A organização e mobilização social é a base
do poder político da FMLN
por Blanca Flor América Bonilla Bonilla
[*]
ANTECEDENTES
Roberto Turcios
[1]
, toma como referência o Estado salvadorenho, no qual se concentra e
realiza o poder económico, político, militar e ideológico,
na base do qual define quatro períodos históricos: a) a
constituição do Estado, de 1811 a 1871, que vai desde a
independência da Espanha ao triunfo liberal; b) o Estado liberal
oligárquico, até 1932, cuja característica principal
é a concentração da propriedade; c) o Estado modernizador,
que tem início com a ditadura militar em 1932 até à crise
da integração centro-americana em 1969; d) a crise
histórica que culmina com o último golpe de Estado, em 1979 e na
criação das condições objectivas e subjectivas para
a guerra civil.
Como bem define Turcios
[2]
, os grandes períodos históricos foram marcados por conflitos
profundos que experimentaram manifestações de violência. O
Estado liberal na insurreição de 1932 e o movimento
cívico-militar de 1944; o Estado modernizador, em dois golpes de Estado
(Outubro de 1960) e na restrição violenta do espaço
político em 1972. A partir desses últimos acontecimentos,
desenvolve-se a crise histórica até à sua
transformação na guerra e num período de
reconstituição estatal negociada.
Em El Salvador, a continuidade dos governos militares iniciados com o massacre
camponês de 1932, viu-se confrontada a partir dos anos sessenta com
desafios provenientes das exigências de democratização dos
grupos emergentes das classes médias e do movimento sindical urbano.
Nas décadas de 1960 e 1970 funda-se e consolida-se o movimento de massas
na rua, em greves operárias e lock-outs patronais, de estudantes,
professores, camponeses, que alcançaram níveis organizativos
impressionantes.
A guerra civil desencadeia-se abertamente em Janeiro de 1981, quando a FMLN
[3]
impulsiona a ofensiva geral contra o regime.
Esta foi a primeira acção político-militar realizada em
conjunto pelas cinco organizações que deram origem à FMLN,
após dez anos de luta de guerrilha, que passou por um processo de
acumulação das forças político- militares, das
organizações sociais e quando se tinha demonstrado até
à saciedade que chegar aos espaços de poder do Estado pela via de
eleições ou por meios políticos pacíficos era
impossível, porque os níveis de violação dos
direitos mais elementares como o direito à vida, ao livre pensamento,
livre expressão, organização e mobilização,
os níveis de corrupção e fraude eleitoral eram
escandalosos, passou-se a uma forma mais qualificada de luta do povo
salvadorenho, através da luta social, política e militar. Durante
os doze anos de guerra civil, a intervenção dos Estados Unidos
financiou o exército governamental com dois milhões de
dólares diários e com toda a tecnologia e assessoria, cujo
objectivo era derrotar a FMLN.
Depois destes doze anos, ante as reiteradas sanções da
Organização das Nações Unidas (ONU) ao governo de
El Salvador, por delitos de lesa-humanidade e aprofundamento das
violações dos direitos humanos, perante o reconhecimento e apoio
solidário da comunidade internacional e da própria ONU para a
FMLN como força beligerante que lutava por um programa baseado na
justiça social e nos direitos humanos e não viam possibilidade de
o derrotar pela via militar, a Frente tinha feito já mais de trinta
documentos contendo propostas de diálogo, para que se resolvesse o
conflito armado por meio do diálogo, negociação e
saída diplomática. Depois da ofensiva militar de Novembro de
1989, os Estados Unidos sob a administração de Bush pai e a
oligarquia agro-exportadora salvadorenha, representada no Partido
Aliança Republicana Nacionalista (ARENA), convencem-se que há que
pôr fim ao conflito. Após dois anos de diálogo e
negociações, com participação das igrejas
salvadorenhas como mediadoras e com permanentes consultas a diferentes sectores
sociais, económicos e políticos do país e o compromisso
das Nações Unidas como garante, foram assinados os Acordos de
Paz, em 16 de Janeiro de 1992.
Para a oligarquia agro-exportadora, para os seus interesses financeiros, com o
partido ARENA a deter pela primeira vez a presidência da república
a partir de 1 de Junho de 1989, era necessário que o país pusesse
fim à guerra. Tinham já formulado uma projecção
para 25 anos para a implantação do modelo neo-liberal, que
não tinham podido desenvolver enquanto a guerra durou. Por outro lado, a
FMLN tinha, em duas ocasiões, apresentado à nação
propostas para a formação de um Governo de
Participação Ampla, tendo em conta as mais nobres
aspirações de liberdade, democracia e justiça social do
povo salvadorenho. Esta era a oportunidade que tinha ficado consagrada nos
acordos a que se chegou, como um acordo político de nação,
para construir pela primeira vez um novo El Salvador, o que implicava um
compromisso e responsabilidade das e dos salvadorenhos, principalmente dos que
assinaram os acordos e dos que participaram com propostas nas consultas. A
Frente denominou este novo período de Transição
Democrática, com início em 1992.
1- ACORDOS DE PAZ VERSUS MODELO NEOLIBERAL
Nas comemorações do 13º aniversário dos Acordos de
Paz, em 16 de Janeiro de 2005, a FMLN referiu-se à origem destes
acordos, à situação actual, aos desafios e compromissos de
luta do nosso Partido:
[4]
Há treze anos, assinávamos os acordos pondo fim ao conflito
armado no nosso país. Em 16 de Janeiro de 1992 terminou a guerra que
teve origem na pobreza, na marginalização e na cruel ditadura
militar que pretendia abafar com a perseguição, o terror e a
morte, qualquer reivindicação de terra, de trabalho, de
salários, que não suportava pontos de vista diferentes e ignorava
o legítimo direito do povo às suas aspirações mais
sentidas. As eleições para a Presidência, deputados e
autarcas eram fraudulentas, a favor do PCN, partido oficial da época.
