As vantagens da saída do euro
contributos para a reflexão e o debate
No
estudo anterior
analisamos algumas questões que, a nosso ver, se
colocarão numa eventual saída do euro, nomeadamente: Como
garantir o poder de compra de salários e pensões já que,
em momentos anteriores de forte desvalorização da moeda, foram os
trabalhadores e os pensionistas os que mais sofreram
(e isso não resolve dizendo que a inflação será
apenas de 10%, um valor calculado, à semelhança das
previsões de Vitor Gaspar, numa folha de Excel, quando se sabe que esse
valor ninguém poderá garantir)?
Como assegurar o poder de compra das poupanças de milhões de
portugueses
(e isso não resolve apenas trocando euros, uma moeda forte, pelo mesmo
montante de "novos escudos", uma moeda fraca, como alguns pretendem
fazer crer).
Como evitar que a divida das famílias
(credito à habitação
), se transforme num instrumento de ruína para centenas de milhares de
famílias
(e isto porque se sabe que os bancos não poderão continuar a
cobrar um taxa media de 2% pelo credito concedido até 2007, que é
a esmagadora maioria do credito à habitação
)? Como evitar a implosão do sistema financeiro fundamental para
funcionamento normal da economia? São questões que preocupam os
portugueses numa eventual saída do euro, que não interessa
silenciar ou iludir mas que, infelizmente, por serem incómodas,
têm estado afastadas do debate público e provocam sempre
reações. Mas são questões importantes pelos efeitos
na vida das pessoas, por isso não poderão ser tratadas com a
ligeireza, a arrogância e a irritação como muitas vezes
são abordadas como se fossem de menor importância e chamando
catastrofista, à falta de argumentos, a quem as levanta.
AS VANTAGENS DA SAÍDA DO EURO
No estudo anterior, afirmamos que a saída do euro seria
inevitável se o "
Tratado Orçamental",
que é o
"Novo Memorando de atraso e de pobreza, e de exploração de
uns países por outros",
não fosse substituído por
uma política de crescimento económico, de desenvolvimento e de
coesão social.
E afirmamos também que a saída do euro tem aspetos positivos que
interessa analisar, o que não pudemos fazer no estudo anterior por falta
de espaço, mas que agora vamos fazer
(apenas dois).
A principal vantagem é a recuperação da soberania com
efeitos positivos mesmo a nível económico já que
permitiria a recuperação de instrumentos fundamentais da
política macroeconómica (a politica cambial, a emissão de
moeda própria, a politica orçamental, etc) indispensáveis
a um desenvolvimento independente, e transferidos para a UE. Observe-se o
quadro1.
Quadro 1- Estrutura das exportações e importações
portuguesas em 2013 por bens
|
COD G.P.
|
DESIGNAÇÃO DO GRUPO DE PRODUTOS
|
2013
|
|
Importações
|
Exportações
|
|
Milhões euros
|
|
1
|
Agrícolas
|
6.242,2
|
2.588,5
|
|
2
|
Alimentares
|
2.608,5
|
2.531,3
|
|
3
|
Combustíveis minerais
|
11.159,9
|
4.923,5
|
|
4
|
Químicos
|
5.884,6
|
2.670,9
|
|
5
|
Plásticos e borrachas
|
3.251,1
|
3.280,1
|
|
6
|
Peles e couros
|
731,1
|
226,4
|
|
7
|
Madeira e cortiça
|
684,8
|
1.518,7
|
|
8
|
Pastas celulósicas e papel
|
1.162,9
|
2.305,9
|
|
9
|
Matérias têxteis
|
1.729,4
|
1.741,6
|
|
10
|
Vestuário
|
1.614,4
|
2.541,6
|
|
11
|
Calçado
|
543,9
|
1.779,6
|
|
12
|
Minerais e minérios
|
673,7
|
2.288,4
|
|
13
|
Metais comuns
|
4.319,7
|
3.695,6
|
|
14
|
Máquinas e aparelhos
|
8.370,0
|
6.946,2
|
|
15
|
Veículos e outro material de transporte
|
5.019,5
|
4.966,1
|
|
16
|
Ótica e precisão
|
1.248,7
|
661,7
|
|
17
|
Outros produtos
|
1.631,8
|
2.600,4
|
|
|
TOTAL
|
56.906,1
|
47.266,5
|
Fonte: INE, Estatísticas do Comércio Internacional de Bens
Existem vários aspetos positivos no campo da economia que resultariam da
saída do euro, mas vamos analisar dois que são aqueles que, a
nível económico, têm sido mais referidos, e que são
a desvalorização do novo escudo e a emissão de moeda
própria.
