O imperialismo estadunidense está em crise?
por Gérard Duménil
[*]
e Dominique Lévy
[**]
1- Introdução
2- Neoliberalismo e imperialismo
3- Neoliberalismo: rendimentos, patrimónios e modo de vida das classes mais ricas
4- Poderio do imperialismo estadunidense
5- Uma trajectória insustentável
6- Conclusão
Referências
1-
Introdução
Nunca existiu na história do capitalismo período de harmonia e de
não violência. As primeiras décadas que se seguiram
à Segunda Guerra mundial, os chamados trinta gloriosos,
fazem retrospectivamente figura de paraíso perdido. Contudo, não
foram os do colonialismo e das guerras de independência, da guerra
pretensamente fria e dos escaldantes afrontamentos que suscitou, como na Coreia
ou no Vietnam? Que dizer da subversão por toda a parte no mundo,
nomeadamente na América Latina, cada vez que o controlo dos governos dos
países da periferia por classes ou cliques favoráveis aos Estados
Unidos era ameaçada...
Mas o novo curso do capitalismo, desde há um quarto de século,
singulariza-se pelo ressurgimento de formas de violência que se poderiam
julgar obsoletas. A queda do contra-império soviético assim como
o fiasco das lutas revolucionárias no que se chamava então
o terceiro mundo, quando existia um segundo não conduziu as
classes dominantes e a primeira potência mundial a moderarem o curso da
sua dominação, a civilizarem os seus métodos.
Violência da economia, da guerra e da subversão estão
sempre na ordem do dia. Que elas sejam o feito de pretendidos cruzados da
democracia e da luta contra o terrorismo não lhes muda a natureza.
Que força subterrânea e obscura sustem esta dinâmica? A
resposta não surpreenderá os marxistas: uma luta de classes de
envergadura histórica e mundial. Sobre a base da conquista da
destruição do segundo mundo, trata-se para as classes dominantes
de uma
reconquista,
de uma restauração, no sentido em que se restaura um regime
político. O precedente do que se convencionou chamar "a
restauração" no início do século XIX em
França, não foi mais radical. As classes dominantes estão
engajadas numa luta que visa o restabelecimento da sua preeminência, tal
como antes da grande depressão dos anos 1930 e da Segunda Guerra
mundial. Nesse projecto, a sua audácia não tem limites. Do ponto
de vista da potência estadunidense, está em jogo, além
disso, a consolidação da sua dominação, num mundo
onde outros países alcançaram níveis de desenvolvimento
comparáveis, sabendo que, no fim dos anos oitenta, muitos analistas
profetizavam um declínio. Classes e uma nação, são
estas forças sociais que deram às últimas décadas
do século XX a sua violência específica e o início
do século XXI situa-se bem na continuidade desta empresa.
Neoliberalismo e imperialismo, é através destas duas realidades
que este estudo se esforça por caracterizar o período que se
estende de cerca de 1980 até aos primeiros anos 2000. Eles não
têm a mesma idade. À evidência, o neoliberalismo é um
objecto novo e o imperialismo uma velha coisa. A secção 2
propõe algumas definições. As duas secções
seguintes fornecem, cada uma à sua maneira, as informações
susceptíveis de esclarecer, essencialmente num plano económico,
as naturezas e as características do neoliberalismo
(secção 3) e do imperialismo (secção 4). A
relação entre neoliberalismo e imperialismo pode então ser
estabelecida. A dominação imperialista sobre o resto do mundo
beneficiou formidavelmente das transformações neoliberais; o
estádio neoliberal do imperialismo afigura-se particularmente frutuoso
para as classes e os países dominantes, drenando enormes rendimentos do
resto do mundo; e, em contrapartida, o projecto que encarna o neoliberalismo, o
do restabelecimento do poder e do rendimento das classes proprietárias
dos meios de produção, encontrou-se assim reforçado. Este
projecto de transformação social reaccionário está,
contudo, atravessado por contradições (secção 5).
Suscitou importantes derivas, nomeadamente no coração do
coração do sistema, por parte das classes dominantes dos Estados
Unidos. A continuação destas tendências minaria os
fundamentos da empresa e é de prever uma rectificação. De
que será ela portadora?
2-
Neoliberalismo e imperialismo
Existe, certamente, uma ideologia neoliberal, mas o neoliberalismo define uma
realidade: o novo curso do capitalismo desde, pelo menos, o início dos
anos oitenta:
1- A ideologia e a propaganda destacam as virtudes do mercado e da livre
empresa, o que é uma maneira disfarçada de falar do capitalismo;
a intervenção do Estado deveria ser limitada ao estritamente
necessário. Estes princípios não são estranhos ao
novo curso neoliberal do capitalismo. Em cada país, a liberdade de
empreender, de comprar e de vender, de empregar e de despedir trabalhadores, de
comprar filiais e de efectuar fusões, etc. foi acrescida; os direitos
dos trabalhadores recuaram. No plano internacional, as fronteiras comerciais
foram reduzidas, ou mesmo eliminadas, e os capitais adquiriram o direito de
circular livremente. No mínimo, todos estes processos estão em
curso. Contudo, em bastantes domínios, o poder dos Estados foi
reforçado. É, nomeadamente, o caso das políticas
monetárias, visando desde então, quase exclusivamente, a
estabilidade dos preços, a despeito do desemprego; por todo o lado, os
Estados foram os vectores do estabelecimento do neoliberalismo, nos planos
nacional e internacional. As alavancas nas mãos dos promotores da ordem
neoliberal são principalmente, ao nível das empresas, taxas de
juro elevadas e um "governo de empresa" (entenda-se uma
"gestão") dirigida para os interesses dos accionistas; um
elemento chave é a nova disciplina imposta aos trabalhadores e aos
gestores. Ao nível dos Estados, novas políticas são postas
em prática, políticas macro-económicas
(inflação fraca) ou sociais (diminuição do custo do
trabalho), visando promover os mesmos interesses. No plano internacional,
trata-se da mundialização da ordem neoliberal, pela
eliminação das barreiras à circulação dos
bens e capitais, e a abertura dos países ao capital internacional,
nomeadamente a venda, a baixo preço, das empresas públicas
potencialmente rentáveis; a exportação dos capitais, as
taxas de juro elevadas, e os preços fracos e decrescentes das
matérias primas, permitem a transferência de enormes massas de
rendimentos para os países imperialistas.
