A redução extraordinária do défice em 2007 foi
conseguida também à custa dos desempregados e dos reformados com
pensões mais baixas
RESUMO DESTE ESTUDO
Numa conferência de imprensa dada pelos ministros das Finanças e
do Trabalho em 21 de Janeiro de 2008, estes manifestaram
satisfação porque o défice em 2007 seria mesmo inferior ao
previsto inicialmente pelo governo que era de 3% do PIB o qual, por sua vez,
já era inferior ao défice de 3,7% que o governo se tinha
comprometido com a Comissão Europeia. No entanto, esses ministros
não explicaram com clareza como essa proeza governamental
foi conseguida.
De acordo com os dados divulgados pela DGO do Ministério das
Finanças, com base na Contabilidade Pública e não na
Contabilidade Nacional, que é a que serve para calcular o défice
enviado para Bruxelas, o saldo negativo global do Subsector Estado mais o da
Segurança Social passou, entre 2006 e 2007, de -4,1% do PIB para -2,5%
do PIB. Esta redução foi conseguida através da
diminuição do défice do Subsector Estado de -4,6% do PIB
para -3,2% do PIB, e do aumento do excedente da Segurança Social de 0,5%
do PIB para 0,7% do PIB entre 2006 e 2007.
A redução do défice do Subsector Estado foi conseguida,
como explicamos em estudo anterior através da redução
continuada do poder de compra dos trabalhadores e aposentados da
Administração Pública, do congelamento das carreiras, por
meio de cortes significativos do investimento público e do agravamento
da injustiça fiscal. O aumento do excedente da Segurança Social
foi conseguido também através da diminuição das
pensões, nomeadamente dos trabalhadores com salários mais baixos,
e por meio da redução do apoio aos desempregados.
Como revela uma amostra de casos concretos que analisamos, que constam deste
estudo (Quadro I), os trabalhadores com salário e pensões mais
baixas sofreram nas suas pensões reduções que, em euros,
variam entre 39,85 euros e 79,53 euros e, em percentagem, entre 9,2% e 18,4%
devido à formula de cálculo única de pensão
aprovada pelo governo em 2007. Em média a redução atingiu
63,93 euros e, em percentagem, -14,7%. Para quem recebe uma pensão
inferior a 400 euros é certamente uma redução muito grande
que urge alterar. E tudo isto com a agravante de estar a atingir também
trabalhadores que quando caíram na situação de desemprego,
a Segurança Social ter informado que, quando se reformassem, iriam
receber uma pensão com um determinado valor e, agora, quando passam
à situação de reforma é-lhes atribuída uma
pensão de valor muito mais baixo. Como consequência desta
politica de redução das pensões, em 2007, os pagamentos de
pensões foram inferiores ao inicialmente previsto em 244,6
milhões de euros. Em 2008, a redução nas pensões
ainda será maior com a entrada em vigor do factor de sustentabilidade,
que é um factor que reduz também as pensões.
Outro meio que o governo está a utilizar para aumentar o excedente da
Segurança Social e assim reduzir o défice, é precisamente
a redução do apoio aos desempregados. Para isso publicou em
Novembro de 2006 o Decreto-Lei 220/2006 que alterou, para pior, a
concessão do subsidio de desemprego. Como consequência
verificou-se uma redução muito acentuada em 2007 do número
de desempregados a receber subsídio de desemprego. Entre Janeiro de 2006
e Junho de 2007, a redução foi de 49.240, no entanto, 31.386, ou
seja, 63,7% daquele total verificou-se precisamente entre Janeiro e Junho de
2007. E como resultado desta redução registou-se uma descida
acentuada na despesa da Segurança Social com o pagamento do
subsídio de desemprego. De acordo com Boletim da DGO de Dezembro de
2007, entre 2006 e 2007, a despesa com o subsidio de desemprego baixou de
1.837,7 milhões de euros para 1.688,7 milhões de euros, ou seja,
menos 149 milhões de euros, quando nos anos anteriores tinha sempre
aumentado (Quadro IV).