Inventavam-se votos, compravam-se votos, ameaçavam-se as pessoas. O
Exército e as forças policiais asseguravam em última
instância a suposta vitória do oficialismo, e o Conselho Central
de Eleições de então legalizava os resultados e escondia
todas as falsificações.
Não havia maneira de se sacudir esse jugo pela via política, o
povo estava condenado a suportar aquele sistema ignominioso e
sanguinário, em condições de terrível pobreza e
marginalização. Foi necessária uma luta longa e plena de
heroísmo e sacrifícios para pôr fim ao militarismo.
Por isso, nesse dia, há 13 anos, primeiro em Chapultepec, na cidade do
México, e de seguida aqui em San Salvador, frente à catedral de
Monsenhor Romero, estávamos felizes, e connosco feliz e satisfeito, o
povo salvadorenho. Estávamos felizes e orgulhosos, porque graças
a esses acordos de paz púnhamos ponto final a dezenas de anos de
ditadura militar. Nós, o nosso Partido, durante os dois anos que durou o
processo de negociação sob os auspícios do
secretário-geral das Nações Unidas, fomos artífices
do desmantelamento da ditadura militar, e abrimos os espaços que
permitiram ao povo gozar de algumas liberdades, de que antes não gozava.
Nunca duvidamos que com esses acordos trazíamos ao país a reforma
política mais importante da sua história. A FMLN sente-se
orgulhosa de ter sido o sujeito principal dessas transformações.
Nesse 16 de Janeiro, acabamos com o regime brutal que nos oprimia. Ganhamos,
vencemos politicamente a ditadura, mas sobretudo ganhou o povo. Decerto que
muito estava por fazer, do que se tratava nesse momento era de continuar a
luta, agora no plano político, nas suas diversas formas, para acabar com
os graves males que o militarismo e a oligarquia tinham deixado ao país,
e que tinham estado na origem do conflito.
Quero dizer-vos, particularmente aos jovens, que esse processo não foi
fácil. Nós tínhamos a força e tínhamos a
força das ideias para chegar ao Acordo, mas do lado oposto, no seio do
nosso adversário, as posições contra qualquer
diálogo e mínimo entendimento com a FMLN eram tão
obsessivas, que em certos momentos, podiam parecer insuperáveis.
Posições que se traduziam em perseguição, em
repressão e assassinato daqueles que se atreviam publicamente a
pronunciar-se a favor de um entendimento e da sua concretização
em factos concretos.
Recordo aqui isto, não apenas porque num dia como o de hoje é bom
e saudável rememorar um tanto aqueles dias, mas sobretudo, porque treze
anos depois, agora, diante do regime que se instalou no país,
encontramos de novo posições similares às daqueles
momentos. Não estamos em guerra, obviamente, mas tratando-se de
problemas tão dolorosos para o nosso povo, particularmente no que se
refere à vida dos mais pobres, nos vemos confrontados com as mesmas
atitudes e as mesmas condutas em relação a nós por parte
de personagens que têm nas suas mãos o poder de decisão
além de que lhes assista ou não a razão a
propósito do que defendem.
Naqueles anos do conflito armado, era considerado uma loucura, uma insensatez e
até um crime, arvorar a bandeira da paz. Hoje, de novo, nós
erguemos a bandeira de uma plena democracia, com justiça social e
participação para conquistas concretas, em benefício de
todos e em especial dos excluídos do sistema, que ponham o país
no caminho do desenvolvimento humano.
Para abrir caminho à paz, foi necessário convencer mentes
conservadoras, fechadas ao entendimento de que o país tinha que rumar em
direcção ao fim do conflito. Hoje constatamos que temos que
trabalhar muito para convencer os que detêm o poder económico e
político a abandonar essas políticas equivocadas que
impõem ao país. Mas, do mesmo modo que naqueles anos
estávamos seguros de que o conflito chegaria ao fim, hoje estamos
seguros que se abrirá caminho ao diálogo que permitirá
estabelecer a justiça social e que El Salvador sairá da
terrível estagnação em que se encontra.
Agora, a par da crítica situação de pobreza e desemprego e
do insuportável custo de vida, vemos sinais de retrocesso no regime
político, que nos preocupam profundamente. Não restam já
dúvidas que os espaços democráticos que se abriram com os
Acordos estão em perigo. O autoritarismo que caracterizava o anterior
governo não só não terminou, como tende a firmar-se, e na
Assembleia Legislativa é prática quotidiana, em tal grau que o
parlamentarismo, que em essência implica aproximação e
negociação, se debilitou. Temos hoje um regime ditatorial civil.
As instituições criadas ou reformadas pelos Acordos de Paz
não alcançaram, na maior parte dos casos, a maturidade
institucional, devido à perversão do sistema político
imperante.
As garantias básicas consagradas na nossa Constituição
estão ameaçadas por reformas das leis penais, sob o pretexto da
luta contra a delinquência.
O Supremo Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Eleitoral
mantêm vivos partidos como o PCN e o PDC, para assegurar a maioria
legislativa que a ARENA necessita.
A Procuradoria para a Defesa dos Direitos Humanos acusa a Policia Nacional
Civil como uma entidade do Estado que pratica a tortura, com o fim de obter
confissões.
A direita, assustada com o potencial eleitoral da FMLN, recusa-se a
avançar com uma reforma que torne mais equitativa a luta eleitoral.
Não está interessada que o Supremo Tribunal Eleitoral seja um
verdadeiro tribunal. Recusam as limitações aos gastos com as
campanhas eleitorais. Assustam-se quando se fala de pôr limites à
propaganda eleitoral nos grandes meios de comunicação.
A ARENA organiza grupos de choque para desestabilizar o trabalho dos governos
municipais da FMLN.
