A organização e mobilização social é a base do poder político da FMLN

por Blanca Flor América Bonilla Bonilla [*]

Manifestação de alcaides. ANTECEDENTES

Roberto Turcios [1] , toma como referência o Estado salvadorenho, no qual se concentra e realiza o poder económico, político, militar e ideológico, na base do qual define quatro períodos históricos: a) a constituição do Estado, de 1811 a 1871, que vai desde a independência da Espanha ao triunfo liberal; b) o Estado liberal oligárquico, até 1932, cuja característica principal é a concentração da propriedade; c) o Estado modernizador, que tem início com a ditadura militar em 1932 até à crise da integração centro-americana em 1969; d) a crise histórica que culmina com o último golpe de Estado, em 1979 e na criação das condições objectivas e subjectivas para a guerra civil.

Como bem define Turcios [2] , os grandes períodos históricos foram marcados por conflitos profundos que experimentaram manifestações de violência. O Estado liberal na insurreição de 1932 e o movimento cívico-militar de 1944; o Estado modernizador, em dois golpes de Estado (Outubro de 1960) e na restrição violenta do espaço político em 1972. A partir desses últimos acontecimentos, desenvolve-se a crise histórica até à sua transformação na guerra e num período de reconstituição estatal negociada.

Em El Salvador, a continuidade dos governos militares iniciados com o massacre camponês de 1932, viu-se confrontada a partir dos anos sessenta com desafios provenientes das exigências de democratização dos grupos emergentes das classes médias e do movimento sindical urbano.

Nas décadas de 1960 e 1970 funda-se e consolida-se o movimento de massas na rua, em greves operárias e lock-outs patronais, de estudantes, professores, camponeses, que alcançaram níveis organizativos impressionantes.

A guerra civil desencadeia-se abertamente em Janeiro de 1981, quando a FMLN [3] impulsiona a ofensiva geral contra o regime.

Esta foi a primeira acção político-militar realizada em conjunto pelas cinco organizações que deram origem à FMLN, após dez anos de luta de guerrilha, que passou por um processo de acumulação das forças político- militares, das organizações sociais e quando se tinha demonstrado até à saciedade que chegar aos espaços de poder do Estado pela via de eleições ou por meios políticos pacíficos era impossível, porque os níveis de violação dos direitos mais elementares como o direito à vida, ao livre pensamento, livre expressão, organização e mobilização, os níveis de corrupção e fraude eleitoral eram escandalosos, passou-se a uma forma mais qualificada de luta do povo salvadorenho, através da luta social, política e militar. Durante os doze anos de guerra civil, a intervenção dos Estados Unidos financiou o exército governamental com dois milhões de dólares diários e com toda a tecnologia e assessoria, cujo objectivo era derrotar a FMLN.

Depois destes doze anos, ante as reiteradas sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) ao governo de El Salvador, por delitos de lesa-humanidade e aprofundamento das violações dos direitos humanos, perante o reconhecimento e apoio solidário da comunidade internacional e da própria ONU para a FMLN como força beligerante que lutava por um programa baseado na justiça social e nos direitos humanos e não viam possibilidade de o derrotar pela via militar, a Frente tinha feito já mais de trinta documentos contendo propostas de diálogo, para que se resolvesse o conflito armado por meio do diálogo, negociação e saída diplomática. Depois da ofensiva militar de Novembro de 1989, os Estados Unidos sob a administração de Bush pai e a oligarquia agro-exportadora salvadorenha, representada no Partido Aliança Republicana Nacionalista (ARENA), convencem-se que há que pôr fim ao conflito. Após dois anos de diálogo e negociações, com participação das igrejas salvadorenhas como mediadoras e com permanentes consultas a diferentes sectores sociais, económicos e políticos do país e o compromisso das Nações Unidas como garante, foram assinados os Acordos de Paz, em 16 de Janeiro de 1992.

Para a oligarquia agro-exportadora, para os seus interesses financeiros, com o partido ARENA a deter pela primeira vez a presidência da república a partir de 1 de Junho de 1989, era necessário que o país pusesse fim à guerra. Tinham já formulado uma projecção para 25 anos para a implantação do modelo neo-liberal, que não tinham podido desenvolver enquanto a guerra durou. Por outro lado, a FMLN tinha, em duas ocasiões, apresentado à nação propostas para a formação de um Governo de Participação Ampla, tendo em conta as mais nobres aspirações de liberdade, democracia e justiça social do povo salvadorenho. Esta era a oportunidade que tinha ficado consagrada nos acordos a que se chegou, como um acordo político de nação, para construir pela primeira vez um novo El Salvador, o que implicava um compromisso e responsabilidade das e dos salvadorenhos, principalmente dos que assinaram os acordos e dos que participaram com propostas nas consultas. A Frente denominou este novo período de “Transição Democrática”, com início em 1992.

1- ACORDOS DE PAZ VERSUS MODELO NEOLIBERAL

Nas comemorações do 13º aniversário dos Acordos de Paz, em 16 de Janeiro de 2005, a FMLN referiu-se à origem destes acordos, à situação actual, aos desafios e compromissos de luta do nosso Partido: [4]

“Há treze anos, assinávamos os acordos pondo fim ao conflito armado no nosso país. Em 16 de Janeiro de 1992 terminou a guerra que teve origem na pobreza, na marginalização e na cruel ditadura militar que pretendia abafar com a perseguição, o terror e a morte, qualquer reivindicação de terra, de trabalho, de salários, que não suportava pontos de vista diferentes e ignorava o legítimo direito do povo às suas aspirações mais sentidas. As eleições para a Presidência, deputados e autarcas eram fraudulentas, a favor do PCN, partido oficial da época. Inventavam-se votos, compravam-se votos, ameaçavam-se as pessoas. O Exército e as forças policiais asseguravam em última instância a suposta vitória do oficialismo, e o Conselho Central de Eleições de então legalizava os resultados e escondia todas as falsificações.

