O imperialismo cultural no finado século XX
por James Petras
INTRODUÇÃO
O imperialismo cultural americano tem dois grandes objectivos, um
económico e o outro político: capturar mercados para as suas
mercadorias culturais e estabelecer hegemonia pela modelação da
consciência popular. A exportação do entretenimento
é uma das mais importantes fontes de acumulação de capital
e de lucros globais, deslocando as exportações manufactureiras.
Na esfera política, o imperialismo cultural desempenha uma grande papel
na dissociação das pessoas das suas raízes culturais e
tradições de solidariedade, substituindo-as com necessidades
criadas pelos media, as quais mudam a cada campanha publicitária. O
efeito político é alienar pessoas dos vínculos
tradicionais de classe e de comunidade, atomizando e separando os
indivíduos um do outro.
O imperialismo cultural enfatiza a segmentação da classe
trabalhadora: os trabalhadores estáveis são estimulados a
dissociarem-se dos trabalhadores temporários, o quais por sua vez
separam-se dos desempregados, os quais são mais uma vez segmentados
entre eles próprios dentro da 'economia subterrânea'. O
imperialismo cultural estimula o povo trabalhador a pensar de si próprio
como parte de uma hierarquia, enfatizando diminutas diferenças de estilo
de vida, de raça e de género com as que estão abaixo
deles, ao invés de estimular as enormes desigualdades que as separam
daqueles que estão acima delas.
O alvo principal do imperialismo cultural é a exploração
política e económica da juventude. O entretenimento imperial e a
publicidade alvejam pessoas jovens, que são mais vulneráveis
à propaganda comercial americana. A mensagem é simples e
directa: 'modernidade' é associada com o consumir de produtos dos media
americanos. A juventude representa um grande mercado para a
exportação cultural americana e são eles os mais
susceptíveis à propaganda consumista-individualista. Os mass
media manipulam a rebeldia adolescente pela apropriação da
linguagem da esquerda e a canalização do descontentamento para
extravagâncias culturais.
O imperialismo cultural enfoca a juventude não só como um mercado
mas também por razões políticas: para cortar pela base
uma ameaça política em que a rebelião pessoal poderia
tornar-se revolta política contra formas de controle económico e
cultural.
Ao longo da última década os movimentos progressistas
confrontaram um paradoxo: enquanto a grande maioria do povo no Terceiro Mundo
experimenta padrões de vida em deterioração, crescente
insegurança social e pessoal e decadência dos serviços
público (enquanto as minorias abastadas prosperaram como nunca antes) a
resposta subjectiva a estas condições tem sido revoltas
esporádicas, sustentadas, excepto actividades locais e protestos em
grande de curta duração. Numa palavra, há um fosso
profundo entre as crescentes desigualdades e as condições
sócio-económicas por um lado e a fraqueza das respostas
revolucionárias ou radicais subjectivas. A maturação das
'condições objectivas' no Terceiro Mundo não tem sido
acompanhada pelo crescimento das forças subjectivas capazes de
transformar o Estado ou a sociedade. É claro que não há
relacionamento automático entre regressão
sócio-económica e transformação
sócio-política. A intervenção cultural (no mais
vasto sentido da expressão, incluindo ideologia, consciência,
acção social) é a ligação crucial que
converte condições objectivos em intervenção
política consciente. Paradoxalmente, os elaboradores políticos
imperiais parecem ter entendido a importância das dimensões
culturais da prática política muito melhor do que os seus
adversários.
DOMINAÇÃO CULTURAL E EXPLORAÇÃO GLOBAL
O imperialismo não pode ser entendido meramente como um sistema
económico-militar de controle e exploração. A
dominação cultural é uma dimensão integrante de
qualquer sistema sustentável de exploração global.
