As guerras que lubrificam a máquina do Pentágono
Dezasseis galões americanos mais de 60 litros de
petróleo. É isso que o soldado americano no Iraque ou no
Afeganistão consome em média por dia quer directamente,
através do uso de Humvees, tanques, camiões e
helicópteros, quer indirectamente, nos ataques aéreos.
Multiplique-se este número por 162 mil soldados americanos no Iraque, 24
mil no Afeganistão, e 30 mil na região circundante (incluindo os
marinheiros a bordo dos navios de guerra americanos no Golfo Pérsico) e
chega-se a cerca de 13,25 milhões de litros de petróleo: a
factura diária de petróleo para as operações de
combate dos EUA na zona de guerra do Médio Oriente.
Multiplique-se essa factura diária por 365 e chega-se aos 4 900
milhões de litros: o gasto anual estimado de petróleo para as
operações de combate dos EUA no sudoeste asiático.
É mais do que o consumo anual de petróleo do Bangladesh, com uma
população de 150 milhões e mesmo assim é uma
estimativa muito por baixo do consumo do Pentágono em tempo de guerra.
Estes números não conseguem prestar total justiça à
terrível voragem de gasolina das guerras no Iraque e no
Afeganistão. Se virmos bem, por cada soldado no "teatro de
guerra", há outros dois em trânsito, em treino, ou por
qualquer outra forma na linha de espera para uma eventual
deslocação para a zona de guerra soldados que
também consomem enormes quantidades de petróleo, mesmo que sejam
menores do que as dos seus compatriotas no estrangeiro. Além disso, para
alimentar um exército "expedicionário" situado do lado
oposto do hemisfério, o Departamento da Defesa dos EUA tem que
movimentar milhões de toneladas de armamento, munições,
alimentos, combustível e equipamentos por ano, de avião ou de
barco, consumindo cargas completas de petroleiros adicionais. Some-se isto
à conta e o orçamento do Pentágono destinado ao
petróleo para a guerra dá um salto apreciável, embora
não tenhamos qualquer forma de saber exactamente quanto.
E, é pena ter que dizê-lo, as guerras no estrangeiro são
apenas uma pequena fracção do consumo total de petróleo do
Pentágono. Como possui a maior frota do mundo de modernos aviões,
helicópteros, barcos, navios-tanques, veículos blindados e
sistemas de apoio na prática todos eles alimentados a
petróleo o Departamento da Defesa (DoD) é o maior
consumidor mundial de petróleo. Pode ser difícil obter detalhes
precisos sobre o consumo máximo de petróleo diário do DoD,
mas um relatório de Abril feito por um empreiteiro da defesa, a LMI
Government Consulting, indica que o Pentágono pode estar a consumir
cerca de 340 mil barris (53 milhões de litros) por dia. É mais do
que o consumo total nacional da Suécia ou da Suiça.
Não se trata de 'espingardas vs manteiga' mas de 'espingardas vs
petróleo'
Para todos aqueles que conduzem um veículo motorizado hoje em dia, isto
tem implicações desastrosas.
Com o preço da gasolina nos Estados Unidos actualmente entre 75
cêntimos e um dólar a mais por galão (20-26 cêntimos
por litro) do que era há apenas seis meses, é óbvio que o
Pentágono se depara com uma degradação orçamental
potencialmente grave. Tal como qualquer família média americana,
o DoD tem que fazer algumas escolhas difíceis: pode usar a sua
quantidade normal de petróleo e pagar mais na bomba de gasolina do
Pentágono, enquanto reduz outras despesas básicas; ou pode
reduzir a utilização da gasolina em prol do
aperfeiçoamento dos sistemas de armas favoritas.
Claro que o DoD tem uma terceira opção: pode ir ter com o
Congresso e pedir mais um aumento suplementar do orçamento, mas isso
provocará de certeza novas exigências de um calendário para
a retirada das tropas americanas do Iraque e portanto não é uma
perspectiva muito provável nesta altura.
