Combustíveis novos, biopirataria velha
Nos últimos meses, à grande quantidade de vozes da sociedade
civil que alertam sobre os impactos sociais, económicos e ambientais da
nova onda de biocombustíveis, somaram-se os relatórios
críticos de instituições internacionais que foram cruciais
para o desenvolvimento do neoliberalismo, como o Banco Mundial (BM) e o Fundo
Monetário Internacional (FMI).
Uma das explicações da súbita "tomada de
consciência" desse tipo de instituições é que,
abrigados nessas críticas, promovem como uma das soluções
novas tecnologias de alto risco para o ambiente e a sociedade, mas com grandes
lucros para aqueles que as controlam. Da parte dessas
instituições não existe questionamento quanto aos
problemas de fundo, como a matriz de produção energética e
a enorme desigualdade do consumo e de impactos. Em troca, tentam fazer-nos
crer que a "solução" será tecnológica,
mediante por exemplo uma "segunda geração" de
biocombustíveis. Para isso, promovem e justificam (sem nenhuma prova
real da sua utilidade e sem mencionar seus impactos) cultivos e árvores
transgénicos, juntamente com o desenvolvimento de tecnologias ainda
piores, como a biotecnologia sintética ou "engenharia
genética externa", como a denominámos no Grupo ETC.
A biologia sintética, que é a criação
sintética de ADN, propõe-se construir micro-organismos
artificiais de ADN para que possam processar celulose mais eficientemente ou
produzir novos combustíveis. Com a desculpa de salvar o planeta do
aquecimento global e com a motivação real de aproveitar os
desastres globais para obter mais lucros, não têm nenhum prurido
em tentar criar seres vivos nunca antes vistos, com impactos
imprevisíveis. Um exemplo deste tipo é o contrato anunciado no
passado 22 de Abril entre a empresa Amyris Biotechnologies e o grupo brasileiro
do açúcar e etanol Crystalsev, que se propõe processar
cana de açúcar com micro-organismos alterados para produzir
biodiesel.
Outro exemplo, relacionado mais directamente com o México, é a
empresa Synthetic Genomics, criada em 2005 pelo controverso geneticista Craig
Venter, com Alfonso Romo, capitalista de Monterrey, e a
participação de outro mexicano, o biotecnólogo Juan
Enríquez Cabot. Em Junho de 2007 aliou-se à petroleira BP para o
desenvolvimento de biologia sintética e vida artificial aplicada a
biocombustíveis.
A contribuição mais significativa do México para o lucro
privado de Venter foi feita pela investigadora do Instituto de Ecologia da
UNAM, Valeria Souza. Com efeito, o acervo de recursos microbianos a que tem
acesso a empresa de Venter para suas experiências de biologia
sintética e o lucro milionário que anunciam provem da travessia
global feita por Venter no seu barco-laboratório Sorcerer II,
percorrendo os mais diversos mares do planeta a tomar amostras da vida
microbiana. Venter afirmava que a sua expedição era "sem
fins de lucro". Desconfiadas (com razão) as autoridades de outros
países que percorreu, incluindo Equador, Polinésia e
Austrália, exigiram-lhe que firmasse extensos contratos para prevenir a
privatização e a utilização comercial dos recursos
obtidos.
Não foram muito efectivos para impedir os objectivos comerciais de
Venter, mas no México ele nem sequer teve de ter esse trabalho.
Bastou-lhe estabelecer "colaboração" com Souza
nem sequer com a instituição que a aloja que
aparentemente, em troca de ter o seu nome nalgumas publicações,
brindou-lhe sua permissão de colecta científica para que levasse
amostras da vida microbiana única em Yucatán, sem mais
tramitações nem controle além de uma
"declaração de entendimento" por parte da
instituição de Venter, agora extinta.
Valeria Sousa já tinha um antecedente semelhante, quando facilitou
à NASA estado-unidense os estudos e a extracção de
recursos da vida microbiana única de Cuatro Ciénegas, em
Cohauila. Paradoxalmente, a NASA buscava, entre outras coisas,
micro-organismos extremófilos, tal como a empresa Diversa Corporation.
A Diversa sim, firmou um contrato oficial com a UNAM
[1]
para extrair muito menos do que Souza permitiu à Venter que
levasse , mas este foi cancelado porque a Procuradoria Federal de
Protecção do Ambiente determinou que a UNAM não podia
decidir acerca dos recursos genéticos da federação.
No caso Souza-Venter, muito mais escuro e amplo tanto nos recursos
extraídos como na forma de proceder e nas vastas repercussões que
pode ter sua utilização futura, nem a UNAM nem as autoridades
tomaram qualquer medida a respeito. Não é tarde para isso.
[1] Universidade Nacional Autónoma do México, a principal do
país.
[*]
Investigadora do
Grupo ETC
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/04/26/index.php?section=opinion&article=025a1eco
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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