O Iraque o problema do pico petrolífero

por F. William Engdahl

Clique para ampliar. Hoje, a maior parte do mundo está convencida de que a administração Bush não travou a guerra contra o Iraque e Saddam Hussein devido à ameaça de armas de destruição em mass, nem tão pouco a perigos terroristas. Mantem-se uma dúvida, entretanto: saber porque Washington arriscaria tanto, nas relações com os seus aliados e o mundo inteiro, para ocupar o Iraque. Há provas convincentes de que petróleo e geopolítica estão no cerne das razões ainda escondidas para a acção militar no Iraque.

É cada vez mais claro que a ocupação americana do Iraque refere-se ao controle global dos recursos petrolíferos. Contudo, controle numa situação em que os abastecimentos mundiais de petróleo são de longe muito mais limitados do que a maior parte da humanidade tem sido levada a acreditar. Se o que se segue for exacto, a guerra do Iraque é apenas a primeira numa grande batalha global sobre recursos energéticos, uma batalha que será mais intensa do que qualquer guerra petrolífera até à data. As apostas são das mais elevadas. É sobre a determinação de quem obterá quanto petróleo para a sua economia e a que preço e quem não o obterá. Nunca tal poder de sufocar a economia mundial esteve nas mãos de uma única potência. Após a ocupação do Iraque parece que está.

A era do petróleo barato e abundante, que suportou o crescimento económico mundial durante mais de três quartos de século, está muito provavelmente superada ou ultrapassado o seu pico absoluto, de acordo com importantes geólogos do petróleo independentes. Se esta análise for exacta, as consequências económicas e sociais serão estarrecedoras. Esta realidade está a ser escondida da discussão geral pela multinacionais do petróleo e pelas principais agências governamentais, acima de tudo pelo governo dos Estados Unidos. As companhias petroleiras têm um interesse dissimulado em esconder a verdade a fim de manter o preço de obtenção de novo petróleo tão baixo quanto possível. O governo americano tem um interesse estratégico em impedir o resto do mundo de perceber quão crítico se tornou o problema.

De acordo com as melhores estimativas de um certo número de respeitados geólogos internacionais, incluindo o Instituto Francês do Petróleo, a Colorado School of Mines, a Uppsala University e a Petroconsultants de Genebra, o mundo provavelmente sentirá o impacto do pico da maior parte dos actuais grandes campos petrolíferos e a queda dramática na oferta no fim desta década, 2010, ou possivelmente vários anos mais cedo. Neste ponto, a economia mundial enfrentará choques que em contraste tornarão insignificantes os aumentos de preços de petróleo da década de 1970. Por outras palavras, enfrentaremos uma grande escassez energética mundial do principal combustível de toda a nossa economia dentro de uns sete anos.

PICO PETROLÍFERO

O problema na produção de petróleo não é quanto de reservas estão no subsolo. Aqui os números são mais encorajadores. O problema acontece quando grandes campos petrolíferos como Prudhoe Bay Alaska ou os campos do Mar do Norte ultrapassam o seu pico de produção. Tal como uma curva em sino, os campos petrolíferos ascendem a uma produção máxima, ou seja, atingem o pico. O pico é o ponto em que metade do petróleo já foi extraída. Em termos de reservas remanescentes pode parecer que ainda há bastante petróleo. Mas isto não é tão cor-de-rosa como parece. A produção de petróleo pode manter-se no pico de produção por um certo número de anos antes de principiar um lento declínio. Uma vez atingido o pico, entretanto, o declínio pode ser muito rápido. Ultrapassado pico, ainda há petróleo, mas torna-se difícil extrair, e mais custoso, pois as pressões internas dos furos declinam ou outros problemas tornam mais cara a recuperação de cada barril. O petróleo está lá mas não é fácil, de modo algum, extraí-lo. O custo de cada barril ultrapassado o pico é cada vez mais elevado na medida em que meios artificiais são utilizados para extraí-lo. Depois de um certo ponto torna-se não-económico continuar a tentar extrair este petróleo do pico.

Como a maior parte das companhias e agências petrolíferas, tais como o Departamento da Energia dos EUA, falam não do pico em sim das reservas totais, o mundo tem um falso sentido de segurança quanto à oferta energética. Na verdade é tudo menos segura.

