Consequências do actual Tratado Orçamental
Continuação do investimento insuficiente em Portugal
Continuação da destruição da capacidade
produtiva do país
O "Brexit" pôs mais uma vez a nu a mentalidade
antidemocrática que domina aqueles
(muitos deles não eleitos)
que, em Bruxelas, se arrogam em senhores da UE, e que querem decidir o que
é bom e o que é mau para os seus povos. Para estes senhores, o
1º ministro inglês, um homem dos seus, comportou-se como um louco ou
um irresponsável quando se comprometeu, a contragosto, a realizar um
referendo, ou seja, a ouvir o povo britânico sobre a permanência ou
não na UE. Assim, vai a democracia nesta União Europeia.
Apesar da campanha de intimidação e de chantagem para a qual
foram mobilizados em todos os países, incluindo em Portugal,
"especialistas" e "comentadores" que, nos media,
divulgaram, sem contraditório, previsões catastróficas
sobre as consequências para a Inglaterra da saída da UE, o povo
britânico optou maioritariamente pela saída. Juncker, revelando
mais uma vez a sua falta de carater e de espirito democrático, em pleno
parlamento europeu procurou achincalhar os deputados ingleses e, numa atitude
vergonhosa, colocou a sua mão à frente de uma camara para que
esta não fotografasse um deputado do Reino Unido e, no mesmo parlamento,
ele e os seus acólitos acusaram os que na Inglaterra defenderam a
saída de antipatriotas. O
Portugal News
, referia em 1/7/2016 o seguinte:
"Funcionários e eurodeputados britânicos queixam-se de estar
ser alvo de provocações e intimidação no seu dia a
dia em Bruxelas. Graffites, bocas e mal-estar serão consequência
do Brexit".
Outra coisa não seria de esperar depois daquele comportamento
vergonhoso de Juncker e acólitos.
Colocaram-se assim ao nível daqueles que na Inglaterra são
acusados, com razão, de xenofobia, alimentando-a com os seus atos.
Portugal, com centenas de milhares imigrantes no Reino Unido não pode
deixar de se preocupar e de se opor a estes comportamentos que desacreditam a
UE. O silêncio que se verificou e verifica é cúmplice e
é revelador de uma mentalidade submissa. E como isto já
não fosse suficiente, a campanha de manipulação e de
engano da opinião pública continua nos media, mesmo em Portugal,
com noticias de que 7% dos que tinham votado pela saída já se
tinham arrependido, e que quem tinha votado pela saída eram os velhos,
o passado, como se estes já não contassem, pois os jovens, o
futuro, queriam continuar na UE. E isto numa UE, onde mais de 20% dos jovens
estão no desemprego
(em Portugal 32%),
que destrói o seu futuro e dos mais velhos, já que não
lhes dá qualquer esperança de segurança e de emprego
digno. Tudo é utilizado para vergar os povos.
A DESTRUIÇÃO DA CAPACIDADE PRODUTIVA DO PAÍS NO
PERÍODO 2012-2015
A destruição da capacidade produtiva do nosso país
é mais um exemplo desta Europa de ingerência que não serve
os povos, e que levou os ingleses a votarem maioritariamente pela saída.
Não há crescimento económico e desenvolvimento sem
investimento e, nomeadamente, sem investimento de qualidade, e este é
insuficiente em Portugal com mostram dados do INE.
Quadro 1 Investimento Público e Investimento Nacional, 2000-2015
Nos últimos anos, com o aumento da ingerência externa (CE, BCE,
FMI, etc) em Portugal, o investimento realizado no nosso país nem tem
sido suficiente para compensar a depreciação do Capital Fixo
(maquinas, edifícios, meios de transporte) devido à
utilização e ao tempo como mostra o quadro 1. E o percurso tem
sido sempre para pior.
Após a adoção do euro em 2002, verificou-se em Portugal
uma quebra acentuada do investimento liquido
(Formação Bruta de Capital Fixo
menos
Consumo de Capital Fixo)
que, entre 2000 e 2007, passou de +16.311 milhões para +11.203
milhões (- 31,3%). E com a crise acentuou-se a quebra pois, entre
2007 e 2011, o investimento liquido que era ainda positivo baixou de +11.203
milhões para apenas +1.023 milhões (- 90,9%). Com a
ingerência da "troika" e com o governo PSD/CDS passa, pela
1ª vez, de um valor ainda positivo (+1.023 milhões em 2011) para um
valor negativo (-3.880 milhões em 2012) que se tem mantido. Em 4
anos (2012/2015) o saldo acumulado do investimento liquido negativo atingiu
-15.905 milhões , ou seja, neste período, o Consumo de
Capital Fixo (a depreciação), foi superior a todo o investimento
(FBCF) realizado em 15.905 milhões . Por outras palavras, para ser
retido na memória: no período 2012-2015, o investimento total
(FBCF) realizado no país (104.503 milhões ) foi inferior ao
Consumo de Capital Fixo (120.408 milhões ) em 15.905
milhões , ou seja, nem foi suficiente para compensar o desgaste
registado no Capital Fixo
(máquinas, viaturas, edifícios, etc.)
existentes no país. A nível de investimento verificou-se em
Portugal uma verdadeira autofagia.
