Mais depressa do que se poderia pensar

O tsunami económico

por Mike Whitney [*]

"Se os banqueiros centrais do mundo acumularem menos dólares, o resultado será uma inexorável necessidade de os americanos tomarem empréstimos face a um dólar cada vez mais fraco – uma receita para taxas de juro mais altas e preços mais altos. As repercussões económicas poderão vir a revelar-se pouco a pouco, resultando num longo e lento declínio do padrão de vida. Ou então poderá dar-se um desenlace rápido, com a marca de uma crise fiscal descontrolada."
Editorial do New York Times, 02/Fev/2005

Clique para ampliar. Parece que há cada vez mais pessoas que acreditam, tal como eu, que o tsunami económico planeado pela administração Bush está apenas a alguns meses de distância. Em apenas 5 anos a divida nacional aumentou em cerca de 3 milhões de milhões (trillions) de dólares ao mesmo tempo que o dólar continua o seu declínio previsível. O dólar sofreu uma queda desastrosa de 38% desde que Bush subiu ao poder, em grande parte por causa das grandes reduções de impostos de 450 mil milhões de dólares por ano. Em simultâneo, foram aprovadas numerosas leis (Lei Patriótica, Proposta de Lei da Reforma dos Serviços de Informações, Proposta de Lei de Segurança Nacional, Identificação Nacional, exigências de Passaportes, etc.) que pressagiam a necessidade de uma maior repressão para quando a economia der o seu mergulho inevitável. Infelizmente, tudo indica que esse mergulho está cada vez mais próximo.

A administração está actualmente a exercer a maior pressão possível sobre a OPEP para aumentar o fluxo do petróleo em mais um milhão de barris por dia (muito acima da sua capacidade) a fim de acalmar mercados nervosos e arranjar tempo para o bombardeamento do Irão planeado para Junho. Tal como as taxas de juro artificialmente baixas de Alan Greenspan, presidente do banco central, a manipulação da produção do petróleo é uma forma de ocultar quão realmente terrível é a situação. A subida dos preços na origem anuncia a chegada de uma recessão (depressão?) e por isso a administração está a queimar etapas para satisfazer todas as necessidades de curto prazo e manter a ilusão de que as coisas ainda correm bem (Bush prefere evitar a insatisfação maciça popular até serem postos em prática os seus planos bélicos para o Irão).

Mas, evidentemente, as coisas não correm nada bem. O país tem sido propositadamente espoliado e ficará inevitavelmente refém dos seus credores tal como Bush e os seus lugares tenentes planearam desde o início. Quem não acredita nisto devia reparar na forma metódica como os défices se têm apresentado em (cerca de) 450 mil milhões de dólares por ano, numa sangria sistemática e regular do futuro da nação. O valor do dólar e a crescente dívida nacional seguem exactamente a mesma (deliberada) trajectória decrescente.

Este mesmo esquema Ponzi [1] foi levado a cabo repetidas vezes pelo FMI e pelo Banco Mundial em todo o mundo, tendo sido a Argentina a última ilustração dramática (o colapso económico da Argentina ocorreu quando o seu défice comercial se situava nos 4%; neste momento o nosso está a uns 6% sem precedentes). A bancarrota é uma clara forma de salto em frente ao entregar o património público de valor às indústrias colaborativas e de aniquilar a soberania nacional. Depois de uma nação ser levada com êxito à pobreza, as decisões políticas públicas são feitas pelos credores e não pelos representantes do povo. (É entrar, Paul Wolfowitz)

Será que os americanos acreditam mesmo que podem evitar um tal destino?

Se sim, é melhor esquecerem, porque o martelo está quase a anunciar o fim do espectáculo, e os danos colaterais vão ser enormes.

A administração Bush é formada principalmente por internacionalistas. Isto não quer dizer que eles "odeiem a América"; quer dizer apenas que eles estão empenhados em alinhar a América segundo a "nova ordem mundial" e num regime económico que foi aprovado tanto pelas elites empresariais como pelas financeiras. O seu patriotismo não vai além da vistosa bandeira tricolorida na lapela. A catástrofe que a classe média americana enfrenta é levianamente referida por essas elites como "terapia de choque"; um abalo repentino, seguido de mudanças fundamentais no sistema. Num futuro próximo podemos aguardar uma reforma fiscal, uma disciplina fiscal, a falta de controlo governamental, fluxos livres de capital, tarifas mais baixas, serviços públicos reduzidos, e privatizações. Por outras palavras, uma sociedade inteiramente virada para servir as necessidades das grandes empresas.