E isto nem sequer é um problema ocasional. Ainda há dois anos, o
Departamento americano da Energia (DoE) previa confiadamente que o preço
da rama do petróleo iria ficar pelos 40 dólares por barril
durante mais ou menos vinte e cinco anos, o que manteria os preços da
gasolina americana em cerca de 2 dólares por galão (53
cêntimos por litro). Mas depois aconteceu o Furacão Katrina, a
crise no Irão, a rebelião no sul da Nigéria, e um
montão de outros problemas que estrangularam o mercado do
petróleo, levando a que o DoE elevasse a sua projecção de
preços a longo prazo para a escala dos 50 dólares por barril.
É este o valor que figura em muitas previsões orçamentais
actuais do governo incluindo também provavelmente as do DoD.
Mas que realismo há nisso? O preço actual de um barril de crude
anda na ordem dos 66 dólares. Muitos analistas de energia dizem agora
que o destino mais provável para o futuro previsível é um
preço na ordem dos 70 a 80 dólares por barril (ou possivelmente
ainda mais).
Um aumento de preços desta amplitude, quando reflectido no custo da
gasolina, combustível de aviação, diesel,
combustível para aquecimento doméstico, e petroquímicos,
vai deitar abaixo os orçamentos das famílias, dos
negócios, e dos governos locais. Mais cedo ou mais tarde,
obrigará as pessoas a efectuarem profundas mudanças nas suas
vidas diárias as fáceis, como comprar um carro
híbrido em vez de um veículo de tipo desportivo, ou as dolorosas
como reduzir o aquecimento doméstico ou os cuidados de saúde para
poder continuar a fazer a indispensável viagem para ir trabalhar.
E o efeito no orçamento do Pentágono será igualmente
grave. Enquanto consumidor nº 1 a nível mundial de derivados do
petróleo, o DoD não deixará de ser afectado
desproporcionalmente pela duplicação do preço do
petróleo bruto. Se não se puder virar para o Congresso para se
equilibrar, terá que reduzir o seu consumo excessivo de petróleo
e/ou reduzir outras despesas, incluindo as compras de armamento.
A subida do preço do petróleo está a ocasionar aquilo a
que a LMI, empreiteiro do Pentágono, chama de
"desarticulação fiscal" entre os objectivos a longo
prazo das forças armadas americanas e as realidades do mercado da
energia. "Está a aumentar a necessidade de recapitalizar
equipamento obsoleto e danificado [das guerras no Iraque e no
Afeganistão] e de desenvolver sistemas de alta tecnologia para
implementar futuros conceitos operacionais", explicou num relatório
de Abril. No entanto, a incapacidade "de controlar o aumento dos custos da
energia a partir do petróleo e das infra-estruturas de apoio desvia
recursos que poderiam ser aplicados na produção de novas
capacidades".
E, segundo parece, esta nem sequer é a maior preocupação
do Pentágono. O DoD, afinal de contas, é a mais rica
organização militar do mundo, e por isso é de esperar que
consiga descobrir contas bancárias escondidas de uma ou outra forma para
pagar as suas contas de petróleo e financiar os seus muitos projectos de
armas queridas. No entanto, isto é partindo do princípio que
haverá petróleo suficiente nos mercados mundiais para satisfazer
as necessidades sempre crescentes do Pentágono o que não
é de forma alguma uma conclusão inevitável. Tal como
qualquer outro grande consumidor, o DoD tem hoje que enfrentar a realidade cada
vez mais próxima mas difícil de precisar do
"pico petrolífero"
e a possibilidade bem real de que a produção global do
petróleo se encontre ou esteja muito perto da sua produção
sustentada máxima ("pico") e de que em breve entre num
declínio irreversível.
Já ninguém discute o facto de que a produção global
do petróleo irá acabar por atingir um pico e depois entrar em
declínio. Todas as principais organizações de energia
já abraçaram esta perspectiva. O que se mantém em aberto
para discussão é quando chegará exactamente esse momento.
Alguns especialistas colocam-no confortavelmente no futuro ou seja daqui
a duas ou três décadas enquanto que outros o situam na
presente década. Se é que está a surgir algum consenso,
é que o pico do petróleo deverá ocorrer por volta de 2015.