Não havia maneira de se sacudir esse jugo pela via política, o povo estava condenado a suportar aquele sistema ignominioso e sanguinário, em condições de terrível pobreza e marginalização. Foi necessária uma luta longa e plena de heroísmo e sacrifícios para pôr fim ao militarismo.

Por isso, nesse dia, há 13 anos, primeiro em Chapultepec, na cidade do México, e de seguida aqui em San Salvador, frente à catedral de Monsenhor Romero, estávamos felizes, e connosco feliz e satisfeito, o povo salvadorenho. Estávamos felizes e orgulhosos, porque graças a esses acordos de paz púnhamos ponto final a dezenas de anos de ditadura militar. Nós, o nosso Partido, durante os dois anos que durou o processo de negociação sob os auspícios do secretário-geral das Nações Unidas, fomos artífices do desmantelamento da ditadura militar, e abrimos os espaços que permitiram ao povo gozar de algumas liberdades, de que antes não gozava.

Nunca duvidamos que com esses acordos trazíamos ao país a reforma política mais importante da sua história. A FMLN sente-se orgulhosa de ter sido o sujeito principal dessas transformações. Nesse 16 de Janeiro, acabamos com o regime brutal que nos oprimia. Ganhamos, vencemos politicamente a ditadura, mas sobretudo ganhou o povo. Decerto que muito estava por fazer, do que se tratava nesse momento era de continuar a luta, agora no plano político, nas suas diversas formas, para acabar com os graves males que o militarismo e a oligarquia tinham deixado ao país, e que tinham estado na origem do conflito.

Quero dizer-vos, particularmente aos jovens, que esse processo não foi fácil. Nós tínhamos a força e tínhamos a força das ideias para chegar ao Acordo, mas do lado oposto, no seio do nosso adversário, as posições contra qualquer diálogo e mínimo entendimento com a FMLN eram tão obsessivas, que em certos momentos, podiam parecer insuperáveis. Posições que se traduziam em perseguição, em repressão e assassinato daqueles que se atreviam publicamente a pronunciar-se a favor de um entendimento e da sua concretização em factos concretos.

Recordo aqui isto, não apenas porque num dia como o de hoje é bom e saudável rememorar um tanto aqueles dias, mas sobretudo, porque treze anos depois, agora, diante do regime que se instalou no país, encontramos de novo posições similares às daqueles momentos. Não estamos em guerra, obviamente, mas tratando-se de problemas tão dolorosos para o nosso povo, particularmente no que se refere à vida dos mais pobres, nos vemos confrontados com as mesmas atitudes e as mesmas condutas em relação a nós por parte de personagens que têm nas suas mãos o poder de decisão – além de que lhes assista ou não a razão a propósito do que defendem.

Naqueles anos do conflito armado, era considerado uma loucura, uma insensatez e até um crime, arvorar a bandeira da paz. Hoje, de novo, nós erguemos a bandeira de uma plena democracia, com justiça social e participação para conquistas concretas, em benefício de todos e em especial dos excluídos do sistema, que ponham o país no caminho do desenvolvimento humano.

Para abrir caminho à paz, foi necessário convencer mentes conservadoras, fechadas ao entendimento de que o país tinha que rumar em direcção ao fim do conflito. Hoje constatamos que temos que trabalhar muito para convencer os que detêm o poder económico e político a abandonar essas políticas equivocadas que impõem ao país. Mas, do mesmo modo que naqueles anos estávamos seguros de que o conflito chegaria ao fim, hoje estamos seguros que se abrirá caminho ao diálogo que permitirá estabelecer a justiça social e que El Salvador sairá da terrível estagnação em que se encontra.

Agora, a par da crítica situação de pobreza e desemprego e do insuportável custo de vida, vemos sinais de retrocesso no regime político, que nos preocupam profundamente. Não restam já dúvidas que os espaços democráticos que se abriram com os Acordos estão em perigo. O autoritarismo que caracterizava o anterior governo não só não terminou, como tende a firmar-se, e na Assembleia Legislativa é prática quotidiana, em tal grau que o parlamentarismo, que em essência implica aproximação e negociação, se debilitou. Temos hoje um regime ditatorial civil. As instituições criadas ou reformadas pelos Acordos de Paz não alcançaram, na maior parte dos casos, a maturidade institucional, devido à perversão do sistema político imperante.

As garantias básicas consagradas na nossa Constituição estão ameaçadas por reformas das leis penais, sob o pretexto da luta contra a delinquência.

O Supremo Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Eleitoral mantêm vivos partidos como o PCN e o PDC, para assegurar a maioria legislativa que a ARENA necessita.

A Procuradoria para a Defesa dos Direitos Humanos acusa a Policia Nacional Civil como uma entidade do Estado que pratica a tortura, com o fim de obter confissões.

A direita, assustada com o potencial eleitoral da FMLN, recusa-se a avançar com uma reforma que torne mais equitativa a luta eleitoral. Não está interessada que o Supremo Tribunal Eleitoral seja um verdadeiro tribunal. Recusam as limitações aos gastos com as campanhas eleitorais. Assustam-se quando se fala de pôr limites à propaganda eleitoral nos grandes meios de comunicação.

A ARENA organiza grupos de choque para desestabilizar o trabalho dos governos municipais da FMLN.