Em relação ao Terceiro Mundo, o imperialismo cultural pode ser
definido como a penetração sistemática e a
dominação da vida cultural das classes populares pela classe
dirigente do Ocidente a fim de reordenar os valores, o comportamento, as
instituições e a identidade dos povos oprimidos para que se
conformem aos interesses das classes imperiais. O imperialismo cultural tem
assumido tanto formas 'tradicionais' como modernas. Nos séculos
passados, a Igreja, o sistema educacional e as autoridades públicas
desempenharam um grande papel ao inculcar os povos nativos com ideias de
submissão e lealdade em nome de princípios divinos ou
absolutistas. Se bem que estes mecanismos 'tradicionais' de imperialismo
cultura ainda operem, novas instrumentalidades modernas enraizadas em
instituições contemporâneas tornaram-se cada vez mais
centrais para a dominação imperial. Os mass media, a propaganda,
a publicidade, os humoristas e os intelectuais desempenham um grande papel
hoje. No mundo contemporâneo, Hollywood, CNN e Disneylandia são
mais influentes do que o Vaticano, a Bíblia ou a retórica de
relações públicas das figuras políticas. A
penetração cultura está estreitamente ligada à
dominação político-militar e à
exploração económica. As intervenções
militares americanas em apoio dos regimes genocidas na América Central,
que protege os seus interesses económicos, são acompanhadas por
intensa penetração cultural. Evangélicos americanos
financiados invadem aldeias indianas para inculcarem mensagens de
submissão entre as vítimas do campesinato indiano.
Conferências internacionais são patrocinadas por intelectuais
domesticados a fim de discutir 'democracia e mercado'. Programas escapistas de
televisão semeiam ilusões de 'um outro mundo'. A
penetração cultural é a extensão da guerra de
contra-insurgência por meios não-militares.
NOVOS DISPOSITIVOS DE COLONIALISMO CULTURAL
O colonialismo cultural contemporâneo (CCC) é diferente das
práticas do passado em vários sentidos:
1) Está orientado para a captura de audiências de massa,
não apenas para converter elites.
2) Os mass media, particularmente a televisão, invadem os lares
funcionam a partir de 'dentro' e de 'baixo' bem como de 'fora' e de 'cima'.
3) O CCC é de âmbito global e homogeneizador no seu impacto: a
pretensão de universalismo serve para mistificar os símbolos, os
objectivos e os interesses da potência imperial.
4) Os mass media como instrumentos do imperialismo cultural hoje são
'privados' apenas num sentido formal: a ausência de
ligações formais com o Estado proporciona uma cobertura
legítimas para os media privados projectarem os interesses do Estado
imperial como 'notícias' ou 'entretenimento'.
5) Sob o imperialismo contemporâneo, os interesses políticos
são projectados através de assuntos não-imperiais: foco
de reportagens com notícias de biografias pessoais de
camponeses-soldados mercenários na América Central e sorridentes
trabalhadores negros americanos na Guerra do Golfo.
6) Devido ao fosso crescente entre a promessa de paz e prosperidade sob o
capital desregulamentado e a realidade do aumento da miséria e da
violência, os mass media estreitaram ainda mais as possibilidade de
perspectivas alternativas nos seus programas. O controle cultura total
é a contrapartida da separação total entre a brutalidade
do capitalismo realmente existente e as promessas ilusórias do mercado
livre.
7) Para paralisar respostas colectivas, o colonialismo cultural procura
destruir identidades nacionais ou esvaziá-las de conteúdo
sócio-económico substantivo. Para romper a solidariedade de
comunidades, o imperialismo cultural promove o culto da 'modernidade' como
conformidade com símbolos externos. Em nome da 'individualidade',
laços sociais são atacados e personalidades são remoldadas
em conformidade com os ditados das mensagens dos media. Enquanto as armas
imperiais desarticulam a sociedade civil, e os bancos pilham a economia, os
media imperiais suprem os indivíduos com identidades escapistas.
O imperialismo cultura fornece devastadoras caricaturas demonológicas
dos seus adversários revolucionários, ao mesmo tempo que
estimulam a amnésia colectiva da violência maciça dos
países pró-ocidentais. Os mass media ocidentais nunca relembram
a sua audiência do assassínio pelos regimes anti-comunistas
pró-EUA de 100 mil índios na Guatemala, de 75 mil trabalhadores
em El Salvador, das 50 mil vítimas na Nicarágua. Os mass media
encobrem os grandes desastres resultantes da introdução do
mercado na Europa do Leste na ex-URSS, que deixaram centenas de milhões
de pessoas empobrecidas.