Qualquer que seja a altura deste acontecimento gravíssimo, é
fácil de perceber que o mundo enfrenta uma profunda mudança na
disponibilidade global de energia já que mudamos de uma
situação de relativa abundância para uma de relativa
escassez. De notar que esta mudança se aplicará, sobretudo,
à forma de energia mais consumida pelo Pentágono, os
líquidos de petróleo usados para alimentação de
aviões, barcos e veículos blindados.
A Doutrina Bush enfrenta o pico do petróleo
O pico do petróleo não é uma daquelas ameaças
globais que o DoD já enfrentou anteriormente. Tal como outras
organizações governamentais americanas, o DoD tentou evitar o
problema, considerando-o até há pouco tempo como uma
questão periférica. No entanto, à medida que se foi
aproximando a chegada iminente do pico do petróleo aumentou, foi
forçado a parar e a reparar nela.
Acicatada talvez pelo aumento dos preços do combustível, ou pela
atenção cada vez maior dada à "segurança
energética" dos estrategas académicos, o DoD assumiu um
interesse repentino pelo problema. Para liderar a exploração do
problema, o Gabinete da Transformação da Força no interior
da Sub-Secretaria da Defesa para a Política encarregou a LMI de efectuar
um estudo sobre as implicações para o Pentágono da futura
escassez energética.
O estudo, "Transformar a Forma como o DoD Encara a Energia"
("Transforming the Way the DoD Looks at Energy"),
foi uma bomba. Determinando que a estratégia favorita do
Pentágono de compromisso militar global é incompatível com
um mundo de produção de petróleo em declínio, a LMI
chegou à conclusão de que "o planeamento actual apresenta
uma situação em que a capacidade operacional agregada da
força pode ser insustentável a longo prazo".
A LMI chegou a esta conclusão a partir de uma cuidadosa análise
da actual doutrina militar dos EUA. No centro da estratégia militar
nacional imposta pela administração Bush a Doutrina Bush
estão dois princípios básicos: a
transformação, ou a conversão do pesado aparelho militar
da Guerra-fria, com base em tanques, numa máquina de guerra de alta
tecnologia futurista, ágil no continente; e a
pré-preempção
(pré-preemption),
ou a iniciação de hostilidades contra "estados hostis"
como o Iraque e o Irão, suspeitos de desenvolverem armas de
destruição maciça. O que ambos os princípios
implicam é um aumento substancial do consumo de produtos
petrolíferos pelo Pentágono seja porque esses planos se
baseiam, numa extensão aumentada do poder aéreo e
marítimo, ou porque implicam um ritmo acelerado de
operações militares.
Conforme resumido pela LMI, a implementação da Doutrina Bush
exige que as forças americanas "alastrem geograficamente e sejam
mais móveis e expedicionárias para que se possam empenhar em mais
teatros e estejam preparadas para um posicionamento expedito em qualquer parte
do mundo". Ao mesmo tempo, "têm que passar de uma
posição de força reactiva para uma proactiva para
impedirem as forças inimigas de se organizarem e de efectuarem ataques
potencialmente catastróficos". Continua dizendo que, "para
efectuar essas actividades, as forças militares americanas terão
que utilizar ainda mais energia
Considerando a tendência no
consumo de combustível operacional e as futuras necessidades de
capacidade, esta 'nova' utilização de força exigirá
igualmente mais energia/combustível no cenário
estabelecido".
O aumento resultante no consumo de petróleo virá também a
ser dramático. Durante a Operação Tempestade no Deserto de
1991, o soldado americano consumiu em média apenas 15 litros de
petróleo por dia; na sequência das iniciativas do presidente
George W. Bush, um soldado americano no Iraque está agora a utilizar o
quádruplo disso. Se este ritmo de aumento continuar sem parar, a
próxima guerra em grande pode traduzir-se num gasto de cerca de 240
litros por soldado por dia.
