Tributar mais os lucros exorbitantes da Galp e de outras petrolíferas
não sobrecarregar os consumidores com mais 360 milhões
de impostos
Em Portugal, verifica-se atualmente uma situação que não
deixa de ser insólita. Órgãos de comunicação
social, comentadores, jornalistas, associações patronais e
condutores protestam contra o aumento do imposto de 6 cêntimos/litro
sobre os combustíveis, mas já ninguém protesta contra os
preços e lucros exorbitantes da GALP e das outras petrolíferas.
As duas entidades reguladoras que existem neste setor
(Entidade Nacional para o Mercado dos Combustíveis e Autoridade da
Concorrência)
, que supostamente deviam supervisionar o setor, mas que ninguém sabe
por que razão existem e para que servem, e o governo permitem que a GALP
e outras petrolíferas pratiquem os preços que querem, e os seus
acionistas, na maioria estrangeiros ou com empresas criadas no estrangeiro como
Américo Amorim, se apropriem de lucros escandalosos sem pagarem impostos
pelos dividendos que recebem e transferem para outros países
Segundo o Eurostat, em 2014, o salário médio liquido em Portugal
correspondia a 56,8% do salário médio liquido na União
Europeia, no entanto o preço do gasóleo e da gasolina sem
impostos, ou seja, os valores que revertem integralmente para as empresas do
setor são sistematicamente superiores aos preços médios
sem impostos praticados na União Europeia, e essa diferença tem
aumentado perante a passividade geral. O gráfico 1, construído
com dados divulgados pela Direção Geral de Energia do
Ministério da Economia, mostra o que se verificou em todos os meses de
2015
Em janeiro de 2015, o preço do gasóleo sem impostos em Portugal
(linha a azul) era superior em 5,4% ao preço médio sem impostos
praticado na União Europeia, mas em Dezembro de 2015 já era
superior em 10,8% (mais do dobro); e o preço da gasolina 95, sem
impostos também, em Janeiro de 2015 (linha a laranja) era superior ao
preço médio da gasolina sem impostos na União Europeia em
5,4%, mas em Dezembro do mesmo ano era já superior em 12,4% (mais do
dobro). E ninguém protestou, e nenhum órgão de
comunicação social denunciou esta situação
escandalosa, nem os reguladores nem o governo atuaram contra esta
prática que lesa os consumidores. E isto apesar do preço do
barril de petróleo ter baixado significativamente neste período,
como mostra o gráfico 2.
Em Janeiro de 2015, o preço do barril de petróleo era 41,
em Maio tinha aumentado para 57, mas em Dezembro tinha baixado para
35. Se compararmos os dois gráficos (1 e 2), conclui-se que quando
o preço do barril de petróleo diminui a diferença de
preços entre Portugal e a União Europeia aumenta. Por ex., em
Maio de 2015, com o barril de petróleo a 57, os preços sem
impostos em Portugal eram superiores aos preços médios sem
impostos na União Europeia em 4,3% e 4%, respetivamente; mas em Dezembro
de 2015, com o barril de petróleo a 35, a diferença
aumentou para 10,8% e 12,4%, respetivamente (em Portugal superior à UE).
O quadro 2, permite comparar o preço praticado em Portugal com cada
país
Os dados do Ministério da Economia do quadro 1, mostram que em Dez/2015,
o preço do gasóleo sem impostos em Portugal era superior ao da
Alemanha em 15,6%; da Áustria em 12%, da Bélgica em 18,6%; etc..
E os impostos sobre o gasóleo pagos em Portugal (0,610/litro) eram
inferiores aos impostos médios na União Europeia
(0,691/litro) e aos impostos médios da Zona do Euro (0,658),
mas eram superiores aos da Áustria (0,581/litro), da Espanha
(0,545/litro), etc. Por outro lado, embora o preço medio sem
impostos em Portugal fosse superior ao médio praticado na U.E. em 10,8%,
o preço de venda ao público, que inclui todos os impostos, era em
Portugal inferior ao preço médio de venda praticado na
União Europeia em 2,8%. Portanto, os dados do Ministério da
Economia confirmam que a causa principal do preço de venda ao
público elevado do gasóleo em Portugal é o elevado
preço sem impostos praticados pelas petrolíferas que permitem a
estas obterem lucros exorbitantes, mas que ninguém protesta nem
põe cobro e não, como afirmam as petrolíferas e seus
defensores, os impostos. O quadro 2, mostra que se verifica o mesmo para a
gasolina 95
Em relação à gasolina 95, em Dez.2015, o preço sem
impostos em Portugal era superior ao da Alemanha em 8,6%, ao da Áustria
em 10,1%, ao da Bélgica em 10,4%, países onde, segundo o
Eurostat, os salários médios são 2,1 vezes superiores aos
de Portugal. O preço da gasolina 95 sem impostos em Portugal era
superior ao preço médio sem impostos da União Europeia em
8,3%, mas o preço de venda ao público, portanto com impostos, era
superior apenas em 2,9%, o que prova, mais uma vez, que são precisamente
os elevados preços praticados pelas petrolíferas a principal
causa dos elevados preços pagos pelos consumidores em Portugal,
contrariamente ao que afirmam a GALP e associações patronais do
setor e seus defensores nos media.
É URGENTE TRIBUTAR MAIS OS LUCROS EXORBITANTES DA GALP E DE OUTRAS
PETROLÍFERAS, E NÃO SOBRECARREGAR OS CONSUMIDORES COM MAIS 360
MILHÕES DE IMPOSTOS
A GALP Energia já divulgou os lucros líquidos referentes ao
4º Trimestre de 2015, e eles atingiram 639 milhões , ou seja,
mais 71,5% do que os de 2014, que foram 373 milhões . Isto
dá bem uma ideia dos lucros escandalosos obtidos pelas
petrolíferas em Portugal. Assim, no lugar de aumentar os impostos sobre
os combustíveis pagos pelos consumidores que assim verão os seus
rendimentos serem reduzidos em 360 milhões como se prevê no
OE-2016, o que é necessário é tributar mais os lucros
exorbitantes das petrolíferas. É o que se espera que Assembleia
da República com uma maioria constituída por partidos de esquerda
o faça. Mas estamos aqui para ver se isso sucede.
13/Fevereiro/2016
[*]
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|