Os ministros do regime atacam publicamente os lutadores sociais,
qualificando-os de delinquentes, pretendendo calar, através da
perseguição política e do terrorismo mediático,
aqueles homens, mulheres e jovens que defendem opiniões diferentes das
do Governo e do partido oficialista.
Por outras palavras: os Acordos de Paz vivem momentos de
estagnação e mesmo de retrocesso. Devemos defender as conquistas
dos acordos. Eles trouxeram boas coisas para todos, devemos concluir a tarefa.
Voltemos a colocar o país no caminho da paz.
Amigos e Companheiros, todos vemos, todos sabemos, que o capítulo social
está inconcluso.
Necessitamos de água potável para todos, no campo e na cidade.
Necessitamos de energia eléctrica na totalidade do território
nacional. El Salvador é pequeno, podemos faze-lo a relativo curto prazo.
Necessitamos educação para todos, sem nenhum tipo de
discriminação, muito menos económica. Necessitamos
erradicar a pobreza extrema, a desnutrição infantil, necessitamos
saúde gratuita para toda a gente. De acordo com relatórios da
CEPAL, 16 países latino-americanos poderiam alcançar as Metas do
Milénio. El Salvador, lamentavelmente, não faz parte dessa lista.
Segundo a mesma CEPAL, os países que terão de fazer maiores
esforços em matéria de educação são o
Brasil, a Nicarágua e El Salvador. Essa mesma instituição
revela-nos um cenário terrível: El Salvador ocupa o primeiro
lugar entre os países que não cumprirão a meta de
erradicar a fome, a menos que se realizem mudanças dramáticas.
É urgente realizar essas mudanças se queremos evitar uma
catástrofe humana. No último Relatório sobre
Desenvolvimento Humano de El Salvador, duma lista de 10 países
analisados, El Salvador aparece em último lugar, no que diz respeito ao
abastecimento de água às habitações, mas a Costa
Rica ocupa o primeiro lugar. Segundo os relatórios das
Nações Unidas, ao ritmo das actuais políticas, em
matéria de luta contra a pobreza, o nosso país necessitaria entre
49 e 52 anos para reduzir somente para metade a pobreza endémica que nos
asfixia. Não existem dúvidas que, de acordo com dados do Banco
Central de Reserva, o crescimento do Produto Interno Bruto por habitante
estagnou. Que fazer? Como fazer? Que mudanças políticas devem
ser realizadas para sair dessa estagnação?
De acordo com outro estudo, 80 de cada 100 famílias não conseguem
assegurar com os seus rendimentos o custo do cabaz de compras básico
ampliado. O que significa que neste momento há milhões de
salvadorenhos que, se compram feijão, já não têm
para comprar as
tortillas
e se compram
tortillas,
já não lhes chega para os feijões, em cada dia das suas
vidas.
Essa é a lancinante e dura realidade que vive a nossa gente. Pergunto:
que espécie de país construíram nestes 15 anos os governos
da ARENA? Mas o senhor Saca diz todos os dias aos salvadorenhos pela
televisão, que o seu governo tem sentido humano.
Que espécie de país construíram estes senhores, que cada
mês 6 mil salvadorenhos, sobretudo jovens, abandonam as suas casas,
procurando o emprego e a prosperidade que não podem encontrar na sua
pátria? É uma ironia ver o senhor Saca muito activo por estes
dias, instando os compatriotas nos Estados Unidos a que se registem nessa
precária autorização de trabalho chamada TPS, ao mesmo
tempo que nada faz para que termine a expulsão de salvadorenhos para
aquele país. É esse o sentido humano deste Governo? O seu
cálculo é claro: cada salvadorenho que consegue fixar-se nos
Estados Unidos é mais um que envia dólares assegurado.
É urgente que o país saia da paralisia social e económica,
e que se retome o método do diálogo e da
concertação. Não há crescimento, o desemprego
é galopante, as famílias desintegram-se, o dólar asfixia
os salvadorenhos que só dispõem das suas energias para poder
sobreviver. O autoritarismo está fechando as portas ao entendimento e
à concertação.
Há 13 anos atrás, a FMLN foi factor determinante para solucionar
o conflito armado. Entendamo-nos agora, para deter a tragédia social que
vive a nossa pátria. Neste dia, lançamos um apelo a todas as
forças vivas do país, com capacidade de influência e poder
de decisão, a fim de devolver a esperança ao povo e deter a queda
para o abismo social e económico.
Propomos para o país:
Superar a pobreza extrema.
Erradicar a desnutrição infantil.
Acabar com a fome que abate milhares de famílias.
Levar água potável a todos os lares de El Salvador.
Acabar com o analfabetismo.
Eliminar as doenças que têm origem na pobreza.
Realizar uma reforma fiscal profunda, para que tudo isto possa ser
viável.
Tudo isso será possível se El Salvador retomar o caminho que nos
foi apontado naquele 16 de Janeiro de 1992.
2- ESTÁ EM CURSO A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA EM EL
SALVADOR?
Desde há mais de cinco anos, quando assumiu como presidente da
república o sr. Francisco Flores Pérez, do partido ARENA, o
governo começou a ignorar as observações e
sugestões das Nações Unidas relativamente aos aspectos
pendentes dos Acordos de Paz. Além disso, consolidou-se um governo
autoritário, que destruiu o método elaborado no processo de
diálogo e negociação, de procurar
aproximações entre os diferentes sectores da
população e das forças sociais, políticas e
empresariais, para chegar a acordos nos diferentes aspectos da vida nacional. O
executivo tornou-se também mais evidente como extensão
política da cúpula empresarial representada na ARENA, já
não como oligarquia agro-exportadora, mas como oligarquia financeira,
vinculada às empresas transnacionais, e o governo de El Salvador como um
anexo da política da administração Bush filho.
