O dólar e a hegemonia dos EUA: suspensos no ar
Mais uma vez, abunda a especulação acerca de um crash do
dólar. Os papéis hegemónicos da divisa e da economia
estado-unidense têm sido postas em causa repetidamente desde a
década de 1970. Os cépticos vêm cada grande
declínio económico e cada depreciação do
dólar como o começo do fim da hegemonia dos EUA. Em desafio ao
declínio muitas vezes previsto, os EUA ainda são o Nº 1
dentro do sistema capitalista mundial, e o cartel da dominação
imperialista mundial liderada pelos EUA ainda está intacto. Eis porque
temos de perguntar se a actual fraqueza do dólar e a crise
económica desencadeada pelos EUA são apenas um outro
fenómeno cíclico que no essencial reproduzirá a hegemonia
americana ou indicações de grandes mudanças de poder entre
estados capitalistas e classes sociais.
Paul Krugman
forjou a frase para o debate sobre o futuro do dólar e da economia
estado-unidense: o "Momento Wile E. Coyote"
[1]
, comparando o dólar com Wile E. Coyote que fugia de um penhasco
e pairava no ar antes de despenhar-se.
De acordo com esta analogia, a crise hipotecária
é o último penhasco para o dólar antes do seu mergulho
final. Ainda está para se ver se a sombria previsão de Krugman
será tornada verdadeira.
Digno de atenção é que, ao mesmo tempo que o dólar
declinava, o défice externo dos EUA atingia alturas récord,
contrariando a lógica do mercado que prevê um défice em
conta corrente mais pequeno em caso de depreciação da divisa.
Isto é um novo desenvolvimento. No passado, depreciações
e reduções de défices de transacções
correntes iam par a par. O que implica o actual desligamento das taxa do
dólar e da posição dos EUA nas transacções
correntes?
Irracionalidade do capitalismo Limites da ciência económica
burguesa
Para responder a esta pergunta temos de examinar o dólar, as
transacções correntes e as tendências económicas ao
longo das últimas três décadas. Então destacam-se
duas coisas. Primeiro, o dólar passou por duas fase de
apreciação significativa desde a década de 1970, atingindo
o pico em 1985 e 2001. Segundo, apenas durante a primeira destas duas fases as
taxas de dólar e os défices em transacções
correntes modificaram-se em direcções opostas, como prevê a
lógica de mercado. Desde o declínio económico de 1991, o
défice aumentou constantemente, apresentando quase nenhuma
conexão com taxas de dólar ou ciclo de negócios. Se o
défice externo dependesse de desenvolvimentos na taxa de câmbio,
isto teria sido travado pelas depreciações do dólar desde
2001. O que não aconteceu.
Economistas keynesianos discutem a relação entre taxas de
câmbio e comércio externo que figura de forma tão destacada
na ciência económica neoclássica. De acordo com a sua
visão, fluxos comerciais, os quais são estatisticamente
registados na balança de transacções correntes, dependem
do poder de compra de empresas e famílias. A crise de 2001 foi seguida
por uma recuperação baseada sobre a expansão do
crédito e influxos maciços de capital externo. Estes dois
factores geraram poder de compra adicional, partes do qual foram felizmente
gastas com bens importados, provocando défices em conta corrente cada
vez mais elevados. Na estória keynesiana, mercados de capital
estão no assento do condutor, gerando e distribuindo as finanças
que podem posteriormente ser utilizadas para comprar bens e serviços.
Plausível como possa ser esta explicação, ela não
é totalmente convincente, porque influxos de capital implicam procura de
dólar mais elevadas e, portanto, deveriam ter finalmente disparado
apreciações da divisa. Isto tão pouco aconteceu.
