Portugal a saque e a saldo

– Cada vez mais riqueza produzida em Portugal é apropriada por grupos estrangeiros, ficando menos para os portugueses

por Eugénio Rosa [*]

RESUMO DESTE ESTUDO

Em Portugal, como consequência quer do investimento realizado no exterior quer do investimento estrangeiro em Portugal, está-se a verificar uma profunda descapitalização do país. E contrariamente à ideia que o governo PSD/CDS e os defensores do pensamento económico neoliberal dominante nos media pretendem fazer crer à opinião pública, o investimento tanto no exterior de portugueses como no pais de estrangeiros não é, na sua esmagadora maioria, investimento directo produtivo, que cria riqueza e emprego, mas sim visando obter juros, mais-valias, etc., ou seja, lucros fáceis e rápidos.

O investimento total no estrangeiro de portugueses ou de entidades com residência em Portugal atingiu, em 31/12/2011, 291.629,3 milhões €. Apenas uma parcela pequena destes activos no exterior (entre 15,4% e 18% do total) são investimento directo, ou seja, foram aplicados directamente em empresas, para criar capacidade produtiva e emprego. Uma parte muito importante (39,6%) são os chamados "investimentos de carteira", ou seja, realizado em acções e obrigações de curta e média duração visando a obtenção de ganhos financeiros rápidos. O mesmo sucede com os "Outros investimentos no exterior", que representavam 42,3% dos activos no exterior em 2011.

Situação semelhante verifica-se com o investimento estrangeiro em Portugal. Segundo o Banco de Portugal, em 31/12/2011, a divida total bruta do país ao estrangeiro, resultante destes investimentos, atingia 468.826,8 milhões €. Deste total, apenas 18% era investimento directo em Portugal (aquele que é referido na propaganda oficial sobre investimento estrangeiro), ou seja tendo como objectivo directo aumentar a capacidade produtiva e o emprego. Tudo o resto, na sua esmagadora maioria, eram aplicações financeiras que visavam obtenção de juros, mais-valias, etc, ou seja, aplicações que visavam arrecadar lucros rápidos e elevados. Como consequência, em apenas seis anos (2006/2011), foram transferidos para o estrangeiro 111.461 milhões € de rendimentos gerados em Portugal, sendo 20,3%, ou seja, 22.681 milhões de euros, referentes a dividendos e lucros distribuídos, na sua maioria de investimentos directos. Os restantes 79,3%, ou seja, 88.780 milhões de euros de rendimentos resultaram, na sua maioria, de aplicações financeiras, para não dizer mesmo especulativas. Aqueles 111.461 milhões € de rendimentos, embora gerados em Portugal, não foram investidos internamente para criar riqueza e emprego, mas sim transferidos directamente para o estrangeiro, a maioria não pagando quaisquer impostos em Portugal. Isto significa a descapitalização do país em larga escala que se agravará no futuro com a política de privatizações a saldo levada a cabo pelo governo PSD/CDS com o apoio da "troika estrangeira".

O caso do BPN, vendido ao grupo bancário BIC, dominado por angolanos, por 40 milhões € tendo o Estado Português capitalizado antes com mais de 500 milhões € e dado um crédito sem juros de 300 milhões €, o que levou a Comissão Europeia a intervir, e o caso da EDP vendida a um grupo chinês que agora, pelo que veio a público, pensa-se que o governo se comprometeu a manter as "rendas excessivas", que contribuíram para que a EDP tivesse, em 2011, 1125 milhões € de lucros líquidos (os maiores de sempre), pagas pelos consumidores, mostra bem a politica de privatizações a saldo que um governo sem sentido nacional, sem competência técnica e sem experiencia, e cego pelo ideologia neoliberal está a fazer sob o comando da "troika estrangeira", entregando a grupos económicos estrangeiros – até porque os "nacionais" estão sem liquidez para comprar – instrumentos importantes do Estado para promover o desenvolvimento e fonte de receitas para OE que será depois substituída por mais impostos.