Há um certo número de sinais de que a economia está perto do ponto de ruptura. Mesmo com energia barata, taxas de juro baixas e US$450 mil milhões de receitas extraordinárias injectadas no sistema todos os anos, a economia mal consegue manter-se à tona de água. Isto tem muito a ver com o colossal desvio de riqueza provocado pela redução de impostos. As teorias do gotejamento (trickle-down theories) estão completamente desacreditadas e as reduções de impostos feitas por Bush não em nada contribuíram para estimular a economia, tal como fora prometido. Agora, com a subida do petróleo a aproximar-se dos US$60 dólares por barril, o cenário económico está a mudar rapidamente, e as ondas de choque já se fazem sentir por todo o país.

A guerra do Iraque contribuiu consideravelmente para o nosso dilema actual. O conflito reduziu quase um milhão de barris de petróleo do Iraque por dia (exactamente a mesma quantidade que a administração está a tentar substituir pressionando a OPEP). Por outras palavras, os preços astronómicos na origem são o resultado directo da guerra de Bush. Os meios de comunicação não falaram dos efeitos negativos que a guerra teve quanto à produção de petróleo, tal como esconderam a estratégia inacreditavelmente bem sucedida dos insurrectos em destruir os oleodutos. Este enredo dramático não agrada ao público americano, que estava à espera que o Iraque estivesse agora a pagar a sua própria reconstrução. Pelo contrário, a resistência está a atingir o calcanhar de Aquiles do império (a necessidade da América de quantidades enormes de petróleo barato) o que está a ter um efeito pernicioso na economia dos Estados Unidos.

Assim como a economia não consegue sobreviver com grandes aumentos nos preços do petróleo, também os défices causados pelo esbanjamento de Bush ameaçam a situação do dólar enquanto divisa de reserva mundial. Isto é muito mais grave do que um simples declínio no valor do dólar. Se os principais produtores de petróleo mudarem do dólar para o euro, a economia americana afundar-se-á dum dia para o outro. Se o petróleo passar a ser comercializado em euros, os bancos centrais em todo o mundo ver-se-ão obrigados a acompanhar e a América será confrontada com a liquidação da sua enorme dívida de US$8 milhões de milhões de dólares. Isso, evidentemente, será o dia do juízo final para a economia americana. Mas uma informação recente indica que dois terços dos 65 bancos centrais mundiais já "começaram a trocar dólares por euros". O plano de Bush para salvar o dólar foi telegrafado para todo o mundo e, como diz o New York Times, "o papel moeda não tem para onde ir, a não ser descer". Só há uma coisa que a administração pode fazer para garantir que os negociantes de energia continuem a comercializar em dólares, é controlar o fluxo do petróleo. Isto significa que é quase certo um ataque ao Irão.

As dificuldades que o dólar e a economia enfrentam não são inultrapassáveis. O mundo está mais que disposto a compensar os gastos esbanjadores da América desde que esta se mostre um guia responsável da economia global. No entanto, a imprudência militar e económica da administração leva a crer que alguns dos actores chave no palco mundial (em especial a Rússia, o Irão, a Venezuela, a Alemanha, a França, a China e o Brasil) estão a colaborar num plano alternativo: um plano de contingência. Se o Irão for bombardeado num acto de agressão não provocado, certamente veremos esse plano ser posto em prática. O cenário mais provável será uma rápida viragem para o euro o que traria graves consequências para a economia americana (a Rússia já deu indicações de que o faria). Quanto ao Irão, um ataque justificaria o armamento de organizações terroristas muito diversas com as armas de que elas necessitam para atacar os interesses americanos e israelenses onde quer que eles estejam. De qualquer modo, um ataque não provocado dissipará as últimas ilusões acerca da guerra contra o terrorismo de Bush e confirmará a toda a gente que estamos empenhados numa nova guerra mundial: um conflito pela dominação global.

Os frangos neoliberais conquistaram o poleiro. A América tornou-se a mais recente plataforma para a estranha política económica do Consenso de Washington. A elevada dívida nacional aliada aos incríveis défices comerciais puseram a nação à beira do precipício e cada vez é mais provável um abalo sísmico nas fortunas dos americanos da classe média. O New York Times resume as perspectivas do país deste modo:

"As repercussões económicas poderão vir a revelar-se pouco a pouco, resultando num longo e lento declínio das condições de vida. Ou poderá haver um rápido desenlace, com a marca de uma crise fiscal descontrolada."

"Uma crise fiscal descontrolada"… O futuro da América, segundo George Bush. Estamos perante uma batalha colectiva à nossa frente. Se é que há uma forma de a resolver rapidamente, não tenho qualquer ideia de qual ela possa ser.

08/Abril/2005

[1] Charles Ponzi, vigarista ítalo-americano (1882-1949) que se tornou sinónimo de um golpe de investimentos em pirâmide, no qual se oferecem juros astronómicos para terminar tudo num calote.

[*] O autor vive no estado de Washington. O seu e-mail é fergiewhitney@msn.com

O original deste artigo encontra-se em http://www.counterpunch.org/whitney04082005.html . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
13/Abr/05