Em resumo, o governo no lugar de optar por um combate mais eficaz à
fraude e evasão no pagamento das contribuições à
Segurança Social (em 2006, o governo só arrecadou da divida cerca
de 238 milhões de euros e, nesse ano, de acordo com o Relatório
do OE2008-pág.278-, a divida à Segurança Social aumentou
em 897,7 milhões de euros, o mesmo devendo ter sucedido em 2007 em que a
divida recuperada atingiu apenas 313,7 milhões de euros); repetindo o
ministério do Trabalho no lugar de melhorar o combate à
evasão e fraude, cujos resultados são manifestamente
insuficientes, optou por reduzir as pensões, mesmo as mais baixas, e
diminuir o apoio aos desempregados. É uma clara opção de
classe pois com o combate à fraude e evasão são atingidas
fundamentalmente entidades patronais.
Finalmente, o elevado saldo global positivo da Segurança Social em 2007
(+ 1.147,5 milhões de euros) vem confirmar que eram falsas as
previsões feitas pelo governo constantes do seu Relatório
de Sustentabilidade da Segurança Social , no qual se previa para
2007 um défice de -306,5 milhões de euros a preços
correntes. E foram estas previsões erradas que depois o governo utilizou
para a justificar a introdução de medidas que estão a
determinar a redução nas pensões, mesmos das
próximas do limiar da pobreza.
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Na entrevista que os ministros das Finanças e do Trabalho deram em
21/01/2008 à comunicação social, onde se congratularam
pela redução do défice em 2007 para além dos 3%
inicialmente previsto, um dos aspectos referidos foi o elevado excedente
obtido pela Segurança Social. Explicar como foi conseguido esse
excedente, muito para além do previsto pelo governo, é o
objectivo deste estudo.
UMA REDUÇÃO DO DÉFICE PARA ALÉM MESMO DO PREVISTO
PELO GOVERNO
Como dissémos em estudos anteriores, o governo pretendia reduzir o
défice orçamental em 2007 para 3% do PIB. Este valor já
representava uma redução relativamente ao que constava do
Programa de Estabilidade e Crescimento 2006-2010 de 3,7%, que era o
compromisso que tinha sido assumido com a Comissão Europeia. Agora vem
dizer que o défice orçamental em 2007 foi inferior aos 3%. O
quadro seguinte dá já uma ideia do que se verificou em 2007, e
como essa redução extraordinária do défice foi
também conseguida.
Embora os valores dos défices constantes do quadro não sejam os
que são enviados pelo governo à Comissão Europeia (os do
quadro são os da Contabilidade Publica, e os enviados a Bruxelas
são os da Contabilidade Nacional), mesmo assim os dados constantes deste
quadro dão já uma ideia clara da diminuição
verificada em 2007 e como ela foi conseguida.
A redução do défice do subsector Estado de -4,6% do PIB em
2006 para -3,2% do PIB em 2007, que representa uma diminuição de
1.904,1 milhões de euros entre 2006 e 2007, foi conseguida, como
já mostramos em estudos anteriores, fundamentalmente à custa da
redução continuada do poder de compra dos trabalhadores e
aposentados da Administração Pública, do congelamento das
carreiras, da redução do investimento público e do
agravamento da injustiça fiscal.
Para além disso, aquela redução extraordinária do
défice foi também conseguida através da
criação de elevados excedentes na Segurança Social. E isto
o que se analisará seguidamente, para ficar claro a forma como o governo
tem utilizando a Segurança Social com esse fim.
A CRIAÇÃO DE UM ELEVADO EXCEDENTE NA SEGURANÇA SOCIAL
À CUSTA DE UMA REDUÇÃO MAIOR DAS PENSÕES MAIS BAIXAS
Em estudo anterior mostramos que a passagem do cálculo da pensão
de três formas para o cálculo da pensão com base apenas
numa média ponderada ou proporcionada estava a determinar, para os
trabalhadores de salários e pensões mais baixas (entre 300 e 400
euros) reduções muito significativas no valor das pensões.
Depois de termos publicado esse estudo, recebemos muitas mais provas
(fotocópias dos documentos emitidos pela própria Segurança
Social) de mais trabalhadores que sofreram reduções
idênticas. O quadro seguinte, construído com base nesses
documentos da Segurança Social, onde incluímos dados de
identificação do próprio trabalhador para que o ministro
do Trabalho não possa dizer, como fez num debate recente na Assembleia
da República, com a arrogância habitual, que não era
verdade mostra que tal situação é muito mais generalizada.
