Respostas às perguntas feitas pelo semanário
Expresso
mas este diz que não as recebeu e por isso não publica(ou)
Em 26 de Maio de 2014, recebi do
Expresso
um email a solicitar a minha participação num artigo que o
semanário estava a preparar sobre o livro de Thomas Piketty,
"Capital no século XXI",
com cinco perguntas para eu responder. E pedia-me o envio das respostas
até 4ª feira (28 de Maio) por correio eletrónico, o que fiz,
cumprindo assim o prazo estabelecido. Como não recebesse a
confirmação da receção das minhas respostas, apesar
de ter solicitado, enviei nova mensagem pedindo uma resposta, tendo só
então sido informado que não tinham recebido as minhas respostas
(!!!) e que por isso não tinham sido incluídas no artigo do
Expresso,
e não seriam publicadas. Para que os leitores possam ler e avaliar as
respostas às perguntas feitas pelo semanário
Expresso
que não serão publicadas na edição de 31/05/2014
decidi divulgá-las, até porque é previsível que no
Expresso
do próximo sábado serão publicadas opiniões
diferentes sobre as mesmas questões e, assim, os leitores interessados
no contraditório, essencial para uma informação objetiva,
poderão confrontá-las.
1º PERGUNTA FEITA PELO
EXPRESSO
:
A principal contradição do capitalismo (pág. 571 do livro
de Piketty) faz sentido? É de esperar que se mantenha no futuro?
RESPOSTA QUE O
EXPRESSO
AFIRMA NÃO TER RECEBIDO.
O agravamento da desigualdade na repartição do rendimento entre
o Capital e o Trabalho, que tem aumentado ao longo dos anos, e que se agravou
com o domínio do capital financeiro, facilitada pela liberdade total dos
movimentos do capital, e a apropriação parasitária por
este de uma parcela crescente da riqueza, que Piketty prefere designar, para
suavizar, por
"uma taxa de retorno do capital superior ao crescimento do PIB".
não é em si uma causa, mas sim uma consequência de
uma contradição mais profunda que carateriza o capitalismo: o
domínio da economia, quer nacionais quer mundial, pelos grandes grupos
económicos e financeiros e, consequentemente, a
concentração numa minoria cada vez mais reduzida (os 0,1% da
população que refere Stiglitz, premio Nobel da economia) de uma
parcela cada vez maior da riqueza, com a exclusão do resto da
população dos instrumentos de criação de riqueza e
da riqueza, e com a fragilidade crescente dos Estados cada vez mais dominados
pelos grupos económicos e financeiros, muitos deles transnacionais,
ainda por cima apoiados por entidades internacionais (FMI, Banco Mundial,
Comissão Europeia, OMC, etc.) que defendem apenas os seus interesses.
Portanto, enquanto esta contradição fundamental do capitalismo se
mantiver, é inevitável que o agravamento na
repartição do rendimento se mantenha e até se agrave
até porque os instrumento de criação ou
apropriação da riqueza, e própria riqueza, mesmo em
Portugal, se está a concentrar numa minoria cada vez mais reduzida .
2ª PERGUNTA FEITA PELO
EXPRESSO
:
Propostas fiscais: impostos progressivos no IRS e IRC e taxa anual sobre as
fortunas (avaliadas em termos líquidos)
RESPOSTA QUE O
EXPRESSO
AFIRMA NÃO TER RECEBIDO:
Impostos progressivos (que não existem verdadeiramente em Portugal,
basta recordar que, em 2013, alguns escalões mais baixos da tabela de
IRS foram aumentados em 132%, o que não se verificou nos
escalões mais elevados onde alguns tiveram uma subida apenas de 11%) e
um imposto sobre grandes fortunas poderiam suavizar as desigualdades mas nunca
resolveriam a gravidade existente, mesmo em Portugal, na
repartição do rendimento até porque atualmente as grandes
fortunas estão aplicadas principalmente em valores mobiliários, e
com a total liberdade de movimentos de capitais e com os paraísos
fiscais, que só servem para fugir aos impostos, tornam-se
difíceis de calcular, e as receitas obtidas seriam insuficientes. Uma
taxa, que não podia ser ridícula como propõe a
Comissão Europeia, sobre todas as transações financeiras,
e não apenas sobre as transações dos mercados regulados,
assim como a eliminação total dos paraísos fiscais daria
certamente um maior volume de receitas aos Estados.