2- É difícil datar uma transformação tão
complexa como a emergência do neoliberalismo. O fim do ano de 1979
representa, contudo, uma data emblemática. Paul Volcker, nomeado
à cabeça do banco central dos Estados Unidos, por Jimmy Carter em
final de mandato, decidiu aumentar as taxas de juro a não importa que
nível para acabar com a inflação. Outras
transformações estavam já em curso desde, em particular, a
crise do dólar, no início dos anos setenta, como o abandono das
paridades fixas características do sistema de Bretton Woods,
estabelecido no final da Segunda Guerra mundial; a eliminação das
barreiras ou simples restrições à livre
circulação dos capitais estavam em curso; a potente
máquina financeira dos
euromercados
e do
eurobanco
estava já bem estabelecida no plano internacional, liberta do controlo
dos bancos centrais. A incapacidade de fazer face à
crise estrutural
que atingiu as principais economias capitalistas nos anos setenta,
nomeadamente a inflação cumulativa, criou as
condições económicas, sociais e políticas que
permitiram o estabelecimento da nova ordem social
[1]
:
fracasso da ordem antiga e pressões dos promotores da ordem nova
combinaram-se então. A isso juntava-se o fracasso, cada vez mais
evidente, do modelo soviético e o enfraquecimento do movimento
operário.
Estas transformações foram obra da fracção superior
das classes capitalistas. Num capitalismo onde propriedade e gestão
estão separadas, a propriedades desses grupos sociais sobre os meios de
produção exprime-se através da detenção de
acções, quer dizer, de títulos; são igualmente
credores, quer dizer, detêm títulos de crédito
outorgando-lhes um direito sobre uma parte dos lucros das empresas. Esta
propriedade tem, então, um carácter financeiro, e Marx reunia a
posição dos accionistas e emprestadores, frequentemente os
mesmos, na categoria do
capital de empréstimo.
O facto de a gestão das empresas passar para as mãos de
assalariados poderia significar uma perda de poder dos proprietários
"financeiros", mas o poder destes proprietários concentrou-se,
desde o início, em poderosas instituições financeiras,
como os bancos, as holdings financeiras e fundos diversos (de pensão,
visando o financiamento das reformas, ou outros). Nós chamamos
finança
a essas fracções superiores das classes capitalistas e suas
instituições financeiras. Não se trata de uma
indústria particular, como a banca. No capitalismo moderno, a classe dos
grandes proprietários do capital está relativamente unificada e
possui partes de todos os sectores da economia (pelos seus títulos) e
controla-os (através das suas instituições financeiras)
[2]
. Isso não impede que as actividades financeiras e o sector financeiro
tenham adquirido, com o neoliberalismo, uma importância acrescida. Por um
lado, essas actividades tornaram-se muito mais rentáveis, e, por outro,
o controlo da economia nacional e mundial pelas instituições
financeiras é crucial na manutenção e
perpetuação da ordem neoliberal. Por estas razões, falamos
de bom grado de financeirização e de mundialização
financeira
[3]
.
Se o Lénine traçou, no
Imperialismo, fase superior do capitalismo
[4]
,
um quadro que apanhava a realidade do capitalismo no início do
século XX, não damos o mesmo conteúdo ao termo
imperialismo.
Parece-nos mais justo fazer do imperialismo uma característica geral e
permanente do capitalismo. Desde as suas origens mais recuadas e ainda
embrionárias (pode-se pensar na liga hanseática), o capitalismo
procura os lucros fora das suas metrópoles, com a avidez que lhe
é própria.
Esta procura, estrutural no capitalismo, foi sempre acompanhada de processos de
dominação de toda a espécie, indo da simples
imposição da abertura das fronteiras a países de
desenvolvimento inferior, com as consequências dramáticas que se
conhecem
[5]
, ao colonialismo puro e simples,
e todos os procedimentos de pressão e
extorsão. Os seus meios são a guerra e a
subordinação, a aculturação, e, sobretudo no
passado, a evangelização; a escravatura foi um episódio
particularmente odioso, mas as condições impostas, nos nossos
dias, às populações das
maquiladoras
ou doutros lados não são muito mais desejáveis. É
o conjunto destas relações que constitui o sistema do
imperialismo, definido pela procura de lucros no exterior das metrópoles
capitalistas por métodos de sujeição.
Se o imperialismo não é uma fase do capitalismo, passa ele
próprio por várias fases, que respondem às
transformações dos próprios países imperialistas.
As características principais mudam. Por exemplo, as
relações comerciais foram dominantes nos primeiros
estádios. Combinaram-se muito depressa com modos de financiamento
particulares, partidário da exportação do capital, como no
império americano da Espanha, onde os comerciantes espanhóis
financiavam a agricultura e as minas dos crioulos. Mercadorias e capitais
depressa se ligaram estreitamente. Assim, o imperialismo neoliberal possui
naturalmente as suas características próprias, como o mostra este
estudo, em particular a importância das colocações
financeiras.
O imperialismo não é obra de um país, mas de um conjunto
de países. Estes mantêm relações de luta, indo
até à confrontação armada entre duas
potências, ou grupos de potências em sistemas de aliança,
mas também de cooperação. Cada Estado representa aí
os interesses das suas classes dominantes. Um país pode ocupar uma
posição hegemónica, como os Estados Unidos, que dirigem,
no mundo contemporâneo unipolar, o grupo dos países imperialistas.
A relação de dominação estabelece-se então a
um duplo nível: entre o país dominante e os outros membros do
grupo, e entre esses países imperialistas e os outros países
dominados. De facto, trata-se de uma hierarquia de poderes, onde o mais forte
explora o mais fraco.
Evidentemente, neste mundo neoliberal e imperialista, os países e
Estados continuam a desempenhar um papel central a despeito da
globalização, e isso segundo diversos pontos de vista. As grandes
sociedades são mais transnacionais que multinacionais, no sentido de
que, pela sua propriedade e gestão, permanecem ligadas a um país
particular. Os proprietários ainda têm uma nacionalidade. Apesar
dos paraísos fiscais, pode-se ver os fluxos de rendimentos
internacionais estabelecer-se em proveito de certos países. As
situações macro-económicas dos diferentes países
não são equivalentes e as particularidades têm efeitos
maiores. Mostraremos, nomeadamente, as consequências do facto de os
Estados Unidos não estarem mais submetidos à necessidade de
equilibrar as suas contas exteriores, graças ao seu próprio
poderio. Esta permanência de bases nacionais manifesta-se, aliás,
sem ambiguidade na acção que cada Estado empreende para defender
os seus interesses nacionais.
3-
Neoliberalismo: rendimentos, patrimónios e modo de vida das
classes mais ricas
Antes de analisar o neoliberalismo por aquilo que é, convém
refutar a tese que faz dele um
modelo de desenvolvimento.