Na última Convenção nacional, realizada em Dezembro de
2004, analisa-se a conjuntura nacional e internacional e as perspectivas e
desafios na luta salvadorenha:
[5]
O CONTEXTO INTERNACIONAL E A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA
REVOLUCIONÁRIA IMPULSIONADA PELA FMLN
O contexto internacional caracteriza-se pela agressiva política da
administração Bush e pela imposição da
globalização neoliberal, que enfrentam dificuldades e
resistências a nivel mundial.
O neoliberalismo é a causa da prolongada estagnação
económica e das suas consequências negativas, como o desemprego,
as crises sociais, a pobreza, a delinquência, a má
assistência sanitária e educacional, etc. A crise social, por sua
vez, reflecte-se na crise política e no geral nas crises do sistema de
partidos, pondo em risco os processos
de democratização em curso na maioria dos países da
América Latina. Desde a queda das ditaduras militares, que a crise
económica tende a prolongar-se e a agravar-se, pela
desvalorização progressiva do dólar face a outras moedas e
aos preços do petróleo.
A guerra de agressão impulsionada pelo governo Bush com alguns
aliados, tem como um dos seus objectivos o controlo das maiores
reservas mundiais de petróleo e constitui uma gravíssima
ameaça à paz e à estabilidade mundiais. A guerra contra o
Afeganistão e o Iraque e a ameaça sobre as regiões
petrolíferas, encontrou pela frente uma heróica resistência
dos povos, colocando os Estados Unidos numa situação militar sem
saída. Levantam-se no mundo fortes movimentos pacifistas contra essa
guerra de agressão. Isto não impediu que os governos
areneros, com a sua política entreguista, enviassem tropas
salvadorenhas para o Iraque e para o Haiti, violando a
Constituição da República.
Na América Latina, tanto no sul como na América Central,
alcançam-se sucessivas vitórias políticas, sobre o
neoliberalismo e a política intervencionista de Bush: o Brasil, a
Venezuela, o Uruguai, o Panamá, a Argentina, a FSLN na Nicarágua,
constroem propostas alternativas ao neoliberalismo. Os movimentos
políticos, em conjunto com os sectores populares, de indígenas,
comunais, camadas médias, trabalhadores, etc, constroem novas
alianças e surgem novas correlações de forças
anti-neoliberais.
No Caribe, Cuba, confrontada com o bloqueio e a política agressiva
imposta pelos Estados Unidos, continua sendo um exemplo para os nossos
países. Em pleno bloqueio, milhares de estudantes de todo o mundo
preparam-se nas universidades cubanas, mais de 500 estudantes salvadorenhos
estudam em Cuba.
Os países socialistas da República Popular da China, Vietname e
Cuba, renovam e fortalecem os seus processos revolucionários de
construção socialista e constituem-se numa esperança para
os países do Terceiro Mundo, demonstrando que os problemas que o
capitalismo gera para a humanidade, se podem resolver através doutro
modelo de sociedade, que tem como centro a pessoa humana.
Neste contexto, aprofundamos durante estes três anos a nossa
acção política e social, enfrentando politicamente as
forças neoliberais que impuseram e se agarram à
transição neoliberal
de facto esgotada. Esta resistência e luta, permitiu-nos incorporarmo-nos
no bloco de forças políticas latino-americanas e mundiais que
lutam pela paz, contra a guerra e o neoliberalismo.
GOVERNOS ARENEROS APROFUNDAM A POBREZA E O AUTORITARISMO.
Caracterizamos o período histórico salvadorenho de
transição democrática revolucionária, em luta e
enfrentado a transição neoliberal já
esgotada historicamente.
É o período de luta pelas transformações e
mudanças revolucionárias, no social, político e
económico, de combate contra a pobreza, pela justiça social e por
uma justa distribuição da riqueza, pela conquista do poder para
os pobres e os excluídos. Partimos do princípio que os acordos de
paz estabeleceram as bases da nova sociedade salvadorenha, continuamos levando
por diante esta justa causa democrática. Por isso, a nossa aposta
é derrotar a transição neoliberal e abrir o processo de
desenvolvimento da transição democrática e
revolucionária. O objectivo deste período histórico
é derrotar o neoliberalismo e instaurar um governo de
salvação nacional, com amplo apoio social, que facilite as
transformações económicas, sociais, políticas, em
benefício das maiorias salvadorenhas e que assegure a nossa soberania e
independência nacionais.
Por isso, o programa que apresentamos ao país confronta ideologicamente
o neoliberalismo, pondo no centro da nossa actividade política a pessoa
humana, pelo seu desenvolvimento integral, pela melhoria da sua qualidade de
vida e pelo combate aos valores egoístas e individualistas que lhe
inculca o neoliberalismo.
A nossa actividade política sofreu uma reviravolta, o seu
propósito fundamental é a aproximação ao povo, para
o organizar e lutar pelas suas mais sentidas reivindicações;
o sentido da nossa luta política consiste em a dotar de
um elevado conteúdo social.
A nossa acção eleitoral visa ganhar base social e política
de apoio e suporte aos nossos governos locais, assim como também ao
trabalho parlamentar do nosso partido, com o objectivo de conquistar o governo
democrático de salvação nacional. Durante a gestão
do Conselho Nacional, que hoje termina as suas funções,
apresentamos aos diferentes sectores, às famílias e ao povo
salvadorenho em geral, o nosso Programa Social e Democrático para El
Salvador, que levou a que mais de 812 mil salvadorenhos com direito a voto se
pronunciassem a favor da FMLN nas eleições recentemente
realizadas. Esse programa é também a base de entendimento com o
Bloco Popular Social para a Democracia Real e com a Aliança Social pela
Mudança.
