Esclarecimentos aos associados do Montepio
Sobre a assembleia geral de 29/12/2015 e as contas consolidadas de 2014
1-
Uma assembleia em que a maioria dos associados nem sequer teve conhecimento da sua realização
2-
As contas consolidadas da Associação Mutualista de 2014: em apenas dois anos foram delapidados 50% dos seus capitais próprios
3-
A pesada herança deixada pela gestão de Tomás Correia à nova administração da Caixa Económica e a tentativa de se desculpabilizar
4-
A tentativa de Tomás Correia de continuar a ser "Dono de Todo o Montepio"
UM ESCLARECIMENTO INICIAL:
uma assembleia geral em que a esmagadora maioria dos associados nem teve
conhecimento da sua realização
(participaram apenas 170 dos 630 mil associados)
Realizou-se no dia 29 de Dezembro de 2015, às 21 horas, no anfiteatro do
Montepio, na Rua de Ouro, em Lisboa, a assembleia geral da
Associação Mutualista- Montepio Geral em que podiam participar
todos os associados. No entanto,
o número de associados presentes na assembleia não ultrapassou os
170. E isto quando o Montepio tem 630 mil associados.
Esta baixíssima participação, muito inferior à
registada em assembleias anteriores, é bem um retrato da
situação atual do Montepio e resulta, a nosso ver, de um conjunto
de factos que merecem reflexão.
Em primeiro lugar, o facto da assembleia ter sido marcada pela
administração do Montepio e pelo presidente da assembleia-geral,
padre Melícias, propositadamente entre o Natal e o Ano Novo, portanto em
plena época de festas. Em segundo lugar, o facto de tanto o conselho de
administração como o presidente da mesa da assembleia-geral nada
terem feito (muito pelo contrário) para que os associados tivessem
conhecimento da realização da assembleia. E isto porque, embora o
Montepio tenha uma revista que é mandada para casa de todos os
associados, e um Newsletter que é enviado a dezenas de milhares de
associados, e apesar dos nossos pedidos para que fossem utilizados na
divulgação das assembleias gerais e do que nelas é
tratado, continuou-se a não divulgar em nenhuma destas
publicações do Montepio a realização das
assembleias gerais. A assembleia de 29 foi apenas divulgada em dois jornais
diários (e isto porque a lei obriga), que não são lidos
pela maioria dos associados. Como aconteceu em assembleias anteriores, a
maioria dos associados nem teve conhecimento da realização desta
assembleia.
Portanto parece existir o propósito de afastar os associados das
assembleias e da participação ativa na vida do Montepio para que
estes não conheçam os resultados de uma gestão desastrosa
e assim continuar a fazer o que se quer sem qualquer controlo. Fala-se muito em
mutualismo, mas tudo se faz para afastar os associados. Não é
desta forma que se promove o mutualismo.
Esta informação tem como base a intervenção que fiz
na assembleia, e o seu objetivo é dar a conhecer aos associados que
não puderam participar na assembleia de 29/12/2015 a
situação atual do Montepio, o que me tem sido solicitado por
muitos associados. E faço-o desta forma porque o atual conselho de
administração me impede de o fazer nos órgãos
próprios do Montepio (Revista e Newsletter)
e não informa os associados sobre a situação.
2- AS CONTAS CONSOLIDADAS DA ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA DE 2014:
em dois anos desapareceram 50% dos Capitais Próprios da
Associação Mutualista
Embora as contas consolidadas da Associação Mutualista- Montepio
Geral de 2014 tenham já sido retiradas do "site" do Montepio,
naturalmente por ordem do respetivo conselho de administração, no
entanto, os associados que estiverem interessados em as analisar podem pedir
para
eugeniorosa@zonmail.pt
que eu as enviarei.
Foram aprovadas apenas por maioria na assembleia
.
