Os seis náufragos
Num dos seus comentários mais recentes, Stephen Roach, da Morgan
Stanley, talvez o único economista da Wall Street que pelo menos
compreende parcialmente o perigo económico que está a assomar,
lamentou mais uma vez que uma "economia global co-dependente não
possa viver sem o excesso de consumo dos americanos". Isto reflecte o
engano popular de que os americanos estão como que a fazer um favor ao
mundo ao consumir os frutos do seu trabalho.
O mundo não depende mais do consumo dos americanos do que os servos
medievais dependiam do consumo dos seus senhores, os quais tomavam tipicamente
25% daquilo que eles produziam. Que desastre teria havido para os servos se os
seus senhores não exigissem este tributo. Pensem em todo o desemprego
que os servos teriam sofrido se não tivessem de laborar tão
arduamente em benefício dos seus senhores. O que teriam eles feito com
todo o tempo livre extra?
Segundo economistas dos dias modernos, se os senhores decidissem aumentar
aquilo que tomam, digamos para 35%, isto teria sido o equivalente a um boom
económico para os servos, os quais teriam assim mais trabalho
assegurado. É uma pena que os servos não tivessem conselheiros
económicos ou banqueiros centrais para encorajar políticas
tão progressistas!
Tenho escrito sobre este assunto ultimamente (ver meus comentários
anteriores intitulados "CNBC Redefines the Word 'Sacrifice',"
10/Fev/2005 e "The U.S. is Not a Special Case, Just an Extreme One,"
18/Jan/2005). Ambos os artigos estão arquivados na secção
de comentários do meu sítio web, em
www.europac.net/archives.asp
. Contudo, gostaria de colocar a suposição ridícula de
que o mundo se beneficia com o excesso de consumo da América e tem algo
a temer da sua cessação a fim de descansar de uma vez por todas.
Considere a seguinte analogia.
Suponha que seis náufragos encontram-se abandonados numa ilha deserta,
cinco asiáticos e um americano. Além disso, suponha que os
náufragos decidem dividir a carga de trabalho entre si da seguinte
maneira: (a bem da simplicidade, o único desejo dos náufragos
é satisfazer a fome) um asiático é encarregado da
caça, um outro da pesca e um terceiro de descobrir
vegetação. Um quarto é encarregado de preparar a comida,
ao passo que ao quinto é dada a tarefa de colectar lenha a acender o
fogo. Ao americano é dada a tarefa de comer.
Assim, na nossa ilha cinco asiáticos trabalham o dia todo para alimentar
um americano, o qual gasta o seu dia a bronzear-se na praia. Ele está
empregado no equivalente ao sector de serviços, operando um salão
de bronzeamento que nenhum dos asiáticos na ilha utiliza. No fim do
dia, os cinco asiáticos apresentam um banquete cuidadosamente preparado
para o americano, o qual senta-se à cabeceira de uma mesa especial,
construída pelos asiáticos especificamente para essa finalidade.
Percebendo que banquetes subsequentes só viriam se os asiáticos
estivessem vivos para providenciá-los, ele concede-lhes apenas umas
poucas migalhas da sua mesa para sustentar o seu trabalho no dia seguinte.
Economistas dos dias modernos diriam que este americano é o único
motor de crescimento a conduzir a economia da ilha e que, sem o seu voraz
apetite, o asiáticos dali estariam desempregados. A realidade,
naturalmente, é que a melhor coisa que os asiáticos podiam fazer
para melhorar os seus destinos seria votar pela retirada do americano da ilha.
Sem o americano a consumir a sua comida haveria um bocado mais
disponível para eles próprios comerem.
Em alternativa, eles podiam gastar menos tempo nas tarefas relacionadas com a
sua comida, dedicando o tempo extra a mais lazer ou a satisfazer outras
necessidades, as quais anteriormente não eram preenchidas pois muito dos
seus recursos escassos eram dedicados a alimentar o americano.