Nem no centro, nem na periferia, o neoliberalismo aparece como tal. Mesmo nos
Estados Unidos, a taxa de crescimento da produção e a taxa de
acumulação do capital (a taxa de crescimento do stock de capital
fixo, isto é, o conjunto das construções e materiais de
que dispõem as empresas para produzir) registadas desde 1980 são
menos elevadas que as atingidas nas décadas anteriores desde a Segunda
Guerra mundial. No entanto, os Estados Unidos gozam de uma
situação privilegiada, ligada à sua posição
dominante. Na Europa, a redução das taxas de crescimento e
acumulação foi dramática. Em França, por exemplo, a
taxa de acumulação das sociedades não financeiras atingia
8% no início dos anos setenta; em seguida caiu profundamente durante a
crise estrutural dos anos setenta e não se restabeleceu com o
neoliberalismo; no fim do século XX, oscilava em torno de 2%.
Correlativamente, a Europa não consegue escapar ao seu desemprego
estrutural.
A situação é particularmente dramática em numerosos
países da periferia. Se se puser de lado modelos muito particulares,
como o da Coreia, e alguns países, como a China, a Índia e o
Chile, o quadro é impressionante na América Latina e
catastrófico em África. A figura 1 mostra o perfil da
produção no Brasil, no México e na Argentina desde
há várias décadas. Nestes três países, a
ruptura do crescimento manifesta-se no início dos anos oitenta. Em
seguida, nenhum restabelecimento é aparente, a despeito da docilidade
destes países em relação à ordem neoliberal, e, no
caso do México, da associação com os Estados Unidos e o
Canadá desde 1994, no âmbito da NAFTA. A queda das taxas de
crescimento e a instabilidade macro-económica (a recorrência de
recessões) são particularmente evidentes nesse último
país, começando tudo, brutalmente, com a crise da dívida
em 1982.
Pode-se notar, no caso da Argentina, que a transição para o
neoliberalismo em 1990 se seguiu a um período de
estagnação. Foi seguida de alguns anos de crescimento mais
sustentado, fazendo pretensamente a demonstração das
potencialidades do modelo neoliberal, mas conhecemos-lhe o desfecho.
As finalidades da ordem neoliberal são de uma natureza diferente que o
desenvolvimento da periferia ou mesmo a acumulação no centro.
Elas têm a ver com a restauração dos rendimentos e
patrimónios das fracções superiores das classes
dominantes. Não existem, a bem dizer, estatísticas permitindo
caracterizar as classes. Mas certos trabalhos e inquéritos fornecem
dados relativos à concentração dos rendimentos e riquezas.
A figura 2 mostra a fracção dos rendimentos disponíveis
totais das famílias nos Estados Unidos recebida pelo 1% melhor servido
[6]
.
Vê-se nesta figura que o 1% das famílias de rendimentos mais
elevados recebia mais de 16% do rendimento total antes da crise de 1929 e a
Segunda Guerra mundial: tempos "felizes" de um capitalismo dominado
por uma burguesia facilmente identificável. No fim da guerra, essa
percentagem caiu subitamente para 8%, mantendo-se nesse nível até
ao início dos anos oitenta. Os rendimentos do capital estavam
profundamente diminuídos e a hierarquia dos salários fortemente
reduzida. Estas décadas são frequentemente designadas como as do
compromisso Keinesiano.
Além desta redução das desigualdades, caracterizaram-se
por uma forte autonomia dos quadros (managers), tanto ao nível das
empresas como ao das instâncias centrais responsáveis das
políticas económicas e da gestão social
(educação, saúde, etc.). Tal como os proprietários
do capital, o sector financeiro era pouco remunerado; o lucro ficava nas
empresas e era reinvestido. Com o neoliberalismo, as percentagens da figura 2
ascendem aos níveis similares aos de antes da guerra.
O estudo da riqueza total destas classes dominantes revela a sua forte
diminuição relativa durante a crise dos anos setenta
[7]
.
Enquanto depois da guerra 1% das famílias mais ricas detinha cerca de
um terço da riqueza total do país, essa percentagem caiu em
alguns anos para 22%, no início dos anos setenta. Em não mais
anos, o neoliberalismo restabelecia a concentração dos
patrimónios (sempre relativamente ao conjunto da
população) aos seus níveis anteriores à crise, ou
mesmo mais elevados.
A restauração do estatuto destas classes continua, no entanto,
inacabada. Um elemento crucial é a redução da fiscalidade
directa sobre os altos rendimentos. Ela está em curso, apesar da
pressão constante exercida pela existência de tenazes
desequilíbrios orçamentais.
Como foram possíveis tais variações de rendimentos e
riquezas? Durante os anos setenta, as taxas de inflação eram
superiores às taxas de juro; as empresas eram pouco rentáveis e
distribuíam poucos dividendos; correlativamente, o nível da
bolsa, corrigido da inflação, tinha sido dividido por dois e
estagnava. Compreende-se facilmente como classes cujo rendimento derivava
largamente da detenção de títulos via o seu rendimento e a
sua riqueza comprometidos.
O neoliberalismo mudou tudo isso. As taxas de juro corrigidas da
inflação, anteriormente fracas, ascenderam a níveis de 5%
(para a taxa de juro nos créditos a longo termo às empresas
melhor cotadas). A rentabilidade das empresas melhorou e elas
distribuíram uma fracção crescente dos seus lucros em
dividendos. De cerca de 30% dos lucros, depois do pagamento dos juros e
impostos, a percentagem aumentou gradualmente, até atingir praticamente
100% no fim do século XX. As cotações da bolsa (sempre
corrigido da inflação) foram multiplicadas por 3 em
relação ao seu nível anterior à crise dos anos
setenta.
Nada de milagres, portanto. Foi tudo uma questão de poder e de
relação de forças, nacionalmente e internacionalmente.
Este reforço dos rendimentos e dos patrimónios modificou
profundamente os comportamentos das classes dominantes. Desde praticamente o
início da era neoliberal, as famílias nos Estados Unidos
aumentaram formidavelmente a sua despesa, consumo e alojamento, sobretudo o
consumo.
A figura 3 mostra a parte do consumo das famílias estadunidenses no
produto interno bruto (PIB) desde os anos cinquenta. Vê-se claramente
nesta figura que essa taxa oscilava em torno de 62% ou 63% antes do
neoliberalismo. Desde o início dos anos oitenta, essas taxa aumentou
regularmente e de maneira espectacular, para ultrapassar 70% no início
do século XXI.
