por
La Jornada
(Editorial)
O que assistimos no caso equatoriano? Em primeiro lugar, uma grave
divisão no seio das classes dominantes entre os partidários da
dolarização e da Área de Livre Comércio das
Américas (ALCA), exportadores-importadores, financeiros da costa e os
sectores (latifundiários, comerciantes, indústria incipiente)
dependentes do mercado interno, em Quito e na serra, bem como grande
divisão entre o grupo da direita tradicional e os que tentavam
deslocá-la apoiando-se no aparelho estatal. Essa divisão
também teve expressões regionais e a crise estalou, sobretudo,
nas zonas altas, mais do que em Guayaquil.
Em segundo lugar, a divisão e o desgaste dos órgãos de
dominação e de mediação, pois a igreja estava
dividida não só verticalmente, entre o alto e o baixo clero, como
também horizontalmente. Além disso o exército e os
partidos sofrem uma crise agudíssima e um grau inaudito de
desprestígio, do qual só se salvam, em parte, o Pachakutik, o
partido ad hoc dos indígenas, e alguns grupos de esquerda que,
entretanto, não surgem como alternativa.
Em terceiro lugar, o desprestígio total da justiça, manipulada
por sua vez por um executivo sem autoridade moral e repudiado, por ser traidor
suas promessas eleitorais, mentiroso, corrupto, servil diante dos Estados
Unidos e pela sua política anti-popular. A chamada "sociedade
política" estava assim dividida por um fosso da sociedade civil, e
à crise do Estado (resultante da luta "acima") acrescentou-se
a crise de dominação, ou seja, a decisão das maiorias
urbanas que agora se auto-qualificam de "forajidos" de fazer
política fora das instituições e contra estas, bem como de
organizar-se dando forma à sua ideia de autonomia. Esta
intervenção das classes médias pobres urbanas, tal como na
Bolívia, inclinou os pratos da balança para uma aliança
popular entre indígenas e sectores urbanos (sobretudo estudantis,
juventude desorganizada e quadros de base do exército).
As assembleias populares e os comités de cidadãos na capital
procuram dar forma e continuidade à ocupação do
espaço público pela parte mais activa da cidadania, o poder
político nas ruas. As forças armadas não se animaram a
reprimir por receio de serem ultrapassadas, e agora mesmo tiveram que aceitar
que o novo presidente, para ter apoio popular, imponha a
destituição dos altos comandos militares e policiais.
O último ingrediente foi o nacionalismo, compartilhado e estimulado
também pelos indígenas: ou seja, o repúdio à ALCA,
a exigência de desmantelar a base estadunidense de Manta e de romper com
o Plano Colômbia, a defesa da estatização do
petróleo e da utilização das exportações de
hidrocarbonetos para desenvolver o país, a subordinação do
pagamento da dívida externa à necessidades sociais, a
exigência de acabar com a dolarização que tornou
riquíssimos uns poucos à custa da fome e do aumento da
emigração em escala maciça.
Agora o movimento popular exige eleições nas quais não
possam participar aqueles que nos últimos 25 anos ocuparam cargos
públicos ou representativos, e uma Assembleia Constituinte para decidir
pacífica e legalmente que país querem os equatorianos. Estes
decidiram "ser todos dirigentes".
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2005/abr05/050424/edito.php
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