MASS MEDIA: PROPAGANDA E ACUMULAÇÃO DE CAPITAL
Os mass media são uma das principais fontes de riqueza e poder para o
capital americanos à medida que estende as suas redes de
comunicações através do mundo. Uma porcentagem crescente
dos norte-americanos mais ricos extraem a sua riqueza dos mass media. Dentre
os 400 americanos mais ricos a porcentagem que deriva a sua riqueza dos mass
media aumentou de 9,5 por cento em 1982 para 18 por cento em 1989. Hoje, quase
um em cada cinco entre os norte-americanos mais ricos obtêm a sua riqueza
dos mass media. O capitalismo cultural deslocou o manufactureiro como fonte de
riqueza e influência nos EUA.
Os mass media tornaram-se uma parte integral do sistema de controle
político e social global americano, bem como uma grande fonte de
super-lucros. À medida que os níveis de
exploração, desigualdade e pobreza aumentam no Terceiro Mundo, as
comunicações de massa controladas pelo ocidente operam no sentido
de converter um público crítico numa massa passiva. As
celebridades dos medias e do entretenimento em massa ocidentais tornaram-se
ingredientes importantes no desvio da potencial inquietação
política. A presidência Reagan destacou a centralidade da
manipulação dos media através de altamente visíveis
mas politicamente reaccionários apresentadores
(entertainers)
, um fenómeno que se espalhou pela América Latina e na
Ásia.
Há uma relação directa entre o aumento do número de
receptores de televisão na América Latina, o declínio do
rendimento e a diminuição da luta de massa. Entre 1980 e 1990 o
número de televisores na América Latina por habitante aumentou 40
por cento, enquanto o rendimento médio real diminuiu 40 por cento, e um
conjunto de candidatos políticos neoliberais dependentes decisivamente
de imagens de televisão ganhou a presidência.
O aumento da penetração dos mass media entre os pobres, os
crescentes investimentos e lucros das corporações americanas com
a venda de mercadorias culturais e a saturação de
audiências de massa com mensagens que fornecem aos pobres
experiências de segunda mão de consumo individual e aventura
define o actual desafio do colonialismo cultural.
As mensagens dos media americanos são alienantes para o povo do Terceiro
Mundo num duplo sentido. Elas criam ilusões acerca de
obrigações 'internacionais' e 'trans-classistas'. Através
de imagens de televisão são estabelecidas falsas intimidades e
ligações imaginárias entre as pessoas bem sucedidas dos
media e os espectadores empobrecidos nos 'barrios'. Esta ligação
proporciona um canal através do qual o discurso de
soluções individuais para problemas privados é propagado.
A mensagem é clara. As vítimas são culpadas pela sua
própria pobreza, o êxito depende de esforços individuais.
As grandes TV por satélite, as saídas dos mass media americanos e
europeus na América Latina, evitam qualquer crítica às
origens político-económicas e às consequências do
novo imperialismo cultural que temporariamente desorientaram e imobilizaram
milhões de empobrecidos latino-americanos.
O IMPERIALISMO E A POLÍTICA DA LINGUAGEM
O imperialismo cultural desenvolveu uma estratégia dual para conter a
esquerda e estabelecer hegemonia. Por um lado, procura corromper a linguagem
política da esquerda; por outro, actua no sentido de dessensibilizar o
público geral para as atrocidades cometidas pelas potências
ocidentais. Durante os anos 80 os mass media ocidentais apropriaram-se
sistematicamente de ideias básicas da esquerda, esvaziando-as do seu
conteúdo original e reenchendo-o com uma mensagem reaccionária.
Exemplo: os mass media descreviam os políticos que tentavam restaurar o
capitalismo e estimular desigualdades como "reformadores" ou
"revolucionários", ao passo que os seus oponentes eram
etiquetados como "conservadores". O imperialismo cultural procura
promover a confusão ideológica e a desorientação
política revertendo o significado da linguagem política. Muitos
indivíduos progressistas ficaram desorientados por esta
manipulação ideológica. Em consequência, ficaram
vulneráveis às afirmações daqueles ideólogos
imperiais que argumentam que os termos "direita" e
"esquerda" são destituídos de qualquer significado, que
as distinções perderam significância, que as ideologias
nada mais representam. Pela corrupção da linguagem da esquerda e
distorção do conteúdo da esquerda e direita, os
imperialistas culturais têm esperança de minar os apelos
políticos e práticas políticas dos movimentos
anti-imperialistas.
