A reposição dos rendimentos dos trabalhadores em 2016
na função pública e no setor privado
Numa altura em que a direita continua a desenvolver uma forte campanha contra a
política de recuperação dos rendimentos procurando, por um
lado, desvalorizá-la perante a opinião pública
(a austeridade continua, diz ela)
e, por outro lado, apresenta-la como geradora de crise e de incumprimento do
défice, o que não deixa de ser contraditório, interessa
fazer um balanço objetivo e quantificado do que isso representou para os
trabalhadores portugueses. E isto até porque entre os defensores da
atual solução governativa, por vezes, uns tendem a sobrevalorizar
os seus efeitos e outros a esquecer e desvalorizá-los. Os dados
disponíveis são insuficientes, mas trabalhou-se com eles, e com
base neles fizemos estimativas que dão, a nosso ver, uma ideia
quantificada da recuperação de rendimentos dos trabalhadores
efetivamente verificada.
A DIMENSÃO DA REPOSIÇÃO DOS RENDIMENTOS NA
FUNÇÃO PÚBLICA
A recuperação dos rendimentos dos trabalhadores em 2016, fez-se
fundamentalmente através da reposição dos cortes salariais
na Função Pública, da redução da sobretaxa
de IRS e do aumento do salário mínimo nacional. Vamos
começar pela Função Pública utilizando para isso os
dados do 1º Trimestre de 2016, divulgados pela DGAEP do Ministério
da Finanças referentes a número de trabalhadores e
remunerações.
Para uma correta compreensão dos dados do quadro 1, interessa referir o
seguinte. A remuneração base e o ganho médio mensais sem
cortes, que utilizamos para base de comparação, são os de
Julho de 2014, mês em que, por decisão do Tribunal Constitucional,
foram pagos aos trabalhadores da Função Pública
remunerações sem quaisquer cortes. A
"Reposição mensal total em 2016"
da penúltima coluna à direita é aquela que terá
lugar apenas a partir de 1 de Outubro de 2016, data em que se verificará
a reposição integral dos cortes nas remunerações
dos trabalhadores da Função Pública. O valor total da
reposição em 2016 obteve-se deduzindo à
remuneração sem cortes a última remuneração
de 2015. Em relação à redução do valor da
sobretaxa utilizamos, como base da nossa estimativa, a informação
que está no próprio Portal do governo (
www.portugal.gov.pt/pt/ministerios/mf/noticias/20160107-mf-irs.aspx
).
Como mostram os dados da Direção Geral da
Administração e Emprego Público (DGAEP) do
Ministério das Finanças, constantes do quadro 1, o valor da
reposição média dos cortes dos trabalhadores da
Função Pública é de 41 por mês por
trabalhador, embora varie muito de categoria profissional para categoria
profissional. Existem 258.893 trabalhadores da Função
Pública (39% do total) que praticamente não têm qualquer
reposição
(assistentes operacionais, assistentes técnicos e PSP, embora o valor da
PSP seja incompreensível mas é o divulgado pela DGAEP),
porque o seu ganho médio é inferior a 1.500/mês, e
por isso não tiveram cortes.
Em relação à redução da sobretaxa de IRS, o
valor da redução mensal média da sobretaxa em 2016
estimamos que seja de 14 por trabalhador e por mês, embora variando
muito de categoria profissional. Embora a sobretaxa de IRS para as
remunerações mais baixas tenha sido eliminada, e reduzida para as
restantes remunerações mensais até 5.786, conforme a
tabela divulgada pela Autoridade Tributária e Aduaneira, a
redução para os trabalhadores com as remunerações
mais baixas na Administração Pública determinou um aumento
médio na remuneração ilíquida de apenas
8/mês para o assistente técnico, e de 4/mês para
o assistente operacional.
Os aumentos de remuneração resultantes da reposição
dos salários e da redução da sobretaxa são valores
ilíquidos, brutos, ou seja, antes das deduções do IRS,
para a CGA e ADSE. Segundo o Relatório do Orçamento do Estado
para 2016, a reposição dos cortes salariais determina um aumento
de despesa bruta em 447 milhões . Se deduzirmos o IRS, e os
descontos para a CGA e ADSE que correspondem a cerca de 33,5%, o aumento nas
remunerações líquidas dos 662.190 trabalhadores das
Administrações Pública será, em 2016, de 297
milhões (
se este valor fosse dividido igualmente por todos os trabalhadores da
Função Pública, o que não acontece, daria um
aumento liquido de 32/mês/trabalhador).
Em relação aos efeitos da redução da sobretaxa de
IRS nas remunerações dos trabalhadores da Função
Pública, ela determina uma redução bruta dos impostos
pagos por estes trabalhadores que estimamos em 130 milhões por
ano, o que determina um aumento de 86 milhões no rendimento
líquido dos trabalhadores da Função Pública,
após a dedução do IRS, e dos descontos para a CGA e a ADSE.
