"Se os banqueiros centrais do mundo acumularem menos dólares, o
resultado será uma inexorável necessidade de os americanos tomarem
empréstimos face a um dólar cada vez mais fraco uma
receita para taxas de juro mais altas e preços mais altos. As
repercussões económicas poderão vir a revelar-se pouco a
pouco, resultando num longo e lento declínio do padrão de vida.
Ou então poderá dar-se um desenlace rápido, com a marca de
uma crise fiscal descontrolada."
Editorial do
New York Times,
02/Fev/2005
Parece que há cada vez mais pessoas que acreditam, tal como eu, que o
tsunami económico planeado pela administração Bush
está apenas a alguns meses de distância. Em apenas 5 anos a
divida nacional aumentou em cerca de 3 milhões de milhões
(trillions)
de dólares ao mesmo tempo que o dólar continua o seu
declínio previsível. O dólar sofreu uma queda desastrosa
de 38% desde que Bush subiu ao poder, em grande parte por causa das grandes
reduções de impostos de 450 mil milhões de dólares
por ano. Em simultâneo, foram aprovadas numerosas leis (Lei
Patriótica, Proposta de Lei da Reforma dos Serviços de
Informações, Proposta de Lei de Segurança Nacional,
Identificação Nacional, exigências de Passaportes, etc.)
que pressagiam a necessidade de uma maior repressão para quando a
economia der o seu mergulho inevitável. Infelizmente, tudo indica que
esse mergulho está cada vez mais próximo.
A administração está actualmente a exercer a maior
pressão possível sobre a OPEP para aumentar o fluxo do
petróleo em mais um milhão de barris por dia (muito acima da sua
capacidade) a fim de acalmar mercados nervosos e arranjar tempo para o
bombardeamento do Irão planeado para Junho. Tal como as taxas de juro
artificialmente baixas de Alan Greenspan, presidente do banco central, a
manipulação da produção do petróleo é
uma forma de ocultar quão realmente terrível é a
situação. A subida dos preços na origem anuncia a chegada
de uma recessão (depressão?) e por isso a
administração está a queimar etapas para satisfazer todas
as necessidades de curto prazo e manter a ilusão de que as coisas ainda
correm bem (Bush prefere evitar a insatisfação maciça
popular até serem postos em prática os seus planos bélicos
para o Irão).
Mas, evidentemente, as coisas não correm nada bem. O país tem
sido propositadamente espoliado e ficará inevitavelmente refém
dos seus credores tal como Bush e os seus lugares tenentes planearam desde o
início. Quem não acredita nisto devia reparar na forma
metódica como os défices se têm apresentado em (cerca de)
450 mil milhões de dólares por ano, numa sangria
sistemática e regular do futuro da nação. O valor do
dólar e a crescente dívida nacional seguem exactamente a mesma
(deliberada) trajectória decrescente.
Este mesmo esquema Ponzi
[1]
foi levado a cabo repetidas vezes pelo FMI e pelo Banco Mundial em todo o
mundo, tendo sido a Argentina a última ilustração
dramática (o colapso económico da Argentina ocorreu quando o seu
défice comercial se situava nos 4%; neste momento o nosso está a
uns 6% sem precedentes). A bancarrota é uma clara forma de salto em
frente ao entregar o património público de valor às
indústrias colaborativas e de aniquilar a soberania nacional. Depois de
uma nação ser levada com êxito à pobreza, as
decisões políticas públicas são feitas pelos
credores e não pelos representantes do povo. (É entrar, Paul
Wolfowitz)
Será que os americanos acreditam mesmo que podem evitar um tal destino?
Se sim, é melhor esquecerem, porque o martelo está quase a
anunciar o fim do espectáculo, e os danos colaterais vão ser
enormes.
A administração Bush é formada principalmente por
internacionalistas. Isto não quer dizer que eles "odeiem a
América"; quer dizer apenas que eles estão empenhados em
alinhar a América segundo a "nova ordem mundial" e num regime
económico que foi aprovado tanto pelas elites empresariais como pelas
financeiras. O seu patriotismo não vai além da vistosa bandeira
tricolorida na lapela. A catástrofe que a classe média americana
enfrenta é levianamente referida por essas elites como "terapia de
choque"; um abalo repentino, seguido de mudanças fundamentais no
sistema. Num futuro próximo podemos aguardar uma reforma fiscal, uma
disciplina fiscal, a falta de controlo governamental, fluxos livres de capital,
tarifas mais baixas, serviços públicos reduzidos, e
privatizações. Por outras palavras, uma sociedade inteiramente
virada para servir as necessidades das grandes empresas.
Há um certo número de sinais de que a economia está perto
do ponto de ruptura. Mesmo com energia barata, taxas de juro baixas e US$450
mil milhões de receitas extraordinárias injectadas no sistema
todos os anos, a economia mal consegue manter-se à tona de água.
