As exportações líquidas de petróleo e o "Triângulo de ferro"

por Jeffrey J. Brown [*]

Como Matt Simmons enfatizou vários anos atrás, o problema crítico com o pós-pico das regiões exportadoras é que teríamos duas funções exponenciais (produção declinante e consumo geralmente crescente) a trabalhar contra as exportações líquidas. Do ponto de vista dos importações, é bastante provável que estejamos a enfrentar um crash nos abastecimentos de petróleo. Na minha opinião, aquilo que descrevei como o "Triângulo de ferro" está a fazer todo o possível para impedir que esta mensagem atinja os consumidores.

Gráfico 1. Num ensaio postado em Janeiro de 2006 no blog The Oil Drum adverti que uma crise nas exportações líquidas de petróleo estava iminente, e utilizei aquilo que denominei o "Export Land Model" (ELM) para ilustrar o efeito prejudicial sobre as exportações líquidas de petróleo do declínio da produção e do aumento do consumo. A Figura 1 é um gráfico simples que ilustra a ELM.

Até recentemente eu nunca quantificara que percentagem das Reservas Finais Recuperáveis (Ultimate Recoverable Reserves, URR) remanescentes seriam exportadas. Note-se que o ELM é um simples modelo matemático de um hipotético país exportador, mas o modelo é baseado nas regiões produtoras reais.

Note-se também que a percentagem da produção que vai para consumo no início do declínio da produção tem um efeito significativo sobre quando um exportador líquidos passa a ser um importador líquido.

Por exemplo: os cinco principais exportadores líquidos em 2006 (Arábia Saudita, Rússia, Noruega, Irão e os EAU), consumiam cerca de 25% da sua produção total de líquidos. Em compensação, muitos dos principais exportadores, com base nos nossos modelos matemáticos, estão claramente em fases avançadas de esgotamento, especialmente os três principais (Arábia Saudita, Rússia e Noruega), os quais apresentaram um declínio combinado de 3,8% nas exportações líquidas de petróleo entre 2005 e 2006 (AIE, Total de líquidos).

Em qualquer caso, a resposta à questão de quanto petróleo seria exportado vem a seguir (baseei a URR na URR do Texas versus o pico da produção):

Suposições:
1- URR de 38 mil milhões de barris (Gb), atingindo o pico a 55% da URR (aproximadamente a mesma amplitude do Texas e da Arábia Saudita, com base na premissa de que a Arábia Saudita atingiu o pico):
2- Taxa de declínio pós-pico de 5% ao ano (aproximadamente a mesma amplitude da do Texas, historicamente, e da Arábia Saudita, actualmente);
3- Aumento da taxa de consumo pós-pico de 2,5% ao ano (menos da metade da actual taxa de aumento do consumo para os exportadores principais).

Resultados:
1- As exportações líquidas chegam a zero em nove anos (note-se que o Reino Unido foi do pico de exportações a zero exportações em cerca de seis anos).
2- A partir do Ano Zero e do Pico de Exportações dos ELM, apenas cerca de 10% das reservas recuperáveis remanescentes seriam exportadas.

Dada a acumulação de evidências de declínio das exportações líquidas de petróleo à escala mundial, é útil recordar que a visão convencional está a considerar uma capacidade exportadora líquida mundial, isto é, basicamente uma taxa de aumento infinita do consumo de um recurso energético de base que é finito. Apesar de muitos economistas não verem problema algum nisso, voltando ao mundo real uma taxa de aumento infinita tende a ser difícil de manter.

Gráfico 2. A Figura 2 mostra o Total das importações americanas de petróleo bruto e produtos refinados, o qual aumentou cerca de 5% ao ano desde 1990.

Na minha opinião assistiremos a uma colisão épica entre a as expectativas da visão convencional de uma contínua taxa de aumento exponencial nas exportações líquidas de petróleo contra a nova realidade em rápido desenvolvimento de um declínio exponencial nas exportações líquidas de petróleo.

Meu frequente co-autor, "Khebab", actualmente está a trabalhar em alguns modelos matemáticos da produção, consumo e exportações líquidas dos principais exportadores líquidos de petróleo. Com base nos dados que já vi até agora, não será um quadro muito bonito. Suspeito que os modelos podem mostrar que não muito mais do que 25% da URR remanescente nos principais países de exportação líquida chegará a ser exportada.

