EUA: Reactualizada a pena de morte
Depois de um curto intervalo durante a década de 70, a pena de morte
recuperou o seu lugar como a mais reaccionária política social da
América. No processo do Supremo Tribunal de Furman versus
Geórgia, o Tribunal deliberou que a pena de morte, tal como aplicada
antes de 1972, era inconstitucional e veio assim a impor uma moratória
legal às execuções nos Estados Unidos. Quatro anos depois,
o mesmo Tribunal aceitou reformas estatutárias de menor
importância e ressuscitou a pena de morte no processo Gregg versus
Geórgia. Ao enquadrar estas decisões balizares do tribunal numa
perspectiva histórica e ao analisar os acontecimentos subsequentes,
saltam aos olhos as dimensões políticas da pena de morte nos
Estados Unidos durante os últimos cinquenta anos.
O Gráfico 1 é um perfeito retrato dos recuos e avanços da
reacção nos Estados Unidos. Apresenta o número anual de
pessoas executadas nesta nação desde 1953 até 2002,
conforme informação do Departamento da Justiça.
Começando a meio da década de 50, sob uma pressão feroz do
NAACP
[1]
e de outras organizações progressistas, a pena de morte iniciou
uma surpreendente descida que continuou na década seguinte. De 1968
até 1976, o período das deliberações do Supremo
Tribunal e da moratória legal, não houve execuções
na nação americana. No fim da década de 70
recomeçaram algumas execuções esporádicas, que
aumentaram no princípio dos anos 80 e depois explodiram durante a
década de 90. O assassínio autorizado pelo estado atingiu o seu
pico em 1999, ano em que foram mortas noventa e oito pessoas. Os números
caíram ligeiramente em 2000 e 2001 mas, em 2002, as
execuções aumentaram outra vez. Desde que a pena de morte
ressuscitou já houve mais de 850 execuções, sendo que os
números de execuções anuais dos últimos anos da
década de 90 já ultrapassaram os dos reaccionários anos 50.
Para além das execuções totais, o gráfico 1
apresenta também a proporção de execuções
nos estados do sul, para cada um dos últimos cinquenta anos. O
gráfico revela que são as execuções no sul, ano
após ano e fundamentalmente, que lideram a tendência nacional,
sendo responsáveis por 69 por cento de todas as execuções
durante o período. No entanto, as execuções sulistas
durante o período pós-moratória reflectem uma
mudança significativa. Enquanto que os estados sulistas foram
responsáveis por uns desproporcionados 58 por cento das
execuções totais no período pré-moratória,
são responsáveis por um total de 81 por cento desde 1977, apesar
do facto de apenas 35 por cento da população nacional residir no
Sul.
As consequências da pena de morte são hoje mais críticas do
que eram em 1972. Nessa época havia 334 presos condenados à
morte nos Estados Unidos actualmente esse número é dez
vezes maior.
O Gráfico 2, baseado também nas estatísticas do
Departamento da Justiça, apresenta o número de presos no corredor
da morte nos Estados Unidos para os anos de 1953 a 2001. O Gráfico 2
mostra que houve uma subida acentuada e permanente de presos no corredor da
morte desde o princípio dos anos 80 até ao fim do século.
O ponto mais baixo nesta sequência situou-se em 1973 quando havia apenas
153 presos à espera de execução, e o número mais
alto foi de 3 601 em 2001.
A população crescente de presos no corredor da morte durante o
período pós-moratória foi um dos alvos do Contrato
Republicano com os Estados Unidos. Os políticos neoconservadores
prometeram acelerar o ritmo das execuções e forneceram os meios
para o fazer com o projecto de lei da Pena de Morte Efectiva e do
Anti-Terrorismo (
Anti-Terrorism and Effective Death Penalty,
ATEDP) que foi aprovada como Lei em 1995. A lei ATEDP simplificava o processo
de execução ao limitar o direito dos prisioneiros ao
habeas corpus,
um preceito legal que permite aos detidos contestar a sua
condenação. A subida acentuada do número de
execuções nos finais dos anos 90 correspondeu à
aprovação da ATEDP (ver gráfico 1).
O elevado número de pessoas actualmente no corredor da morte e as taxas
de execuções são resultado da política capitalista
da lei e ordem. A história recente da pena capital nos
Estados Unidos demonstra que a pena de morte se mantém a arma mais
mortífera da luta de classes na América e que os
reaccionários nunca abrirão mão dela sem luta.
[1]
National Association for the Advancement of Colored People
Associação Nacional para o Progresso dos Negros, fundada em 1909
e uma das mais antigas e influentes organizações dos EUA para
defesa dos direitos civis dos negros (N.T.)
[*]
Escritor socialista independente. Recentemente lançou o livro
Stolen Birthright: The U.S. Conquest of the Mexican People.
O original encontra-se em
http://www.monthlyreview.org/1204vogel.htm
.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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