Esta nova viragem na luta política e social mantem o nosso partido, a
FMLN, como a única força política de
oposição real com uma tendência ascendente. Nas
eleições de deputados e alcaides de 2003, obtivemos uma
votação de 475 mil votos, ganhamos 31 deputados e 74
municípios. Nas eleições presidenciais de 2004 obtivemos
812 mil votos, obtendo um importante aumento de votação
relativamente às eleições presidenciais de 1999.
As ideias neoliberais estão sofrendo derrotas políticas,
mostraram a sua incapacidade para fazer sair o país da permanente e
insustentável crise económica. Mesmo reformuladas, a sua
tendência é para a decadência. Vão cobrando mais
força as ideias de mudança e de transformação.
Apesar de a direita ter tido a capacidade mediática de enganar uma parte
do povo e de se apropriar das aspirações legítimas das
pessoas, temos conseguido avanços importantes no terreno organizativo e
programático, na nossa ligação com as
aspirações populares, pusemos em marcha uma nova dinâmica
política e social, gerando um maior dinamismo do partido.
O bloco de forças direitistas neoliberais que detêm o poder
político e económico, fazem funcionar o governo em
função dos seus interesses, utilizam os meios de
comunicação num trabalho ideológico sistemático,
que procura desprestigiar e isolar a FMLN e as ideias de mudança para a
sociedade salvadorenha.
Mantêm o seu estilo e práticas autoritárias, impõem
através da compra de vontades, os seus projectos, estão a
desenvolver a organização das suas bases e aproximando-se das
igrejas, para as converter em suas aliadas, com o objectivo de se perpetuarem
por longos anos no governo. São esses os propósitos da direita,
que usa em função disso todo o seu poder político e
económico.
Mas isto contrasta com a realidade: enquanto o grupo económico
hegemónico acumula riqueza, a maioria do povo continua mergulhado na
pobreza e na falta de esperança. O governo de Saca, aprofundou a crise
económica, social e política, não tem margem de manobra,
nem a suficiente correlação nos grupos de poder económico,
para realizar as modificações de estratégia que lhe
permitam superar a estagnação económica e reactivar a
economia. Tão pouco possui a suficiente capacidade e audácia
política para empreender através do diálogo e da
concertação, a construção de soluções
para os grandes problemas nacionais, já que, a fazê-lo, afectaria
os interesses do poder económico hegemónico.
No plano económico, a economia mantem-se estagnada, em 2004 baixou a sua
actividade, como resultado do fracasso da política arenera que, com a
dolarização, desincentivou a poupança interna e afectou as
exportações.
Os preços do petróleo afectaram o poder de compra do povo,
elevando os preços dos produtos do cabaz de compras básico. A isto
junta-se a queda do investimento, o
crescimento do défice comercial, do endividamento e da dívida
previsível, assim como a fuga de capitais e a baixa na
produção das maquilas. Tudo isto confirma a
estagnação económica que se mantem desde 1995, à
beira duma recessão, com as suas sequelas sociais negativas.
Em 2004 os preços aumentaram cerca de 5.3%, como não acontecia
nos últimos anos e manteve-se o congelamento dos salários. Em
conjunto com a dolarização, estes factos aumentaram o custo de
vida da população, repercutindo-se nas famílias, que
sofreram uma real deterioração na sua capacidade de compra.
Também aumentou o desemprego, piorando as condições de
vida das e dos salvadorenhos, especialmente nas áreas rurais: 45% da
população não tem acesso à energia eléctrica
e mais de 80% não dispõe de esgotos; agudiza-se o problema da
falta de segurança; as salvadorenhas e salvadorenhos são
vulneráveis às enfermidades preveníveis, ultimamente
é alarmante a quantidade de doentes de Sida e de vítimas de
violência intra-familiar.
O presidente Saca foi incapaz, desde o início do seu governo, de
apresentar soluções para a grave crise económica e social
que o país atravessa. Pelo contrário, tratou de a ocultar
através de uma política demagógica e de
falta de diálogo, investindo recursos do Estado numa sistemática
propaganda enganadora, aproveitando-se politicamente das propostas apresentadas
pela FMLN. A verdadeira e real política do governo arenero de Saca
continua a ser a imposição autoritária das suas medidas a
favor dos interesses do grupo económico-financeiro hegemónico
e das transnacionais que controlam o país; não está
disposto a fazer nenhuma concessão ao povo, que possa debilitar o seu
poder. Saca converte-se assim num fiel servidor do grupo financeiro do
país e das transnacionais.
As suas políticas de mesa governamental e sectorial,
têm como objectivo ganhar tempo eleitoral, tratar de isolar a FMLN, e
conseguir entendimentos debaixo da mesa com outros partidos, especialmente com
o PCN. Esta conduta do presidente Saca expressa a sua vontade exclusiva e
autoritária, que se empenha em ignorar a maior força
política, em vez de concertar soluções para os graves
problemas existentes. A FMLN não obteve resposta às propostas de
reforma fiscal, eleitoral, da saúde, dos transportes, que apresentou ao
governo e à Assembleia Legislativa.
O partido ARENA pretende usar eleitoralmente a figura de Saca, com vista ao
mandato 2006-2009, impulsionando uma estratégia mediática e
fazendo uso demagógico do diálogo para enganar e manter uma falsa
imagem dialogante perante a população. Esta imagem começa
a debilitar-se em resultado das promessas não cumpridas aos diferentes
sectores, a necessitar de respostas que requerem recursos de que o governo
não dispõe. Os níveis de endividamento estão a
chegar ao seu limite e a reforma fiscal, que seria a solução,
não é apoiada pelos grandes grupos económicos, defendidos
e representados pela ARENA.
Para a ARENA, é crucial o ano 2005 para recuperar, nas
eleições de 2006,
as municipalidades perdidas e a maioria de deputados na Assembleia Legislativa.
