem efeitos significativos nas
instituições financeiras
( não permitiu também absorver as consequências da
má gestão anterior, tornando-a até mais visível)
Entre 31/12/2007 e Set/2016, a CGD foi recapitalizada com 2.800 milhões
em "cash" e, no entanto, os seus Capitais Próprios
só aumentaram em 171 milhões , o que significou que a
diferença (2.629 milhões ) foi totalmente
"comida"
pelos elevados prejuízos acumulados neste período. Como
consequência, os rácios de capital tiveram a seguinte
evolução
(caíram).
Portanto, a delapidação dos Capitais próprios determinou
que os rácios de capital se reduzissem para valores que não
são aceitáveis pelo supervisor, por um lado, e, por outro lado,
limitava a CGD na concessão de crédito pois a concessão de
crédito "come"
capital,
ou seja, exige Capital pois está ligada por rácios impostos
pelo supervisor
(para dar mais crédito é preciso ter mais capital).
Entre Dez.2015 e Set. 2016, o CET 1 diminuiu de 10,9% para apenas 10,2%, e o
rácio total reduziu-se, no mesmo período, 12,3% para 11,3%.
Portanto, a recapitalização da CGD tornou-se necessária e
visa, por um lado, eliminar os 2.662,6 milhões de prejuízos
acumulados na CGD através de uma operação de
harmónio (os prejuízos desaparecem, e reduz-se o capital social
aumentado em igual montante); reforçar as imparidades por crédito
que se prevê também não receber, o que vai determinar mais
prejuízos
(tornam-se visíveis),
e aumentar o CET1 para 12,5%, como afirmou António Domingues na COF da
Assembleia da República em 4.1.2017, pois, segundo ele, é o valor
o mínimo que considerava necessário para a CGD manter a sua
posição de leader no mercado bancário e para poder
conceder crédito.
Como os Ativos ponderados pelo risco (RWA total) da CGD, em 31.12.2015, somavam
60.300 milhões (contas consolidadas), e como o CET 1 no 3º
Trim.2016 tinha o valor de 10,2% (atualmente deverá rondar os 10%), para
aumentar este rácio de capital para os 12,5% que referiu Antonio
Domingues, seria necessário a recapitalizar a CGD, aumentando o seu
capital após o reforço das imparidades e da
operação de harmónio, em mais 1.500 milhões
(cash).
O desafio que se coloca naturalmente à nova administração
da CGD neste campo, é obter rapidamente resultados positivos que
permitam, por um lado, remunerar o acionista que é o Estado como
acontecia no passado
(entre 2000 e 2010, a CGD entregou ao Estado, constituindo receita do
Orçamento do Estado, 2.646 milhões de dividendos, o que
é muitas vezes esquecido pelos media e por aqueles que defendem a
privatização da CGD)
; e, por outro lado, continuar a recapitalização da CGD, sem
necessidade de mais fundos públicos, e assim satisfazer as
exigências de mais capital do supervisor e, simultaneamente, fortalecer a
CGD como a maior e mais importante instituição financeira do
país, para poder promover, de uma forma sustentada, o crescimento
económico e o desenvolvimento do país. E é também
pelos resultados obtidos neste campo, que a nova administração
terá de ser avaliada.
9. OS DESAFIOS QUE SE COLOCAM AO ATUAL GOVERNO
A experiencia tem mostrado, e análise feita comprova isso, que deixar a
administração da CGD em autogestão, orientando-se apenas
pelos critérios do mercado como alguns defendem, sem quaisquer
orientações claras do único acionista, que é o
Estado representado pelo governo, como tem acontecido no passado, é
altamente lesivo para o país e para os contribuintes, já que
são fundamente estes que têm de suportar as consequências
não só do mau crédito concedido, sem atender às
necessidades do país e sem uma rigorosa análise de risco, mas
também a aplicações financeiras de elevado risco com
consequências desastrosas, bem como de outros atos de gestão que
não têm em conta nem os interesses do acionista, nem do
país, nem das populações nem dos trabalhadores da CGD.
Isto não significa a intervenção do governo na
gestão concreta, mas sim a criação de um quadro de
exigência e de responsabilização dos gestores por má
gestão que não existe como a experiência mostra.
E aqui colocam-se várias questões que, a nosso ver, merecem uma
atenção especial. A primeira, é em relação
à politica de crédito da CGD como banco público que tem
obrigações especiais. A segunda, em relação
às obrigações sociais da CGD quer em relação
aos seus trabalhadores quer em relação às
populações. E a terceira, refere-se à necessidade das
contas da CGD, como banco público, serem mais transparentes e permitirem
o escrutínio não só dos depositantes mas também dos
contribuintes que são aqueles que, em última instância,
têm de suportar as consequências da má gestão.
A CGD, COMO BANCO PÚBLICO, DEVE PROMOVER O CRESCIMENTO E O
DESENVOLVIMENTO E NÃO A ESPECULAÇÃO COMO SUCEDEU NO
PASSADO.