Esta alta do consumo das famílias tem duas origens: a alta da parte do
seu rendimento no PIB e a baixa da sua taxa de poupança (a alta da parte
do seu rendimento destinado ao consumo). Estes dois mecanismos dizem respeito
às famílias mais ricas.
No que concerne à baixa da taxa de poupança, um estudo da Reserva
Federal
[8]
permite identificar as camadas da população que estão na
origem desta queda. O estudo divide as famílias em cinco grupos segundo
o seu nível de rendimento (os 20% de rendimentos mais elevados, os 20%
do grupo imediatamente inferior, etc.). Toda a queda da poupança
concentrou-se no seio do grupo de rendimentos mais fortes, tradicionalmente a
fonte de poupança do país (dado que os pobres poupam pouco). No
fim do século, a taxa de poupança destas camadas abastadas
tornou-se negativa, o que significa que elas gastam mais do que ganham (sem
dúvida em ligação com a alta do curso da bolsa),
endividando-se. A alta formidável da taxa de endividamento das
famílias é uma outra característica da macroeconomia
estadunidense, sem que se saiba em que medida ela se concentra nesta
fracção das famílias mais abastadas.
[NT1]
As consequências deste processo foram amplificadas pelo facto destas
camadas concentrarem os rendimentos financeiros, que são os que
aumentaram fortemente. Entre 1952 e 1979, isto é, antes do
neoliberalismo, os rendimentos financeiros (juros e dividendos, não
contando os ganhos em capitais) representaram, em média, 10% do
rendimento total das famílias; entre 1980 e 2003, essa percentagem
atingiu 17%.
O custo para outras classes e outros países foi considerável:
crescimento lento, desemprego, desarticulação das sociedades,
miséria, etc.. Mas, do ponto de vista dos seus objectivos, o
neoliberalismo foi um sucesso brilhante.
4-
Poderio do imperialismo estadunidense
Não se pode, no entanto, compreender a dinâmica dos rendimentos do
capital nos Estados Unidos sem examinar as relações entre este
país e o resto do mundo. É lá que a pressão
imperialista propriamente dita entra em jogo.
Não existe nenhum meio simples de apreender o efeito da
relação entre os Estados Unidos e o resto do mundo sobre os
rendimentos do capital neste país. Os mecanismos são, com efeito,
múltiplos. Conhece-se, por exemplo, a importância da compra de
matérias primas, incluindo as fontes de energia, a um preço
favorável para os países compradores. No decurso das
décadas neoliberais, estes preços não pararam de cair, por
vezes dividindo-se por três. Outros mecanismos, como a
importação de cérebros do resto do mundo (o
brain drain
) contribuem fortemente, não somente para os rendimentos dos Estados
Unidos, mas igualmente para a manutenção da sua
preeminência tecnológica. Também aí a
quantificação é problemática. Inversamente, os
sistemas de contabilidade nacionais fornecem estimativas dos fluxos de
rendimentos, ditos financeiros, tal como os pagamentos de dividendos e de
juros, assim como os lucros das sociedades transnacionais retidos no
estrangeiro mas que são propriedade das sociedades mães
estadunidenses.
Como preâmbulo a esta investigação, é
necessário precisar uma questão terminológica. Entende-se
geralmente por investimento a adição que é feita ao
capital fixo, ao longo de um certo período. Pode acrescentar-se-lhe a
variação dos stocks. Utiliza-se, no entanto, cada vez mais
correntemente, o mesmo termo para falar de uma colocação
financeira, por exemplo a compra de uma acção ou uma
obrigação. Quando se trata de um investimento directo, isto
é, uma tomada de participação por uma sociedade de mais de
10% do capital de outra, o que faz dela uma filial, os epítetos
"físico" e "financeiro" são ambos
inadequados. Oporemos, contudo, o investimento em capital fixo e em stocks,
físico, ao investimento financeiro, aí incluindo o investimento
directo. Os investimentos de carteira são os investimentos financeiros,
diferentes dos investimentos directos.
Vamos considerar, em primeiro lugar, os investimentos directos das sociedades
transnacionais dos Estados Unidos no estrangeiro. Os lucros realizados nesses
investimentos compõem-se de dividendos, de juros e de lucros conservados
no estrangeiro. Os dados disponíveis permitem separá-los da massa
dos outros lucros qualificados de "lucros domésticos".
Evidentemente, certos desses lucros domésticos são retirados do
resto do mundo, devido aos preços fracos das matérias primas ou a
pagamentos efectuados por estrangeiros directamente a sociedades estabelecidas
nos Estados Unidos (como uma parte dos pagamentos de juros sobre a
dívida da periferia).
Em 2000, o conjunto dos lucros saídos do investimento directo dos
Estados Unidos, ou seja os lucros das filiais das transnacionais noutros
países, representou 53% dos lucros domésticos. Sabendo que os
lucros domésticos contêm ainda uma fracção de
rendimentos apropriados do resto do mundo, este número dá
já uma ideia impressionante da importância para os rendimentos do
capital nos Estados Unidos da abertura internacional desta economia.
A figura 4 mostra a evolução desta percentagem dos lucros das
transnacionais nos seus investimentos directos no estrangeiro em
relação aos lucros domésticos. Vê-se um crescimento
bastante regular, de cerca de 10% em 1948, a 53%, o ponto culminante em 2000.
Esta progressão é a da mundialização da economia e
o neoliberalismo não marca nenhuma ruptura. Na verdade, esta ordem
social, pouco favorável ao investimento físico, desacelerou
consideravelmente o crescimento do fluxo dos investimentos directos das
transnacionais dos Estados Unidos, tanto em volume como em parte da
produção total deste país.
Dispõe-se igualmente de uma medida de todos os rendimentos provenientes
de todas as categorias de investimento financeiro, incluindo o investimento
directo, de agentes estadunidenses no resto do mundo. Pode-se igualmente
relacioná-los com os lucros domésticos para apreciar a sua
dimensão. A percentagem atingiu 100% em 2000. Quer dizer que a massa de
rendimentos tirados do resto do mundo sob a forma de dividendos, de juros e de
lucros retidos nas filiais no estrangeiro foi igual à dos lucros
domésticos. Não se trata, pois, de um pequeno complemento
à actividade territorial.
A figura 4 descreve igualmente a variação desta percentagem ao
longo do tempo. Aí se reencontra o ponto culminante de 100% em 2000. A
observação mais surpreendente é, no entanto, a alta
espectacular no final dos anos setenta, consolidada com o neoliberalismo. Todo
o período neoliberal aparece assim marcado pelo sinal desta
punção de rendimento financeiro sobre o resto do mundo. A
percentagem oscila em torno de um patamar de 80%.