Nesta disputa eleitoral virão de novo à superfície os
graves problemas e contradições com que a ARENA se debate, que
geram a prolongada crise da economia, pela não resolução
das exigências colocadas pelos sectores, e que se verá
agudizada com as disputas dos líderes locais na luta pelo poder
municipal, o que em conjunto, gerará um maior desgaste desse partido.
A FMLN, UM PARTIDO QUE AVANÇA PARA A CONQUISTA DO PODER POLÍTICO.
Este Conselho Nacional definiu como tarefa histórica do período
completar a transformação democrática que ponha em marcha
as mudanças e transformações económicas, que lancem
as bases de um novo projecto alternativo ao neoliberalismo; definiu como
objectivo estratégico a derrota do projecto neoliberal e a
instauração de um governo de salvação nacional com
amplo apoio social, que facilite as transformações
económico-sociais e políticas, em benefício das maiorias.
Em correspondência com estes propósitos, este Conselho Nacional
pôs em marcha um processo de acumulação de vitórias
eleitorais, políticas e ideológicas sobre a essência do
neoliberalismo, demonstrando a incapacidade do modelo neoliberal para resolver
a crise económica e social do país e para proporcionar o
bem-estar à maioria da população. Existe hoje em dia uma
verdade que já ninguém põe em causa: este modelo
demonstrou que funciona a favor de uns poucos que concentram a riqueza, gerando
maiores desigualdades.
A FMLN deu uma volta estratégica para enfrentar ideologicamente o
neoliberalismo, impulsionou uma maior aproximação ao povo,
participando na luta pelas suas exigências políticas e
reivindicativas, ampliando as suas alianças com sectores atingidos pelo
modelo neoliberal, contribuindo para a organização do Bloco
Social pela Democracia. Também é importante o surgimento das
organizações de veteranos de guerra, as quais são
protagonistas de reivindicações justas
no interior do partido e da sociedade.
As modalidades das campanhas eleitorais serviram para consciencializar, educar,
organizar e chegar através do contacto directo dos nossos militantes a
mais largas camadas da população. É importante
também a abertura do partido aos profissionais da
comunicação, o que nos permitiu maior visibilidade e elevar o
nosso caudal de votos nas eleições de 2003 (de alcaides e
deputados) e nas de 2004, (eleições presidenciais).
O estrondoso fracasso político e diplomático de Saca, ao
pretender colocar um personagem corrupto e conflituoso como Francisco Flores
à frente da OEA, não fará senão acelerar o
debilitamento da sua imagem.
A FMLN fortaleceu-se política e socialmente, a luta pela unidade
é um esforço permanente que se impulsionou através do
debate realizado nas consultas departamentais e sectoriais sobre a
estratégia eleitoral, a estratégia e táctica do
período histórico e na elaboração do programa.
Introduzimos uma dinâmica de direcção não
burocrática, que debate os problemas com as pessoas, que mantem
mecanismos de controlo e acompanhamento através dos seus membros no
território, que acciona com os seus comités de base no terreno e
desenvolve através deles a organização dos seus militantes.
A FMLN relançou-se a nível internacional, estabelecendo
relações permanentes com os países socialistas, com a
União Europeia, com o povo dos Estados Unidos e com os salvadorenhos e
salvadorenhas que vivem nesse país e no resto do mundo, com a COPPPAL, a
social-democracia, os países da América Latina e os partidos
centro-americanos. Estamos educando o partido no internacionalismo e na
solidariedade, ao criar a rede dos Comités de Solidariedade com Cuba,
com a Venezuela e com a Palestina.
O Conselho de Alcaides implementou uma estratégia para assimilar e por
em prática a nossa política municipalista, dando prioridade
à temática do desenvolvimento local, a partir de uma visão
participativa contrária à visão da direita.
A nossa Fracção Legislativa levou à Assembleia a luta pela
implementação do nosso programa no que respeita a
legislação e controlo do Executivo, criando conexões com a
população organizada e não organizada. Também
lançou as bases para uma metodologia de prestação de
contas à população, a partir das Tribunas Abertas.
Os nossos deputados no Parlamento Centro-americano impulsionaram uma
visão da integração regional que põe a
tónica nos direitos dos cidadãos e que deve avançar para
uma real integração dos povos, em oposição ao
conceito mercantilista e vertical que a direita promove.
O período que hoje encerramos foi cenário de importantes
reajustamentos internos no partido.
Financeiramente, foi implementada uma política de recolha de fundos
independente, através do pagamento da quota, de donativos, de
dádivas dos comités e amigos no exterior, de venda de
bónus e contracção de empréstimos junto da Banca
privada, que permitiram cumprir as metas financeiras de campanha e manter o
funcionamento do partido. Incrementamos
por outro lado, o inventário de bens, adquirindo duas casas: uma para o
funcionamento da Direcção Eleitoral e outra para o funcionamento
da escola política. Investiu-se na aquisição de uma
gráfica, e a prioridade de investimento nos últimos meses tem
sido na área da propaganda.
Pusemos em marcha novas modalidades para eleger os nossos candidatos e
dirigentes partidários, que expressam a nossa vontade de democratizar o
partido. As deficiências e problemas que se nos apresentam não
devem minimizar nem anular esta experiência. As eleições de
2001 deixaram-nos experiências positivas e negativas, tomamos medidas
urgentes de reforma dos Estatutos, no propósito de melhorar a qualidade
e a eficiência, estabelecemos o mecanismo de certificação e
conferiu-se à Comissão Política e ao Conselho Nacional a
faculdade de apresentar propostas de candidaturas. Nas eleições
internas de 2003 e nas realizadas em 7 de Novembro de 2004,
aperfeiçoamos procedimentos, conseguindo que um maior número de
filiados e filiadas participassem na votação. Mas também
se tornaram evidentes profundas debilidades que afectam a qualidade do partido,
que devem ser rectificadas, o que requer levar por diante reformas dos nossos
estatutos no que respeita à concepção da democracia
partidária e aos procedimentos; não duvidamos que a
direcção que hoje assume, saberá conduzir o seu debate e
aprovação.
