A redução do poder de compra em Portugal foi maior do que o
divulgado porque a inflação estava subestimada
RESUMO DESTE ESTUDO
O aumento da taxa de inflação em Portugal tem sido superior ao
divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelos
órgãos de informação. E isto porque a estrutura das
despesas das famílias portuguesas que o INE tem utilizado no
Índice de Preços no Consumidor, que era a de 2000, estava
desactualizada pois já não correspondia à realidade.
O INE realizou em 2005-2006 um inquérito às despesas das
famílias portuguesas. No entanto, ou por razões politicas (os
resultados não interessavam ao governo) ou por quaisquer outras
razões que nunca explicou, só muito recentemente 2ª
quinzena do mês de Março de 2008 é que divulgou os
resultados obtidos. E como era previsível, os resultados mostraram que a
estrutura das despesas das famílias que o INE vinha utilizando para
cálculo do Índice de Preços do Consumidor já
não correspondia à realidade. As classes de despesas cujos
preços têm aumentado mais em Portugal ex.: despesas de
habitação tinham uma importância (peso) na
estrutura das despesas das famílias que era bastante inferior ao
verdadeiro. Este facto determinava que o valor mensal do Índice de
Preços no Consumidor divulgado pelo INE, que serve para medir a
inflação, fosse inferior ao aumento real dos preços em
Portugal.
Assim, segundo o Índice de Preços no Consumidor que o INE
utilizava, o aumento de preços, entre Fevereiro de 2007 e Fevereiro de
2008 (a chamada variação homóloga da taxa de
inflação) foi de 2,86%, enquanto o aumento de preços
calculado com base na estruturas das despesas das famílias dos anos
2005-2006 já é de 3,03%.
Se se calcular o aumento dos preços com base na variação
média anual dos preços, a diferença é ainda mais
clara. Assim, de acordo com o Índice de Preços no Consumidor, que
o INE vinha utilizando e cujos resultados divulgava mensalmente, a subida dos
preços no último ano foi de 2,5%, enquanto tomando como base a
estrutura das despesas das famílias de 2005-2006 o aumento já
é de 2,8%. É evidente que quanto maior for o período
considerado maior é a diferença. Por ex., entre 2002 e Fevereiro
de 2008, os preços aumentaram em Portugal, segundo o INE, cerca de
15,2%, mas se utilizarmos a estrutura das despesas das famílias de
2005-2006 o aumento de preços já rondará os 17,3%, ou
seja, mais 13,8%. Portanto, no período 2002-2008, o efeito da
mudança da estrutura das despesas das famílias
(substituição da estrutura de despesas de 2000, que o INE
utilizava e que estava desactualizada, pela estrutura de despesas de 2005-2006,
que está mais de acordo com a realidade); repetindo, o efeito desta
simples mudança determina que a taxa de inflação em
Portugal seja superior, em media e por ano, em mais 0,365 pontos percentuais ao
valor que o INE divulgava.
Se considerarmos o período 2005-2008, a taxa corrigida com base na
estrutura das despesas das famílias de 2005-2008 (12,1%) é
superior à taxa de inflação divulgada pelo INE (10,8%) em
12%, e à prevista pelo governo para este mesmo período (9%) em
34,4%. É evidente que este facto tem contribuído para reduzir e
ocultar a verdadeira dimensão da perda de poder de compra dos
trabalhadores portugueses e de outros extractos da população
desfavorecidos, como são a esmagadora maioria dos reformados, em
Portugal.
Os trabalhadores têm sido enganados sistematicamente com as
previsões falsas do governo, pois é com base nelas que o governo
tem aumentado as remunerações dos trabalhadores da
Administração Pública, o que tem contribuído para
uma redução muito significativa do seu poder de compra. Mas, para
além disso, todas as classes da população que vivem
nomeadamente de salários e de pensões têm sido
também enganados com os valores de aumento da
inflação divulgados pelo próprio INE, pois estes valores
também não têm traduzido com verdade o aumento real dos
preços em Portugal.
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O aumento dos preços em Portugal tem sido maior do que aquele que o
Instituto Nacional de Estatística (INE) tem divulgado mensalmente. E
isto porque o valor do Índice de Preços do Consumidor do INE
estava subestimada, ou seja, era inferior ao valor do aumento real dos
preços em Portugal. E isto acontecia porque a estrutura de despesas das
famílias utilizada pelo INE nesse Índice estava desactualizada,
ou seja, já não correspondia à estrutura efectiva das
despesas das famílias.