Os ministros do regime atacam publicamente os lutadores sociais, qualificando-os de delinquentes, pretendendo calar, através da perseguição política e do terrorismo mediático, aqueles homens, mulheres e jovens que defendem opiniões diferentes das do Governo e do partido oficialista.

Por outras palavras: os Acordos de Paz vivem momentos de estagnação e mesmo de retrocesso. Devemos defender as conquistas dos acordos. Eles trouxeram boas coisas para todos, devemos concluir a tarefa. Voltemos a colocar o país no caminho da paz.

Amigos e Companheiros, todos vemos, todos sabemos, que o capítulo social está inconcluso.

Necessitamos de água potável para todos, no campo e na cidade. Necessitamos de energia eléctrica na totalidade do território nacional. El Salvador é pequeno, podemos faze-lo a relativo curto prazo. Necessitamos educação para todos, sem nenhum tipo de discriminação, muito menos económica. Necessitamos erradicar a pobreza extrema, a desnutrição infantil, necessitamos saúde gratuita para toda a gente. De acordo com relatórios da CEPAL, 16 países latino-americanos poderiam alcançar as Metas do Milénio. El Salvador, lamentavelmente, não faz parte dessa lista.

Segundo a mesma CEPAL, os países que terão de fazer maiores esforços em matéria de educação são o Brasil, a Nicarágua e El Salvador. Essa mesma instituição revela-nos um cenário terrível: El Salvador ocupa o primeiro lugar entre os países que não cumprirão a meta de erradicar a fome, a menos que se realizem mudanças dramáticas.

É urgente realizar essas mudanças se queremos evitar uma catástrofe humana. No último Relatório sobre Desenvolvimento Humano de El Salvador, duma lista de 10 países analisados, El Salvador aparece em último lugar, no que diz respeito ao abastecimento de água às habitações, mas a Costa Rica ocupa o primeiro lugar. Segundo os relatórios das Nações Unidas, ao ritmo das actuais políticas, em matéria de luta contra a pobreza, o nosso país necessitaria entre 49 e 52 anos para reduzir somente para metade a pobreza endémica que nos asfixia. Não existem dúvidas que, de acordo com dados do Banco Central de Reserva, o crescimento do Produto Interno Bruto por habitante estagnou. Que fazer? Como fazer? Que mudanças políticas devem ser realizadas para sair dessa estagnação?

De acordo com outro estudo, 80 de cada 100 famílias não conseguem assegurar com os seus rendimentos o custo do cabaz de compras básico ampliado. O que significa que neste momento há milhões de salvadorenhos que, se compram feijão, já não têm para comprar as tortillas e se compram tortillas, já não lhes chega para os feijões, em cada dia das suas vidas.

Essa é a lancinante e dura realidade que vive a nossa gente. Pergunto: que espécie de país construíram nestes 15 anos os governos da ARENA? Mas o senhor Saca diz todos os dias aos salvadorenhos pela televisão, que o seu governo tem “sentido humano”.

Que espécie de país construíram estes senhores, que cada mês 6 mil salvadorenhos, sobretudo jovens, abandonam as suas casas, procurando o emprego e a prosperidade que não podem encontrar na sua pátria? É uma ironia ver o senhor Saca muito activo por estes dias, instando os compatriotas nos Estados Unidos a que se registem nessa precária autorização de trabalho chamada TPS, ao mesmo tempo que nada faz para que termine a expulsão de salvadorenhos para aquele país. É esse o sentido humano deste Governo? O seu cálculo é claro: cada salvadorenho que consegue fixar-se nos Estados Unidos é mais um que envia dólares assegurado.

É urgente que o país saia da paralisia social e económica, e que se retome o método do diálogo e da concertação. Não há crescimento, o desemprego é galopante, as famílias desintegram-se, o dólar asfixia os salvadorenhos que só dispõem das suas energias para poder sobreviver. O autoritarismo está fechando as portas ao entendimento e à concertação.

Há 13 anos atrás, a FMLN foi factor determinante para solucionar o conflito armado. Entendamo-nos agora, para deter a tragédia social que vive a nossa pátria. Neste dia, lançamos um apelo a todas as forças vivas do país, com capacidade de influência e poder de decisão, a fim de devolver a esperança ao povo e deter a queda para o abismo social e económico.

Propomos para o país:

  • Superar a pobreza extrema.
  • Erradicar a desnutrição infantil.
  • Acabar com a fome que abate milhares de famílias.
  • Levar água potável a todos os lares de El Salvador.
  • Acabar com o analfabetismo.
  • Eliminar as doenças que têm origem na pobreza.
  • Realizar uma reforma fiscal profunda, para que tudo isto possa ser viável.

    Tudo isso será possível se El Salvador retomar o caminho que nos foi apontado naquele 16 de Janeiro de 1992.”

    2- ESTÁ EM CURSO A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA EM EL SALVADOR?

    Desde há mais de cinco anos, quando assumiu como presidente da república o sr. Francisco Flores Pérez, do partido ARENA, o governo começou a ignorar as observações e sugestões das Nações Unidas relativamente aos aspectos pendentes dos Acordos de Paz. Além disso, consolidou-se um governo autoritário, que destruiu o método elaborado no processo de diálogo e negociação, de procurar aproximações entre os diferentes sectores da população e das forças sociais, políticas e empresariais, para chegar a acordos nos diferentes aspectos da vida nacional. O executivo tornou-se também mais evidente como extensão política da cúpula empresarial representada na ARENA, já não como oligarquia agro-exportadora, mas como oligarquia financeira, vinculada às empresas transnacionais, e o governo de El Salvador como um anexo da política da administração Bush filho.

