Opinião de um conservador americano
Uma ameaça pior que o terrorismo
por Paul Craig Roberts
[*]
A desilusão instalou-se na América. Washington não
é capaz de transformar a fantasia em realidade. Nem o podem fazer os
media bajuladores nem os economistas que não pensam.
A administração Bush é o primeiro governo da
história a iniciar uma guerra baseada inteiramente em fantasias a
fantasia das armas de destruição maciça que
não existem, a fantasia das ligações
terroristas que não existem, a fantasia de libertar um
povo da sua cultura, a fantasia duma invasão encenada, a
fantasia da omnipotência da América.
No entanto, a realidade ainda está para entrar na Sala Oval ou seja na
consciência do estado de alerta da América. A
invasão gratuita do Iraque, a tortura e os crimes de guerra levaram o
mundo inteiro a desprezar a América. As nossas alianças, outrora
magníficas, estão despedaçadas.
O mundo muçulmano, que encara a América como o país que
apoia Israel na opressão da Palestina, virou-se uniformemente contra
nós.
Desperdiçaram-se 300 mil milhões de dólares
escritos a vermelho até ao último cêntimo numa
guerra e numa ocupação à toa, que encorajaram os
revolucionários islâmicos, que serão mais bem sucedidos do
que os Estados Unidos na mudança da face do Médio Oriente.
A invasão do Iraque por Bush deu provas das limitações do
poderio militar hegemónico da América. Oito
divisões americanas fortemente apetrechadas com armas de alta tecnologia
são impotentes frente a alguns milhares de rebeldes com armas ligeiras
que controlam a maior parte das estradas e muitas cidades e centros
populacionais.
Qualquer iraquiano colaborador da ocupação americana que seja
suficientemente louco para sair da bem fortificada Zona Verde
é abatido com um tiro ou uma explosão no meio da rua.
Uma situação destas é anunciada como um
êxito pela Casa Branca, pelos políticos Republicanos e
pelas claques dos media.
A realidade é que uma administração Bush ignorante e
desatinada criou um crescente xiita desde o Irão ao Líbano que
está a revolucionar o Médio Oriente. A realidade nunca
entrará na administração Bush. A realidade contradiz a
fantasia de Bush e está contra nós. Os factos que
não apoiam a fantasia de Bush são liberais e
anti-americanos. A verdade foi despedida por ser propaganda contra
Bush.
É a América que está a passar por uma mudança de
regime. A administração Bush constitui uma
revolução jacobina. Os seus fanáticos declararam guerra
mundial contra a diversidade política. A primeira vítima da
guerra contra os terroristas de Bush foi a Declaração
dos Direitos. Em lugar dela temos um estado policial incipiente.
Poderíamos julgar facilmente que Bush é o primeiro entre os
enganados, mas quanto mais observamos o namoro dos economistas com o
outsourcing.
[1]
mais nos interrogamos se não serão os economistas os mais
enganados de todos.
O
outsourcing
transforma em importações os bens e serviços internos.
Divorcia os americanos dos rendimentos e das carreiras associadas com a
produção dos bens e serviços que consomem.
Este divórcio é altamente prejudicial para os americanos.
À medida que o trabalho estrangeiro substitui o trabalho americano na
produção de bens e serviços vendáveis, a
mão-de-obra americana desalojada procura trabalho nos serviços
internos que não podem ser dados a terceiros. Isto faz com que a oferta
de trabalho aumente, o que faz baixar os salários, nos mercados de
trabalho já sobrecarregados pela entrada de uma alta taxa de
imigração legal e ilegal.
Ao transformar a produção interna em importação, o
outsourcing
faz aumentar o défice comercial. A América está a pagar
a factura das importações cedendo ao estrangeiro a sua riqueza e
os fluxos de receitas que essa riqueza produz. Assim, os americanos não
só estão a perder os seus empregos e carreiras mas também
a posse das suas empresas, propriedades, acções e
obrigações do estado. As receitas destes activos perdidos passam
dos americanos para os estrangeiros.
Hoje em dia, o consumo da América e os défices orçamentais
do governo são financiados por estrangeiros, em particular os
asiáticos. Há hoje tantos dólares em mãos
estrangeiras que a apetência dos estrangeiros por mais está a
diminuir. Durante os últimos três anos os bancos centrais
estrangeiros têm diversificado as suas carteiras de reservas de
dólares para outras divisas.