ESTUDOS DE CASO

Alguns casos recentes evidenciam isto. Em 1991 a maior descoberta no Hemisfério Ocidental desde a década de 1970 foi encontrada em Cruz Beana, na Colômbia. Mas a sua produção caiu de 500 mil barris por dia para 200 mil barris em 2002. Em meados da década de 1980 o Forty Field no Mar do Norte produziu 500 mil barris por dia. Hoje ele rende 50 mil barris. Uma das maiores descobertas dos últimos 40 anos, Prudhoe Bay, produziu cerca de 1,5 milhões de barris por dia durante quase 12 anos. Em 1989 atingiu o pico e hoje dá apenas 350 mil barris por dia. O campo gigante russo Samotlor produziu um pico de 3,5 milhões de barris por dia. Ele agora caiu para 325 mil por dia. Em cada um deste campos a produção foi mantida elevada gastando cada vez mais para injectar gás ou água a fim de manter as pressões do campo, ou por outros meios para bombear a quantidade de petróleo. O maior campo petrolífero do mundo, Ghawar, na Arábia Saudita, produz aproximadamente 60% de todo o petróleo saudita, uns 4,5 milhões de barris por dia. Para conseguir isto, relatam os geólogos, os sauditas devem injectar 7 milhões de barris por dia de água salgada a fim de manter elevada a pressão dos furos, um sinal alarmante de proximidade do colapso da produção nos maior reino petrolífero do mundo.

O problema ascendente do pico petrolífero é conhecido entre as pessoas bem informadas da indústria petrolífera desde meados da década de 1990. Em 1995, a importante firma Petroconsultants, de consultoria em petróleo, publicou um estudo global, 'The World Oil Supply'. O relatório custa US$ 35 mil e foi escrito para a indústria petrolífera. O seu autor foi o Dr. Collin Campbell, geólogo de petróleo. Em 1999 Campbell, perante a Câmara dos Comuns britânica, declarou que "A descoberta de (novas reservas petrolíferas) atingiu o pico na década de 1960. Agora achamos um barris por cada quatro que consumimos..."

NENHUMAS NOVAS DESCOBERTAS GIGANTES

Depois de a OPEP ter aumentado os preços na década de 1970, projectos não-OPEP principiaram a ser lucrativos no Mar do Norte, Alasca, Venezuela e outros lugares. A produção de petróleo aumentou significativamente. Ao mesmo tempo, em resposta aos preços do petróleo mais elevados, muitos países industriais como a França, Alemanha, EUA, Japão aumentaram dramaticamente a energia a partir de centrais nucleares. A combinação disto deu a ilusão de que o problema do petróleo havia-se desvanecido. Mas isto não aconteceu, longe disso.

Se de facto muitas das principais fontes de petróleo de hoje atingiram o pico, e estão prestes a cair drasticamente, e se ao mesmo tempo a procura mundial de energia continua a crescer, e não foi encontrado bastante petróleo para substituir o esgotamento existente, a economia global enfrenta uma crise de dimensões estarrecedoras. Isto também principiaria a explicar a mudança da política externa americana na direcção de uma grosseira presença militar neo-imperial a nível global, desde o Kosovo até o Afeganistão, desde a África Ocidental até Bagdad e por aí afora.

Obviamente, o mais fácil, a solução mais económica, é descobrir novos campos petrolíferos gigantes ou super-gigantes de onde grandes volumes de óleo possam ser extraídos e trazidos para os mercados mundiais a baixo custo. É exactamente isso que não é o caso hoje. Segundo um relatório recente da Colorado School of Mines, 'The World's Giant Oilfields', "os 120 maiores campos petrolíferos do mundo produzem perto de 33 milhões de barris por dia, quase 50% da oferta mundial de petróleo bruto. Os 14 maiores representam mais de 20%. A idade média destes 14 maiores campos é de 43,5 anos". [1]

O estudo citado concluiu que "a maior parte dos verdadeiros gigantes do mundo foi descoberta décadas atrás". Ao longo dos últimos 20 anos, apesar do investimento de centenas de milhares de milhões de dólares pelas grandes companhias petrolíferas, os resultados têm sido alarmantemente desapontadores.

As maiores companhias petrolíferas do mundo — Exxon-Mobil, Shell, ChevronTexaco, BP, ElfTotal e outras — investiu centenas de milhares de milhões de dólares para descobrir petróleo suficiente a fim de substituir a oferta de óleo das fontes existentes. Entre 1996 e 1999, cerca de 145 companhias gastaram US$ 410 mil milhões a fim de descobrir óleo suficiente apenas para manter a sua produção diária estável a 30 milhões de barris por dia. De 1999 a 2002, as cinco maiores companhias gastaram mais US$ 150 mil milhões e a sua produção apenas de 16 milhões de barris por dia para 16,6 milhões de barris, um aumento minúsculo. Com o colapso da União Soviética no princípio da década de 1990, as companhias petrolíferas ocidentais colocaram altas esperanças nos potenciais de óleo do Mar Cáspio, na Ásia Central.