Reafirmamos que a FMLN iniciou a partir de 2001 uma viragem estratégica
no nosso partido, que assentou as bases para a construção de um
partido forte, coeso, vinculado ao povo, com maior clareza estratégica,
com maior influência na população. Mas esta viragem
é insuficiente para atingir o objectivo estratégico de conquista
do poder político. Existem erros que deverão ser superados no
curto e médio prazo e avançar para uma condução
científica e eficiente, para o que devemos dotar-nos de instrumentos de
investigação da realidade nacional e do estado da opinião
pública, construir um sistema de debate permanente, melhorar o estilo de
direcção, de planificação e de controlo.
É prioritário aperfeiçoar a nossa estratégia
comunicacional, modificar a imagem negativa da FMLN em alguns sectores e
conseguir que toda a população nos identifique como lutadores,
que defendemos soluções para os seus principais
problemas. Fazer um estudo profundo das nossas eleições directas
e secretas, pondo termo imediato aos processos de recrutamento para o partido
que debilitam a nossa qualidade, assim como à disputa eleitoral interna
que nos rouba precioso tempo político e recursos,
afastando-nos das reivindicações das pessoas, assim como
conseguir tornar mais ligeiro, simples e prático o processo de
votação.
Há que trabalhar para melhorar a disciplina partidária, assim
como para melhorar a qualidade e a eficiência das nossas
funcionárias e funcionários públicos, estabelecer os
procedimentos e mecanismos de controlo que nos permitam superar e corrigir
condutas contrárias à ética, que atentam contra o partido
e a população. Todas estas são metas importantes a
alcançar.
Lançamos as bases para a construção do bloco de
forças democráticas, mas é importante avançar com
maior celeridade na sua ampliação, construir novas
alianças e gerar o suficiente entusiasmo revolucionário, que
propicie a alteração da correlação de forças
a nosso favor, que nos permita alcançar o poder político.
O cenário mundial é de crise permanente do neoliberalismo, que
tende a complicar-se ainda mais, e de avanços importantes da esquerda
latino-americana. Fortalece-se e cresce no mundo a resistência contra as
políticas imperiais e agressivas da actual administração
Bush.
O actual governo arenero e o seu Presidente Saca, conhecedores desta realidade,
desenvolvem uma política demagógica e de enganos. Para eles
é a FMLN a principal
ameaça aos seus interesses egoístas. O cenário
pré-eleitoral e eleitoral, é de um maior confronto
político e social entre estes dois caminhos que a
população salvadorenha tem diante de si.
A nossa perspectiva é de novas vitórias político-sociais.
Para tanto, devemos aprofundar esta viragem da FMLN no fortalecimento da sua
ligação com o povo, conseguir ampliar as alianças,
fortalecer a unidade, educar politicamente o partido, e organizar todos os
nossos militantes sem excepção, desde a base, e fortalecer a sua
consciência política. Projectar a perspectiva de vitória e
pôr em marcha o projecto político da FMLN são as linhas de
acção que nos permitirão entusiasmar o povo,
chamá-lo a organizar-se e a lutar.
Saudamos nesta ocasião todos os nossos heróis e heroínas
tombados na etapa da guerra e na actual etapa de luta política. O seu
exemplo e sacrifício comprometem-nos, motivam-nos e estimulam-nos para a
luta para derrotar o partido Arena, conquistar o governo e iniciar uma nova era
de desenvolvimento em favor dos mais necessitados e excluídos do nosso
país.
Entre as conclusões a que chegaram muitos sectores sociais, empresariais
e políticos, à semelhança da FMLN, é que já
não existe Transição Democrática em El Salvador,
porque se deu um retrocesso no espírito e na letra dos Acordos de Paz.
Consolidou-se um governo civil autoritário, que com as suas
políticas neoliberais deteriorou o Estado salvadorenho e promoveu a
confrontação; a sua estratégia é a publicidade
mediática, a demagogia e autoritarismo, tolerância da
corrupção e impunidade.
3- DAS COMUNIDADES AO PODER POPULAR NACIONAL
Para avançar e consolidar a construção do Poder Popular
Nacional, devemos levar à prática o que construímos
colectivamente, o que discutimos em todos os níveis e que fizemos
aprovar pelas Convenções Nacionais, que são o organismo
máximo do Partido, como sejam: a Carta de Princípios, os
Estatutos, o Programa e Estratégia.
A Carta de Princípios define-nos como um Partido democrático,
revolucionário e socialista, o que requer o fortalecimento
ideológico de acordo com tais princípios e uma luta
política, social, diplomática e parlamentar constante e
permanente, ligada ao povo, às comunidades, às
organizações sociais e sectores empresariais afectados pelo
modelo neoliberal e pelo capitalismo selvagem. Estamos dentro do sistema; o
desafio é como derrotar o modelo vigente e como destruir e mudar esse
mesmo sistema, para o transformar num sistema que tenha no centro a pessoa
humana.
A FMLN é a maior organização social do país
registada como partido político, que assumiu, a partir de Fevereiro de
2002, os seguintes desafios estratégicos:
Propusemo-nos derrotar ideológica e politicamente o capitalismo
neoliberal e instaurar um governo revolucionário que salve o país
do desastre criado pelos governos areneros e seus aliados.
Para o conseguir, necessitamos realizar uma importante mudança na vida
da FMLN, que consiste em nos prepararmos para ser um partido que se organiza e
forma como uma organização de lutadores e lutadoras sociais, e
não só de votantes. Necessitamos mais povo e mais
revolucionários.
