Iraque e Katrina detonam o descontentamento contra Bush

por La Jornada

Manifestação em Washington, 24/Set/05. Sábado, 24, centenas de milhares de manifestantes marcharam em Washington para exigir o fim da intervenção militar no Iraque e um aumento dos recursos destinados aos prejudicados pelo furacão Katrina. O presidente George W. Bush encontrava-se fora da capital estadunidense, coordenando as acções antes da chegada do furacão Rita, mas alguns analistas consideraram que o presidente quis evitar o maior protesto contra si desde o início da guerra no Iraque. Acontece que após a negligência do governo para acudir às vítimas em Nova Orleans e outros lugares, as críticas contra a sua administração intensificaram-se, no que parece ser a demonstração mais contundente da crescente oposição às políticas de Bush, acusado de torpeza, corrupção e incompetência, tanto na condução do conflito iraquiano como no manejo da crise provocada pelo fenómeno meteorológico.

A marcha reuniu pacifistas, veteranos de guerra, activistas de diversas tendências, líderes religiosos e comunitários, representantes de minorias, artistas e desportistas, dentre outros. Junto com as reclamações por maior ajuda às vítimas do Katrina podiam-se ler em camisetas e cartazes mensagens como "Bush mente e as pessoas morrem", "Guerra de homens ricos, sangue de homens pobres", "Tragam-nos para casa agora" (os soldados no Iraque). Os manifestantes têm razão ao ligar estes dois temas, uma vez que ambos evidenciam as mesmas falhas e corrupções da presidência Bush.

A guerra no Iraque custou mais de 200 mil milhões de dólares, pouco mais de 2 mil soldados mortos e pelo menos 27 mil vítimas civis, ainda que peritos afirmem ser este número maior. O pretexto para empreender esta campanha militar, a posse de armas de destruição maciça pelo regime de Sadam Hussein, verificou-se ser uma patranha, para dizer o mínimo, e este conflito beneficiou principalmente empresas relacionadas com a corte de Bush, como a Halliburton, da qual o vice-presidente Dick Cheney foi um alto executivo, que ganhou contratos milionários para a reconstrução do Iraque.

Por sua vez, os danos causados pelo Katrina elevam-se a uma quantia entre 200 e 300 mil milhões de dólares e mais de mil mortos, mas este número deverá aumentar nos próximos dias. O escandaloso desta situação é que o governo tinha conhecimento das graves consequências que Nova Orleans sofreria perante um furacão da força do Katrina. Um relatório da Agência Federal para o Manejo de Emergências, elaborado antes de 2001, assinalava que "as inadequadas rotas de evacuação deixariam ao desamparo 250 mil pessoas ou mais. Das pessoas abandonadas à sua sorte, provavelmente morreriam uma em cada 10, enquanto a cidade afogar-se-ia sob a água". Há um ano, a agência solicitou à Casa Branca uns 14 mil milhões de dólares para reforçar e ampliar os diques que protegiam Nova Orleanas. Contudo, Bush concedeu apenas a metade, a outra metade serviu para financiar a aventura iraquiana. Resultado: os diques não aguentaram e a cidade foi inundada em 80 por cento. E, mais uma vez, foi a Halliburton a grande ganhadora com esta desgraça, pois uma das suas subsidiárias acaba de ganhar um contrato de 500 milhões de dólares para realizar reparações em instalações navais. Isto é só a ponta do iceberg: a empresa já firmou outros contratos para participar na reconstrução da infraestrutura petrolífera, a qual necessitará em princípio de mil milhões de dólares.

Este esquema de negligência e corrupção deixa entrever que a sociedade estadunidense começa a cansar-se das mentiras e manobra escuras do governo Bush, pelo que os protestos irão em crescendo. Oxalá que esta pressão sirva para deter a intervenção estadunidense no Iraque e proteger os seus cidadãos com eficácia diante de desastres preveníveis.

25/Setembro/2005

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/09/25/edito.php

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25/Set/05