A segunda estratégia do imperialismo cultural foi dessensibilizar o
público; tornar o assassínio em massa pelos Estados ocidentais
coisa rotineira, actividades aceitáveis. Os bombardeamentos em massa no
Iraque foram apresentados na forma de vídeo games. Ao trivializar
crimes contra a humanidade, o público é dessensibilizado da sua
crenças tradicional de que provocar o sofrimento humano é errado.
Ao enfatizar a modernidade das novas técnicas de travar a guerra, os
mass media glorificam a elite do poder existente as tecno-guerras do
ocidente. O imperialismo cultural hoje inclui relatos de
"notícias" em que as armas de destruição em
massa são apresentadas com atributos humanos ao passo que as
vítimas no Terceiro Mundo são "agressores-terroristas"
sem rosto.
A manipulação cultural global é sustentada pela
corrupção da linguagem política. Na Europa do Leste,
especuladores e mafiosos que se apossaram de terra, empresas e riqueza
são descritos como "reformadores". Contrabandistas são
descritos como "empresários inovadores". No ocidente, a
concentração de poder absoluto para contratar e despedir nas
mãos da administração e a acrescida vulnerabilidade e
insegurança do trabalho é chamada "flexibilidade
laboral". No Terceiro Mundo, a venda de empresas públicas
nacionais a monopólios multinacionais gigantes é descrita como
"ruptura de monopólios". "Reconversão"
é o eufemismo para o retorno às condição do
século XIX de trabalho despojado de todos os benefícios sociais.
"Reestruturação" é o retorno à
especialização em matérias-primas ou a transferência
de rendimento da produção para a especulação.
"Desregulação" é a mudança no poder para
regular a economia do Estado Previdência nacional para a banca
internacional, a elite do poder multi-nacional. "Ajustamento
estrutural" na América Latina significa transferir recursos para
investidores e rebaixar pagamento ao trabalho. Os conceitos de esquerda
(reforma, reforma agrária, mudanças estruturais) eram
originalmente orientados para a distribuição do rendimento.
Estes conceitos foram cooptados e tornados símbolos para a
reconcentração da riqueza, do rendimento e do poder nas
mãos das elites ocidentais. E naturalmente todas as
instituições culturais privadas do imperialismo amplificam e
propagam esta desinformação orwelliana. O imperialismo cultural
contemporâneo degradou a linguagem da libertação,
convertendo-as em símbolos da reacção.
TERRORISMO CULTURAL: A TIRANIA DO LIBERALISMO
Assim como o terrorismo de Estado ocidental tenta destruir movimentos sociais,
governo revolucionários e desarticular a sociedade civil, o terrorismo
económico, tal como praticado pelo FMI e consórcios de bancos
privados, destroi indústrias locais, desgasta a propriedade
pública e ataca brutalmente famílias assalariadas. O terrorismo
cultural é responsável pela deslocação
física de locais de actividades culturais e artistas. O terrorismo
cultural, aproveitando-se das fraquezas psicológicas e profundas
ansiedades das pessoas vulneráveis do Terceiro Mundo, particularmente do
seu senso de ser "atrasado", "tradicional" e oprimido,
projecta novas imagens de "mobilidade" e "livre
expressão", destruindo antigos vínculos com a família
e a comunidade, enquanto ata novas cadeias de autoridade arbitrária
ligadas ao poder corporativo e a mercados comerciais. Os ataques à
moderação e obrigações tradicionais é um
mecanismo pelo qual o mercado capitalista e o Estado tornam-se o centro final
de poder exclusivo. O imperialismo cultural em nome da "auto
expressão" tiraniza as pessoas do Terceiro Mundo temerosas de serem
etiquetadas como "tradicionais", seduzindo-as e manipulando-as
através de falsas imagens de "modernidade" sem classe. O
imperialismo cultura questiona todas as relações preexistentes
que são obstáculos a uma e única moderna deidade sagrada:
o mercado. Os povos do Terceiro Mundo são entretidos, coagidos,
excitados para serem "modernos", para se submeterem às
exigências do mercado capitalista, para abandonarem o vestuário
confortável tradicional por mal ajustados e inadequados blue jeans
apertados.