Uma vez que nem a lógica dos mercados de bens nem aquela dos mercados de
capitais podem explicar convincentemente o desenvolvimento das taxas de
dólar e os défices externos dos EUA, alguns economistas, o mais
eminente dentre eles sendo o professor Robert Shiller, de Yale, retiraram a
conclusão que o comportamento irracional dos agentes económicos,
tais como o comportamento de manada dos investidores financeiros, deve ser a
razão para os desenvolvimentos das divisas e transacções
correntes "adversos ao mercado". Esta visão é
partilhada por Krugman, o qual teme que investidores mal informados tenham
tomado a taxa nominal do dólar pelo seu valor facial, isto é,
como representação adequada do valor produzido na economia
estado-unidense, durante demasiado tempo mas que serão forçados a
abandonar a sua riqueza imaginada uma vez que o dólar entre em crash.
Economistas neo-keynesianos como Krugman e Shiller vêem a cobiça
excessiva e a falta de informação como as causas da
exuberância irracional, para utilizar a terminologia de Shiller, a qual,
por sua vez, dispara crises económicas. Consequentemente, as crises
poderiam ser evitadas se os investimentos fossem calculados objectivamente, com
base em informação completa, ao invés de, para utilizar a
expressão de Keynes, espíritos animais. O reconhecimento da
ignorância na tomada de decisões económicas, ponto de
despedida de Keynes da teoria económica (neo)clássica,
está a faltar na visão dos novos keynesianos. A
investigação neo-keynesiana por estruturas adequadas de
governação para completar informação incompleta
também ignora o facto de que o direito à propriedade privada
implica o poder de os possuidores da propriedade reterem
informação do público e de os administradores de topo
fornecerem informação embelezada aos accionistas. Igualmente
esquecido está o facto de que a competição capitalista
não só é um caldo de cultura para a cobiça do lucro
como torna o investimento orientado para tal cobiça uma
pré-condição de sobrevivência, não importando
que em simultâneo isto provoque super-acumulação e crises.
Portanto, os "espíritos animais" de Keynes melhor seriam
chamados como "espíritos capitalistas".
Seguindo Marx, podemos ver que os capitalistas individuais estão a
comportar-se mais ou menos racionalmente dentro de um sistema irracional.
Contudo, o seu comportamento socialmente descoordenado produz crises que
parecem o resultado de comportamentos individuais impróprios aos olhos
dos capitalistas e economistas afins. A mais elevada forma de comportamento
impróprio, naturalmente, é a intervenção
política porque ela opõe-se completamente à lógica
do mercado. Portanto, apologistas do capitalismo como Milton Friedman
vêem a intervenção política como algemas enganosas
na mão invisível do mercado. Contudo, se examinarmos tanto o
apetite do capitalista individual pelo lucro como a intervenção
política como partes indispensáveis do modo de
produção capitalista, é possível explicar o
desligamento das taxas do dólar, dos défices em
transacções correntes e os ciclos de negócios sem
balouçar caprichosamente entre suposições teóricas
de informação completa e a retirada prática da
razão rumo a instintos irracionais.
A primeira recorrência de um dólar forte: a Segunda Guerra
Mundial e a reestruturação industrial
A desintegração do sistema de Bretton Woods de taxas de
câmbio fixas, crises económicas e uma ascensão de lutas
anti-imperialistas e de trabalhadores na década de 1970 desafiaram a
ordem capitalista mundial, a qual em grande medida fora perfilada pelos EUA na
sequência da Segunda Guerra Mundial. A burguesia americana, depois de
recuperar do choque de não ser invencível, reagiu a estes
desafios com uma declaração de guerra contra a União
Soviética, os movimentos anti-imperialistas e a classe trabalhadora
americana. Esta guerra contra as classes subordinadas do mundo destinava-se
à expansão de mercados mundiais e uma alteração na
distribuição do rendimento, dos salários em favor dos
lucros. As classes possidentes de todos os países capitalistas honraram
a visão e audácia com que a burguesia americana executava o
programa para a expansão do lucro através de investimentos
maciços nos EUA. Estes influxos de capital levaram a uma
ascensão do dólar, indicando a confiança que capitalistas
de todos os países depositavam na restaurada hegemonia estado-unidense.