O PIB (Produto Interno Bruto) corresponde ao valor da riqueza criada anualmente no país. O RNB (Rendimento Nacional Bruto) corresponde à riqueza que, em cada ano, fica no país, e que é repartida, embora de uma forma cada vez mais desigual, em Portugal. Em 1995, o PIB era superior ao RNB em 175,9 milhões €, portanto Portugal recebia mais do estrangeiro do que transferia para o exterior. Em 1996, com a entrada na União Europeia, a situação inverteu-se e Portugal começou a transferir para o exterior mais do que recebe do exterior, situação que se agravou com a entrada para a Zona do Euro, o que determinou que, em 2011, Portugal tenha transferido para o exterior mais 6.083,5 milhões € do que recebeu do estrangeiro, o que provocou que o valor do PIB (o que se produziu nesse ano) tenha atingido 171.112 milhões €, mas o valor do RNB (o que ficou em Portugal) tenha sido apenas de 165.028,5 milhões €. Em 2011, da riqueza criada por cada português com emprego, 1.251 € foram transferidos para o estrangeiro apenas para cobrir este saldo negativo. Eis uma outra consequência da politica que tem sido seguida em Portugal, agravada ainda mais pela terapia de choque imposta pela "troika estrangeira" e pelo governo PSD/CDS, que tem sido escondida quer por estes "senhores" quer ainda pelos defensores do pensamento económico neoliberal dominante nos media em Portugal.

No estudo anterior que publicamos, dissemos que Robert Reich, ex-secretário de Estado do presidente Clinton, em "AFTERSHOC – A economia que se segue e o futuro da América", escreveu que "Quando o rendimento está concentrado em relativamente poucas mãos … as poupanças deles (ricos e muito ricos) são acumuladas, para circularem numa fúria de especulação ou, sobretudo nos nossos tempos, para serem investidos no estrangeiro". Interessa, por isso, conhecer o que está a acontecer em Portugal nesse campo. Para isso, vamos utilizar dados divulgados recentemente quer pelo Banco de Portugal quer pelo Instituto Nacional de Estatística. Se analisarmos o "activo" e o "passivo" da chamada "Posição de Investimento Internacional" do país, cujos dados são trimestralmente divulgados pelo Banco de Portugal no seu Boletim Estatístico, concluímos que a maior parte dos investimentos no estrangeiro (Activo), assim como a maioria do investimento em Portugal (Passivo) são de natureza especulativa, pois não visam nem capacidade produtiva nem emprego, mas sim arrecadar juros elevados, mais-valias, etc. Os quadros seguintes, construídos com dados constantes do Boletim Estatístico de Fevereiro de 2012 do Banco de Portugal, mostram com clareza isso.

Quadro 1 – Valor e repartição dos activos (investimentos) de Portugal no estrangeiro
ANOS
Investimentos directos de Portugal no exterior
Milhões euros
Investimentos de carteira no exterior
Milhões euros
Outros investimentos no exterior
Milhões euros
Total dos activos no exterior
Milhões euros
% dos Investimentos directos em relação ao total
2006 40.989,9 121.744,4 114.289,6 277.023,9 14,8%
2007 45.994,0 129.469,5 123.487,6 298.951,1 15,4%
2008 45.272,7 126.713,3 112.236,4 284.222,4 15,9%
2009 47.529,8 146.247,4 114.262,5 308.039,7 15,4%
2010 49.941,7 145.796,6 125.434,3 321.172,6 15,5%
2011 52.593,9 115.630,0 123.405,4 291.629,3 18,0%
Fonte: Banco de Portugal, Boletim Estatístico. Fevereiro/2006 – Fevereiro/2012

A primeira conclusão importante que se tira dos dados do Banco de Portugal é que o investimento total de residentes ou de entidades com residência em Portugal no exterior atingia, em 31/12/2011, 291.629,3 milhões euros, ou seja, era cerca de 1,7 vezes superior ao valor total do PIB de 2011 (riqueza criada no país durante o ano passado). Portanto, riqueza que foi criada em Portugal mas que não foi investida em Portugal para produzir riqueza e criar emprego. Outra conclusão importante que se tira dos dados do quadro1, é que apenas uma parcela muito pequena desses activos no exterior (entre 15,4% e 18% do total) são investimento directo, ou seja, foram aplicados directamente em empresas, para criar capacidade produtiva. Um parte muito importante (39,6%) são os chamados "investimentos de carteira", ou seja, em acções e obrigações de curta e média aplicação visando a obtenção de ganhos financeiros rápidos, o mesmo sucedendo com os "Outros investimentos no exterior", que representavam 42,3% dos activos no exterior em 2011. Uma situação muito parecida se verifica em relação ao "Passivo" da "Posição de Investimento Internacional", ou seja, aos investimentos de estrangeiros em Portugal. O quadro 2, mostra com clareza a situação neste campo.