Efectivamente, o INE realizou em 2005-2006 um inquérito às
despesas das famílias portuguesas. No entanto, ou por razões
politicas (os resultados não interessavam ao governo) ou por quaisquer
outras razões que nunca esclareceu, só muito recentemente
2ª quinzena do mês de Março de 2008 é que
divulgou os resultados obtidos. E como era previsível, os resultados
mostraram que a estrutura das despesas das famílias que o INE vinha
utilizando para cálculo do Índice de Preços do Consumidor,
que era de 2000 embora actualizado com base nos preços médios de
2002, já não correspondia à realidade. Efectivamente,
classes de despesas cujos preços estavam aumentar mais em Portugal
ex.: despesas de habitação tinham uma
importância (peso) na estrutura das despesas das famílias de
acordo com o inquérito de 2000 inferior ao que têm actualmente.
Este facto determinava que a subida do valor do Índice de Preços
no Consumidor fosse inferior ao aumento real dos preços em Portugal.
O quadro seguinte mostra a diferença das estruturas das despesas das
famílias com base no inquérito de 2000, e no inquérito de
2005-2006 assim como o ritmo de crescimentos dos preços das diferentes
classes de despesas verificado no último ano (Fev2007 a Fev2008).
Entre 2000 e 2005-06, e relativamente ao orçamento das despesas das
famílias portuguesas, o peso das despesas com "produtos alimentares
e bebidas não alcoólicas" diminuiu 17,1%, pois passou de
18,7% do total para 15,5% (se se considerar a estrutura de 2000, mas
actualizada com nos preços médios de 2002, a
redução é de 22,8), enquanto o peso das despesas das
famílias com a "Habitação, despesas de água,
electricidade , gás e outros combustíveis" aumentou em
34,3%, pois passou de 19,8% das despesas totais das famílias portuguesas
para 26,6% desse mesmo total ( se se considerar a estrutura de 2000, mas
actualizada com base nos preços de 2002, o aumento é de 165,2%) .
E entre Fevereiro de 2007 e Fevereiro de 2008, os preços dos
"produtos alimentares e bebidas não alcoólicas"
aumentaram 2,2%, enquanto a subida nos preços da
"Habitação, água, electricidade, etc., " foi de
3,6%, ou seja, mais 63,6% do que a verificada nos preços dos produtos
alimentares. Este facto, associado a outros (ex. Ensino, Saúde),
determinava que o aumento do Índice de Preços no Consumidor, que
é utilizado para medir a inflação e, consequentemente para
calcular a evolução do poder de compra em Portugal, divulgado
pelo INE, tivesse um valor inferior ao aumento real dos preços no nosso
País.
O AUMENTO DE PREÇOS EM PORTUGAL TEM SIDO SUPERIOR ÀQUELE QUE O
INDICE DE PREÇOS DO CONSUMIDOR DO INE TEM REVELADO
O quadro seguinte construído com os dados divulgados pelo Instituto
Nacional de Estatística mostra que a taxa real de inflação
em Portugal tem sido superior à subida oficial dos preços medida
com base no Índice de Preços no Consumidor do INE.
Como mostram os dados do quadro, segundo o Índice de Preços no
Consumidor que o INE vinha utilizando e divulgando, o aumento de preços,
entre Fevereiro de 2007 e Fevereiro de 2008 (variação
homóloga), foi de 2,86% (arredondando dá os 2,9% divulgado pelo
INE), enquanto o valor calculado com base na estruturas das despesas das
famílias dos anos 2005-2006 é já superior a 3% ( 3,03%).
Se se calcular o aumento dos preços com base na variação
média anual dos preços, a diferença é ainda mais
clara. Assim, de acordo com o Índice de Preços no Consumidor que
o INE vinha utilizando e divulgando, a subida é de 2,5%, enquanto
tomando como base a estrutura das despesas das famílias de 2005-2006 o
aumento já é de 2,8%. É evidente, que quanto maior for o
período considerado maior será a diferença. Por ex., entre
2002 e Fevereiro de 2008, os preços aumentaram em Portugal, segundo o
INE, cerca de 15,2%, mas se utilizarmos a estrutura das despesas das
famílias de 2005-2006 a subida já rondará os 17,3%, ou
seja, mais 13,8%. Portanto, só o efeito da mudança da estrutura
das despesas das famílias (substituição da estrutura de
despesas de 2000, que o INE utilizava e que já não corresponde
à realidade, pela estrutura de despesas de 2005-2006, que está
mais de acordo com a realidade); repetindo, só o efeito desta simples
mudança determina que a taxa de inflação seja superior,
em media por ano, em 0,365 pontos percentuais ao valor que o INE divulgava.