    Na última Convenção nacional, realizada em Dezembro de 2004, analisa-se a conjuntura nacional e internacional e as perspectivas e desafios na luta salvadorenha: [5]

    “O CONTEXTO INTERNACIONAL E A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA REVOLUCIONÁRIA IMPULSIONADA PELA FMLN

    O contexto internacional caracteriza-se pela agressiva política da administração Bush e pela imposição da globalização neoliberal, que enfrentam dificuldades e resistências a nivel mundial. O neoliberalismo é a causa da prolongada estagnação económica e das suas consequências negativas, como o desemprego, as crises sociais, a pobreza, a delinquência, a má assistência sanitária e educacional, etc. A crise social, por sua vez, reflecte-se na crise política e no geral nas crises do sistema de partidos, pondo em risco os processos de democratização em curso na maioria dos países da América Latina. Desde a queda das ditaduras militares, que a crise económica tende a prolongar-se e a agravar-se, pela desvalorização progressiva do dólar face a outras moedas e aos preços do petróleo.

    A guerra de agressão impulsionada pelo governo Bush com alguns “aliados”, tem como um dos seus objectivos o controlo das maiores reservas mundiais de petróleo e constitui uma gravíssima ameaça à paz e à estabilidade mundiais. A guerra contra o Afeganistão e o Iraque e a ameaça sobre as regiões petrolíferas, encontrou pela frente uma heróica resistência dos povos, colocando os Estados Unidos numa situação militar sem saída. Levantam-se no mundo fortes movimentos pacifistas contra essa guerra de agressão. Isto não impediu que os governos “areneros”, com a sua política entreguista, enviassem tropas salvadorenhas para o Iraque e para o Haiti, violando a Constituição da República.

    Na América Latina, tanto no sul como na América Central, alcançam-se sucessivas vitórias políticas, sobre o neoliberalismo e a política intervencionista de Bush: o Brasil, a Venezuela, o Uruguai, o Panamá, a Argentina, a FSLN na Nicarágua, constroem propostas alternativas ao neoliberalismo. Os movimentos políticos, em conjunto com os sectores populares, de indígenas, comunais, camadas médias, trabalhadores, etc, constroem novas alianças e surgem novas correlações de forças anti-neoliberais.

    No Caribe, Cuba, confrontada com o bloqueio e a política agressiva imposta pelos Estados Unidos, continua sendo um exemplo para os nossos países. Em pleno bloqueio, milhares de estudantes de todo o mundo preparam-se nas universidades cubanas, mais de 500 estudantes salvadorenhos estudam em Cuba.

    Os países socialistas da República Popular da China, Vietname e Cuba, renovam e fortalecem os seus processos revolucionários de construção socialista e constituem-se numa esperança para os países do Terceiro Mundo, demonstrando que os problemas que o capitalismo gera para a humanidade, se podem resolver através doutro modelo de sociedade, que tem como centro a pessoa humana.

    Neste contexto, aprofundamos durante estes três anos a nossa acção política e social, enfrentando politicamente as forças neoliberais que impuseram e se agarram à transição neoliberal de facto esgotada. Esta resistência e luta, permitiu-nos incorporarmo-nos no bloco de forças políticas latino-americanas e mundiais que lutam pela paz, contra a guerra e o neoliberalismo.

    GOVERNOS “ARENEROS” APROFUNDAM A POBREZA E O AUTORITARISMO.

    Caracterizamos o período histórico salvadorenho de transição democrática revolucionária, em luta e enfrentado a transição neoliberal já esgotada historicamente. É o período de luta pelas transformações e mudanças revolucionárias, no social, político e económico, de combate contra a pobreza, pela justiça social e por uma justa distribuição da riqueza, pela conquista do poder para os pobres e os excluídos. Partimos do princípio que os acordos de paz estabeleceram as bases da nova sociedade salvadorenha, continuamos levando por diante esta justa causa democrática. Por isso, a nossa aposta é derrotar a transição neoliberal e abrir o processo de desenvolvimento da transição democrática e revolucionária. O objectivo deste período histórico é derrotar o neoliberalismo e instaurar um governo de salvação nacional, com amplo apoio social, que facilite as transformações económicas, sociais, políticas, em benefício das maiorias salvadorenhas e que assegure a nossa soberania e independência nacionais.

    Por isso, o programa que apresentamos ao país confronta ideologicamente o neoliberalismo, pondo no centro da nossa actividade política a pessoa humana, pelo seu desenvolvimento integral, pela melhoria da sua qualidade de vida e pelo combate aos valores egoístas e individualistas que lhe inculca o neoliberalismo.

    A nossa actividade política sofreu uma reviravolta, o seu propósito fundamental é a aproximação ao povo, para o organizar e lutar pelas suas mais sentidas reivindicações; o sentido da nossa luta política consiste em a dotar de um elevado conteúdo social.

    A nossa acção eleitoral visa ganhar base social e política de apoio e suporte aos nossos governos locais, assim como também ao trabalho parlamentar do nosso partido, com o objectivo de conquistar o governo democrático de salvação nacional. Durante a gestão do Conselho Nacional, que hoje termina as suas funções, apresentamos aos diferentes sectores, às famílias e ao povo salvadorenho em geral, o nosso Programa Social e Democrático para El Salvador, que levou a que mais de 812 mil salvadorenhos com direito a voto se pronunciassem a favor da FMLN nas eleições recentemente realizadas. Esse programa é também a base de entendimento com o Bloco Popular Social para a Democracia Real e com a Aliança Social pela Mudança.