Toda a primeira fase da alta, até ao final dos anos setenta, reflecte o
crescimento dos juros sobre a dívida, dita então do terceiro
mundo. Mas, nesta época, a desvalorização desta
dívida pela inflação significava uma
contra-transferência a favor dos endividados que a medida descrita na
figura não leva em conta. Com o fim da inflação, a
punção tomou toda a sua amplitude propriamente neoliberal. Ela
é o efeito da alta das taxas de juro reais e das
distribuições de dividendos. Contrariamente à componente
destes rendimentos correspondente aos investimentos directos, a alta dos
rendimentos dos investimentos de carteira foi fortemente efeito da alta das
taxas de juro e aparece, a este título, como emblemática da ordem
neoliberal.
Retiraremos então o principal ensinamento desta análise, a
despeito das limitações dos dados disponíveis: em 2000, os
rendimentos financeiros que os Estados Unidos tiram da sua
relação com o resto do mundo são superiores ao conjunto
dos lucros das suas sociedades nos Estados Unidos. Um imperialismo musculado,
então, e crucial para a remuneração do capital neste
país.
Não é necessário dizer que os estrangeiros efectuam
igualmente investimentos financeiros nos Estados Unidos, o que não faz
mais do que acrescentar a importância dos fluxos de rendimento tirados do
resto do mundo. Vamo-nos limitar temporariamente a um só aspecto desta
relação bilateral, respeitante aos rendimentos dos investimentos
de uns e de outros.
Reparar-se-á que consideramos aqui apenas os investimentos financeiros
que os agentes do resto do mundo efectuam nos Estados Unidos e não os
seus investimentos em todos os países terceiros. Inversamente, tomamos
em consideração todos os investimentos dos Estados Unidos em
todos os países. Trata-se, então, de examinar a
posição dos Estados Unidos enquanto investidor e enquanto lugar
de investimento.
A figura 5 mostra as taxas de rendimento nos investimentos dos agentes
estadunidenses no estrangeiro e dos estrangeiros quando investem nos Estados
Unidos. Foi feita uma correcção para a
desvalorização da dívida pela inflação.
Impõem-se dois tipos de comentários:
1- Os dois perfis são similares. Nota-se uma forte elevação
dos rendimentos de cerca de 4 pontos de percentagem no fim dos anos setenta, o
que marca a aparição das fortes taxas de juro
características dos anos neoliberais. As taxas caíram um pouco
nos anos noventa.
2- A principal descoberta é o desvio muito pronunciado dos rendimentos,
cerca de 4% de uma ponta à outra do período. Esta
diferença é a expressão de uma forte assimetria. Quando os
Estados Unidos fazem investimentos financeiros no resto do mundo, eles
são muito remuneradores, 7% ou 9% conforme o sub-período, e muito
superiores aos rendimentos obtidos pelos estrangeiros que investem nos Estados
Unidos. Este desvio de rendimentos aparece para cada componente do investimento
financeiro, o investimento de carteira e o investimento directo
[9]
.
A composição dos investimentos dos Estados Unidos no estrangeiro
é muito diferente do dos estrangeiros que investem nos Estados Unidos.
É feita, em cerca de 50%, de investimentos directos, em lugar dos 20%
para os estrangeiros nos Estados Unidos. Este país funciona
então, na terminologia de Marx, como uma espécie de
"capitalista activo", enquanto que os estrangeiros têm um
comportamento mais de "emprestadores", sempre segundo a terminologia
do Marx, que reunia os accionistas não participantes na gestão
das empresas e os credores sob a rubrica de
capital de empréstimo.
Estes rentistas são, por exemplo, famílias ricas da
América latina ou emires do Médio Oriente, ou ainda os bancos
centrais que investem as suas reservas monetárias em dólares em
obrigações do tesouro estadunidense, comportando-se assim como
"Estados rentistas". Este desvio de composição explica
em parte a diferença de rendimentos sobre o conjunto do investimento
financeiro.
5-
Uma trajectória insustentável
As secções precedentes iluminam penetrantemente o poderio do
imperialismo estadunidense. A apropriação sobre o resto do mundo
é formidável pelo seu tamanho, e pela sua eficácia, bem
expressa nos seus rendimentos. Compreende-se, incidentalmente, que
motivação pode ter este país, em particular o seu governo,
em preservar por todos os meios, económicos, políticos e
militares, esta empresa. Mas apreende-se igualmente a dependência assim
criada. Esta trajectória é, no entanto, atravessada por uma
contradição maior, de cuja natureza esta secção se
dedica a descrever.
Vamos, em primeiro lugar, examinar a relação entre
poupança e investimento nos Estados Unidos. Entende-se aqui por
investimento o investimento em capital fixo das empresas, segundo as
definições dadas anteriormente. Poupança e investimento
são expressas em percentagem da produção total nos Estados
Unidos (o produto interno líquido, PIL), igual ao rendimento total tendo
em conta os fluxos de rendimentos com o estrangeiro.
O contraste entre as décadas neoliberais e as primeiras décadas
do pós-guerra é surpreendente. Antes de 1980, as taxas de
poupança e investimento dos Estados Unidos oscilavam em torno de 4 ou
5%. As duas taxas caíram com a entrada no neoliberalismo: uma
diminuição moderada, ainda que significativa, da taxa de
investimento, de 4,1% antes de 1980 para 3,5% posteriormente, e uma queda
espectacular da taxa de poupança, de 4,5% para 1%, nos mesmos
períodos. Com uma rapidez desconcertante, os Estados Unidos
começaram a investir muito mais do que poupavam no início dos
anos oitenta. Globalmente, isso significa que eles despendiam, em consumo e
investimento, nitidamente mais que o seu rendimento.
Há duas componentes nesta formidável vaga de despesas. Antes de
mais e muito subitamente, um forte défice orçamental apareceu no
início dos anos oitenta. Resultava da alta das taxas de juro, da
diminuição das receitas e da alta das despesas militares (a
"guerra das estrelas" de Ronald Reagan). Mas existe outra componente,
que se impôs gradualmente e sem remissão; é a alta do
consumo das famílias descrita na figura 3, que provocou a queda das suas
taxas de poupança, e de que notámos que é o produto da
despesa imoderada das camadas mais abastadas.
Como é isto possível?
1- Por razões contabilísticas, o desvio entre a poupança e
o investimento da figura 6 é igual ao saldo da balança corrente
dos Estados Unidos, isto é, à soma da balança comercial
(exportações menos importações) e o saldo dos
fluxos de rendimentos com o estrangeiro (a menos de transferências
unilaterais)
[NT2]
.
É a primeira componente, os fluxos comerciais, que aumentou o desvio.