Trabalhar para construir um movimento, um bloco social e político de
forças, concertando com elas as acções fundamentais para
transformar a sociedade salvadorenha, com as quais se comprometa um Governo
Democrático de Salvação Nacional fiel à
Constituição actualmente em vigor.
No imediato, organizar o partido em comités de base, ligando-o
profundamente ao povo, para o acompanhar na sua luta imediata, na sua
organização e unidade e aumentar a consciência
política e social das massas; definir o perfil das medidas
económicas e de segurança que permitam diferenciar o rumo para
que se orientará um governo de esquerda.
Convertermo-nos em lutadores e lutadoras organizadores, comunicadores,
militantes leais à institucionalidade do partido e unidos através
da acção revolucionária e das suas ideias, que modifica a
imagem de divisão interna e gera confiança na
população.
Um partido cujos militantes que ocupam cargos públicos utilizam esses
espaços para aumentar a participação e a consciência
do povo, procurar a elevação da sua qualidade de vida, de
processos de desenvolvimento local e municipal e que se preparam
política, técnica e metodologicamente para governar.
O programa
Democracia, Prosperidade e Justiça Social
é anti-neoliberal, tem as bases na luta política e é uma
ferramenta dessa mesma luta. Incorpora as reivindicações mais
sentidas da população afectada pelos governos da ARENA e retoma
os aspectos pendentes dos Acordos de Paz e os que se deterioraram. Este
é o marco político do Programa de Governo que se formulou nas
eleições presidenciais passadas, da Plataforma Legislativa e
Plataforma Municipal vigentes. De acordo com o contexto político
nacional já expresso, o trabalho legislativo combina-se com a luta
legislativa dentro da Assembleia e com o trabalho fora dela, nas comunidades,
com as Tribunas Abertas Legislativas e em articulação
com os diferentes sectores afectados ou beneficiados, de acordo com o tipo de
iniciativa jurídica. Os Governos Municipais, além de
administrarem o seu orçamento, o seu trabalho deve ser orientado para a
organização, a mobilização e a
participação cidadã, que contribua para resolver os seus
problemas mais urgentes, mas também para a luta anti-neoliberal.
Um dos aspectos centrais em debate, é a famosa governabilidade, que em
dadas ocasiões regista contradições de
percepção e do nosso papel. Governabilidade a favor de quê
e de quem? O conceito e visão de governabilidade que compartilhamos,
deve basear-se na segurança dos cidadãos e na democracia
participativa. Esta governabilidade pode conseguir-se quando se respeitam os
direitos humanos, as liberdades humanas, a democracia e a justiça social.
Por outro lado, por meio dos governos municipais, podemos avançar na
construção do Modelo Alternativo por que temos vindo
a lutar. Nos municípios onde temos onze anos de governo, temos chegado a
uma forma diferente de governo, sustentando o desenvolvimento dos planos
municipais na participação territorial e sectorial organizada, em
que as populações participam definindo os seus orçamentos
e prioridades. Nestes municípios, toda a população
está organizada em sistemas produtivos, por razões sociais, ou
por território. A sua participação contra o modelo
neoliberal é ofensiva e muito dinâmica, assim como a sua
capacidade de proposta para a solução dos seus problemas. A base
fundamental para a construção do poder popular, seja local ou
nacional, é a organização da população para
lutar pelos seus direitos económicos, sociais, culturais,
políticos e pelo sistema de liberdades humanas: liberdade de pensamento,
de expressão, organização e mobilização. Os
Comités de Base, são a organização territorial e
sectorial presente nas comunidades ou nos sectores de trabalho, vinculadas aos
seus problemas e necessidades. São a base da organização
social e política. Estas experiências dão-nos elementos
para reafirmar a nossa estratégia de luta que se acumula a nível
nacional. A organização social como base e o aspecto eleitoral
como uma componente da estratégia.
A FMLN, enraizada no coração do povo salvadorenho, dentro e fora
do território, é a garantia da vitória do processo
revolucionário, que passo a passo vamos construindo, a partir de cada
povoado, de cada comunidade organizada, de cada sector social e
económico. O fortalecimento das alianças com sectores afectados
pelas políticas neoliberais, são e serão nossos aliados
neste caminho.
Obrigado.
Pela unidade e integração dos nossos povos!
Pelo direito à auto-determinação dos povos!
Pela liberdade, democracia e justiça social!
Pela vida do povo, a luta continua!
¡Hasta la victoria siempre!
___________
Notas
1- Turcios Roberto. Autoritarismo y modernización. El Salvador
1950-1960. Fundación Friederich Eber, Ediciones Tendencias. San
Salvador, El Salvador. 1993. Págs. 10-20
2- De la Dictadura hacia la Democracia. Jorge Juárez y otros. Ediciones
CEPAZ, 1ª Edición, enero de 2005 El Salvador, Centroamérica
3- A Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional,
FMLN, foi fundada em 10 de Outubro de 1980.
4- Discurso de Medardo González, Coordenador Geral da FMLN, no 13º
aniversário da assinatura dos Acordos de Paz, em 16 de Janeiro de 1992,
no Monumento à Paz. San Salvador, 16 de Janeiro de 2005.
5- Relatório do Conselho Nacional à XIX Convenção
Nacional Ordinária da FMLN. Dezembro de 2004. El Salvador. Apresentado
pelo Deputado Salvador Sánchez Cerén (Leonel González),
como Coordenador Geral da FMLN até Dezembro de 2004.
[*]
Membro da Comissão Política da
Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional
(FMLN) e deputada na Assembleia Legislativa
de El Salvador. Comunicação apresentada no IX seminário
os partidos e uma nova sociedade, México DF, 4-6 de Março de 2005.
Tradução de Carlos Coutinho.
Esta comunicação encontra-se em
http://resistir.info/
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