    Esta nova viragem na luta política e social mantem o nosso partido, a FMLN, como a única força política de oposição real com uma tendência ascendente. Nas eleições de deputados e alcaides de 2003, obtivemos uma votação de 475 mil votos, ganhamos 31 deputados e 74 municípios. Nas eleições presidenciais de 2004 obtivemos 812 mil votos, obtendo um importante aumento de votação relativamente às eleições presidenciais de 1999.

    As ideias neoliberais estão sofrendo derrotas políticas, mostraram a sua incapacidade para fazer sair o país da permanente e insustentável crise económica. Mesmo reformuladas, a sua tendência é para a decadência. Vão cobrando mais força as ideias de mudança e de transformação. Apesar de a direita ter tido a capacidade mediática de enganar uma parte do povo e de se apropriar das aspirações legítimas das pessoas, temos conseguido avanços importantes no terreno organizativo e programático, na nossa ligação com as aspirações populares, pusemos em marcha uma nova dinâmica política e social, gerando um maior dinamismo do partido.

    O bloco de forças direitistas neoliberais que detêm o poder político e económico, fazem funcionar o governo em função dos seus interesses, utilizam os meios de comunicação num trabalho ideológico sistemático, que procura desprestigiar e isolar a FMLN e as ideias de mudança para a sociedade salvadorenha. Mantêm o seu estilo e práticas autoritárias, impõem através da compra de vontades, os seus projectos, estão a desenvolver a organização das suas bases e aproximando-se das igrejas, para as converter em suas aliadas, com o objectivo de se perpetuarem por longos anos no governo. São esses os propósitos da direita, que usa em função disso todo o seu poder político e económico.

    Mas isto contrasta com a realidade: enquanto o grupo económico hegemónico acumula riqueza, a maioria do povo continua mergulhado na pobreza e na falta de esperança. O governo de Saca, aprofundou a crise económica, social e política, não tem margem de manobra, nem a suficiente correlação nos grupos de poder económico, para realizar as modificações de estratégia que lhe permitam superar a estagnação económica e reactivar a economia. Tão pouco possui a suficiente capacidade e audácia política para empreender através do diálogo e da concertação, a construção de soluções para os grandes problemas nacionais, já que, a fazê-lo, afectaria os interesses do poder económico hegemónico.

    No plano económico, a economia mantem-se estagnada, em 2004 baixou a sua actividade, como resultado do fracasso da política arenera que, com a dolarização, desincentivou a poupança interna e afectou as exportações.

    Os preços do petróleo afectaram o poder de compra do povo, elevando os preços dos produtos do cabaz de compras básico. A isto junta-se a queda do investimento, o crescimento do défice comercial, do endividamento e da dívida previsível, assim como a fuga de capitais e a baixa na produção das maquilas. Tudo isto confirma a estagnação económica que se mantem desde 1995, à beira duma recessão, com as suas sequelas sociais negativas.

    Em 2004 os preços aumentaram cerca de 5.3%, como não acontecia nos últimos anos e manteve-se o congelamento dos salários. Em conjunto com a dolarização, estes factos aumentaram o custo de vida da população, repercutindo-se nas famílias, que sofreram uma real deterioração na sua capacidade de compra.

    Também aumentou o desemprego, piorando as condições de vida das e dos salvadorenhos, especialmente nas áreas rurais: 45% da população não tem acesso à energia eléctrica e mais de 80% não dispõe de esgotos; agudiza-se o problema da falta de segurança; as salvadorenhas e salvadorenhos são vulneráveis às enfermidades preveníveis, ultimamente é alarmante a quantidade de doentes de Sida e de vítimas de violência intra-familiar.

    O presidente Saca foi incapaz, desde o início do seu governo, de apresentar soluções para a grave crise económica e social que o país atravessa. Pelo contrário, tratou de a ocultar através de uma política demagógica e de falta de diálogo, investindo recursos do Estado numa sistemática propaganda enganadora, aproveitando-se politicamente das propostas apresentadas pela FMLN. A verdadeira e real política do governo arenero de Saca continua a ser a imposição autoritária das suas medidas a favor dos interesses do grupo económico-financeiro hegemónico e das transnacionais que controlam o país; não está disposto a fazer nenhuma concessão ao povo, que possa debilitar o seu poder. Saca converte-se assim num fiel servidor do grupo financeiro do país e das transnacionais.

    As suas políticas de “mesa governamental e sectorial”, têm como objectivo ganhar tempo eleitoral, tratar de isolar a FMLN, e conseguir entendimentos debaixo da mesa com outros partidos, especialmente com o PCN. Esta conduta do presidente Saca expressa a sua vontade exclusiva e autoritária, que se empenha em ignorar a maior força política, em vez de concertar soluções para os graves problemas existentes. A FMLN não obteve resposta às propostas de reforma fiscal, eleitoral, da saúde, dos transportes, que apresentou ao governo e à Assembleia Legislativa.

    O partido ARENA pretende usar eleitoralmente a figura de Saca, com vista ao mandato 2006-2009, impulsionando uma estratégia mediática e fazendo uso demagógico do diálogo para enganar e manter uma falsa imagem dialogante perante a população. Esta imagem começa a debilitar-se em resultado das promessas não cumpridas aos diferentes sectores, a necessitar de respostas que requerem recursos de que o governo não dispõe. Os níveis de endividamento estão a chegar ao seu limite e a reforma fiscal, que seria a solução, não é apoiada pelos grandes grupos económicos, defendidos e representados pela ARENA.