A figura 6 manifesta então um défice da balança de
pagamentos correntes ao longo dos anos neoliberais.
2- Quando os Estados Unidos importam mais do que exportam, os estrangeiros
recebem pagamentos em dólares, sem contrapartida financeira (esses
dólares não resultam de um empréstimo, por exemplo). Se os
estrangeiros vendessem esses dólares, o curso desta moeda baixaria, o
que tenderia a corrigir o défice exterior (sem que um tal ajustamento
seja automático). Na verdade, os estrangeiros, devido à
força da economia estadunidense e da fraqueza da situação
macro-económica dos seus próprios países, efectuam
investimentos financeiros em activos estadunidenses. Tomam assim lugar no
financiamento da economia dos Estados Unidos, comprando acções,
emprestando às empresas, às famílias ou ao Estado. A
política monetária dos Estados Unidos, que ajusta as massas de
créditos domésticos ao nível requerido pela
continuação de uma actividade estável, doseia os
complementos a este aporte exterior
[10]
.
Este curso das coisas pode continuar enquanto os estrangeiros estiverem
satisfeitos com esta utilização do seu poder de compra em
dólares.
Um aspecto evidente de uma tal trajectória é o crescimento
relativo dos activos dos estrangeiros nos Estados Unidos em
relação aos activos deste país no resto do mundo. A figura
7 descreve estes dois stocks de activos, divididos pela produção
estadunidense.
Pode-se observar o aumento gradual dos activos dos Estados Unidos no resto do
mundo, de cerca de 11% nos anos cinquenta para 36% no final do período.
A curva dos activos do resto do mundo nos Estados Unidos inicia-se bem abaixo
da precedente, mas cruza-a em 1985, em 22%. A ascenção é
irreversível, até 78% da produção dos Estados
Unidos. A terceira curva dá a medida do desvio entre os dois stocks. Os
valores negativos do primeiro período exprimem o excedente dos activos
dos Estados Unidos no resto do mundo, até à mudança de
sinal em 1985. Em 2003, o excedente dos activos do resto do mundo sobre os dos
Estados Unidos representou 40% da produção deste país!
Fala-se por vezes de uma dívida exterior, mas estes activos contêm
elementos, como as acções, que não têm a natureza de
um endividamento. Pode-se, no entanto, afirmar que o essencial da
deterioração corresponde a uma dívida crescente.
Isso é grave? Um primeiro problema é o da vontade dos
estrangeiros de conservar estes dólares e, então, de efectuar
estes investimentos financeiros (dado que eles não têm
evidentemente interesse em conservar os seus activos líquidos, sem
remuneração) sabendo que se fala aqui do total dos
investimentos estrangeiros, independentemente dos investimentos dos Estados
Unidos no estrangeiro. Em vista dos primeiros meses de 2004, pode-se perguntar
se a queda do dólar desde 2002 é a expressão de um tal
retorno. É contudo preciso notar que o dólar estava em alta em
2002. Pode-se igualmente pensar que os Estados Unidos desejaram e, muito
provavelmente, contribuíram para esta baixa para sustentar a sua
economia em recessão. Mas mesmo sob a hipótese da
continuação destes investimentos financeiros estrangeiros,
vê-se surgir uma contradição que põe em causa a
continuação duradoura da trajectória da economia
estadunidense.
O problema é simples. À força de permitir o financiamento
exterior pelo nível das suas importações, os Estados
Unidos deram ao aporte dos estrangeiros um lugar importante no financiamento da
sua economia e têm, a esse título, que remunerá-los. Muito
felizmente para a economia estadunidense, os investimentos dos estrangeiros
são mal retribuídos, mas, no entanto, a punção
sobre os rendimentos do capital nos Estados Unidos vai em crescendo.
A figura 8 mostra os fluxos de rendimentos entre os Estados Unidos e o resto do
mundo, fluxos de entrada e de saída. A primeira curva ( )
descreve, como na figura 4, o fluxo de rendimentos que entram, mas o
denominador é, desta vez, a produção dos Estados Unidos.
Estes fluxos representaram 4% do PIL em 2000. Esta percentagem é menos
impressionante que aquela da figura 4, mas é preciso ter presente que os
lucros das sociedades só representam uma "fraca"
fracção do rendimento total
[11]
.
A mesma figura mostra também a percentagem crescente dos fluxos que
saem (---).
Pode-se distinguir três períodos. De 1946 a 1972, as duas
percentagens elevaram-se lentamente, enquanto o seu desvio aumentava,
também, suavemente. O período 1973-1979 ocupa uma
posição intermédia. Os fluxos de entrada cresceram mais
rapidamente, até 2,7%, e os fluxos de saída, somente até
1,5%. Mas essa alta dos fluxos de entrada não estava à altura da
subida espectacular destes no curso das duas últimas décadas.
Enquanto os fluxos de entrada estagnavam, os fluxos de saída continuaram
a sua ascensão até alcançá-los, atingindo um
máximo de 4% em 2000.
A terceira linha da figura (--) descreve o desvio entre os dois fluxos, ou
seja, o fluxo de entrada líquido dos Estados Unidos. Estes fluxos
líquidos, vantajosos para os Estados Unidos, cresceram sensivelmente
entre 1973 e 1980. Mas a inovação radical foi a
interrupção deste crescimento, depois a queda nos anos seguintes.
Esse acréscimo dos rendimentos retirados pelos Estados Unidos do resto
do mundo anulou-se então, e, desde 2002, tornou-se mesmo negativo
durante certos trimestres.
A explicação desta degradação é,
evidentemente, o excedente crescente dos activos estrangeiros nos Estados
Unidos descrito na figura 7. Apesar da forte rentabilidade dos investimentos
deste país no estrangeiro, a sua posição externa
deteriorou-se a tal ponto que começam a pagar aos estrangeiros mais
rendimentos financeiros do que os que deles recebem. Recordar-se-á que a
causa deste movimento é a vaga de consumo das famílias mais ricas.
Pode-se ilustrar esta nova situação examinando os fluxos de
rendimentos entre os Estados Unidos e a América Latina na figura 9. Os
fluxos considerados são fluxos líquidos, quer dizer, os fluxos
que entram nos Estados Unidos a partir da América Latina, menos os
fluxos que saem daquele país com destino a esta região do mundo.
Uma curva diz respeito ao total, e duas curvas aos fluxos correspondentes aos
investimentos directos e de carteira, as duas componentes do fluxo total.