Como consta dos pareceres quer da KPMG, que é a empresa de auditoria,
quer do conselho fiscal, que se encontram no final do relatório e
contas de 2014 da Associação Mutualista,
as contas consolidas estão encerradas e prontas desde Maio de 2015. No
entanto, o conselho de administração ocultou-as aos associados
desde essa data até Dezembro-2015, e só decidiu dar a conhecer
após as eleições, e no período Natal/Ano Novo.
As conclusões são óbvias (intenção de
ocultar os elevados prejuízos) e os comentários são
desnecessários.
Segundo a Demonstração de Resultados Consolidados, constante das
contas,
a Associação Mutualista teve, em 2014, prejuízos no
montante de 144,9 milhões .
Durante a campanha eleitoral dissemos que os prejuízos seriam de 150
milhões , portanto um valor que está muito próximo
daquele que agora foi apresentado.
Em apenas dois anos a Associação Mutualista-Montepio apresentou,
a nível de contas consolidadas, 336 milhões de
prejuízos em 2013 e 144,9 milhões de prejuízos em
2014, como constam das suas contas, que somados dão
480,9 milhões .
Estes elevados prejuízos causaram uma grande delapidação
dos Capitais Próprios da Associação Mutualista.
Entre 2012 e 2014, segundo o Balanço Consolidado da
Associação Mutualista, os seus Capitais Próprios passaram
de 883,6 milhões para apenas 436,5 milhões , ou
seja, em apenas dois anos os Capitais Próprios (diferença entre
Ativo e Passivo) reduziram-me para menos de metade. Por outras palavras,
desapareceram 447,1 milhões devido aos prejuízos
acumulados, ficando a Associação Mutualista muito mais
enfraquecida e frágil.
Para se poder compreender as causas desta elevada delapidação dos
Capitais Próprios é necessário recordar os resultados das
contas individuais e das contas consolidadas. Em 2013, a nível das
Contas individuais a Associação Mutualista teve um excedente de
71 milhões , mas a nível das contas consolidadas, que
inclui os resultados das empresas em que Associação Mutualista
tem participação no capital e controla, já apresentou um
prejuízo de 336 milhões . Em 2014, aconteceu o mesmo. O
excedente positivo de 40 milhões a nível de contas
individuais, foi transformado num prejuízo de 144,9 milhões
a nível de contas consolidadas. Portanto, as empresas no lugar de
servirem a Associação Mutualista para que esta aumentasse os
benefícios aos associados transformaram-se, com a
administração de Tomás Correia, um sorvedouro das
poupanças dos associados. É a Associação Mutualista
que está a financiar as empresas.
A Associação Mutualista (ver pág. 25 das Contas
consolidadas de 2014) tem participação direta ou indireta
(controlando) em: (a) 29 empresas subsidiárias; (b) 12 empresas
associadas; (c) 12 fundos de investimento. Somando dá 53 empresas.
É um autêntico conglomerado de empresas, muitas delas sem qualquer
racionalidade económica, e algumas delas nem têm trabalhadores,
mas têm administradores bem pagos. É urgente uma profunda
reestruturação deste conglomerado de empresas, com objetivo de
reduzir a exposição e os prejuízos que têm de serem
depois suportados pela Associação Mutualista. No entanto, no
Programa de Ação e Orçamento para 2016 da atual
administração,
aprovado por maioria
, não há qualquer referência clara e concreta à
necessidade de o fazer, nem ideias claras sobre isso. Para esta
administração tudo está bem, e é para continuar.
Em 2015, prevemos que a Associação Mutualista apresente mais
prejuízos a nível de contas consolidadas, o que
determinará nova delapidação dos seus Capitais
Próprios. É uma situação que, a continuar,
tornará insustentável a situação da própria
Associação Mutualista.