O mesmo afirmou o assessor de Sócrates, Artur Penedos, que recebeu em
Braga, aquando da cimeira Portugal-Espanha, uma delegação da
União de Sindicatos de Braga que expôs o que estava a acontecer
com os trabalhadores de baixos salários quando se reformam.
Os trabalhadores cujos elementos de identificação constam do
quadro, sofreram nas suas pensões reduções que, em euros,
variam entre 39,85 euros e 79,53 euros e, em percentagem, entre 9,2% e 18,4%
devido à formula de cálculo única de pensão
aprovada pelo governo em 2007 com retroactividade (a formula começou a
ser aplicada referida a 1.1.2007 embora a o Decreto-Lei 187/2007 só
tenha sido publicado em 10 de Maio de 2007). Em média a
redução atingiu 63,93 euros e, em percentagem, -14,7%. Para quem
recebe uma pensão inferior a 400 euros é certamente uma
redução muito grande.
Para ficar mais claro porque razão isso está a suceder interessa
tornar clara para toda a gente a fórmula de cálculo da
pensão que entrou em vigor em 01/01/2007 aprovada pelo governo. Ao
contrário do que sucedia anteriormente em que a pensão era
calculada de três formas com base nos 10 melhores anos dos
últimos 15 anos; com base em toda a carreira contributiva; e com base
numa média ponderada e era atribuído ao trabalhador como
pensão o valor mais elevado; a partir de 01/01/2007 a pensão
passou a ser determinada apenas com base numa média ponderada, cuja
fórmula de cálculo é a seguinte: (1) Multiplica-se a
pensão obtida com base nos 10 melhores anos dos últimos 15 anos
pelos anos de descontos até 31/12/2006; (2) Depois multiplica-se a
pensão calculada com base em toda a carreira contributiva pelos anos de
descontos feitos pelo trabalhador depois de 2006; (3) Seguidamente, somam-se os
dois valores assim obtidos; (4) E, finalmente, divide-se o valor que se
obtém da soma anterior pelo número total de anos de descontos
(os realizado até ao fim de 2006 mais o realizados depois desse ano).
É este o valor da pensão que é atribuída ao
trabalhador que se reforma. O que acontece para os trabalhadores de
salários mais baixos, que está a determinar uma
redução significativa na sua pensão, é que, como
mostra o quadro, a pensão mais baixa, que é calculada com base
nos 10 melhores anos dos últimos 15 anos, é multiplicada pelo
numero maior de anos de descontos, que são os realizados até ao
fim de 2006, enquanto a pensão mais elevada, que é a calculada
com base em toda a carreira contributiva, é multiplicada por um menor
número de anos, que são os realizados depois de 2006. O resultado
é que a pensão calculada desta forma com base na média
ponderada é bastante inferior à calculada com base em toda a
carreira contributiva como mostram os dados do quadro, o que faz baixar o valor
da pensão atribuída ao trabalhador.
A redução na pensão atribuída aos trabalhadores com
salários elevados é menor pela seguinte razão: a
pensão mais elevada destes trabalhadores é a calculada com base
nos 10 melhores anos dos últimos 15 anos, que é multiplicada pelo
numero maior anos de descontos até a 2006, e a pensão mais
baixa, que é a calculada com base em toda a carreira contributiva,
é multiplicada pelo número menor de anos, que são os
realizados depois de 2006. Portanto, embora se verifique também uma
redução na pensão dos trabalhadores com salários
mais elevados ela é inferior à dos trabalhadores com
salários mais baixos, pois verifica-se uma situação
inversa à verificada com os trabalhadores de salários mais baixos
pois, para estes, a pensão mais elevada é a calculada com base em
toda a carreira enquanto para os outros é a calculada com base nos 10
melhores anos dos últimos 15 anos, que é multiplicada pelo maior
número de anos de descontos.
Foi através também deste expediente que o governo de
Sócrates conseguiu obter o elevado excedente na Segurança Social,
que deixou eufóricos os ministros das Finanças e do Trabalho mas
não os trabalhadores que se estão a reformar. É
necessário alterar esta situação que o governo teima em
negar, em relação às pensões baixas, mas que
é cada vez mais visível.