Foi esta lógica inabalável da situação que levou a
LMI a concluir que há uma grave "desarticulação
operacional" entre os princípios da administração
Bush para as futuras operações de guerra e a
situação global da energia. A administração tem,
assinala a empresa, "amarrado a capacidade operacional a
soluções de alta tecnologia que exigem um aumento permanente de
abastecimento energético" e tem-no feito no pior momento
possível. Afinal, é provável que o fornecimento de energia
global esteja a começar a diminuir. Obviamente, escreve a LMI,
"pode não ser possível vir a executar conceitos e
capacidades operacionais para atingir a nossa estratégia de
segurança se não forem consideradas as implicações
energéticas". E, se forem consideradas essas
implicações energéticas, a estratégia revela-se
"insustentável".
O Pentágono como serviço de protecção do
petróleo
Como é que os militares vão reagir a este problema inesperado?
Uma solução, apoiada por algumas pessoas dentro do DoD, é
tornar-se "verde" dando prioridade ao desenvolvimento acelerado e
à aquisição de sistemas de armas de alto rendimento
energético para que o Pentágono possa manter o seu compromisso
com a Doutrina Bush, mas consuma menos ao fazê-lo. Esta proposta, a ser
praticável, teria o atractivo óbvio de permitir que o
Pentágono assuma a fachada de amigo do ambiente embora mantendo e
desenvolvendo a sua estrutura de forças intervencionistas existentes.
Mas há também uma outra solução mais sinistra que
pode ser muito mais agradável aos quadros superiores: para garantir para
si mesmo uma fonte "fiável" de petróleo para sempre, o
Pentágono pode aumentar os seus esforços para manter o controlo
sobre as fontes externas de abastecimento, nomeadamente os campos
petrolíferos e as refinarias da região do Golfo Pérsico,
principalmente no Iraque, no Kuwait, no Qatar, na Arábia Saudita e nos
Emirados Árabes Unidos. Isso poderia explicar o recente falatório
sobre planos dos EUA para manter bases "duradouras" no Iraque,
conjuntamente com a sua já impressionante e elaborada infra-estrutura de
bases nos outros países.
Os militares americanos começaram a adquirir pela primeira vez produtos
petrolíferos a fornecedores do Golfo Pérsico para alimentar
operações de combate no Médio Oriente e na Ásia
durante a II Guerra Mundial e continuaram a fazê-lo desde essa altura.
Foi em parte para proteger esta fonte vital de petróleo para fins
militares que em 1945 o presidente Franklin Roosevelt propôs pela
primeira vez o posicionamento de uma presença militar americana na
região do Golfo Pérsico. Depois, a protecção do
petróleo do Golfo Pérsico tornou-se mais importante para o
bem-estar económico dos Estados Unidos, conforme expresso no discurso
"Doutrina Carter" de Jimmy Carter em 23 de Janeiro de 1980, assim
como na decisão do presidente George H. W. Bush em Agosto de 1990 para
deter a invasão do Kuwait por Saddam Hussein, que levou à
primeira Guerra do Golfo e, conforme muitos defendem, na decisão
de Bush júnior para invadir o Iraque cerca de uma década depois.
Durante este tempo todo, as forças militares americanas transformaram-se
num "serviço global de protecção do
petróleo" para benefício das empresas e consumidores dos
EUA, travando batalhas além-mar e posicionando as suas bases para
garantir que os americanos obtivessem a sua ração diária
de combustível. Seria tanto triste como irónico se os militares
americanos começassem agora a travar guerras apenas para poderem
garantir o combustível para os seus próprios aviões,
barcos e tanques consumindo centenas de milhares de milhões de
dólares por ano que poderiam ser gastos no desenvolvimento de
alternativas ao petróleo.
[*]
Professor de Estudos para a Paz e Segurança Mundial
em Hampshire College, autor de
Sangre Y Petroleo: Peligros Y Consecuencias De La Dependencia Del Crudo
(encomendas através deste link permitem que resistir.info receba uma pequena
comissão).
O original encontra-se em
http://atimes.com/atimes/Middle_East/IF16Ak04.html
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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