3- A PESADA HERANÇA DEIXADA PELA ADMINISTRAÇÃO DE
TOMÁS CORREIA À NOVA ADMINISTRAÇÃO DA CAIXA
ECONÓMICA E A TENTATIVA DE SE DESCULPABILIZAR
A Caixa Económica foi uma das empresas do Montepio que sofreu mais com a
gestão desastrosa
(de que é exemplo o crédito perdido de 100M só ao
BES/GES
) e megalómana (
Real, FINIBANCO
) da administração de Tomás Correia. São os
próprios dados dos relatórios e contas assinados por esta
administração, mas depois ignorados nas suas
intervenções públicas, que provam isso. Para se poder ter
uma ideia das consequências da gestão da
administração de Tomás Correia afastada em 2015, e da
pesada herança que deixou à nova administração
, é necessário ter presente o seguinte.
Segundo o Balanço de 2010, os Capitais Próprios da Caixa
Económica somavam 995,5 milhões no fim de 2010, sendo 800
milhões capital institucional da Associação
Mutualista. Entre 2010 e Junho de 2015, também segundo o Balanço
da Caixa Económica, a Associação Mutualista teve de
recapitalizar a Caixa Económica com 900 milhões , a que
juntaram mais 200 milhões de Unidades de
Participação adquiridas por associados e clientes do Montepio, o
que dá 1.100 milhões . Somando estes 1.100 milhões
aos 999,5 milhões de Capitais Próprios que a Caixa
Económica possuía em 2010, obtém-se 2.099,5 milhões
, que eram os Capitais Próprios que a Caixa Económica devia
ter pelo menos em 2015. Mas em Junho de 2015, segundo o Balanço
divulgado na data em que Tomás Correia foi substituído na Caixa
Económica por uma nova administração, os Capitais
Próprios desta eram apenas de 1.490,3 milhões
. A gestão da administração de Tomás Correia
fez desaparecer na Caixa Económica 609 milhões (quando era
necessário uma gestão de rigor optou-se por uma gestão de
elevado risco). Apesar disso, Tomás Correia gaba-se de não ter
recorrido ao Estado como sucedeu com outros bancos. Mas isso aconteceu porque
recorreu às poupanças que os associados têm na
Associação Mutualista.
Como consta da pág. 65 do relatório e contas consolidadas da
Associação Mutualista, devido a uma política de
crédito de elevado risco só nos últimos dois anos (2013 e
2014) a Caixa Económica teve de constituir imparidades (para credito
concedido que se prevê que não se receba) de 823 milhões
.
Se adicionarmos as imparidades referentes a 2011 e 2012, assim como as do
1º semestre de 2015, obtém-se 1.295,9 milhões de
imparidades. É um valor enorme. Deste total, e segundo os
relatórios e contas consolidadas da Associação Mutualista,
no período 2011/2014, já tinham sido anulados 880 milhões
de crédito, por se ter considerado definitivamente perdido.
Tudo isto determinou os elevados prejuízos apresentados pela Caixa
Económica neste período (entre 2011 e 1º semestre de 2015,
os resultados antes de impostos somaram 773 milhões de
prejuízos, e os resultados líquidos finais depois de impostos
totalizaram 467,4 milhões de prejuízos), o que causou a
descapitalização da Caixa Económica e a necessidade de
sucessivas recapitalizações que somaram 1.100 milhões
no período 2011/2015.
Foi uma Caixa Económica nesta situação, ainda com muito
credito que está em permanente análise que foi entregue à
nova administração, que terá de ser recuperada e
rapidamente rentabilizada, e que Tomás Correia faz tudo para ocultar.
E é de prever que tente culpabilizar a nova administração
pelos efeitos das medidas que esta tomar para isso
. Mas é uma tarefa que tem de ser feita e exigirá
competência e sensibilidade da nova administração.
Será necessário fazer uma reestruturação da Caixa
Económica para a fazer regressar ao seu ADN original e a resultados
positivos. Mas isso levará algum tempo.
No entanto,
há linhas vermelhas que não devem ser ultrapassadas
, e que nunca terão o meu apoio.
