Reflexões de um simples
"... eleger entre a fatal SIDA republicana e o cancro do
cólon democrata"
por Guillermo Almeyra
[*]
Existe a possibilidade teórica de Obama obter mais votos mas McCain
conseguir mais delegados, ainda que tudo pareça indicar que os
democratas, ajudados pela estrondosa derrocada das políticas e das
teorias oficiais, poderão ganhar a presidência e o controle das
instituições. Para aqueles, como eu, que só podem observar
com horror como outros preparam e cozinham a sopa que depois nos farão
engolir, de um modo ou de outro, não consola muito comprovar que os
estado-unidenses deverão eleger entre a fatal SIDA republicana e o
cancro do cólon democrata. Este último, ainda que letal, pelo
menos dá um pouco de tempo para tentar curar a sociedade estado-unidense
e o mundo.
Sob o impacto do temor com o aprofundamento de uma crise que acaba de
começar, produziu-se um deslocamento no seio dos capitalistas
estado-unidenses, o qual reflecte-se no apoio dos principais meios de
comunicação a Obama, no apoio dos industriais excepto os
petroleiros e na quantia dos fundos de campanha que recolhe. De facto,
existe um bloco entre estes sectores do grande capital, a quase totalidade dos
intelectuais e artistas progressistas, as burocracias sindicais, as
organizações das pessoas de cor e a maioria dos trabalhadores,
que não pesam na definição das políticas, mas
darão o seu voto. O tipo de medidas que funciona como programa deste
bloco tende a defender o poder aquisitivo e o mercado interno e a diminuir os
impostos aos mais pobres, aumentando ao mesmo tempo os salários
indirectos (Segurança Social, educação) e o emprego nos
Estados Unidos e não em outros países (e por isso, junto com os
sindicatos, Obama propõe reformar o Tratado de Livre Comércio,
para torná-lo ainda mais desfavorável aos mexicanos). Numa
política que está muito mais próxima da de Bill Clinton do
que da ideia do New Deal de Franklin D. Roosevelt.
O Partido Republicano, em troca, está quase isolado, porque o sector
religioso conservador, ainda que mantenha grande peso ideológico,
já não é cultural e politicamente hegemónico (a
ideia da necessidade da "mudança" é, de longe, mais
popular). O salvamento financeiro só para os banqueiros, a atitude dos
executivos que se premeiam muito ufanos com o dinheiro público por
haverem levado as suas empresas à bancarrota e entregam-se à
grande vida enquanto as pessoas comuns perdem casa e emprego, os
escândalos da governadora e do senador do Alasca, ambos republicanos, e a
proposta de reduzir os impostos aos ricos não são, digamos,
coisas muito populares.
Naturalmente, ambos os candidatos são patriotas, ou seja, imperialistas,
e ambos querem "vencer" no Iraque e no Afeganistão (ou seja,
manter a ocupação e as matanças de civis nos dois
países), assim como salvaguardar o "prestígio" dos
Estados Unidos (isto é, um complexo militar industrial gigantesco e um
posicionamento agressivo mundial que são o verdadeiro
sustentáculo do que resta da hegemonia de Washington e da cambaleante
economia estado-unidense). Mas num governo de Obama, centrado sobre o mercado
interno, veríamos o leão a lamber-se as feridas e não a
preparar novas aventuras imediatas no Irão, na Venezuela ou em Cuba,
para evitar a ruptura da paz social, hoje ameaçada pelo aumento do
desemprego e a queda dos rendimentos.
Além disso, Obama depende de a China manter o apoio ao dólar, ao
seu comércio e sustente os Estados Unidos, enquanto McCain oferece pelo
contrário um agressivo nacionalismo anti-chinês, anti-saudita,
anti-venezuelano, anti-russo, que não corresponde à força
real da economia dos Estados Unidos e exigiria, portanto, forças
extra-económicas, ou seja, posicionamentos militares. Com Obama,
além disso, Israel e o lobby sionista perderiam protagonismo e
provavelmente haveria um maior realismo na política exterior dos Estados
Unidos, pois já evidente para todos que o unilateralismo bushiano
deverá ser substituído por um maior multilateralismo na
adopção das grandes decisões.
Um governo de Obama, por outro lado, seria baseado no enfartamento popular
provocado pelas políticas do grande capital e na
incorporação de milhões de pessoas, jovens sobretudo, ao
mundo das preocupações económicas e políticas, o
que a médio prazo poderia mudar o panorama político
estado-unidense e favorecer o surgimento de formas democráticas de
auto-organização popular, e de uma ala mais radical no movimento
sindical, na qual tenham um papel os imigrantes, que hoje são as
primeiras vítimas da crise. Numa palavra, poderia favorecer um processo
de politização de vastas camadas da sociedade estado-unidense,
que sentem que a ideologia neoliberal e as políticas de livre mercado
só serviram para concentrar ainda mais a riqueza e reduzir ao
máximo os direitos democráticos, e devem ser lançadas no
lixo.
Talvez esta visão possa parecer mais uma expressão de desejos do
que uma análise, uma vez que tanto Obama como McCain são brotos
da árvore do capitalismo. Mas, em primeiro lugar, é
necessário ponderar as diferenças que existem entre os dois
candidatos do establishment e também há que aproveitar a crise
para não deixar nas mãos deles a construção de uma
saída progressista para a mesma.
[*]
Doutor em Ciências Políticas (Univ. París VIII),
professor investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade
Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea
da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade
Nacional Autónoma do México.
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/11/02/index.php?section=opinion&article=022a1pol
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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