Agora, alguns de vocês estarão a pensar que esta analogia é
enviesada, pois na economia do mundo real os americanos pagam pela sua comida,
de modo que no mundo real os asiáticos que proporcionam
refeições recebem valor em troca dos seus esforços. OK,
vamos assumir que o americano na nossa ilha paga pela sua comida da mesma
maneira que no mundo real os americanos pagam pela sua, compram emitindo
promissórias (IOUs). Vamos assumir que no fim da refeição
os asiáticos apresentem uma conta ao americano, a qual ele paga
através da emissão de promissórias que pretendem
representar futuros pagamentos da comida.
Contudo, todos os náufragos sabem que as promissórias nunca
poderão ser cobradas, pois a América não tem comida ou os
meios ou mesmo a intenção de fornecer algo no futuro. Mas os
asiáticos aceitam-nas de qualquer forma, e a cada noite acrescentam-nas
às pilhas de promissórias recolhidas nos dias anteriores.
Estarão os asiáticos numa situação melhor em
resultado desta acumulação? Estarão eles menos famintos?
Não, naturalmente.
Agora vamos assumir que um outro náufrago asiático nada
até à ilha, e assume o papel de banqueiro central. A partir
daí, a cada dia o banqueiro central cobra impostos aos outros
asiáticos da ilha confiscando uma porção das migalhas de
comida que o americano lhes atira da sua mesa. O banqueiro central concorda
então em devolver estes bocados aos outros asiáticos todos os
dias, em troca da acumulação diária pelos mesmos
das promissórias do americano, menos uma pequena percentagem para si
próprio, porque o banqueiro central também tem de comer.
Será que a existência de um banqueiro central mudou alguma coisa?
Será que os asiáticos têm algo mais para comer porque o seu
próprio banqueiro central lhes devolve uma porção da
comida que lhes tomou anteriormente? Será que as promissórias do
americano tem algum valor a mais porque agora podem ser trocadas desta maneira?
Não, naturalmente.
Bem, se não faz sentido para os seis pretensos asiáticos
suportarem um pretenso americano, também não faz sentido para
milhares de milhões de asiáticos do mundo real suportarem
milhões de americanos do mundo real. O facto de que eles assim o
façam em troca de promissórias sem valor de modo algum altera
esta realidade.
Não está em discussão que no curto prazo, ao permitir que
o dólar americano entre em colapso (como se despejassem milhões de
americanos para fora da ilha), haverá algumas perturbações
temporárias para as economias asiáticas. É claro que
haverá alguns perdedores iniciais, particularmente entre aqueles
asiáticos que actualmente se aproveitam deste estado de coisas.
Contudo, estes lucros ocorrem somente às custas de perdas muito maiores
sofridas pelo conjunto mais vasto da população asiática.
No final das contas, a cessação do consumo excessivo da
América -- que é um fardo que agora os asiáticos têm
de arcar e não um benefício de que desfrutem -- será a
melhor coisa que poderá acontecer ao povo da Ásia. Tal como os
servos a serem libertados dos seus senhores, seus escassos recursos
serão finalmente libertados a fim de satisfazer as suas próprias
necessidades e desejos, e os seus padrões ascenderão em
conformidade. Além disso, desde que as suas poupanças ficassem
disponíveis para financiar investimentos adicionais de capital, ao
invés de serem desbaratadas pelos consumidores americanos, daí
para a frente os seus futuros padrões de vida ascenderiam muito
mais depressa.
Infelizmente para os americanos, serem chutados para fora da Ásia
significa que acabou o comboio da alegria e que têm de voltar ao
trabalho. Em termos simples, isto significa caçar e pescar muito mais e
comer muito menos.
29/Mar/05
Nota de resistir.info:
A analogia deste conto parece incompleta
pois não menciona que o
americano tem uma arma e mata os asiáticos que fazem perguntas
embaraçosas, dizendo depois que os mortos
eram "terroristas" e que odiavam "a grande liberdade dos EUA".
[*]
Presidente da Euro Pacific Capital, Inc.
O original encontra-se em
http://www.europac.net/
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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