    Para a ARENA, é crucial o ano 2005 para recuperar, nas eleições de 2006, as municipalidades perdidas e a maioria de deputados na Assembleia Legislativa. Nesta disputa eleitoral virão de novo à superfície os graves problemas e contradições com que a ARENA se debate, que geram a prolongada crise da economia, pela não resolução das exigências colocadas pelos sectores, e que se verá agudizada com as disputas dos líderes locais na luta pelo poder municipal, o que em conjunto, gerará um maior desgaste desse partido.

    A FMLN, UM PARTIDO QUE AVANÇA PARA A CONQUISTA DO PODER POLÍTICO.

    Este Conselho Nacional definiu como tarefa histórica do período completar a transformação democrática que ponha em marcha as mudanças e transformações económicas, que lancem as bases de um novo projecto alternativo ao neoliberalismo; definiu como objectivo estratégico a derrota do projecto neoliberal e a instauração de um governo de salvação nacional com amplo apoio social, que facilite as transformações económico-sociais e políticas, em benefício das maiorias.

    Em correspondência com estes propósitos, este Conselho Nacional pôs em marcha um processo de acumulação de vitórias eleitorais, políticas e ideológicas sobre a essência do neoliberalismo, demonstrando a incapacidade do modelo neoliberal para resolver a crise económica e social do país e para proporcionar o bem-estar à maioria da população. Existe hoje em dia uma verdade que já ninguém põe em causa: este modelo demonstrou que funciona a favor de uns poucos que concentram a riqueza, gerando maiores desigualdades.

    A FMLN deu uma volta estratégica para enfrentar ideologicamente o neoliberalismo, impulsionou uma maior aproximação ao povo, participando na luta pelas suas exigências políticas e reivindicativas, ampliando as suas alianças com sectores atingidos pelo modelo neoliberal, contribuindo para a organização do Bloco Social pela Democracia. Também é importante o surgimento das organizações de veteranos de guerra, as quais são protagonistas de reivindicações justas no interior do partido e da sociedade.

    As modalidades das campanhas eleitorais serviram para consciencializar, educar, organizar e chegar através do contacto directo dos nossos militantes a mais largas camadas da população. É importante também a abertura do partido aos profissionais da comunicação, o que nos permitiu maior visibilidade e elevar o nosso caudal de votos nas eleições de 2003 (de alcaides e deputados) e nas de 2004, (eleições presidenciais).

    O estrondoso fracasso político e diplomático de Saca, ao pretender colocar um personagem corrupto e conflituoso como Francisco Flores à frente da OEA, não fará senão acelerar o debilitamento da sua imagem.

    A FMLN fortaleceu-se política e socialmente, a luta pela unidade é um esforço permanente que se impulsionou através do debate realizado nas consultas departamentais e sectoriais sobre a estratégia eleitoral, a estratégia e táctica do período histórico e na elaboração do programa. Introduzimos uma dinâmica de direcção não burocrática, que debate os problemas com as pessoas, que mantem mecanismos de controlo e acompanhamento através dos seus membros no território, que acciona com os seus comités de base no terreno e desenvolve através deles a organização dos seus militantes.

    A FMLN relançou-se a nível internacional, estabelecendo relações permanentes com os países socialistas, com a União Europeia, com o povo dos Estados Unidos e com os salvadorenhos e salvadorenhas que vivem nesse país e no resto do mundo, com a COPPPAL, a social-democracia, os países da América Latina e os partidos centro-americanos. Estamos educando o partido no internacionalismo e na solidariedade, ao criar a rede dos Comités de Solidariedade com Cuba, com a Venezuela e com a Palestina.

    O Conselho de Alcaides implementou uma estratégia para assimilar e por em prática a nossa política municipalista, dando prioridade à temática do desenvolvimento local, a partir de uma visão participativa contrária à visão da direita.

    A nossa Fracção Legislativa levou à Assembleia a luta pela implementação do nosso programa no que respeita a legislação e controlo do Executivo, criando conexões com a população organizada e não organizada. Também lançou as bases para uma metodologia de prestação de contas à população, a partir das Tribunas Abertas.

    Os nossos deputados no Parlamento Centro-americano impulsionaram uma visão da integração regional que põe a tónica nos direitos dos cidadãos e que deve avançar para uma real integração dos povos, em oposição ao conceito mercantilista e vertical que a direita promove.

    O período que hoje encerramos foi cenário de importantes reajustamentos internos no partido. Financeiramente, foi implementada uma política de recolha de fundos independente, através do pagamento da quota, de donativos, de dádivas dos comités e amigos no exterior, de venda de bónus e contracção de empréstimos junto da Banca privada, que permitiram cumprir as metas financeiras de campanha e manter o funcionamento do partido. Incrementamos por outro lado, o inventário de bens, adquirindo duas casas: uma para o funcionamento da Direcção Eleitoral e outra para o funcionamento da escola política. Investiu-se na aquisição de uma gráfica, e a prioridade de investimento nos últimos meses tem sido na área da propaganda.

    Pusemos em marcha novas modalidades para eleger os nossos candidatos e dirigentes partidários, que expressam a nossa vontade de democratizar o partido. As deficiências e problemas que se nos apresentam não devem minimizar nem anular esta experiência. As eleições de 2001 deixaram-nos experiências positivas e negativas, tomamos medidas urgentes de reforma dos Estatutos, no propósito de melhorar a qualidade e a eficiência, estabelecemos o mecanismo de certificação e conferiu-se à Comissão Política e ao Conselho Nacional a faculdade de apresentar propostas de candidaturas. Nas eleições internas de 2003 e nas realizadas em 7 de Novembro de 2004, aperfeiçoamos procedimentos, conseguindo que um maior número de filiados e filiadas participassem na votação. Mas também se tornaram evidentes profundas debilidades que afectam a qualidade do partido, que devem ser rectificadas, o que requer levar por diante reformas dos nossos estatutos no que respeita à concepção da democracia partidária e aos procedimentos; não duvidamos que a direcção que hoje assume, saberá conduzir o seu debate e aprovação.