A figura 9 mostra que os fluxos líquidos totais a favor dos Estados
Unidos subiram até mais de 0,5% da produção deste
país no início dos anos 1980 (estes fluxos não têm
em conta a desvalorização das dívidas pela
inflação). Em seguida, diminuíram até a um patamar
de 0,15% por ano, antes de mergulhar na crise do fim do século
(recessão estadunidense e crise na América Latina, nomeadamente
na Argentina). A América Latina é, pois, uma das regiões
do mundo que contribuiu para a baixa dos fluxos de rendimentos do resto do
mundo a favor dos Estados Unidos.
O mais interessante é, no entanto, a decomposição pelo
tipo de investimento. Encontra-se aí características já
identificadas. Em primeiro lugar, a figura revela a importância e a
estabilidade dos rendimentos retirados dos investimentos directos das
transnacionais estadunidenses, que se estabelece em cerca de 0,2% da
produção deste país. Em segundo lugar, observa-se a queda
dos rendimentos líquidos nos investimentos de carteira, depois a
negatividades destes fluxos, o que significa que os Estados Unidos pagaram, e
continuavam a fazê-lo no final do período, rendimentos
financeiros, juros e dividendos, a investidores da América Latina
superiores aos que recebiam (apesar da dívida da periferia). Está
aí a imagem da fuga de capitais das classes abastadas desses
países em direcção à mãe pátria
capitalista estadunidense. Pode-se notar, em particular, a alta destes fluxos
líquidos de rendimento (uma baixa na figura) a partir de 2000. Este
movimento reflecte um fluxo líquido crescente de investimento de
carteira. Com a excepção do ano de 1998, a América Latina
financiou, de facto, o longo boom estadunidense da segunda metade dos anos
noventa. Este quadro da América latina,
credora
dos Estados Unidos, caracteriza de maneira surpreendente a nova
configuração das relações financeiras no plano
mundial. Para esta região do mundo, o problema é, bem entendido,
a separação entre os Estados e empresas endividadas e certas
famílias ricas. Como todos sabem, nem toda a gente sofre no continente
latino-americano.
6-
Conclusão
Os mecanismos descritos nas secções precedentes revelam a
existência duma contradição no sistema do imperialismo
estadunidense na época neoliberal. Pode-se resumir a cadeia completa da
seguinte maneira:
Rendimentos elevados e ganhos em capitais das camadas abastadas
(reforçadas pela punção sobre o resto do mundo)
e política monetária relativamente laxista
|
V
Crescimento do consumo das camadas abastadas
|
V
Défice crescente das contas correntes
|
V
Crescimento da dívida externa
|
V
Crescimento dos fluxos de rendimentos pagos aos resto do mundo
|
V
Diminuição dos rendimentos do capital nos Estados Unidos
|
A continuação da trajectória actual está submetida
a duas condições imediatas: (1) que os estrangeiros aceitem
investir os seus dólares nos Estados Unidos, e portanto que o curso do
dólar se mantenha; (2) que o desvio de remuneração dos
investimentos financeiros dos estrangeiros (figura 5) em relação
aos investimentos estadunidenses não diminua. Pode-se notar, em
relação a este último ponto, que se os Estados Unidos
tivessem que pagar aos estrangeiros taxas de rendimento iguais às de que
beneficiam, o fluxo de saída seria igual ao total do lucro interno das
sociedades estadunidenses! É escusado dizer que uma tal
situação não será nunca atingida.
De um ponto de vista estadunidense, esta trajectória longa não
pode ser prolongada sem repor em questão a dominação deste
país e a opulência das suas classes dominantes. Ela transformaria
os Estados Unidos em fornecedores de rendimentos financeiros para o resto do
mundo, em detrimento da sua própria classe dominante. O que está
em questão é então uma
mudança
de trajectória.
Na discussão de cenários para o futuro, convém distinguir
bem entre neoliberalismo e imperialismo. Em primeiro lugar, da mesma forma que
os Estados Unidos eram já imperialistas durante as décadas do
compromisso keynesiano (na verdade, desde que existem), portanto antes do
neoliberalismo, eles continuariam a sê-lo na eventualidade de uma nova
fase, para além do neoliberalismo. Em segundo lugar, é preciso
notar que o problema posto pelo encadeamento acima exposto se deve ao
neoliberalismo e não ao imperialismo. A capacidade imperialista dos
Estados Unidos permanece plena e inteira, e até reforçada.
Que mudanças? Pode-se ver aí quatro componentes
[12]
:
(1) a redução do consumo das camadas mais desafogadas; (2)
taxas de acumulação mais elevadas e financiadas pelo
próprio país; (3) uma procura dirigida para a
produção nacional; (4) eventualmente, uma pressão exterior
acrescida sobre o resto do mundo. Os problemas são, contudo,
múltiplos:
1- O novo curso poderia entrar em contradição com a
continuação da empresa neoliberal. Um método, de que o
passado revelou a eficácia, para restabelecer as taxas de
acumulação, é conservar os lucros nas sociedades
não financeiras, em vez de pagá-los em juros e dividendos. Mas
que sucede então com os rendimentos das classes dominantes e, bem
entendido, com o seu modo de vida? Pode-se também encarar medidas
estimuladoras do investimento das empresas. Taxas de juro mais fracas levariam,
mais uma vez, ao choque com os objectivos do neoliberalismo. Mas o Estado
poderia envolver-se no financiamento de taxas diferenciais ou de medidas de
promoção fiscal, assim como a tomada a cargo dos riscos, o que
faz já para os empréstimos das famílias.
2- Uma solução encarada para remediar o défice exterior
é deixar diminuir o curso do dólar. Conhece-se os limites deste
procedimento. Certos países indexaram, de facto, a sua moeda ao
dólar e uma mudança do curso não modifica as
condições do comércio entre estes países e os
Estados Unidos. Não existe panaceia. O exemplo do comércio entre
os Estados Unidos e o Japão mostra que a alta do yen não chega
para rectificar as trajectórias. Mas uma taxa de câmbio fraca do
dólar e a ameaça da continuação da sua baixa
são geralmente consideradas incompatíveis com os intuitos
imperialistas dos Estados Unidos. Da mesma forma, novos avanços para um
proteccionismo acrescido, ou toda a limitação à mobilidade
dos capitais se eles se retirassem perigosamente dos Estados Unidos,
desencadeariam medidas recíprocas minando a dominação
imperial estadunidense, nas suas modalidades neoliberais.
