Lições do Equador

por La Jornada (Editorial)

Tomada do Palácio Presidencial, 20/Abr/05. Clique para ampliar. O que assistimos no caso equatoriano? Em primeiro lugar, uma grave divisão no seio das classes dominantes entre os partidários da dolarização e da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), exportadores-importadores, financeiros da costa e os sectores (latifundiários, comerciantes, indústria incipiente) dependentes do mercado interno, em Quito e na serra, bem como grande divisão entre o grupo da direita tradicional e os que tentavam deslocá-la apoiando-se no aparelho estatal. Essa divisão também teve expressões regionais e a crise estalou, sobretudo, nas zonas altas, mais do que em Guayaquil.

Em segundo lugar, a divisão e o desgaste dos órgãos de dominação e de mediação, pois a igreja estava dividida não só verticalmente, entre o alto e o baixo clero, como também horizontalmente. Além disso o exército e os partidos sofrem uma crise agudíssima e um grau inaudito de desprestígio, do qual só se salvam, em parte, o Pachakutik, o partido ad hoc dos indígenas, e alguns grupos de esquerda que, entretanto, não surgem como alternativa.

Governo nacional, ninho de ratos. Em terceiro lugar, o desprestígio total da justiça, manipulada por sua vez por um executivo sem autoridade moral e repudiado, por ser traidor suas promessas eleitorais, mentiroso, corrupto, servil diante dos Estados Unidos e pela sua política anti-popular. A chamada "sociedade política" estava assim dividida por um fosso da sociedade civil, e à crise do Estado (resultante da luta "acima") acrescentou-se a crise de dominação, ou seja, a decisão das maiorias urbanas que agora se auto-qualificam de "forajidos" de fazer política fora das instituições e contra estas, bem como de organizar-se dando forma à sua ideia de autonomia. Esta intervenção das classes médias pobres urbanas, tal como na Bolívia, inclinou os pratos da balança para uma aliança popular entre indígenas e sectores urbanos (sobretudo estudantis, juventude desorganizada e quadros de base do exército).

As assembleias populares e os comités de cidadãos na capital procuram dar forma e continuidade à ocupação do espaço público pela parte mais activa da cidadania, o poder político nas ruas. As forças armadas não se animaram a reprimir por receio de serem ultrapassadas, e agora mesmo tiveram que aceitar que o novo presidente, para ter apoio popular, imponha a destituição dos altos comandos militares e policiais.

O último ingrediente foi o nacionalismo, compartilhado e estimulado também pelos indígenas: ou seja, o repúdio à ALCA, a exigência de desmantelar a base estadunidense de Manta e de romper com o Plano Colômbia, a defesa da estatização do petróleo e da utilização das exportações de hidrocarbonetos para desenvolver o país, a subordinação do pagamento da dívida externa à necessidades sociais, a exigência de acabar com a dolarização que tornou riquíssimos uns poucos à custa da fome e do aumento da emigração em escala maciça.

Agora o movimento popular exige eleições nas quais não possam participar aqueles que nos últimos 25 anos ocuparam cargos públicos ou representativos, e uma Assembleia Constituinte para decidir pacífica e legalmente que país querem os equatorianos. Estes decidiram "ser todos dirigentes".

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/abr05/050424/edito.php .

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26/Abr/05