Cada aumento no valor do dólar entre 1979 e 1985 empurrava o trabalho
organizado nos EUA mais ainda para a defensiva. Bens importados que se
tornaram mais competitivos devido à ascensão do dólar
limitavam as oportunidades de vendas para as indústrias internas. Os
patrões americanos utilizavam avidamente mais mercados competitivos como
pretexto de ataque aos rendimentos e condições laborais dos seus
trabalhadores.
A reversão anti-socialista (quanto a isto deveria ser recordado que
burocratas sindicais americanos e apparatchiks soviéticos não
são senão variedades da mesma estirpe socialista na visão
do mundo dos conservadores americanos) começou logo a dar frutos. O
líder interino soviético Andropov já sugeria, embora
vagamente, concessões em relação à liderança
ocidental americana que se materializariam sob Gorbachov. A AFL-CIO sob Lane
Kirkland, muito mais inclinada à colaboração de classe do
que os líderes soviéticos, estava desde o princípio
perplexa face à ofensiva capitalista. Sob estas circunstâncias,
pressionado pelo governo dos EUA, em 1985 os bancos centrais americano,
alemão e japonês intervieram pesadamente nos mercados de divisas.
Por este meio, o dólar deu meia volta, e pressões competitivas
foram libertas, dando algum alívio às indústrias dos EUA.
Massas crescentes de valor excedente que haviam sido espremidas dos
trabalhadores americanos podiam então ser realizadas através do
aumento das vendas no mercado.
A segunda recorrência de um dólar forte: a Nova Ordem Mundial e a
Nova Economia
O dólar fraco do período 1985-1995 foi abandonado do mesmo modo
como fora iniciado, através da intervenção coordenada do
banco central. Enquanto o capital industrial nos EUA desfrutava de aumentos de
vendas e lucros na esteira do dólar declinante, a Wall Street
preocupava-se acerca do futuro dos EUA como o centro financeiro do mundo. No
princípio da década de 1990, os EUA, tendo acabado de atravessar
a recessão, estava a fabricar uma nova ordem mundial após a
desintegração da União Soviética, assim o grande
capital podia persuadir o governo e os bancos centrais de que dólar
fraco era incompatível com a reputação da última
super-potência. Pilotado pelo emergente Complexo Wall Street-Tesouro,
para utilizar a expressão do economista liberal Jagdish Bhagwati, o
capitalismo mundial entrou numa fase de expansão do mercado negociada
multilateralmente, reorganização das cadeias de oferta global com
base no computador, e explosão financeira.
Os lucros estavam disponíveis outra vez e o dólar também
estava a ascender, mais uma vez até a explosão da bolha da
Nova Economia, em 2001. Depois disso, o complexo militar-industrial substituiu
cada vez mais o esfarrapado fetiche do capital da Wall Street. Não a
mão invisível dos mercados mas o punho de ferro do US Army era
agora declarado a garantia do lucro. Contudo, a incapacidade do
exército dos EUA para acabar com as insurreições nos
Iraque e no Afeganistão fecharam o círculo entre a crise da
hegemonia americana na década de 1970 e os dias presentes. Naqueles
tempos, o American Way of Life, tendo alcançado os seus limites de
produtividade e de crescimento lucrativo, perdeu muito do seu poder de
sedução. De forma notável, o desastre do Vietnam fez com
que os EUA parecessem um tigre de papel prontos para serem derrubados, e o
movimento dos direitos civis e a inquietação trabalhista levaram
a elite do poder a temer a perda do seu controle. Desde aquele tempo, a
hegemonia do dólar americano foi restaurada duas vezes, primeiro em nome
de uma Segunda Guerra Fria e depois daquilo sob os slogans da Nova Ordem
Mundial e Nova Economia. A continuação desta frágil
hegemonia depende actualmente da ausência de desafios, sejam eles rivais
imperialistas ou movimentos anti-capitalistas. Até que tais desafios se
concretizem, a hegemonia dos EUA, bem como o dólar, permanecerão
suspensos no ar.
[1] Personagem de filmes de desenho animado que, quando em fuga cai num
precipício, paira por um momento no ar antes de despenhar-se.
[*]
Leciona teoria económica na University of Northern British Columbia -
Prince George.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/schmidt230108.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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