A desvalorização do "
novo escudo
" tem sido apontada como o instrumento mais importante para que a economia
e as empresas portuguesas ganhem competitividade, para assim aumentar as
exportações. No entanto, é preciso ter presente que essa
baixa de preços é artificial e transitória já que
não resulta nem da modernização das empresas nem do
aumento da sua produtividade e inovação, o que não tem
sido possível no quadro atual
(segundo o INE, nos últimos anos o investimento tem sido inferior ao
consumo de capital fixo).
Analisemos então os efeitos da desvalorização da moeda.
Para sermos mais claros vamos utilizar os dados do INE do quadro 1 sobre as
importações e exportações. Em 2013, Portugal
importou produtos no valor de 56.906,1 milhões e exportou
produtos no valor de 47.266,5 milhões . Vejamos os efeitos da
desvalorização da nova moeda nas importações e
exportações portuguesas.
A DESVALORIZAÇÃO EM 30% TORNARIA OS PRODUTOS ESTRANGEIROS MAIS
CAROS "OBRIGANDO" OS PORTUGUESES A CONSUMIREM MAIS PRODUTOS NACIONAIS
Dos 56.906,1 milhões de produtos importados em 2013, 8.850,6
milhões foram produtos alimentares e agrícolas; 11.159,9
milhões de combustíveis, etc. Uma
desvalorização do novo escudo em 30% como alguns defendem para
aumentar a competitividade da economia portuguesa o que significaria para os
portugueses? Para tornar a resposta mais clara suponhamos que no momento de
saída do euro, cada euro é trocado por um "novo
escudo". Em termos de "novos escudos" antes da
desvalorização os 56.906,1 milhões de produtos
importados correspondiam a 56.906,1 milhões de novos escudos. Se o novo
escudo for desvalorizado em 30%, isso causaria que aqueles 56.906,1
milhões de produtos passariam a custar aos portugueses não
56.906,1 milhões de novos escudos, mas sim 73.977,9 milhões de
novos escudos (+30%), ou seja, mais 17.071,8 milhões de novos escudos.
No dia seguinte à desvalorização o preço destes
produtos aumentaria em 30%. Isto teria uma vantagem económica, que seria
de estimular os portugueses a consumirem produtos nacionais, pelo menos dos
produtos que Portugal tem capacidade para produzir, desenvolvendo assim a
agricultura, pesca, industria, etc, embora alguns não exista
produção (ex.: combustíveis, certos equipamentos, etc) e
de outros a produção nacional é insuficiente (ex.
medicamentos). Mas mesmo em relação àqueles em que o
país tem aptidões para produzir, para que isso acontecesse era
necessário que existisse capacidade produtiva instalada, mas depois
destes anos de destruição, isso leva algum tempo o que poderia
contribuir para o aumento de preços devido à escassez. Esta
promoção do consumo de produtos nacionais pela via do aumento
significativo dos preços de produtos importados, poderia dar um forte
estímulo para o desenvolvimento e reestruturação da
economia nacional não conseguido no passado e para o aumento e
criação do emprego, e teria um efeito positivo também nas
receitas do Estado e da Segurança Social.
A DESVALORIZAÇÃO DE 30% TORNARIA OS PRODUTOS PORTUGUESES MAIS
BARATOS PARA OS ESTRANGEIROS AUMENTANDO AS EXPORTAÇÕES, MAS
OBRIGANDO O PAÍS A ENTREGAR MAIS PRODUTOS PARA OBTER O MESMO VOLUME DE
DIVISAS
Em relação às exportações a
desvalorização do novo escudo em 30% tornaria os produtos
portugueses 30% mais baratos para os estrangeiros, o que certamente seria um
estímulo importante para o aumento de compras de produtos portugueses e,
consequentemente, as exportações nacionais aumentariam. No
entanto, a desvalorização da nova moeda teria um lado perverso
que muitas vezes é esquecido. Em primeiro lugar, com a quantidade de
bens que se exportou em 2013, o país obteria não 47.266,5
milhões , mas sim 30% menos, ou seja, apenas 33.085,6
milhões . Para obter um volume de divisas igual ao obtido em 2013,
teria de entregar aos compradores estrangeiros mais 30% de produtos em termos
físicos. Este facto associado a uma maior subida das
exportações constituiria um incentivo importante para a
produção nacional impulsionando a criação de
emprego, gerando mais receitas para a Segurança Social e Estado, e a
sustentabilidade das funções sociais do Estado e do
próprio Estado.