RESULTADOS DO CÁSPIO DESAPONTADORES

Em Dezembro de 2002, pouco depois de as tropas americanas tomarem o Afeganistão, a BP, uma grande companhia petroleira, anunciou resultados desapontadores da perfuração no Cáspio, os quais sugeriam que a "a descoberta do século" era pouco mais do que uma gota no oceano. Ao invés das anteriores previsões de reservas de petróleo acima dos 200 mil milhões de barris, uma nova Arábia Saudita fora do Médio Oriente, o Departamento de Estado americano anunciou que "o petróleo do Cáspio representa 4% das reservas mundiais. Ele nunca dominará os mercados do mundo". A PetroStrategies publicou um estudo estimando que a Bacia do Cáspio continha uns meros 39 mil milhões de barris de petróleo, de uma pobre qualidade. Logo após estas notícias, a BP e outras companhias petrolíferas ocidentais principiaram a reduzir os seus planos de investimento na região.

INTERESSE NA ÁFRICA OCIDENTAL

Uma das áreas mais activas de nova exploração é no offshore da África Ocidental, desde a Nigéria até Angola. O presidente Bush uma viagem ostensiva à região no princípio deste ano, e o Pentágono americano assinou acordos militares básicos com duas pequenas ilhas estratégicas, São Tomé e Príncipe, garantido uma presença militar se alguma coisa ameaçasse o fluxo de petróleo através do Atlântico. Mas, se bem que o volume de petróleo seja importante, isto dificilmente é uma nova Arábia Saudita. O geólogo Campbell estima que se todo o petróleo de águas profundas, talvez 85 mil milhões de barris, fosse extraído dos campos do Brasil, de Angola e da Nigéria isto atenderia à procura global durante uns 3 a 4 anos.

PROCURA DE ENERGIA CRESCENTE

Em contraste com a perspectiva de muitos dos maiores campos petrolíferos de hoje estarem num declínio de produção acentuado, a procura mundial por petróleo está a elevar-se brutalmente, marcada pelo crescimento das economias da China, da Índia e da Ásia. Mesmo às fracas taxas de crescimento do PIB actuais, economistas estimam que a procura mundial por petróleo aos preços de hoje aumentará nuns 2% ao ano.

Dez anos atrás, a China não era um factor a considerar na importação mundial de petróleo. Ela produzia internamente a maior das suas limitadas necessidades. Contudo, a partir de 1993 a China começou a importar petróleo para atender às suas necessidades económicas. No fim de 2003 a China havia ultrapassado o Japão e passara a ser o segundo maior importador de petróleo logo a seguir aos EUA. A China agora consome 20% da energia do total dos países industriais da OCDE. As importações de petróleo da China agora estão a crescer a 9% ao ano e esta previsto que cresça significativamente na próxima década, pois a China emerge como a maior nação industrial do mundo. Actualmente a China cresce a 7-8% ao ano. A Índia recentemente também emergiu como uma economia em crescimento rápido. Combinados, ambos os países representam uns 2,5 mil milhões da população mundial. Não é de admirar que a China se oponha veementemente à guerra unilateral dos EUA contra o Iraque no Conselho de Segurança da ONU. A companhia petrolífera nacional da China procura há muito garantir a maior parte da oferta de óleo do Iraque.

O QUE CHENEY SABIA EM 1999

Num discurso no International Petroleum Institute, em Londres, no fim de 1999, Dick Cheney, então presidente da maior companhia de serviços petrolíferos do mundo, a Halliburton, apresentou um quadro da oferta e procura mundiais para peritos da indústria. "De acordo com algumas estimativas", declarou Cheney, "haverá uma média de dois por cento de crescimento anual na procura de óleo ao longo dos próximos anos, bem como, conservadoramente, um declínio natural de três por cento na produção das reservas existentes". Cheney concluiu com uma nota alarmante: "Isto significa que em 2010 precisaremos de um acréscimo de 50 milhões de barris por dia". Isto é o equivalente a mais de seis Arábias Sauditas da dimensão de hoje.

Talvez não seja coincidência que tenha sido dada a Cheney, vice-presidente, como sua primeira grande tarefa, a direcção da Presidential Task Force on Energy. Ele conhecia a dimensão do problema energético enfrentado não só pelos Estados Unidos como também pelo resto do mundo.