Isto tem muito a ver com o colossal desvio de riqueza provocado pela
redução de impostos. As teorias do gotejamento
(trickle-down theories)
estão completamente desacreditadas e as reduções de
impostos feitas por Bush não em nada contribuíram para estimular
a economia, tal como fora prometido. Agora, com a subida do petróleo a
aproximar-se dos US$60 dólares por barril, o cenário
económico está a mudar rapidamente, e as ondas de choque
já se fazem sentir por todo o país.
A guerra do Iraque contribuiu consideravelmente para o nosso dilema actual. O
conflito reduziu quase um milhão de barris de petróleo do Iraque
por dia (exactamente a mesma quantidade que a administração
está a tentar substituir pressionando a OPEP). Por outras palavras, os
preços astronómicos na origem são o resultado directo da
guerra de Bush. Os meios de comunicação não falaram dos
efeitos negativos que a guerra teve quanto à produção de
petróleo, tal como esconderam a estratégia inacreditavelmente bem
sucedida dos insurrectos em destruir os oleodutos. Este enredo
dramático não agrada ao público americano, que estava
à espera que o Iraque estivesse agora a pagar a sua própria
reconstrução. Pelo contrário, a resistência
está a atingir o calcanhar de Aquiles do império (a necessidade
da América de quantidades enormes de petróleo barato) o que
está a ter um efeito pernicioso na economia dos Estados Unidos.
Assim como a economia não consegue sobreviver com grandes aumentos nos
preços do petróleo, também os défices causados pelo
esbanjamento de Bush ameaçam a situação do dólar
enquanto divisa de reserva mundial. Isto é muito mais grave do que um
simples declínio no valor do dólar. Se os principais produtores
de petróleo mudarem do dólar para o euro, a economia americana
afundar-se-á dum dia para o outro. Se o petróleo passar a ser
comercializado em euros, os bancos centrais em todo o mundo ver-se-ão
obrigados a acompanhar e a América será confrontada com a
liquidação da sua enorme dívida de US$8 milhões de
milhões de dólares. Isso, evidentemente, será o dia do
juízo final para a economia americana. Mas uma informação
recente indica que dois terços dos 65 bancos centrais mundiais já
"começaram a trocar dólares por euros". O plano de Bush
para salvar o dólar foi telegrafado para todo o mundo e, como diz o
New York Times,
"o papel moeda não tem para onde ir, a não ser
descer". Só há uma coisa que a administração
pode fazer para garantir que os negociantes de energia continuem a
comercializar em dólares, é controlar o fluxo do petróleo.
Isto significa que é quase certo um ataque ao Irão.
As dificuldades que o dólar e a economia enfrentam não são
inultrapassáveis. O mundo está mais que disposto a compensar os
gastos esbanjadores da América desde que esta se mostre um guia
responsável da economia global. No entanto, a imprudência militar
e económica da administração leva a crer que alguns dos
actores chave no palco mundial (em especial a Rússia, o Irão, a
Venezuela, a Alemanha, a França, a China e o Brasil) estão a
colaborar num plano alternativo: um plano de contingência. Se o
Irão for bombardeado num acto de agressão não provocado,
certamente veremos esse plano ser posto em prática. O cenário
mais provável será uma rápida viragem para o euro o que
traria graves consequências para a economia americana (a Rússia
já deu indicações de que o faria). Quanto ao Irão,
um ataque justificaria o armamento de organizações terroristas
muito diversas com as armas de que elas necessitam para atacar os interesses
americanos e israelenses onde quer que eles estejam. De qualquer modo, um
ataque não provocado dissipará as últimas ilusões
acerca da guerra contra o terrorismo de Bush e confirmará a toda a gente
que estamos empenhados numa nova guerra mundial: um conflito pela
dominação global.
Os frangos neoliberais conquistaram o poleiro. A América tornou-se a
mais recente plataforma para a estranha política económica do
Consenso de Washington. A elevada dívida nacional aliada aos
incríveis défices comerciais puseram a nação
à beira do precipício e cada vez é mais provável um
abalo sísmico nas fortunas dos americanos da classe média. O
New York Times
resume as perspectivas do país deste modo:
"As repercussões económicas poderão vir a revelar-se
pouco a pouco, resultando num longo e lento declínio das
condições de vida. Ou poderá haver um rápido
desenlace, com a marca de uma crise fiscal descontrolada."
"Uma crise fiscal descontrolada"
O futuro da América,
segundo George Bush. Estamos perante uma batalha colectiva à nossa
frente. Se é que há uma forma de a resolver rapidamente,
não tenho qualquer ideia de qual ela possa ser.
08/Abril/2005
[1]
Charles Ponzi, vigarista ítalo-americano (1882-1949) que se tornou
sinónimo de um golpe de investimentos em pirâmide, no qual se
oferecem juros astronómicos para terminar tudo num calote.
[*]
O autor vive no estado de Washington. O seu e-mail é
fergiewhitney@msn.com
O original deste artigo encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney04082005.html
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Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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