Quadro 2 – Valor e repartição da divida (Passivo) de Portugal ao estrangeiro (investimentos em Portugal)
ANOS
Investimentos directos do exterior em Portugal
Milhões euros
Investimentos de carteira em Portugal
Milhões euros
Outros investimentos do exterior em Portugal (*)
Milhões euros
Total do PASSIVO do País
Milhões €
% dos Investimentos directos em relação ao total
2008 71.832,8 180.145,5 178.568,9 449.503,5 16,0%
2009 79.626,3 216.297,1 174.991,6 494.355,1 16,1%
2010 83.584,8 197.107,6 165.658,9 506.322,1 16,5%
2011 84.267,9 145.244,4 178.362,0 468.826,8 18,0%
(*) Na rubrica "Outros investimentos do exterior" retiramos os empréstimos do BCE
Fonte: Banco de Portugal, Boletim Estatístico, Fevereiro de 2012

Em 31/12/2011, a divida total bruta do país ao estrangeiro atingia 468.826,8 milhões de euros, ou seja, correspondia 2,7 vezes o valor do PIB de 2011. Deste total, apenas 18% era investimento directo do exterior em Portugal (aquele que é referido na propaganda oficial sobre investimento estrangeiro), ou seja, investimento tendo como objectivo directo aumentar a capacidade produtiva de empresas. Tudo o resto, na sua esmagadora maioria, eram aplicações financeiras que visavam obtenção de juros, mais-valias, etc., os quais, na sua maioria, não pagavam impostos em Portugal. O quadro seguinte, com dados do Banco de Portugal, mostra os rendimentos gerados em Portugal transferidos para o estrangeiro nos últimos anos.

Quadro 3 – Rendimentos transferidos para o estrangeiro – 2006/2011
ANOS
Rendimentos transferidos para o exterior TOTAL
Milhões €
Rendimentos transferidos para o exterior - Dividendos e lucros distribuídos
Milhões €
% dos dividendos e lucros distribuídos no Total de rendimentos transferidos para o estrangeiro
Rendimentos transferidos para o exterior que não tiveram como origem investimento directo
Milhões €
2006 17.105 2.594 15,20% 14.512
2007 19.414 3.489 18,00% 15.925
2008 20.270 2.422 11,90% 17.848
2009 17.015 4.401 25,90% 12.614
2010 19.551 5.393 27,60% 14.158
2011 18.106 4.383 24,20% 13.723
SOMA 111.461 22.681 20,30% 88.780
Fonte: Banco de Portugal, Boletim Estatístico, 2006-2012

Em apenas 6 anos (2006/2011), foram transferidos para o estrangeiro 111.461 milhões €, rendimentos gerados em Portugal, sendo 20,3%, ou seja, 22.681 milhões €, referentes a dividendos e lucros distribuídos, na sua maioria de investimentos directos. O restante, ou seja, 79,3%, isto é, 88.780 milhões €, são rendimentos resultantes, na sua maioria, de aplicações financeiras, para não dizer mesmo especulativas. Um aspecto importante que interessa destacar, é o facto daqueles 111.461 milhões € terem, na sua esmagadora maioria, como origem lucros, dividendos, juros, mais-valias, etc., gerados em Portugal, que não são investidos internamente para criar riqueza e emprego, mas sim transferidos directamente para o estrangeiro, e a maioria não paga quaisquer impostos em Portugal. É uma autêntica descapitalização do pais que tem lugar todos os anos, mesmo com a crise (18.106 milhões de euros em 2011), o que agrava ainda mais a situação do país. Esta situação, como é fácil de concluir, será ainda agravada pela politica de privatizações a saldo em beneficio de estrangeiros levada a cabo pelo governo PSD/CDS com apoio da "troika estrangeira". O quadro seguinte completa a análise feita, pois mostra que uma parte crescente da riqueza produzida anualmente no país (PIB) é transferida para o estrangeiro.