A CRIAÇÃO DE UM ELEVADO EXCEDENTE NA SEGURANÇA SOCIAL
Á CUSTA TAMBÉM DA REDUÇÃO DO APOIO AOS
DESEMPREGADOS
Em 3 de Novembro de 2006 foi publicado o Decreto-Lei 220/2006 que alterou a lei
do subsídio de desemprego. E as consequências para os
desempregados já se estão a tornar visíveis, pois aquela
lei está a determinar uma redução importante e continuada
no apoio aos desempregados como revela o quadro seguinte, construído com
dados constantes das Estatísticas da Segurança Social do
Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social.
Como mostra o quadro, é fundamentalmente em 2007 que se verifica uma
redução importante e continuada no número de desempregados
a receber o subsidio de desemprego pois, entre Janeiro de 2006 e Junho de 2007,
a redução é de 49.240 sendo, no entanto, 31.386, ou seja,
63,7% daquele total entre Janeiro e Junho de 2007.
Como se sabe existem dois tipos de apoio aos desempregados : O subsídio
de desemprego e o subsídio social de desemprego. E o valor do subsidio
de desemprego é muito mais elevado do que o valor do subsidio social de
desemprego, já que o primeiro corresponde a 65% do salário com
base no qual o trabalhador descontava para Segurança Social, enquanto o
subsidio social de desemprego varia em 80% e 100% do IAS (Indexante de Apoios
Sociais), cujo valor em 2008 é apenas de 407,41 euros, portanto menos
que o salário mínimo nacional cujo valor é de 426 euros. E
como consta das Estatísticas da Segurança Social de Dezembro de
2007, no 1º semestre de 2007, e face ao semestre anterior,
registou-se um decréscimo de 5,5% no número de
beneficiários do subsidio de desemprego; em
oposição ocorreu um aumento de 18,7% no número de
beneficiários do subsidio social de emprego. (pág.53).
Como consequência, por um lado, desta redução
significativa do número de desempregados a receber subsidio de
desemprego e, por outro lado, da substituição do subsidio de
desemprego por subsidio social de desemprego, de valor mais baixo, a despesa
com o subsidio de desemprego sofreu, em 2007, uma importante
diminuição como revelam os dados oficiais do quadro seguinte.
Enquanto entre 2004 e 2005 verificou-se um aumento importante da despesa com o
pagamento do subsidio de desemprego (8,6% entre 2004 e 2005), a partir de
entrada em funções do governo de Sócrates verificou uma
descida continuada da despesa com o subsidio de desemprego, tendo-se registado
precisamente em 2007, ano de plena aplicação da nova lei do
subsidio de desemprego, um importante diminuição (menos 149
milhões de euros), que corresponde a uma diminuição
percentual de -8,1%, o que é muito significativa.
OS EXCENTES DA SEGURANÇA SOCIAL CONTINUAM A DESMENTIR A
JUSTIFICAÇÃO APRESENTADA PELO GOVERNO PARA FAZER A SUA
REFORMA DA SEGURANÇA SOCIAL
Um dos argumentos mais utilizados pelo governo para justificar a sua
reforma da Segurança Social eram as grandes dificuldades
financeiras que esta enfrentaria a curto prazo, tendo mesmo previsto elevado
défices a partir de 2005, que a realidade está a mostrar que eram
falsas como facilmente se depreende dos dados oficiais constantes do quadros
seguinte.
No período 2006 e 2008 o governo previa a acumulação de um
Saldo Global Negativo no valor de -441 milhões de euros a preços
constantes de 2006 e de -462,1 milhões de euros a preços
correntes, enquanto o saldo verificado foi positivo e elevado. Efectivamente,
entre 2006 e 2008, o governo previa no seu relatório de sustentabilidade
de 2006 um saldo negativo acumulado de -462,1 milhões de euros a
preços correntes, enquanto o que se verificou foi positivo e atingiu o
elevado montante de +2.560 milhões de euros também a
preços correntes. Os comentários são desnecessários
face à evidência objectiva dos números.
26/Janeiro/2006
[*]
Economista,
edr@mail.telepac.pt
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