Em relação à politica de crédito da CGD é
fundamental que na carta de missão a aprovar pelo governo fique claro
que setores e tipos de empresas devem ser preferencialmente apoiados
( é inaceitável que a CGD apoie setores especulativos em
prejuízo dos setores produtivos como aconteceu no passado; é
inaceitável
que a
CGD apoie a compra de ativos financeiros como sucedeu passado (Joe Berardo,
Manuel Fino, etc.) mas também muito recentemente com a compra da EFACEC
por um grupo angolano, compra esta financiada pela CGD e por outros bancos a
operar em Portugal
); é igualmente inaceitável que tenha concentrado mais de 70% do
crédito concedido num número reduzido de grandes empresas
(elevado risco de concentração)
, desprezando o apoio às micro e PMEs. É necessário na
"
Carta de missão"
para a CGD que o governo venha a aprovar fique estabelecido que os
créditos de montante elevado são da responsabilidade de todo
conselho de administração, não podendo ser delegada tal
competência, obrigando o conselho de administração a
aprovar e sempre com base nos relatórios dos serviços de
análise de crédito e de análise risco que devem
obrigatoriamente os acompanhar, com o objetivo de responsabilizar
individualmente todos os membros do concelho de administração
pela sua concessão
(para não poder haver depois fugas à responsabilidade).
É evidente que "
Carta de missão"
não tem nada a ver com a chamada "
Carta de orientações
" que já existe, e que estabelece, no fundo, que a CGD atue da
mesma forma que os bancos privados. É necessário uma carta de
missão adequada para um banco público, até para dar
confiança aos contribuintes portugueses que o financiam, e para que na
CGD a culpa não continue a morrer solteira.
A CGD, COMO BANCO PÚBLICO, TEM OBRIGAÇÕES SOCIAIS.
Em relação às obrigações sociais da CGD
como banco público deve constar na carta de missão aprovada pelo
governo, nomeadamente a obrigação de estar presente em todos os
concelhos
(ter um balcão em todos concelhos)
e, de em relação nomeadamente à população
idosa e de baixos recursos, que dificilmente utilizará os
serviços digitais da CGD, esta tem de disponibilizar serviços de
proximidade com comissões reduzidas ou mesmo nulas; e, finalmente, em
relação aos seus trabalhadores, não adotar uma politica de
redução de custos baseada fundamentalmente na
destruição emprego e no congelamento de carreiras e
remunerações, mas sim de respeito pelo emprego e de
valorização das carreiras e remunerações dos
trabalhadores.
AS CONTAS DA CGD, COMO BANCO PÚBLICO, DEVEM SER MAIS TRANSPARENTES.
Apesar dos supervisores BCE e Banco de Portugal serem os mesmos
para todos os bancos a operar em Portugal, a informação
disponibilizada por cada banco no seu relatório e contas varia muito de
banco para banco e, em vários casos, informação
disponibilizada em relatórios e contas de bancos privados é
omitida no relatório e contas do banco público que é a
CGD. Por isso, era importante que a CGD, por uma questão de
transparência, passasse a disponibilizar também no seu
relatório e contas, de uma forma sistemática e não
casualmente, nomeadamente a seguinte informação: (1) O
valor
total do novo crédito concedido durante o ano, do crédito
amortizado, do crédito liquidado por setores de atividade; (2) O
valor
total dos créditos individualmente significativos por setores de
atividade e respetivas imparidades; (3) O valor total do crédito
com
garantias reais, do crédito garantido por ativos financeiros, do
crédito com outras garantias e crédito sem garantias
também por setores de atividade;   (4) Total do crédito
abatido ao
ativo em cada ano por setores de atividade e da carteira vendida com a
indicação do comprador e dos resultados imputados a nível
de contas individuais e consolidadas, (5) O saldo da conta
"991- Créditos abatidos ao ativo",
onde se acumulam os maus créditos concedidos que depois não
são recebidos
(com 100% de imparidades);
(6) As remunerações totais dos trabalhadores e
administradores
(as dos administradores repartidas por cada um deles) desagregadas em fixas e
variáveis.
Era importante tornar a gestão da CGD mais transparente porque só
assim é que a administração se sentiria mais
responsabilizada. E os supervisores
(BCE e Banco de Portugal)
tem uma responsabilidade muito grande na normalização da
informação que deverá obrigatoriamente ser divulgada em
todos os relatórios dos bancos pois é fundamental para tornar a
atividade bancária mais transparente, mais responsável e que
dê mais confiança aos portugueses. Esperamos também que a
nova ISA 701 que obriga os auditores a comunicar as matérias relevantes
no relatório de auditoria possa contribuir também para isso. E
isto porque quem se dê ao trabalhar de comparar a
informação divulgada nos relatórios dos vários
bancos rapidamente conclui que a informação essencial varia muito
de banco para banco e muitas vezes de ano para ano, ou é ocultada, o que
gera confusão e insegurança pois parece que ela se adapta
às conveniências e interesses da entidade que a divulga.
21/Janeiro/2017
[*]
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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