Em relação às discussões quanto ao Pico Petrolífero e ao Pico das Exportações, descrevi aquilo que denominei o "Triângulo de ferro", o qual consiste de: (1) Algumas grandes companhias petrolíferas, alguns grandes exportadores de óleo e alguns analistas de energia; (2) O grupo do automóvel, habitação e finanças e (3) O grupo dos media.

Se alguém estiver na "perna" das exportações do Triângulo de ferro, e se esse alguém tiver concluído que o Pico Petrolífero está em cima de nós, ou extremamente próximo, ele diria: "Não podemos aumentar a nossa produção" e portanto encorajamos a conservação maciça e esforços energéticos alternativos. Ou dirá: "Preferimos não aumentar a produção e/ou somos temporariamente incapazes de aumentar a produção pelas seguintes razões (preencha o espaço em branco)?".

Esta última rota de acção tenderia a desencorajar a emergência de esforços para conservação e esforços para energias alternativas, e encorajaria os consumidores de energia a manterem os seus estilos de vida actuais, talvez incidindo em novos endividamentos a fim de pagar as suas contas de energia, e isto em geral teria o efeito líquido de maximizar o valor das reservas remanescentes.

Sempre considerei interessante que pessoas como Matt Simmons (que estão a encorajar a conservação de energia) sejam geralmente culpadas por alguns críticos pelos altos preços do petróleo, ao passo que algumas grandes companhias petrolíferas, alguns grandes exportadores de petróleo e alguns analistas de energia estejam – com efeito – a encorajar o consumo acrescido de energia.

A mensagem que predomina entre algumas das grandes companhias de petróleo, alguns grandes exportadores e alguns analistas de energia pode ser grosseiramente resumida como se segue: "Vamos em frente!"

Enquanto isso, nos outros dois lados do Triângulo de ferro, o grupo do automóvel/habitação/financeiro está focado na venda e financiamento do próximo automóvel ou da outra coisa, e os grupos de media querem apenas vender publicidade para o grupo do automóvel/habitação/financeiro. O grupo dos media está muitíssimo feliz em passar a mensagem da "Festa continua" aos consumidores.

Em alguma medida, o que estamos a assistir em relação a todos, desde grandes sectores da indústria da energia até a indústria do automóvel/habitação/finanças, media e por aí afora, é o " Efeito Enron ", isto é, muitas pessoas sabem que temos enormes problemas pela frente, mas os seus cheques de pagamento estão dependentes do status quo.

Os suburbanitas estão presos no meio disto, embora tenham uma forte inclinação para acreditar na mensagem predominante do "Triângulo de ferro". Tal como no filme "O sexto sentido" ( "The Sixth Sense" ), para a maior parte de nós o automóvel baseado no estilo de vida suburbano está morto, mas ainda não sabemos disso, e vemos apenas o que queremos ver.

Contudo, é cada vez mais difícil para muitos suburbanos ignorarem a realidade pois ela vagorosamente começa a estender-se sobre eles, de modo que Jim Kunstler estava certo quando afirmou: "Os subúrbios representam a maior má aplicação de recursos da história do mundo". Provavelmente em breve veremos que os possuidores do inferno não estarão furiosos com o fim da Antiga Prosperidade do suburbanita, o qual acabou de ter o seu SUV retomado e a hipoteca da sua casa McMansion executada.

Pelo menos aqueles de nós que tentam advertir do que está para vir podem tentar preparar-se com um plano crível a fim de tentar tornar as coisas "Não tão más como poderiam ser de outra forma", quando se tornar aparente para a maioria dos americanos que não podemos ter uma taxa de aumento infinito no consumo de um recurso base de energia que é finito. Como será um slogan de campanha?

Recomendo AET — Agricultura + Electrificação do Transporte (ET), combinado com um programa de energia eólica + nuclear.

Alan Drake escreveu extensamente acerca de questões ET, como por exemplo em "Electrificação do transporte como uma resposta para o pico da produção petrolífera mundial" .

Em termos mais simples, dentro em breve vamos precisar de empregos para hordas de raivosos desempregados masculinos, e na minha opinião o "AET" é um meio de colocá-los em trabalhos produtivos.

Numa base individual, também recomendaria o "ELP", o qual resume-se no artigo seguinte: "O Plano ELP: Economize, Localize e Produza" .

Boa sorte para todos nós. Vamos precisar dela.

[*] Geólogo do petróleo independente, residente em Dallas, Texas. Email: westexas@aol.com .

O original encontra-se em
http://graphoilogy.blogspot.com/2007/07/net-oil-exports-and-iron-triangle.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
19/Jul/07