Cheney também está identificado na administração Bush como o principal falcão da guerra do Iraque, juntamente com o secretário da Defesa Rumsfeld. Reiteradamente Cheney pressionou pela acção militar contra o Iraque, sem se importar com que aliados apoiassem.

Quando examinamos o que é conhecido acerca das reservas de petróleo globais, e onde estão elas, à luz da análise do "pico petrolífero" de grande parte da produção de óleo hoje existente, torna-se mais claro porque Cheney estaria desejoso de arriscar tanto, em termos de postura dos EUA perante aliados e outros, para ocupar os campos petrolíferos do Iraque. Cheney conhece exactamente qual é a situação das reservas petrolíferas globais como antigo presidente da Halliburton Corporation, a maior companhia de serviços petrolíferos do mundo.

O CALCANHAR DE AQUILES DOS EUA?

A questão escaldante é: onde obteremos tão enorme aumento de petróleo? Na década de 1990 a 2000 foram descobertas novas reservas com um total de 42 mil milhões de barris em todo o mundo. No mesmo período o mundo consumiu 250 mil milhões. Nas últimas duas décadas apenas três campos gigantes com mais de um mil milhões de barris cada um foi descoberto. Um na Noruega, um na Colômbia e outro no Brasil. Nenhum destes produz mais do que 200 mil barris por dia. Isto está muito longe dos 50 milhões de barris por dia que o mundo precisará.

Estará a era do petróleo barato e abundante para alimentar a economia mundial prestes a terminar? Uma importante questão em todo o debate sobre por que Washington foi à guerra no Iraque é a questão do quanto óleo permanece por ser descoberto no mundo aos preços de hoje. O debate tem sido notavelmente escasso acerca de uma questão económica de tão enormes consequências.

Segundo estimativas de Colin Campbell e K. Aleklett da Universidade de Uppsala, cinco países possuem de forma esmagadora o grosso do petróleo remanescente global e poderiam potencialmente compor as coisas quando outras áreas ultrapassarem o seu pico. "Os cinco maior produtores do Médio Oriente, nomeadamente Abu Dhabi, Iraque, Irão, Kuwait e Arábia Saudita (incluindo a Zona Neutra), com cerca de metade do petróleo remanescente mundial, são tratados como produtores de equilíbrio (swing producers) compondo a diferenças entre a procura mundial e o que os outros países podem produzir..." [2]

Estes cinco países — Iraque, Irão, Arábia Saudita, Kuwait e EAU — devido às circunstâncias da geologia, contem as reservas de petróleo e de gás vitais para o futuro crescimento económico do mundo. Num artigo no número de 7 de Janeiro de 2002 do Oil and Gas Journal , de A. S. Bakhtiari, Iranian National Oil Company (NIOC), observa-se: "O Médio Oriente (é) simultaneamente a mais geoestratégia área do globo e o prémio final de energia: Dois têrços das reservas de petróleo bruto globais estão concentradas em cinco países ribeirinhos do Golfo Pérsico". [3]

Num documento publicado em Novembro de 2001, o eminente geólogo de Princeton, Kenneth Deffeyes, escreveu: "A maior questão única de todas é o ano em que a produção petrolífera mundial atinge o pico de Hubbert e começa então a declinar para sempre. Tanto os gráficos como os ajustamentos por computador identificam 2004 como o ano provável. A maior incerteza única é a das enormes reservas da Arábia Saudita". [4]

Se a análise do pico petrolífero for exacta, ela sugere a razão porque Washington pode estar desejosa de arriscar tanto para controlar o Iraque e, através das suas bases ali, o cinco países ricos em petróleo. Isto sugere que Washington está a actuar a partir de uma fraqueza estratégica fundamental, não de uma fortaleza absoluta como se pensa muitas vezes. Um debate completo e aberto sobre o problema do pico da energia é necessário com urgência.

Notas
1- 'The World`s Giant Oilfields', Matthew R. Simmons, M. King Hubbert Center for Petroleum Supply Studies, Colorado School of Mines, January 2002.
2- Aleklett, K. and Campbell, C.J., 'The Peak and Decline of World Oil and Gas Production,' published by the Association for the Study of Peak Oil and Gas, www.asponews.org .
3- Bakhtiari, A.M. Samsam , '2002 to see birth of New World Energy Order,' Oil and Gas Journal, January 7, 2002.
4- Deffeyes, Kenneth S, 'Peak of world oil production,' Paper no. 83-0, Geological Society of America Annual Meeting, November 2001. gsa.confex.com.

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09/Ago/04