Os trabalhadores e os pensionistas têm sido "enganados"
sistematicamente com as previsões falsas do governo sobre a
inflação, sempre inferiores à inflação que
depois se verifica. Mas também estavam a ser eram "enganados"
com os valores da inflação verificada divulgados pelo
próprio INE, pois também estes valores já não
traduziam com verdade o aumento real dos preços em Portugal.
A TAXA DE INFLAÇÃO NÃO É A MESMA PARA TODAS AS
CLASSES DA POPULAÇÃO
A análise feita revela também uma outra realidade que interessa
chamar já a atenção. A taxa de inflação
não é a mesma para todas as classes da população,
porque o chamado Índice de Preços no Consumidor de cada classe
social depende do peso dos bens e serviços que mais consome. Para
tornar tudo isto mais claro imagine-se o seguinte exemplo. Uma família
em que uma parte muito significativa do seu orçamento mensal é
utilizada para pagar as despesas com a habitação incluindo os
gastos com ela relacionados como são água, gás e
electricidade, etc. (por ex., 40%). Se os preços com as despesas com
habitação estão a aumentar muito como sucede em Portugal
(ex. encargos com o empréstimo para aquisição da
habitação), então a "taxa de
inflação" para esta família será muito
superior à de uma família em que as despesas com a
habitação têm um peso no orçamento familiar muito
reduzido (ex. 10%). É por isso que, em vários países
europeus, são calculados diversos Índices de Preços no
Consumidor. Por ex., em França o organismo oficial de
estatística, para além do Índice de Preços no
Consumidor geral, publica também um Índice de Preços
adaptado aos reformados. Em Portugal, devido ao peso crescente dos reformados e
aposentado na população total, seria de toda a
conveniência que o INE passasse a divulgar também um índice
semelhante. A questão que se coloca é esta :- Será que o
governo estará interessado nisso? A resposta é, a nosso
ver, a seguinte: Certamente que não.
A INFLAÇÃO PREVISTA PELO GOVERNO E A DIVULGADO PELO INE TÊM
SIDO SEMPRE INFERIORES AO AUMENTO REAL DOS PREÇOS EM PORTUGAL
O quadro seguinte mostra de uma forma clara a diferença entre a taxa de
inflação prevista pelo governo nos Relatórios dos
Orçamentos de Estado de cada ano, a verificada segundo o INE e a
corrigida com base na estrutura das despesas das famílias de 2005-2006.
Como revelam os dados do quadro, se considerarmos o período 2005-2008,
ou seja, do actual governo, a taxa corrigida com base na estrutura das despesas
das famílias de 2005-2008, que foi de 12,1%, é superior à
divulgada pelo INE, que foi de 10,8%, em 12%, e à prevista pelo governo,
que foi apenas de 9%, em 34,4%. É evidente que estas diferenças
têm sido utilizadas para reduzir e ocultar a verdadeira dimensão
da diminuição do poder de compra dos trabalhadores portugueses e
de outros extractos desfavorecidos da população, como são
a esmagadora maioria dos reformados. Basta recordar que, por ex., no
Orçamento de 2008, a previsão do governo de aumento dos
preços em 2008 é apenas de 2,1%, mas a inflação em
2008 será certamente superior a este valor (em Fevereiro a chamada taxa
homologa divulgada pelo INE que, como vimos, está subestimada já
atingia 2,9% e a anual 2,5%). No entanto, foi com base no valor de 2,1% que o
governo aumentou as remunerações dos trabalhadores da
Administração Pública e actualizou os escalões do
IRS em 2008. E é com base na taxa de inflação do INE, que
é inferior ao aumento real dos preços em Portugal, que são
negociados as remunerações das convenções
colectivas de trabalho.
09/Abril/2008
[*]
Economista.
edr@mail.telepac.pt
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