Balanço catastrófico de duas décadas de guerras
por Eduardo Maia Costa
[*]
I. A guerra, meio de reprodução dos impérios
Ao contrário do que se poderia (ingenuamente) esperar (e alguns
efectivamente esperaram), o fim da Guerra-Fria não conduziu à
pacificação das relações internacionais nem ao fim
das guerras, não instaurou uma "Nova Ordem Internacional" de
paz e progresso, que Bush (o pai) chegou a anunciar.
Pelo contrário, a afirmação dos EUA como única
superpotência militar levou de imediato a uma série de guerras,
iniciada com a do Golfo Pérsico, que não terminaram mais.
Guerras quentes e também guerras frias (Coreia, Irão
), num
xadrez imenso que cobre o globo.
Porquê estes sucessivos e latentes conflitos se o poderio militar dos EUA
não é desafiado, nem sequer contestado?
A guerra, creio, é uma das formas não só de
afirmação como de reprodução dos impérios.
A guerra exerce diversas funções na consolidação do
domínio imperial: funções políticas (conquista de
posições, eliminação de inimigos),
económicas (complexo militar-industrial), militares (testagem de
estratégias e de armas) e até simbólicas
(exibição da força, para uso externo e interno).
O império americano não assenta apenas na força. Nenhum
império pode assentar somente na força. Quando os impérios
se baseiam apenas na força estão à beira da queda.
É indispensável um título legitimador que permita o
domínio para além da força. É a
função desempenhada pela hegemonia ideológica e cultural.
Nenhum império sobrevive sem conquistar esse domínio, que lhe
permite arvorar-se em vanguarda civilizacional, cultural, e até moral,
contra os inimigos, degradados à condição de
"bárbaros". É assim desde a antiga Atenas.
O império americano dispõe de poderosas armas ideológicas
(os chamados "direitos humanos" ou seja, os direito
cívicos, que são essenciais para o funcionamento da economia
capitalista, mas já não os direitos sociais e económicos
e a "cultura popular" a TV, o cinema, a música,
que hoje provêm exclusivamente ou quase dos EUA) e de veículos de
difusão impressionantes (desde logo, a língua, a língua
única, que não é "neutra", pois, mais do que
instrumento universal de comunicação, ela é a difusora da
ideologia, mas também a TV, a Internet, etc.).
Esta difusão universal da ideologia/cultura americana constitui o
veículo de penetração da legitimidade do império.
O conhecimento torna-se reconhecimento.
O "pensamento único" impôs-se primeiro internamente,
depois globalmente.
Há uma só "língua ideológica"
internacionalmente falada e compreendida.
Uma língua/pensamento imposta também pela falta de pluralismo na
comunicação social, o que é particularmente evidente no
nosso país, tornando residual a difusão de "outros"
pontos de vista.
II. A resistência ao império
Mas o império americano (a Pentagónia, como lhe chamou Fidelino
de Figueiredo), se atrai e inclui muitos, hostiliza e exclui muitos mais,
interna e externamente.
A resistência ao império é uma componente inevitável
da existência de qualquer império.
A globalização económica, política e
ideológica dos anos 90 foi sendo acompanhada pela resistência
interna, com surtos de contestação por vezes radicais, e pelo
confronto externo em diversos teatros de guerra, que não
excluíram a própria Europa.
O grande problema do império americano é a sua imensidão,
a sua sobre-extensão, a escala planetária a que se alarga, e que
o obriga a um desdobramento de forças por todo o mundo e a um encargo
financeiro tremendo.
Por isso, o império se vê progressivamente necessitado e
até de alguma forma "dependente" de "aliados"
(Europa, Canadá, Japão, Austrália) para juntarem
forças para o ataque e ocupação do terreno, quando
é caso disso. A formação de alianças "ad
hoc" para a invasão do Iraque e do Afeganistão comprova a
incapacidade dos EUA para agirem sozinhos.
Existe, é certo, a ONU, aliás a única entidade que pode
decretar a guerra fora da estrita hipótese de legítima defesa
(arts. 39º a 51º da Carta).
Mas, embora os EUA não menosprezem a "cobertura" da ONU para
as suas acções, que confere uma legitimidade acrescida às
mesmas, certo é que a ONU é uma organização
demasiado pesada, complexa e "exigente" para servir os objectivos
pretendidos. Os EUA precisam de instrumentos coesos e expeditos na forma de
actuar.
III. A NATO, instrumento do império norte-americano
A NATO constitui o primeiro dos instrumentos do império americano.
Instituída para a "defesa contra a ameaça
soviética", em 1949 (o Pacto de Varsóvia só foi
criado em 1955!), a NATO tinha, em termos institucionais e
programáticos, o seu destino ligado ao da tal "ameaça
soviética".
Mas o certo é que a NATO sobreviveu ao fim da Guerra Fria
Logo em 1991 o conceito estratégico é reformulado em termos de
alargar os objectivos da aliança da defesa dos seus membros à
"segurança" da Europa no seu todo. A NATO passou a
considerar-se responsável por essa segurança colectiva,
independentemente da existência de ameaças para os seus membros.
Ou seja, a NATO adquiriu competência para intervir em toda a Europa,
não em defesa de algum dos seus membros, mas como força promotora
da "segurança colectiva", tal como ela é interpretada
pelo império, ou seja, como "polícia da Europa".