Quadro 4 – PIB e do RNB de Portugal a preços correntes no período 1996-2011
Anos
PIB
Milhões €
Rendimento Nacional Bruto (RNB)
Milhões €
% RNB em relação ao PIB
Diferença RNB-PIB
Milhões euros
Total de emprego
Milhares
PIB por empregado
Euros
RNB por empregado
Euros
RNB/empregado (-) PIB/empregado
1995 87.840,9 88.016,8 100,2% 175,9 4.530,9 19.387 € 19.426 € 39 €
1996 93.216,5 93.213,1 100,0% -3,4 4.606,8 20.235 € 20.234 € -1 €
1997 101.145,9 100.522,9 99,4% -623,0 4.727,5 21.395 € 21.263 € -132 €
1998 110.376,5 109.538,7 99,2% -837,8 4.860,2 22.710 € 22.538 € -172 €
1999 118.661,4 117.489,4 99,0% -1.172,0 4.927,0 24.084 € 23.846 € -238 €
2000 127.316,9 124.681,7 97,9% -2.635,2 5.030,0 25.312 € 24.788 € -524 €
2001 134.471,1 131.036,7 97,4% -3.434,4 5.121,3 26.257 € 25.587 € -671 €
2002 140.566,8 138.320,6 98,4% -2.246,2 5.151,2 27.288 € 26.852 € -436 €
2003 143.471,7 142.089,0 99,0% -1.382,7 5.120,7 28.018 € 27.748 € -270 €
2004 149.312,5 147.723,3 98,9% -1.589,2 5.116,7 29.181 € 28.871 € -311 €
2005 154.268,7 151.980,5 98,5% -2.288,2 5.099,9 30.249 € 29.801 € -449 €
2006 160.855,4 155.999,2 97,0% -4.856,2 5.126,1 31.380 € 30.432 € -947 €
2007 169.319,2 163.945,4 96,8% -5.373,8 5.123,8 33.046 € 31.997 € -1.049 €
2008 171.983,1 165.835,7 96,4% -6.147,4 5.147,2 33.413 € 32.219 € -1.194 €
2009 168.503,6 161.639,2 95,9% -6.864,4 5.014,3 33.605 € 32.236 € -1.369 €
2010 172.669,7 167.047,4 96,7% -5.622,3 4.937,0 34.975 € 33.836 € -1.139 €
2011 171.112,0 165.028,5 96,4% -6.083,5 4.861,2 35.200 € 33.948 € -1.251 €
Fonte: INE, Contas Nacionais Anuais Provisórias, 4º Trim. 2011

O PIB (Produto Interno Bruto) corresponde ao valor da riqueza criada anualmente no país. O RNB (Rendimento Nacional Bruto) corresponde à riqueza que, em cada ano, fica no país, e que é repartida, embora de uma forma cada vez mais desigual, em Portugal. E como revelam os dados do quadro 4, o valor do RNB é cada vez mais reduzido do que o do PIB. Em 1995, o PIB era superior ao RNB em 175,9 milhões €, portanto Portugal recebia mais do estrangeiro do que transferia para o exterior. Em 1996, com a entrada na União Europeia, a situação inverteu-se e Portugal começou a transferir para o exterior mais do que recebia do exterior, situação que se agravou com a entrada para a Zona do Euro. Em 2011, segundo o Banco de Portugal, Portugal transferiu para o exterior mais 6.083,5 milhões € do que recebeu do estrangeiro, o que provocou que o valor do PIB (o que se produziu nesse ano no país) tenha atingido 171.112 milhões €, mas o valor do RNB (o que ficou em Portugal) tenha sido apenas de 165.028,5 milhões €. Em 2011, da riqueza criada por cada por cada português empregado em Portugal, 1.251 € foram transferidos para o estrangeiro apenas para cobrir este saldo negativo. Produz-se cada vez menos em Portugal, porque cada vez mais trabalhadores são despedidos e lançados no desemprego, e do pouco que se produz, uma parte crescente é ainda transferida para o estrangeiro. Eis uma outra consequência da politica que tem sido seguida em Portugal, agravada ainda mais pela terapia de choque de austeridade que está a ser imposta pela "troika estrangeira" e pelo governo PSD/CDS, que tem sido escondida quer por estes "senhores" quer ainda pelos defensores do pensamento económico neoliberal dominante nos media em Portugal. A criação de um imposto extraordinário sobre os lucros, mais-valias e juros obtidos em Portugal, mas não investidos no país, é urgente para combater e reduzir o escândalo desta delapidação de recursos nacionais e descapitalização do País.

22/Março/2012
[*] Economista, edr2@netcabo.pt , www.eugeniorosa.com

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
xx/Mar/12