Uma desvalorização da nova moeda em 30%, tornaria para os
estrangeiros também os ativos portugueses (imóveis, empresas,
etc) muito mais baratos facilitando a sua compra por estrangeiros. Em resumo a
desvalorização da nova moeda tem efeitos positivos, na medida em
que aumenta a competitividade das empresas portuguesas pela via da baixa
artificial dos preços mas apenas para os estrangeiros, sendo certamente
um estímulo importante para a animação da economia,
criação de emprego, e sustentabilidade do Estado. No entanto,
também tem efeitos perversos, que interessa não ignorar,
nomeadamente o de ficar muito barato para os estrangeiros o Trabalho, os
produtos e os ativos nacionais, e de se ter de exportar muitos mais produtos
para se obter o mesmo volume de divisas.
A CAPACIDADE PARA EMITIR MOEDA PRÓPRIA
Com a perda da soberania monetária, ou seja, da capacidade para emitir
moeda própria, transferida para o BCE, onde os grandes países
dominam, o financiamento do Estado ficou totalmente dependente dos grandes
grupos económicos e financeiros que dominam a economia mundial e a
economia portuguesa. E isto porque o BCE não financia Estados, por isso
o Estado português, para obter os meios financeiros de que necessita tem
de recorrer aos grandes grupos financeiros, sujeitando-se às suas
exigências, de que é exemplo comprovativo o "Memorando"
da "troika" e o Tratado orçamental.
Ao recuperar a soberania monetária, o país fica com a
possibilidade de emitir moeda própria através do Banco de
Portugal, e Portugal deixa de ficar dependente, em relação ao seu
financiamento em moeda nacional, dos grandes grupos económicos e
financeiros como atualmente sucede, pois poderá financiar-se junto do
Banco de Portugal a taxas de juros e períodos de empréstimos
muito mais favoráveis, o que reduz muito os encargos do Estado com a
divida pública. O Estado nunca iria à falência por
dívidas em moeda nacional, já que ficaria sempre garantido o seu
financiamento pelo Banco de Portugal, funcionando este como
"solução de ultimo recurso
", que não existe atualmente. No entanto, é preciso recordar
que o endividamento do Estado, pela via de obtenção de
empréstimos junto do Banco de Portugal, tem limites que, se forem
ultrapassados, terão efeitos negativos perversos e grandes quer na
economia quer na vida das pessoas
O problema já é completamente diferente em relação
à moeda estrangeira, de que o Estado e país precisam para pagar
tudo aquilo que se compra no exterior assim como as dividas ao estrangeiro. E a
fonte destas divisas são principalmente as exportações.
ALGUMAS REFLEXÕES FINAIS
A recuperação da soberania e, por essa via, dos instrumentos
fundamentais de política macroeconómica não resolve de uma
forma automática os grandes problemas estruturais que enfrenta
atualmente o país, pois já tivemos esses instrumentos no passado
e os problemas mantiveram-se. Cria apenas condições para isso.
Existem muitos países fora do euro com crescimento anémico (ex.
Inglaterra, Suécia, Dinamarca). Para além disso uma eventual
saída do euro terá lugar num quadro muito mais difícil do
que no passado. Nunca tivemos um país, um Estado, empresas e
famílias tão endividadas como atualmente, e nunca tivemos uma
economia e uma sociedade tão dominado por grandes grupos
económicos e financeiros estrangeiros como agora. E não
tínhamos no passado uma globalização capitalista dominante
e uma tão grande concorrência internacional. Como procuramos
mostrar no nosso estudo anterior, a saída do euro, se abre
possibilidades de crescimento económico e de desenvolvimento que
não existem enquanto se mantiver o "Novo Memorando" que
é o chamado "Tratado orçamental", também coloca
questões, que tornamos a enunciar no inicio deste estudo, que se
não forem devidamente estudadas, debatidas e controladas poderão
determinar, a nosso ver, custos muito elevados para o pais e para os
portugueses, com reações muito grandes. Para que isso não
aconteça é necessário um forte poder de esquerda
não fragmentado, o que muitas vezes é esquecido no debate sobre a
saída do euro. É um caminho que ainda temos de trilhar, mas que
é necessário para bem dos portugueses e do país. E os
economistas, pela responsabilidade social que têm, não devem
acalentar ilusões, e não esquecer que a economia, não
é uma ciência exata como é a física e a
química, não podem fazer experiencias em laboratório, tem
como base o comportamento de milhões de pessoas, e que por isso devem
ser mais contidos e rigorosos nas previsões e afirmações
que fazem.
12/Outubro/2014
[*]
Economista
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