O imperialismo cultura funciona melhor através de intermediários
colonizados, colaboradores culturais. O protótipo dos colaboradores
culturais são os profissionais em ascensão sociais do Terceiro
Mundo que imitam o estilo do seus patrões. Estes colaboradores
são servis para com o ocidente a arrogantes para com o seu povo,
personalidades autoritárias prototípicas. Apoiados pelos bancos
e multinacionais, eles exercem imenso poder através do Estado e do mass
media locais. Imitadores do ocidentes, eles são rígidos na sua
conformidade com as regras da competição desigual, abrindo o seu
país e os seus povos à exploração selvagem em nome
do livre comércio. Entre os colaboradores culturais proeminentes
destacam-se os intelectuais institucionais que negam a dominação
de classe e a guerra de classe imperial por trás do jargão da
ciência social objectiva. Eles fetichizam o mercado como o
árbitro absoluto do bem e do mal. Por trás da retórica da
"cooperação regional", os intelectuais conformistas
atacam a classe trabalhadora e as instituições nacionais que
constrangem os movimentos do capital seus apoiantes são isolados
e marginalizados. Hoje, por todo o Terceiro Mundo, o ocidente financia
intelectuais locais que abraçaram a ideologia da
concertação (colaboração de classe). A
noção de interdependência substituiu a de imperialismo. E
o mercado mundial desregulado é apresentado como a única
alternativa para o desenvolvimento. A ironia é que hoje mais do que
nunca o "mercado" tem sido menos favorável ao Terceiro Mundo.
Nunca os EUA, a Europa e o Japão foram tão agressivos na
exploração do Terceiro Mundo. A alienação cultural
dos intelectuais institucionais em relação às realidades
globais e um subproduto da ascendência do imperialismo cultura ocidental.
Para aqueles intelectuais críticos que recusam juntar-se à
celebração do mercado, que estão do lado de fora dos
circuitos oficiais de conferências, o desafio é mais uma vez
retornar à luta de classe e anti-imperialista.
A NORTE-AMERICANIZAÇÃO
E O MITO DE UMA CULTURA INTERNACIONAL
Uma das grandes decepções do nosso tempo é a
noção de "internacionalização" de ideias,
mercados e movimentos. Tornou-se moda evocar termos como
"globalização" ou
"internacionalização" para justificar ataques a
qualquer ou todas as formas de solidariedade, comunidade, e/ou valores sociais.
Sob o disfarce de "internacionalismo", a Europa e os EUA tornaram-se
exportadores dominantes de formas culturais que na maior parte conduzem
à despolitização e trivialização da
existência de todos os dias. As imagens de mobilidade individual, a
pessoa "self-made", a ênfase sobre a "existência
egoísta" (produzida em massa e distribuída pela
indústria americana dos mass media) tornaram-se agora instrumentos
importantes na dominação do Terceiro Mundo.
O neoliberalismo continua a prospera não porque ele resolva problemas,
mas porque ele serve aos interesses dos ricos e poderosos e vibra entre alguns
sectores dos empobrecidos empregados por conta própria que pululam nas
ruas do Terceiro Mundo. A norte-americanização das culturas do
Terceiro Mundo tem lugar com a benção e o apoio das classes
dominantes nacionais porque ela contribui para estabilizar o seu
domínio. As novas normas culturais o privado sobre o
público, o individual sobre o social, o sensacional e violento sobre as
lutas quotidianas e as realidades sociais tudo contribui para inculcar
precisamente os valores egocêntricos que minam a acção
colectiva. A cultura de imagens, de experiências transitórias, de
conquista sexual, trabalha contra a reflexão, compromisso e sentimentos
partilhados de afeição e solidariedade. A
norte-americanização da cultura significa focar a
atenção popular sobre celebridades, personalidades e mexericos
privados não sobre a profundide social, substância
económica e condição humana. O imperialismo cultural
distrai da relação de poder e desgasta as formas colectivas de
acção social.
A cultura dos media que glorifica os reflexos 'provisórios' do
capitalismo americano sem raízes seu poder para contratar e
despedir, para movimentar o capital sem respeito para com comunidades. O mito
da "libertação da mobilidade" reflecte a incapacidade
do povo para estabelecer e consolidar raízes comunitárias em face
das cambiantes exigências do capital. A cultura norte-americana
glorifica o transitório, as relações impessoais como
"liberdade" quando de facto estas condições reflectem a
anomia e a subordinação burocrática de uma massa de
indivíduos ao poder do capital corporativo. A
norte-americanização envolve um assalto maciço às
tradições de solidariedade em nome da modernidade, ataques
às lealdades de classe em nome do individualismo, a
degradação da democracia através campanhas maciças
dos media que enfocam personalidades.