Em 1999, novo conceito estratégico amplia a competência da NATO
à defesa da "paz e estabilidade" em toda a região
euro-atlântica.
No entanto, nos anos 90, as intervenções da NATO na Europa
(ex-Jugoslávia) invocaram também o título de
"intervenção humanitária", mais legitimador.
Mas, com os ataques de 11/9/2001, e embora mantendo o mesmo conceito
estratégico, a NATO é chamada à "defesa" dos
seus membros "dentro e fora" da sua área de
intervenção. A NATO arroga-se o direito de intervir em qualquer
parte do mundo desde que os interesses dos seus membros estejam aí em
perigo, em nome da "segurança global", de que se considera
responsável. De polícia da Europa, a NATO converte-se em
polícia do mundo. O "humanitarismo" é completamente
rasurado.
Desde 2006, a NATO discute um novo conceito estratégico que visa,
afinal, assumir expressamente esta "missão de segurança
global", substituindo-se assim à ONU.
Esse documento será em princípio discutido e aprovado em Lisboa
na cimeira a realizar no final deste ano.
IV. Uma aliança em erosão
No fim do consulado de Bush, o isolamento internacional dos EUA era quase
total, devido ao fracasso no Iraque da sua política imperial. Os aliados
tinham desertado quase todos. A opinião pública, internamente e a
nível internacional, tinha colocado o império em dificuldade.
Obama veio trazer uma nova respiração ao império. Mas o
caminho seguido por ele em pouco difere do anterior. Ao escolher a "guerra
boa" (Afeganistão), em detrimento da "guerra má"
(Iraque), Obama pensava contentar a opinião pública e escolher um
alvo fácil e para o qual encontraria aliados.
Inicialmente, acalmou a opinião pública e encontrou aliados. Mas
a guerra não é fácil. Não há
"progressos" (pelo contrário), apesar do crescente
envolvimento militar e da crescente agressividade contra a
população civil afegã.
A aliança sofre uma grande erosão. E a opinião
pública aperta, porque o desgaste militar e orçamental é
enorme e os resultados não se mostram "compensadores". As
baixas não param. A aliança começa a ser abertamente
questionada nos países europeus. A Holanda já desertou
Quanto tempo levará Obama a concluir que não há
"guerras boas"?
E o Iraque? Invadido e ocupado há 7 anos, mantém-se um
protectorado americano, apesar do disfarce de autonomia que se tenta conferir
às suas instituições.
O ódio do povo ao ocupante é tanto que todos os partidos se dizem
contra a ocupação, mesmo os que dela dependem para sobreviver
politicamente.
Mas alguém acredita que, apesar das divisões, da
tribalização a que a sociedade iraquiana foi submetida,
alguém acredita que, após a retirada, o poder continuará
por muito tempo nos amigos dos americanos? Aliás, alguém acredita
que os EUA retirarão se virem em perigo o protectorado?
V. Denunciar o apoio português
Barroso, enquanto primeiro-ministro português, foi, como se sabe, um dos
grandes entusiastas da agressão ao Iraque e conseguiu mesmo ficar na
célebre "fotografia" das Lajes. O apoio português foi
sobretudo diplomático e político, mas envolveu também o
envio de uma força da GNR, após a ocupação, e a
nomeação de um "representante" na autoridade ocupante.
Tudo isto contra a expressiva vontade do povo, manifestada de variadas formas
(na AR e na rua).
A colaboração com a CIA na transferência de prisioneiros,
embora nunca admitida oficialmente, é inegável, e abrangeu os
governos de Barroso, Santana Lopes e presumivelmente o primeiro governo de
Sócrates.
Na guerra do Afeganistão, Portugal colaborou primeiro enviando uma
força da GNR e, posteriormente, com forças militares dos
três ramos das Forças Armadas. Actualmente, encontram-se lá
167 militares. Durante este mês de Março o contingente será
reforçado com a partida de 162 militares "operacionais", para
intervirem em acções de guerra.
É preciso denunciar este apoio, que constitui uma subserviência ao
império americano, pois Portugal nenhuns interesses tem a defender
naquela região do mundo e só tem a perder com esse envolvimento
militar.
VI. Um balanço catastrófico
O balanço que se pode fazer de duas décadas de guerras é
catastrófico, em termos de mortes (militares e civis), estropiados,
torturados e deslocados, de despesas e desperdício de meios, de
destruição de infra-estrututas económicas, de equipamento
social e de património cultural, e de desestruturação
familiar e social nos países atacados e ocupados.
Mas não só nesses se verificam danos. Também nos
"vencedores" houve danos profundos, não só em baixas
humanas, como também em matéria de liberdades e direitos
individuais. Para além de que o investimento nas guerras desvia os
recursos dos fins sociais para finalidades bélicas.
O problema das guerras é global. Devemos agir não só por
solidariedade com os povos e países atacados e violentados, como
também em nossa própria defesa.
[*]
Magistrado, membro do Tribunal-Iraque. Intervenção na
sessão pública promovida pelo Tribunal-Iraque em Lisboa, a 20 de
Março de 2010, para assinalar o 7.º aniversário da
invasão do Iraque, sob o tema "Um mundo em estado de guerra?"
O original encontra-se em
http://tribunaliraque.info/pagina/artigos/depoimentos.html?artigo=662
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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