3- Uma rectificação da trajectória tornar-se-á
delicada pela necessidade de estabilizar a situação
macroeconómica do país. É aí que ressurge a
questão da
crise,
não enquanto episódio catastrófico, destabilizando
definitivamente a ordem capitalista e imperialista, mas como constrangimento na
continuação da trajectória estadunidense. A
política monetária sustenta a procura neste país, deixando
seguir a dívida das famílias. É o mecanismo central de
sustento da procura, para além do pouco ortodoxo défice
orçamental. O endividamento das famílias continuou a crescer
durante a recessão do início dos anos 2000, e toda a tentativa de
travagem arriscava-se a transformar a recessão num desabar de muito
maior envergadura. Conciliar a rectificação dos
desequilíbrios exteriores, causada pela despesa excessiva das
famílias, e o sustento da procura interior é uma tarefa altamente
problemática sem falar do risco corrido pelo Estado devido
à transferência para organismos públicos das dívidas
das famílias junto do sistema bancário.
4- Pode-se evidentemente conjecturar que os Estados Unidos farão tudo o
que puderem para acentuar a apropriação sobre o resto do mundo.
Mas a deterioração da sua posição exterior poderia
encarecer o custo do seu financiamento estrangeiro pelo aparecimento de um
prémio de risco em desfavor dos Estados Unidos.
Por detrás destes mecanismos, é preciso identificar uma
gigantesca luta de classes e de poder. A saída será,
então, política. Como dizia Marx, os homens fazem a sua
própria história, mas fazem-na em condições
determinadas. A ambição deste artigo é dar uma
representação dessas condições, essencialmente
económicas. Mas isso não destrói o primado da
política.
Estas lutas devem ser apreendidas ao duplo nível nacional e
internacional:
1- No plano nacional, o neoliberalismo assenta num compromisso social com as
classes médias superiores, detentoras de títulos, directamente ou
nos seus fundos de pensão. Estas camadas adquiriram o sentimento de
aceder ao universo maravilhoso da propriedade capitalista. Se a
distribuição de dividendos e as taxas de juro reais fossem
revistas em baixa, este compromisso seria posto em questão. Em que
sentido? Em direcção a um novo compromisso social para
além do neoliberalismo, mais "democrático", como o
compromisso keynesiano anterior, ou em direcção a uma ordem
social mais autoritária e repressiva?
2- No plano internacional, novas formas de luta aparecem, aquelas de certos
Estados da periferia que tomam consciência da sorte que lhes é
reservada neste mundo dos poderosos (recorde-se o fracasso das
negociações de Cancun em 2003), e aquela das camadas da
população que se apercebem da convergência dos seus
interesses no plano mundial, no movimento "altermundialista". Estas
lutas desenvolvem-se, tendo como pano de fundo a escalada de movimentos
extremistas, sejam os do integrismo islâmico ou os dos novos cruzados da
direita.
O vigor da pressão que estas lutas são susceptíveis de
exercer dependerá fortemente das contradições da
trajectória económica estadunidense que este artigo procurou
descrever. Quem saberá então reagir com mais eficácia a
estas tensões? As forças da reacção social ou as do
progresso para esse mundo melhor tão esperado? Muito esperto, quem possa
prever o desenlace de tais afrontamentos.
Referências
Chesnais F. (éd.), 2004,
La finance mondialisée : racines sociales et politiques,
configuration et conséquences,
La découverte, Paris.
Duménil G., Lévy D., 2000,
Crise et sortie de crise. Ordre et désordres néolibéraux
, Presses Universitaires de France, Paris.
Duménil G., Lévy D., 2004,
Capital Resurgent. The Roots of the Neoliberal Revolution,
Harvard University Press, Harvard, Massachusetts.
Lénine V., 1916, " L'impérialisme, stade suprême
du capitalisme ",
uvres, tome 22,
pp. 201-327, Éditions sociales, Paris (1977).
Maki D., Palumbo M., 2001, Disentangling the Wealth Effect : A
Cohort Analysis of the Household Saving in the 1990s, Federal Reserve,
Washington.
Mataloni R.J., 2000, An Examination of the Low Rates of Return of
Foreign-Owned U.S. Companies,
Survey of Current Business,
March.
Marx K., 1853 " La domination britannique aux Indes ",
uvres IV, Politique I,
pp. 714-720, La Pléiade, Gallimard, Paris (1994).
Piketty T., Saez E., 2003, Income Inequality in the United States,
1913-1998,
The Quarterly Journal of Economics,
Vol. CXVIII, num. 1, pp. 1-39.
Wolff E., 1996,
Top Heavy,
The New Press, New York.
Notas:
1- G. Duménil, D. Lévy, 2004.
2- G. Duménil, D. Lévy, 2004, ch. 23.
3- F. Chesnais, 2004.
4- V. Lenine, 1916.
5- Já descritas por Marx: 1853
6
6- T. Piketty, E. Saez, 2003.
7- E. Wolff, 1996.
8- D. Maki, M. Palumbo, 2001.
9- R. J. Mataloni, 2000.
10- Este controlo da procura mostra-se, em média, eficaz, mas
produzem-se
"derrapagens" recorrentes: sobreaquecimentos e recessões.
11- Em 2000, os lucros domésticos depois dos impostos elevaram-se a
7,1% do
PIL das sociedades, que é, ele próprio, igual a 61,6% do PIL do
conjunto da economia.
12- Este estudo faz abstracção das novas tendências da
mudança técnica e das pressões para reduzir o custo do
trabalho. Ver G Duménil, D. Lévy, 2000.
Notas do tradutor:
NT1-
National Income and Product Accounts
do
Bureau of Economic Analysis.
NT2- Em artigo mais recente, os autores explicitam o raciocínio. O PIB
é o valor da produção total nos Estados Unidos. É a
soma do consumo, do investimento físico e das exportações,
menos as importações. O PNB é igual ao PIB, mais o fluxo
líquido de rendimento do resto do mundo, ou seja, o rendimento total.
Tem-se:
PIB = consumo + investimento físico (investimento fixo e
variação dos inventários) + exportações
importações + rendimento recebido do resto do mundo
rendimento pago ao resto do mundo
A poupança é a diferença entre o rendimento total e o
consumo:
Poupança = GNP consumo = investimento físico +
exportações importações + rendimento
recebido do resto do mundo rendimento pago ao resto do mundo
Logo (abstraindo de transferências unilaterais, tais como a ajuda
internacional):
Poupança = investimento físico + balança de
transações correntes
[*]
MODEM-CNRS, Université de Paris X Nanterre, 200,
av. de la Republique, 92000 Nanterre, France.
gerard.dumenil@u-paris10.fr
.
[**] CEPREMAP_ENS, 48, bd Jourdan, 75014 Paris, France.
dominique.levy@cepremap.ens.fr
.
O original encontra-se em
http://netx.u-paris10.fr/actuelmarx/m4levy.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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