A nova tiraria cultura tem raiz no omnipresente e repetitivo discurso do
mercado, da cultura homogeneizada do consumo, de um sistema eleitoral
degradado. A nova tiraria dos media mantem-se de pé lado a lado com o
Estado hierárquico e as instituições económicas que
vão desde os gabinetes dos bancos internacionais às aldeias nos
Andes. O segredo do êxito da penetração cultural
norte-americana no Terceiro Mundo é sua capacidade para modelar
fantasias a fim de escapar à miséria gerado pelo próprio
sistema de dominação económica e militar. Os ingredientes
essenciais do novo imperialismo cultural são a fusão do
comercialismo-sexualidade-conservadorismo, cada um deles apresentado como
expressões idealizadas de necessidades privadas, de
auto-realização individual. Para algumas pessoas do Terceiro
Mundo imersas em tarefas quotidianas sem perspectivas, lutas pela
sobrevivência diária, no meio da sujeira e da
degradação, as fantasias dos media norte-americanos, tal como o
evangelista, retractam "alguma coisa melhor", uma esperança
numa melhor vida futura ou pelo menos o prazer indirecto de observar
outros a desfrutá-la.
IMPACTO DO IMPERIALISMO CULTURAL
Se quisermos entender a ausência de transformação
revolucionária, apesar da maturação de
condições revolucionárias, devemos reconsiderar o profundo
impacto psicológico do Estado de violência, terror político
e a profunda penetração dos valores cultural/ideológicos
propagados pelos países imperiais e internalizados pelos povos
oprimidos. O Estado de violência dos anos 70 e princípios de 80
criaram danos psíquicos a longo prazo e em larga escala medo de
iniciativas radicais, desconfiança de colectividades, um sentimento de
impotência perante autoridades estabelecidas mesmo quando as
mesmas autoridades são odiadas. O terror virou o povo "para dentro
de si próprio", em direcção a domínios
privados.
Posteriormente, políticas neoliberais, uma forma de "terrorismo
económico", resultaram no encerramento de fábricas, na
abolição da protecção legal do trabalho, no
crescimento do trabalho temporário, na multiplicação de
empresas individuais mal pagas. Estas políticas mais uma vez
fragmentaram a classe trabalhadora e as comunidades urbanas. Neste contexto de
fragmentação, desconfiança e privatização, a
mensagem cultural do imperialismo encontrou campos férteis para explorar
as sensibilidades de pessoas vulneráveis, encorajando e aprofundando a
alienação pessoal, objectivos auto-centrados e a
competição individual sobre recursos cada vez mais escassos.
O imperialismo cultural e os valores que ele promove tem desempenhado um papel
importante para impedir indivíduos explorados de responderem
colectivamente às suas condições em
deterioração. Os símbolos, imagens e ideologias que se
difundiram no Terceiro Mundo são obstáculos maiores para a
conversão da exploração de classe e crescente
miserabilismo em consciência de classe, base para a acção
colectiva. A grande vitória do imperialismo é não apenas
os lucros materiais, mas sua conquista do espaço íntimo da
consciência dos oprimidos, directamente através dos mass media e
indirectamente através da captura (ou rendição) dos seus
intelectuais e políticos. Se bem que um renascimento da política
revolucionária de massa seja possível, ela deve começar
com a guerra não só às condições de
exploração como também à cultura que sujeita suas
vítimas.
LIMITES DO IMPERIALISMO CULTURAL
Contrariando as pressões do colonialismo cultural está o
princípio da realidade: a experiência pessoal de miséria e
exploração imposta pelos bancos multinacionais ocidentais, a
repressão policial/militar reforçada pelo fornecimento de armas
americanas. As realidades diárias, às quais os media escapistas
jamais poderão mudar. Dentro da consciência dos povos do Terceiro
Mundo há uma luta constante entre o demónio da escapatória
individual (cultivada pelos massa media) e o conhecimento intuitivo de que a
acção e responsabilidade colectivas são a única
resposta prática. Em tempos de mobilizações sociais
crescentes, a virtude da solidariedade ganha prioridade; em tempos de derrota
e declínio, aos demónios da rapacidade individual é dado
livre trânsito.