    Reafirmamos que a FMLN iniciou a partir de 2001 uma viragem estratégica no nosso partido, que assentou as bases para a construção de um partido forte, coeso, vinculado ao povo, com maior clareza estratégica, com maior influência na população. Mas esta viragem é insuficiente para atingir o objectivo estratégico de conquista do poder político. Existem erros que deverão ser superados no curto e médio prazo e avançar para uma condução científica e eficiente, para o que devemos dotar-nos de instrumentos de investigação da realidade nacional e do estado da opinião pública, construir um sistema de debate permanente, melhorar o estilo de direcção, de planificação e de controlo.

    É prioritário aperfeiçoar a nossa estratégia comunicacional, modificar a imagem negativa da FMLN em alguns sectores e conseguir que toda a população nos identifique como lutadores, que defendemos soluções para os seus principais problemas. Fazer um estudo profundo das nossas eleições directas e secretas, pondo termo imediato aos processos de recrutamento para o partido que debilitam a nossa qualidade, assim como à disputa eleitoral interna que nos rouba precioso tempo político e recursos, afastando-nos das reivindicações das pessoas, assim como conseguir tornar mais ligeiro, simples e prático o processo de votação.

    Há que trabalhar para melhorar a disciplina partidária, assim como para melhorar a qualidade e a eficiência das nossas funcionárias e funcionários públicos, estabelecer os procedimentos e mecanismos de controlo que nos permitam superar e corrigir condutas contrárias à ética, que atentam contra o partido e a população. Todas estas são metas importantes a alcançar.

    Lançamos as bases para a construção do bloco de forças democráticas, mas é importante avançar com maior celeridade na sua ampliação, construir novas alianças e gerar o suficiente entusiasmo revolucionário, que propicie a alteração da correlação de forças a nosso favor, que nos permita alcançar o poder político.

    O cenário mundial é de crise permanente do neoliberalismo, que tende a complicar-se ainda mais, e de avanços importantes da esquerda latino-americana. Fortalece-se e cresce no mundo a resistência contra as políticas imperiais e agressivas da actual administração Bush.

    O actual governo arenero e o seu Presidente Saca, conhecedores desta realidade, desenvolvem uma política demagógica e de enganos. Para eles é a FMLN a principal ameaça aos seus interesses egoístas. O cenário pré-eleitoral e eleitoral, é de um maior confronto político e social entre estes dois caminhos que a população salvadorenha tem diante de si.

    A nossa perspectiva é de novas vitórias político-sociais. Para tanto, devemos aprofundar esta viragem da FMLN no fortalecimento da sua ligação com o povo, conseguir ampliar as alianças, fortalecer a unidade, educar politicamente o partido, e organizar todos os nossos militantes sem excepção, desde a base, e fortalecer a sua consciência política. Projectar a perspectiva de vitória e pôr em marcha o projecto político da FMLN são as linhas de acção que nos permitirão entusiasmar o povo, chamá-lo a organizar-se e a lutar.

    Saudamos nesta ocasião todos os nossos heróis e heroínas tombados na etapa da guerra e na actual etapa de luta política. O seu exemplo e sacrifício comprometem-nos, motivam-nos e estimulam-nos para a luta para derrotar o partido Arena, conquistar o governo e iniciar uma nova era de desenvolvimento em favor dos mais necessitados e excluídos do nosso país.”

    Entre as conclusões a que chegaram muitos sectores sociais, empresariais e políticos, à semelhança da FMLN, é que já não existe Transição Democrática em El Salvador, porque se deu um retrocesso no espírito e na letra dos Acordos de Paz. Consolidou-se um governo civil autoritário, que com as suas políticas neoliberais deteriorou o Estado salvadorenho e promoveu a confrontação; a sua estratégia é a publicidade mediática, a demagogia e autoritarismo, tolerância da corrupção e impunidade.

    3- DAS COMUNIDADES AO PODER POPULAR NACIONAL

    Para avançar e consolidar a construção do Poder Popular Nacional, devemos levar à prática o que construímos colectivamente, o que discutimos em todos os níveis e que fizemos aprovar pelas Convenções Nacionais, que são o organismo máximo do Partido, como sejam: a Carta de Princípios, os Estatutos, o Programa e Estratégia.

    A Carta de Princípios define-nos como um Partido democrático, revolucionário e socialista, o que requer o fortalecimento ideológico de acordo com tais princípios e uma luta política, social, diplomática e parlamentar constante e permanente, ligada ao povo, às comunidades, às organizações sociais e sectores empresariais afectados pelo modelo neoliberal e pelo capitalismo selvagem. Estamos dentro do sistema; o desafio é como derrotar o modelo vigente e como destruir e mudar esse mesmo sistema, para o transformar num sistema que tenha no centro a pessoa humana.