A primeira
, é que a reestruturação da Caixa Económica
não deverá dar origem a despedimentos de trabalhadores
. Os trabalhadores (e aqui incluo os do ex-Finibanco, para mim são
trabalhadores do Montepio), por um lado, não têm culpa da
gestão desastrosa e megalómana de Tomás Correia e, por
outro lado, despedimentos de trabalhadores para reduzir custos não pode
ser prática num grupo mutualista.
Foi precisamente a falta de garantias de que isso não aconteceria em
2016 que me levou a votar contra o Plano de Atividades da Caixa
Económica para 2016.
A segunda linha vermelha que não deve ser ultrapassada
, é que a reestruturação da Caixa Económica
nunca deverá ser feita através da sua privatização,
ou seja, da entrega de uma parte do seu capital a grupos económicos
privados o que destruiria as suas caraterísticas de ser uma Caixa
Económica anexa a grupo mutualista.
4- TOMÁS CORREIA VAI TENTAR A CONTINUAR A SER "DONO DE TODO O
MONTEPIO"
Quem tenha estado na assembleia-geral de 29/12/2015 ficou com nítida
sensação de que Tomás Correia vai fazer tudo para
continuar a controlar ditatorialmente todo o Montepio, incluindo a Caixa
Económica. Uma parte importante da sua intervenção na
assembleia foi a tentar convencer quem o ouvia de que nada tinha mudado
(o que mostra que ele próprio tem duvidas nisso),
que quem pensasse o contrário estava enganado, que não existia
qualquer separação da Caixa Económica e a
Associação Mutualista; ou seja, que quem mandava era ele. A
animosidade contra o atual conselho de administração da Caixa
Económica, e contra o seu presidente, foi evidente para toda a gente,
criando mal-estar. Certamente porque ele tem-se revelado mais independente do
que Tomás Correia gostaria. O presidente da Associação
Mutualista ainda não entendeu, ou não quer entender a nova
realidade. A separação entre a Associação
Mutualista e Caixa Económica significa, entre outras coisas, que no
futuro não serão mais possíveis manipulações
dos preços de transferências (taxas de juros, taxas de
obrigações de caixa) e afetação de custos a umas
entidades e não outras, com o propósito de esconder
prejuízos de certas entidades do grupo, ou de transferir custos e
prejuízos de umas para outras. Tudo isto, por imposição do
Banco de Portugal, tem de acabar.
Tomás Correia já me mandou dizer que é seu
propósito excluir-me do Conselho Geral e de Supervisão da Caixa
Económica e substituir-me por um elemento mais colaborante com ele da
Lista D, de Godinho/Bagão Félix, que concorreu nas últimas
eleições. E isto apesar de, para isso, ter de passar por cima dos
próprios Estatutos da Caixa Económica que ele próprio fez
aprovar e que no seu artº 40º dispõe que "
o primeiro mandato que resultar das eleições previstas no
presente artigo
,
ou seja, daqueles que se encontram agora em funções
,
só termina em 31 de Dezembro de 2018".
Vamos ver com o Banco de Portugal irá reagir a mais esta
tropelia/arbitrariedade de Tomás Correia se ele avançar com tal
intenção, o que certamente criará
perturbações na atividade da Caixa Económica e na sua
reputação. Da nossa parte, prometemos aos associados enfrentar
com firmeza mais esta arbitrariedade de Tomás Correia, se ele levar para
a frente as suas intenções.
Finalmente,
queremos alertar os associados para um dos riscos que existe atualmente na
Associação Mutualista
, que envolve riscos para as suas poupanças, que é ausência
de qualquer fiscalização efetiva da atividade do conselho de
administração. O supervisor, que é o Ministério da
Solidariedade (MSSSE) não faz qualquer fiscalização. E o
Conselho Geral, por um lado, não tem quaisquer poderes e, por outro
lado, a maioria (18 em 23 membros) é submissa a Tomás Correia.
[*]
Economista e candidato a presidente do conselho de
administração da Associação Mutualista
Montepio Geral pela Lista C nas últimas eleições.
02/janeiro/2016
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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