Há limites absolutos na capacidade do imperialismo cultural para
distrair e mistificar pessoas para além do qual inicia-se a
rejeição popular. A "mesa da fartura" na TV contrasta
com a experiência da cozinha vazia, as escapadelas amorosas de
personalidades dos media chocam-se contra uma casa cheia de crianças a
engatinharem, chorosas e famélicas. Nas confrontações de
rua, a Coca Cola torna-se um coquetel Molotov. A promessa de riqueza torna-se
uma afronta àqueles a quem é perpetuamente negada. O
empobrecimento prolongado e a decadência generalizada corroem o encanto e
o apelo das fantasias dos mass media.
As falsas promessas do imperialismo cultural tornam-se objecto de anedotas
amargas, relegadas para outro tempo e outro lugar.
Os apelos do imperialismo cultural são limitados pelos laços
duradouros das colectividades locais e regionais as quais
têm os seus próprios valores e práticas. Onde os
laços de classe, de raça, de género e de etnia persistem e
as práticas de acção colectiva são fortes, a
influência dos mass media é limitada ou rejeitada.
Na media em que as culturas e tradições preexistentes se
mantenham, elas formam um "círculo fechado" que integra
práticas sociais e culturais voltadas para dentro de si mesmas,
não para fora. Em muitas comunidades há uma
rejeição clara do discurso "modernista" de
desenvolvimento individualista associado com a supremacia do mercado. As
raízes históricas para a solidariedade sustentada e para os
movimentos anti-imperiais são encontradas em comunidades étnicas
e ocupacionais coesas; cidades mineiras, aldeias de pescadores e florestais,
concentrações industriais em centros urbanos. Onde trabalho,
comunidade e classe convergem com tradições culturais e
práticas colectivas, o imperialismo cultura recua.
A efectividade do imperialismo cultural não depende simplesmente das
suas qualificações técnicas de manipulação,
mas sim da capacidade do Estado de brutalizar a atomizar a massa do povo,
privá-la das suas esperanças e da fé colectiva em
sociedades igualitárias.
A libertação cultural não significa simplesmente "dar
poder" a indivíduos ou classes, mas depende sim do desenvolvimento
de uma força sócio-política capaz de confrontar o estado
de terror que antecede a conquista cultural. A autonomia cultural depende da
força social e a força social é percebida pelas classes
dominantes como uma ameaça ao poder económico e do Estado. Assim
como a luta cultural está enraizada em valores de autonomia, comunidade
e solidariedade que são necessários para criar a
condição de consciência por transformações
sociais, é necessária a força política e militar
para apoiar as bases culturais das identidades de classe e de
nação.
O mais importante: a esquerda deve recriar uma fé e uma visão de
uma nova sociedade construída em torno de valores tanto espirituais como
materiais: valores de beleza e não apenas de trabalho. A solidariedade
ligada à generosidade e à dignidade. Onde os modos de
produção estejam subordinados a esforços para fortalecer e
aprofundar antigos vínculos pessoais e de amizade.
O socialismo deve reconhecer as aspirações de estar sozinho, de
estar na intimidade, assim como de ser social e colectivo. Acima de tudo, a
nova visão deve inspirar o povo porque isto vibra com o seu desejo
não apenas de ser livre da dominação como de ser livre
para criar uma vida pessoal significativa informada por relações
afectivas não-instrumentais que tanto transcendam o trabalho quotidiano
como inspirem as pessoas a continuarem a lutar. O imperialismo cultural tem
êxito quanto à novidade, às relações
transitórias e à manipulação pessoal, mas nunca
sobre uma visão de laços autênticos, íntimos,
baseados sobre a honestidade pessoal, a igualdade de género e a
solidariedade social.
As imagens pessoais mascaram os assassínios em massa do Estado, assim
como a retórica tecnocrática racionaliza as armas de
destruição maciça ("bombas inteligentes"). O
imperialismo cultural na era da 'democracia' deve falsificar a realidade no
país imperial a fim de justificar a agressão
através da conversão das vítimas em agressores e dos
agressores em vítimas.
O original encontra-se em
http://lists.econ.utah.edu/pipermail/a-list.
Tradução de JF.
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info
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