O mito da produtividade americana e a verdade acerca dos
salários reais
Sente que está a trabalhar mais arduamente do que antes? Não
é só impressão sua. Ontem, o
Bureau of Labor Statistics
relatou
um aumento de mais de 6 por cento na produtividade do trabalho (nos
negócios; mais de 5 por cento na manufactura). Em teoria, mais
produtividade significa mais riqueza e uma economia mais saudável,
não é? Henry C.K. Liu, responsável do Instituto Roosevelt,
diz: "Pense outra vez..."
A ideia do "boom de produtividade" não é nova. Mas nos
EUA em certa medida é uma miragem pois o dinheiro conduziu o boom
aparente. Não houve boom da produtividade nos EUA nas últimas
duas décadas do século XX; houve um boom de
importações que foi acompanhado por quedas de produtividade.
Além disso, este boom foi conduzido não pelo crescimento
espectacular da economia americana; foi conduzido sim pela dívida tomada
emprestada dos países de baixos salários que produzem esta
riqueza. A aceleração da produtividade foi cumprida foi
alguém alhures que faz a produção sem obter a
compensação adequada por ela. Por alguma razão isto foi chamado de
"bolha".
Enquanto isso, os salários estado-unidenses caíram. O outsourcing
não foi o único factor condutor da queda dos salários nos
EUA. Mesmo quando a produtividade de um trabalhador médio dentro dos EUA
avançou, os ganhos salariais horários estagnaram, ao passo que as
elites económicas do país prosperaram com níveis de
rendimento astronómicos. Os sectores da alta tecnologia, tecnologia da
informação e serviços financeiros operavam no modelo dos
baixos salários e altas opções por acções
(stock options).
Mesmo para investidores, a tendência tem sido favorecer a
apreciação da acção em relação ao
rendimento do dividendo. Mas isto desafia claramente um princípio
básico de economia: O rendimento é tudo e o crescimento
económico sem rendimento é uma fantasia.
Assim, quais os rendimentos que cresceram? É uma história
familiar: em 2002, o presidente da Capital One Financial, Richard Fairbank,
exerceu opções de US$3,6 milhões para ganhos de
aproximadamente US$250, sobre os quais ele paga imposto pela taxa mais baixa
de ganho de capital ao invés da taxa sobre o imposto de rendimento. O seu
ganho pessoal excedeu os lucros corporativos anuais de mais da metade das
companhias Fortune 1000, incluindo Goodyear Tire e Rubber, Reebok e Pier One. O
pagamento mediano entre executivos chefe que dirigem a maior das 100 maiores
companhias do país aumentou 25 por cento, para US$17,9 milhões em
2005.
O ganho médio para trabalhadores típicos dos EUA no mesmo
período? Uns meros 3,1 por cento. Um inquérito do Federal Reserve
mostra que entre 2001 e 2004 o rendimento médio dos trabalhadores
estado-unidenses com licenciatura mal se moveram, ascendendo de US$72.300 para
US$73.000, após correcção da inflação. Mesmo
o antigo secretário do Tesouro Robert Rubin (que passou 26 anos na
Goldman Sachs) observou durante o seu período no governo: "A
prosperidade nem gotejou nem ondulou para fora. Entre 1973 e 2003, o PIB real
per capita nos Estados aumentou 73 por cento, ao passo que a
compensação horária mediana subiu apenas 13 por
cento".
As receitas corporativas estado-unidenses atingiram alturas históricas
porque os salários têm estado estagnados. As
corporações foram inundadas com cash mas elas recusaram-se
a passá-lo para os seus trabalhadores. Ao invés disso, as
corporações adoptaram esquemas de compra das próprias
acções
(share buybacks)
com o excedente de caixa para elevar o valor de mercado das
acções.
Os neo-populistas querem uma alternativa, uma que registe crescimentos pelo
rendimento recebido pela classe média. Eles argumentam que o rendimento
nacional tem fluído de forma cada mais desproporcionada para o lucro
corporativo e para os ricos. Apelam a uma revisão da
globalização conduzida pelos EUA e para novos termos de
comércio que não coloquem o custo da expansão
económica inteiramente sobre os pobres crónicos, os recém
empobrecidos e os que não têm poderes, tanto internamente como
globalmente. Apelam à regulação governamental nos termos
de comércio para distribuir os benefícios mais equitativamente.
Eles precisam também acrescentar um ítem àquela agenda: um
apelo à honestidade e transparência nas ferramentas que o governo
americano utiliza para medir a riqueza nacional.
Os prazeres hedonísticos da América
Salários são medidos em relação a índices de
preços, mas os índices de preços não são
tão objectivos como eles parecem pensar. Métodos
"hedonísticos" de apreçamento, utilizados para traduzir
melhorias de qualidade em produtos em declínios de preços mesmo
se os preços reais estão as ascender, estão efectivamente
a inflacionar a riqueza individual e nacional.
Um exemplo: Automóveis que agora são vendidos por US$30 mil
costumavam ser vendidos por US$10 mil, mas a taxa de inflação de
automóveis é registada como declinante porque os carros
são tecnicamente mais refinados. Supõe-se que o consumidor esteja
a obter mais "carro" por dólar, não importa que US$10
mil agora já não compre qualquer carro. Rendas por apartamentos
são registadas como declinantes mesmo quando os pagamentos de renda
ascendem, porque os arrendatários põem ar condicionado, casas de
banho com mármores, cozinhas de granito e vistas do alto do
prédio.
A comida comprada pronta? Os preços podem subir sem
inflação. O apreçamento hedonístico impede os
assalariados de desfrutar qualquer prazer hedonístico com os seus
salários estagnados, porque na realidade os salários estão
a cair mais depressa do que os preços dos bens. É assim que o
iPhone pode parecer um bom negócio, mas só se você
não fizer o cálculo matemático e entender quantas horas de
trabalho são precisas para pagar um.
Como esta técnica de medir está a ser estendida a um
número crescente de bens, ela tornou-se um factor importante na
redução da taxa de inflação nos EUA e
intrinsecamente eleva o crescimento do PIB nominal quando o PIB real pode
realmente declinar. Mas o seu efeito geral sobre o acompanhamento da é
mantido secreto para o público. Os ajustamentos hedonísticos para
hardware e software informativo só por si permitem explicar muito dos
"milagres" de crescimento e produtividade da última
década.
O apreçamento hedonístico, ao manter a taxa de
inflação oficial significativamente mais baixa do que a
realidade, não só desempenhou um papel chave na
alimentação do boom do mercado de acções como
também agigantou o excedente orçamental durante os anos Bill
Clinton e subestimou o défice de George W. Bush. Tal
indexação reduz os pagamentos de segurança social e os
benefícios sociais uniformemente e enfraquece os ajustamentos salariais
relacionados com a inflação. E, mais essencialmente, os
preços hedonísticos mais baixos em computadores e gadgets
electrónicos são pagos com menos dinheiro para comida e
habitação de idosos, de desempregados e de indigentes, bem
como do trabalhador médio.
Leve o assunto a uma reunião na municipalidade.
O original encontra-se em
http://www.henryckliu.com/page197.html
e
http://www.newdeal20.org/?p=3870
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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