3ª PERGUNTA FEITA PELO
EXPRESSO
:
Caso português: austeridade agrava a desigualdade pela subida do r; caso
português é a prova da tese de Piketty?
RESPOSTA QUE O
EXPRESSO
AFIRMA NÃO TER RECEBIDO:
No caso português em que a austeridade tem tido como base uma politica
que atinge fundamentalmente as classes médias e as com mais baixos
rendimentos (fundamentalmente trabalhadores e pensionistas) poupando a minoria
rica, o que agravou as desigualdades generalizando a pobreza no país,
confirma a contradição fundamental do capitalismo referida na
resposta à 1ª pergunta. Neste caso concreto o governo e a
"troika" foram instrumentos dos interesses do poder económico,
que toma expressão nos grupos económicos e financeiros que
dominam a economia portuguesa e mundial (os "credores" como gostam de
referir) e, consequentemente, a minoria que os controla (0,1% da
população de que fala o Nobel da economia J. Stiglitz).
4ª PERGUNTA FEITA PELO
EXPRESSO
:
Solução de emergência para a redução do sobre
endividamento público na Europa: taxa extraordinária sobre as
fortunas acima de 1 milhão de euros; justifica-se ou é
preferível optar por meta de inflação mais elevada ou
prosseguir na consolidação orçamental com
geração de excedentes?
RESPOSTA QUE O
EXPRESSO
AFIRMA NÃO TER RECEBIDO:
Cada país é um caso e, em relação a Portugal, a
divida pública atingiu um tal montante (258.391 milhões em
Fev. de 2014, que corresponde já 152,9% do PIB, e que não parou
de crescer este ano) que é impossível de pagar com um crescimento
económico anémico, com uma inflação reduzida, e com
taxas de câmbio fixas e perda da soberania monetária. A
reestruturação da divida pressupõe, não só
redução das taxas de juro e o aumento do período de
amortização mas também um corte significativo dessa divida
pois o país não tem possibilidades de a pagar, sob pena de
sacrifícios insuportáveis impostos aos portugueses. É uma
questão que se vai colocar inevitavelmente. E quanto mais tarde pior
para os portugueses, para o país e para os "credores".
Só a miopia politica do governo e dos partidos que o apoiam, e
infelizmente também do PS, os impede de ver..
5ª PERGUNTA FEITA PELO
EXPRESSO
:
Os erros apontados pelo
Financial Times
são, na sua opinião, justificados e conduzem à não
avaliação da conclusão de Piketty sobre a
evolução a partir dos anos de 1980?
RESPOSTA QUE O
EXPRESSO
AFIRMA NÃO TER RECEBIDO:
É uma questão que, como economista, penso que não
põe em causa a tendência verificada. Quem esteja habituado a
trabalhar com séries longas e referentes a épocas e países
diferentes, sabe bem que o que é importante é a tendência
identificada. E a tendência de agravamento na distribuição
da riqueza e dos rendimentos no capitalismo atual, dominado pelos grandes
grupos transnacionais, em que os governos são meros
serventuários, é indesmentível. Joseph Stiglitz,
prémio Nobel da Economia, num livro que passou despercebido em Portugal
"
O Preço da desigualdade"
já referia que o problema atual mais importante, que estava a
destruir as sociedades, incluindo as ocidentais, é o agravamento brutal
das desigualdades (0,1% cada vez mais ricos e a restante
população com cada vez menos, nos Estados Unidos e nos outros
países) constituindo também isso um obstáculo sério
ao crescimento económico e ao desenvolvimento e sendo um fator
importante do agravamento das tensões e conflitos sociais.
27/Maio/2014
Acerca do livro de Piketty ver também:
A tributação da riqueza
, Prabhat Patnaik
Falemos a sério sobre a desigualdade
, Zoltan Zigedy
O combate à ortodoxia e o ataque à desigualdade do Prof. Piketty
, Charles Andrews
Velhas distribuições, nova economia
, Rick Wolff e Max Fraad Wolff
David Harvey, Piketty and the central contradiction of capitalism
, Michael Roberts
Livros para descarregamento
[*]
Economista,
edr2@netcabo.pt
, autor de
Os Grupos Económicos e o desenvolvimento em Portugal no contexto da globalização
.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
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