Em resumo, a reposição dos cortes salariais e a
redução da sobretaxa de IRS determina um aumento dos rendimentos
líquidos dos trabalhadores da Função Pública em
2016 que estimamos em 383 milhões . Se este valor fosse repartido
de forma igual por todos os trabalhadores da Função
Pública (662.190), o que não acontece como mostramos, daria um
aumento médio de 41/mês/ trabalhador. Portanto, uma
reposição importante de rendimentos que interessa valorizar pois
a direita tudo faz para fazer esquecer a opinião pública de que
esta política é inversa daquela que ela sempre seguiu enquanto
foi governo
(cortes dos salários e das pensões e aumento enorme dos impostos).
Para além disso, é importante recordar a redução
do horário semanal de 40 horas para 35 horas determina um aumento medio
no valor hora de 14,3%, pois passa de 6,01/hora para 6,87/hora
A DIMENSÃO DA REPOSIÇÃO DOS RENDIMENTOS NO SETOR PRIVADO
A reposição dos rendimentos dos trabalhadores do setor privado
fez-se fundamentalmente através da redução da sobretaxa de
IRS e do aumento do salário mínimo nacional. São os
efeitos dessas duas medidas nos rendimentos dos trabalhadores que vamos
procurar quantificar.
Os dados oficiais disponíveis para fazer os cálculos
necessários são ainda menos que os existentes para as
Administrações Públicas, por isso tivemos de fazer
nós próprios estimativas, embora com base em dados oficiais do
INE. E os dados do INE que utilizamos foram os referentes ao 1º Trimestre
de 2016: "
Trabalhadores por conta de outrem segundo o escalão rendimento salarial
mensal liquido", Estatísticas Emprego, 1º Trim.2016, INE.
Os dados do quadro 2, são meramente indicativos
(para esse facto advertimos já os leitores)
, pois devido à falta de dados oficiais atuais sobre a
repartição dos trabalhadores portugueses por escalões de
remunerações ilíquidas, tivemos de fazer várias
projeções, que não conseguimos avaliar a sua
aderência à realidade. No entanto, é nossa
convicção que os dados obtidos têm a consistência
necessária para dar uma ideia do efeito da redução da
sobretaxa sobre os rendimentos dos trabalhadores.
Segundo o Relatório do Orçamento do Estado para 2016, a
redução da sobretaxa determinará em 2016 uma perda de
receita fiscal bruta avaliada, de acordo com o governo, em 430 milhões
. Mas este valor não diz apenas respeito aos trabalhadores por
conta de outrem, por isso o valor estimado do quadro 2 deverá estar
próximo do real.
Em conclusão a redução da sobretaxa de IRS em 2016,
deverá determinar um aumento do rendimento ilíquido, portanto
bruto, ou seja, antes da dedução do IRS e do desconto para a
Segurança Social de 357 milhões /ano para os trabalhadores
por conta de outrem, e após a dedução do IRS e para a
Segurança Social um aumento no rendimento líquido de 247
milhões por ano. Se fosse repartido por igual por todos os
trabalhadores, o que não aconteceu como mostra o quadro 2, daria um
aumento de 5 no salário liquido por trabalhador e por mês.
O AUMENTO DO SALÁRIO MÍNIMO NACIONAL EM 2016
Em 2016, o salario mínimo nacional foi aumentado de 505 para
530, ou seja, em 5%
(um aumento de 227 milhões de rendimento deduzindo os 11%
para a Segurança Social restam ainda 202 milhões
líquidos para estes trabalhadores pois, segundo o ministro, eles
são 650 mil).
Em 2015, a inflação aumentou 0,5% e, em 2016, prevê que
suba 1%, portanto
em 2016 o salário mínimo nacional registou um aumento real de
cerca de 4% o que é importante.
Segundo o ministro Vieira da Silva o aumento do salário mínimo
beneficiou 650.000 trabalhadores, ou seja 17,5% dos trabalhadores por conta de
outrem, um valor significativo. Cada vez maior número de trabalhadores
recebe apenas o salário mínimo nacional em Portugal, estando o
nosso país a transformar-se gradualmente num país onde domina o
salário mínimo. É evidente que os trabalhadores que
recebem o salário mínimo nacional não são
beneficiados pela redução da sobretaxa de IRS. Nas
Administrações Públicas, o aumento do salario
mínimo nacional causou um aumento de despesa, segundo o Relatório
OE-2016, de 20 milhões , o que significa que 57 mil trabalhadores
recebem apenas o salário mínimo nacional na Função
Pública. Recorde-se que, segundo as Estatísticas de Emprego
Público divulgadas pelo. Ministério das Finanças, 75.784
trabalhadores da Função Pública tinham contratos a prazo
em 31/3/2016, apesar deste governo se ter comprometido a combater a
precariedade.
28/Julho/2016
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edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
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