Idêntica situação se observou com o investimento
público. A partir de 2012, o Consumo de Capital Fixo Público
nacional é muito superior ao novo investimento realizada em cada ano. No
período 2012-2015, portanto com a ingerência da "troika"
e com o governo PSD/CDS, o saldo liquido negativo de investimento publico
acumulado atinge - 5.350,5 milhões , já que o investimento
público realizado nestes quatro anos soma apenas 15.241,5 milhões
, enquanto o consumo de capital fixo publico atinge 20.592 milhões
. Tal situação causou a degradação dos
equipamentos públicos (escolas, hospitais, etc.).
E a previsão é que esta situação se mantenha em
2016, enquanto se mantiverem as imposições do Tratado
Orçamental. A prová-lo está a queda do investimento em
Portugal no 1º Trimestre de 2016 (-0,6% relativamente ao período
homologo de 2015), assim como o crescimento económico anémico
registado também no 1º Trimestre de 2016 (+0,9% quando no 1º
Trimestre de 2015 tinha sido de +1,7%).
Esta quebra no investimento quer público quer a nível nacional
tem consequências dramáticas no presente do país (por ex.,
na criação de emprego) e no futuro do país
(redução da capacidade produtiva futura para crescer, ou seja, do
seu produto potencial).
OS DESEMPREGADOS ESTÃO A ENFRENTAR DIFICULDADES CRESCENTES EM ENCONTRAR
TRABALHO POIS APESAR DO DESEMPREGO OFICIAL DIMINUIR O EMPREGO NÃO
AUMENTA
Uma das consequências imediatas desta quebra acentuada do investimento
é a nível de criação de emprego. Embora o
desemprego oficial tenha diminuído o emprego não está a
aumentar de uma forma consistente como revelam os gráficos seguintes
(dados do INE)
É visível a redução continuada do desemprego
oficial, no entanto essa redução não é acompanhada
por um aumento consistente do emprego como mostra o gráfico 2
Entre Abril e Maio de 2016, o desemprego oficial diminuiu entre 18,7 mil (dados
ajustados da sazonalidade) e 12,7 mil (dados não ajustados), mas o
emprego também diminuiu, e a redução foi maior, pois
variou entre 26,7 mil (dados ajustados) e 19,7 mil (não ajustados).
Esta variação negativa do emprego verificada no último
mês em que existem dados disponíveis levanta algumas
questões que merecem reflexão.
A primeira, prende-se com a redução do desemprego oficial, que
pode ser mais administrativa do que real. Como se sabe, pela metodologia que o
INE utiliza, todos os desempregados que não procuraram emprego no
período em que foi feito o inquérito pelo INE, não
são considerados no desemprego oficial divulgado pelo INE. A segunda
questão importante que os últimos dados do INE mostram, é
que pode haver eventualmente recuperação da economia, agora ainda
anémica, sem crescimento consistente do emprego. E isto, a verificar-se,
seria dramático para centenas de milhares de trabalhadores que se
encontram atualmente sem trabalho. E é mais dramático num
contexto em que o apoio aos desempregados está diminuir
(a percentagem daqueles que têm direito ao subsídio de desemprego
é cada vez menor)
, e em que a miséria entre desempregados está a aumentar, como os
dados oficiais revelam.
Segundo as Estatísticas da Segurança Social, em Maio de 2015, o
número de desempregados a receber subsídio era de 279.634 (45,1%
do desemprego oficial) e, em Maio de 2016, esse total já tinha baixado
para 232.840 (40,5% do desemprego oficial), ou seja, menos 46.794. E isto
acontece num contexto, onde a pobreza atinge principalmente os desempregados.
Segundo o INE, entre 2011 e 2014, a população no limiar da
pobreza, após todos os apoios sociais, aumentou de 17,9% para 19,5% em
Portugal, mas os desempregados em idêntica situação
aumentaram de 38,3% para 42% (entre os homens, subiu de 38,5% para 44,1%). O
desemprego sem apoio é uma das principais causas da pobreza em Portugal.
E a redução administrativa do desemprego pode ocultar esta
situação, e contribuir para que ela seja ignorada e, para
centenas de milhares de trabalhadores desempregados que não estão
nem considerados nos números oficiais de desemprego nem recebem subsidio
de desemprego, pode significar que são empurrados definitivamente para o
grupo dos "esquecidos e dos excluídos", o que seria
profundamente dramático. Esta União Europeia, tal como
está, tem pouco a oferecer tanto aos mais velhos como aos mais novos, a
não ser desemprego, insegurança, agravamento das desigualdades,
crescimento anémico, imigração forçada, etc. O
Tratado Orçamental, ao não excluir do cálculo do
défice orçamental para efeitos do Tratado o investimento
público de qualidade, está a contribuir fortemente para esta
situação.
10/Julho/2016
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edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
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