    A FMLN é a maior organização social do país registada como partido político, que assumiu, a partir de Fevereiro de 2002, os seguintes desafios estratégicos:

  • Propusemo-nos derrotar ideológica e politicamente o capitalismo neoliberal e instaurar um governo revolucionário que salve o país do desastre criado pelos governos areneros e seus aliados.
  • Para o conseguir, necessitamos realizar uma importante mudança na vida da FMLN, que consiste em nos prepararmos para ser um partido que se organiza e forma como uma organização de lutadores e lutadoras sociais, e não só de votantes. Necessitamos mais povo e mais revolucionários.
  • Trabalhar para construir um movimento, um bloco social e político de forças, concertando com elas as acções fundamentais para transformar a sociedade salvadorenha, com as quais se comprometa um Governo Democrático de Salvação Nacional fiel à Constituição actualmente em vigor.
  • No imediato, organizar o partido em comités de base, ligando-o profundamente ao povo, para o acompanhar na sua luta imediata, na sua organização e unidade e aumentar a consciência política e social das massas; definir o perfil das medidas económicas e de segurança que permitam diferenciar o rumo para que se orientará um governo de esquerda.
  • Convertermo-nos em lutadores e lutadoras organizadores, comunicadores, militantes leais à institucionalidade do partido e unidos através da acção revolucionária e das suas ideias, que modifica a imagem de divisão interna e gera confiança na população.
  • Um partido cujos militantes que ocupam cargos públicos utilizam esses espaços para aumentar a participação e a consciência do povo, procurar a elevação da sua qualidade de vida, de processos de desenvolvimento local e municipal e que se preparam política, técnica e metodologicamente para governar.

    O programa Democracia, Prosperidade e Justiça Social é anti-neoliberal, tem as bases na luta política e é uma ferramenta dessa mesma luta. Incorpora as reivindicações mais sentidas da população afectada pelos governos da ARENA e retoma os aspectos pendentes dos Acordos de Paz e os que se deterioraram. Este é o marco político do Programa de Governo que se formulou nas eleições presidenciais passadas, da Plataforma Legislativa e Plataforma Municipal vigentes. De acordo com o contexto político nacional já expresso, o trabalho legislativo combina-se com a luta legislativa dentro da Assembleia e com o trabalho fora dela, nas comunidades, com as “Tribunas Abertas Legislativas” e em articulação com os diferentes sectores afectados ou beneficiados, de acordo com o tipo de iniciativa jurídica. Os Governos Municipais, além de administrarem o seu orçamento, o seu trabalho deve ser orientado para a organização, a mobilização e a participação cidadã, que contribua para resolver os seus problemas mais urgentes, mas também para a luta anti-neoliberal.

    Um dos aspectos centrais em debate, é a famosa governabilidade, que em dadas ocasiões regista contradições de percepção e do nosso papel. Governabilidade a favor de quê e de quem? O conceito e visão de governabilidade que compartilhamos, deve basear-se na segurança dos cidadãos e na democracia participativa. Esta governabilidade pode conseguir-se quando se respeitam os direitos humanos, as liberdades humanas, a democracia e a justiça social.

    Por outro lado, por meio dos governos municipais, podemos avançar na construção do “Modelo Alternativo” por que temos vindo a lutar. Nos municípios onde temos onze anos de governo, temos chegado a uma forma diferente de governo, sustentando o desenvolvimento dos planos municipais na participação territorial e sectorial organizada, em que as populações participam definindo os seus orçamentos e prioridades. Nestes municípios, toda a população está organizada em sistemas produtivos, por razões sociais, ou por território. A sua participação contra o modelo neoliberal é ofensiva e muito dinâmica, assim como a sua capacidade de proposta para a solução dos seus problemas. A base fundamental para a construção do poder popular, seja local ou nacional, é a organização da população para lutar pelos seus direitos económicos, sociais, culturais, políticos e pelo sistema de liberdades humanas: liberdade de pensamento, de expressão, organização e mobilização. Os Comités de Base, são a organização territorial e sectorial presente nas comunidades ou nos sectores de trabalho, vinculadas aos seus problemas e necessidades. São a base da organização social e política. Estas experiências dão-nos elementos para reafirmar a nossa estratégia de luta que se acumula a nível nacional. A organização social como base e o aspecto eleitoral como uma componente da estratégia.

    A FMLN, enraizada no coração do povo salvadorenho, dentro e fora do território, é a garantia da vitória do processo revolucionário, que passo a passo vamos construindo, a partir de cada povoado, de cada comunidade organizada, de cada sector social e económico. O fortalecimento das alianças com sectores afectados pelas políticas neoliberais, são e serão nossos aliados neste caminho.

    Obrigado.

    Pela unidade e integração dos nossos povos!
    Pelo direito à auto-determinação dos povos!
    Pela liberdade, democracia e justiça social!
    Pela vida do povo, a luta continua!
    ¡Hasta la victoria siempre!

    ___________
    Notas
    1- Turcios Roberto. Autoritarismo y modernización. El Salvador 1950-1960. Fundación Friederich Eber, Ediciones Tendencias. San Salvador, El Salvador. 1993. Págs. 10-20
    2- De la Dictadura hacia la Democracia. Jorge Juárez y otros. Ediciones CEPAZ, 1ª Edición, enero de 2005 El Salvador, Centroamérica
    3- A Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional, FMLN, foi fundada em 10 de Outubro de 1980.
    4- Discurso de Medardo González, Coordenador Geral da FMLN, no 13º aniversário da assinatura dos Acordos de Paz, em 16 de Janeiro de 1992, no Monumento à Paz. San Salvador, 16 de Janeiro de 2005.
    5- Relatório do Conselho Nacional à XIX Convenção Nacional Ordinária da FMLN. Dezembro de 2004. El Salvador. Apresentado pelo Deputado Salvador Sánchez Cerén (Leonel González), como Coordenador Geral da FMLN até Dezembro de 2004.


    [*] Membro da Comissão Política da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN) e deputada na Assembleia Legislativa de El Salvador. Comunicação apresentada no IX seminário os partidos e uma nova sociedade, México DF, 4-6 de Março de 2005. Tradução de Carlos Coutinho.

    Esta comunicação encontra-se em http://resistir.info/ .

  • 01/Abr/05