O resultado tem sido fazer descer fortemente o valor do dólar em
relação a outras divisas. Como os preços se ajustam
à alteração do valor da divisa, os americanos estão
mais pobres.
Quando os economistas apregoam os benefícios do 'outsourcing', escondem
todos os factos negativos, tal como fazem os Republicanos quando apregoam o
êxito no Iraque. Como é que a América pode
beneficiar de um processo que destrói empregos, diminui as receitas e
reduz o valor cambial do dólar?
O que o 'outsourcing' está a fazer pela América é a
destruição de sectores inteiros da produção
americana, das ocupações de alta tecnologia, do valor da
educação superior, das capacidades de iniciativa e de
inovação da economia americana, e do dólar como divisa de
reserva. É muita destruição junta. Vai muito para
além do que a que os terroristas podem infligir.
Até agora, neste século XXI, os Estados Unidos têm
assistido a uma enorme perda de postos de trabalho. Há hoje menos
americanos empregados do que quando o presidente Bush tomou posse pela primeira
vez.
Isto não acontecia desde a Grande Depressão nos anos 30.
Quando os economistas afirmam que os Estados Unidos lucram com o 'outsourcing',
escondem a evidência das perdas de empregos, das receitas estagnadas e do
dólar em queda.
Como exemplo perfeito, temos um estudo recente feito por três
economistas publicado na edição de 21 de Março do
Barron.
Os economistas utilizaram modelos económicos para calcular os
benefícios do 'outsourcing' para os americanos. Um modelo
económico é constituído por suposições de
relações. Mas muitas das suposições são
históricas e reflectem o domínio económico da
América após a II Guerra Mundial, o que já deixou de ser
realidade.
Os economistas concluíram que os benefícios do 'outsourcing
para os americanos variavam entre 7100 dólares e 12900 dólares
por agregado familiar.
Segundo o Bureau of Labor Statistics (Gabinete de Estatística Laboral),
a média do salário horário dos trabalhadores da
produção privada, excluindo a agricultura e a chefia, produzia
uma receita anual de 33 972 dólares em Fevereiro de 2005.
Só economistas totalmente afastados da realidade poderiam acreditar que
os agregados familiares americanos devem tão alta percentagem de receita
ao 'outsourcing', que os ameaça com uma divisa em
depreciação e com a perda dos seus empregos e carreiras.
Uma das defesas mais estúpidas do 'outsourcing' é a
afirmação de que a história demonstra que a América
beneficia do comércio livre. Primeiro que tudo, tem havido muito pouco
comércio livre. Os economistas querem dizer que a América tem
beneficiado comercialmente durante as décadas a seguir à II
Guerra Mundial quando o resto do mundo estava a recuperar da guerra ou estava
estrangulado pelo socialismo. É fácil beneficiar com o
comércio quando se é a única economia.
Em segundo lugar, o 'outsourcing' não é comércio; é
uma arbitragem dos trabalhadores. O 'outsourcing' é um fenómeno
novo nascido do colapso do socialismo mundial e do aparecimento da internet de
alta velocidade. Reflecte
não
da vantagem comparativa mas da vantagem absoluta
o fluxo do capital e da tecnologia a atravessar fronteiras em
direcção à força de trabalho mais barata. O
'outsourcing' é a substituição do trabalho interno pelo
trabalho estrangeiro. Reduz a necessidade do trabalho doméstico e leva
ao rebaixamento dos rendimentos.
A Grande Depressão teve um efeito terrível sobre a credibilidade
dos economistas, que não conseguiram ver que a Reserva Federal tinha
encolhido em um terço a oferta de moeda. O 'outsourcing' da economia
americana terá um efeito ainda maior sobre a reputação dos
economistas. Quando a economia for entregue a terceiros, a América
passa a ser um país do terceiro mundo.
21/Mar/05
[1]
Sistema usado pelas empresas para transferir a terceiros parte das suas
actividades, visando diminuir custos e aumentar a rentabilidade.
[*]
Ex-secretário adjunto do Tesouro na administração
Reagan. Foi editor associado da página editorial do
Wall Street Journal
e editor colaborador na
National Review.
É co-autor do livro
The Tyranny of Good Intentions.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/roberts03212005.html
.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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